| Geisel fez cerco
à imprensa nanica
Por Wilson Tosta, de O Estado de S. Paulo
Papéis mostram que presidente autorizou ministro
da Justiça
a promover ação fiscal contra jornais alternativos
Uma operação secreta de uso da Receita Federal para
exterminar a imprensa alternativa foi desencadeada entre 1976 e
1978 pelo governo Ernesto Geisel (1974-1979), mostram documentos
sigilosos da extinta Divisão de Segurança e Informações
do Ministério da Justiça (DSI-MJ) obtidos pelo Estado.
Embora notabilizado pela suspensão da censura a jornais,
pelo fim da tortura de presos políticos e pela distensão
"lenta, segura e gradual", o general, penúltimo
ditador do ciclo militar de 1964, autorizou a ofensiva contra os
pequenos veículos em despachos com o então ministro
da Justiça, Armando Falcão. O ministro da Fazenda,
Mário Henrique Simonsen, concordou com a ação,
proposta pelo II Exército - hoje Comando Militar do Sudeste,
de São Paulo.
A autorização de Geisel para um ataque fiscal ao
jornal Versus está documentada em ofício
de 1º de setembro de 1978. Nele, o chefe de gabinete do Ministério
da Justiça, Walter Costa Porto, transmite pedido da Polícia
Federal para liberar a ação. A resposta vem manuscrita.
"Confidencial. Conversei, no despacho de hoje, com o Exmo.
Sr Presidente da República, que aprovou a medida", escreve
Falcão. "Prepare-se, assim, o competente expediente
ao Sr. Ministro de Estado da Fazenda. Em 11.9.1978. A. Falcão."
Uma lista com Versus e outras 41 publicações
que deveriam sofrer o mesmo processo da Receita, entre elas O
Pasquim e Movimento, integra o dossiê.
Nos documentos, a operação secreta é tratada
com naturalidade pelos ministros e por integrantes de órgãos
de repressão, em correspondências oficiais de 1976
a 1978. Simonsen, por exemplo, em ofício de 1º de abril
de 1977, solicita que "as indicações das empresas
a serem auditadas sejam acompanhadas de todas as informações
disponíveis no Ministério da Justiça e nos
órgãos integrantes do Sistema Nacional de Informações,
bem como sejam instruídos os órgãos regionais
e sub-regionais do Departamento de Polícia Federal (...)."
E expõe o objetivo: "Subsidiar a aplicação
de providências legais (...) no sentido de promover, se for
o caso, o encerramento de atividades desse tipo de empresa".
Em outro ofício, de 26 de abril de 1978, Costa Porto encaminha
informação do "senhor ministro-chefe do SNI"
- João Figueiredo, posteriormente presidente da República.
Ele reproduz o texto de Figueiredo: "Considerando que a imprensa
nanica continua proliferando, conclui-se que a operação
dos Ministérios da Fazenda e Justiça, visando a retirar
de circulação esses jornais cuja viabilidade econômica
é questionável, está resultando infrutífera".
O mesmo Costa Porto, em documento de 1º de setembro de 1978,
mostra que Geisel acompanhou a operação contra os
alternativos por muito tempo. Ele lembra a Falcão que, em
1º de agosto de 1977, o ministro da Justiça levara o
assunto ao presidente, que "decidira, verbalmente, aguardar".
Humberto Barreto, ex-secretário de Imprensa do presidente,
nega ter sabido dela. "Por mim, não passou", diz.
O ex-senador e ex-ministro Jarbas Passarinho também diz desconhecer
a articulação. "O que eu ouvia dos líderes
do presidente é que ele tinha aberto a liberdade de imprensa,
exceto para a imprensa nanica", explica. "Ela era muito
violenta." Falcão foi procurado, por intermédio
de familiares, mas não deu entrevista. Em seu livro Tudo
a Declarar, não menciona o ataque fiscal, mas reconhece
que centralizou a censura. Geisel morreu em 1996, e Simonsen, em
1997.
Articulação
O processo "de caráter sigiloso" foi iniciado
no Ministério da Justiça pelo Ofício 341/Sec/Gab,
de 9 de setembro de 1976. No texto, o diretor-geral da PF, Moacyr
Coelho, envia a Falcão documentação do II Exército
"contendo sugestão de emprego dos órgãos
fazendários, dentro da área de esfera de suas atribuições,
na fiscalização de publicação de influência
ou orientação esquerdista".
A Informação número 1.343/76-CB, de 23 de
agosto de 1976, da 2ª Seção do Comando da Força
em São Paulo, alertava que a ação policial
da censura vinha criando uma série de incidentes que desgastavam
o governo e serviam de "bandeira para as esquerdas mobilizarem
a classe jornalística". Acrescenta, ainda, ser "mais
eficaz a censura fiscal", que poderia determinar "o fechamento
de tais publicações pela atividade de fiscalização".
Simonsen endossou operação
Por Wilson Tosta
Ofício mostra apoio do então ministro da
Fazenda
Em ofício de 1º de abril de 1977, o então ministro
da Fazenda, Mário Henrique Simonsen, afirmou que a ação
fiscal contra jornais de oposição sugerida pelo II
Exército poderia ser uma "providência auxiliar
às medidas de preservação da Segurança
Nacional" - termo da época para designar iniciativas
de repressão. No texto, o economista reconhece explicitamente
qual seria o objetivo: fechar, pela fiscalização do
recolhimento de impostos, os jornais alternativos.
"Creio que, através de auditoria contábil-fiscal
nas empresas referidas e, quando necessário, nas pessoas
físicas de sócios e diretores (...) poderá
ser possível a obtenção de evidências
ou provas documentais suficientes não só para a instauração
(...) de processo judicial por crime contra a Fazenda Nacional,
mas, também, para subsidiar a aplicação de
providências legais (...) no sentido de promover, se for o
caso, o encerramento das atividades desse tipo de empresa",
escreve Simonsen.
Roteiro
Foi o comando do II Exército, contudo, que traçou
o roteiro a ser seguido pela Receita Federal e outros órgãos
fiscais no ataque fiscal à imprensa alternativa, no documento
"Imprensa ?Independente?", assinado por Francisco Guimarães
do Nascimento.
Depois de afirmar que as publicações alternativas
eram "inviáveis economicamente", o autor lista
o que deveria ser apurado por "fiscais da União, dos
Estados e dos Municípios" sobre a imprensa alternativa.
"1-Qual o Capital? 2-Qual a forma da sociedade? 3-Quais os
acionistas? 3-1 -O imposto de renda destes comporta a condição
de acionista, isto é, apresentam saldo a empregar? 3-2-Conta
de lucros e perdas? 3-3 - Distribuição de dividendos?
3-4-Se houve prejuízo, como foi coberto, por quem e por quê?
4- Qual o corpo redatorial? (...)"
"A censura saiu dos grandes veículos no começo
de 75, mas de Movimento, O São Paulo e Tribuna
da Imprensa só saiu em junho de 1978", diz o jornalista
Raimundo Rodrigues Pereira, ex-diretor de Movimento. "Acho
que, como suspenderam a censura, resolveram atacar pelo outro lado."
Francisco Marsiglia, ex-diretor-administrativo do jornal, diz que,
no início da publicação, em 1975, as ações
fiscais eram normais, mas, no fim dos anos 70, a situação
mudou, com ofensivas agressivas dos auditores. "Houve mesmo",
diz. "Eu acompanhei de fora, porque já estava apenas
como assessor, não era mais diretor. Os fiscais ameaçavam
fechar o jornal."
O semanário, porém, morreu no início dos 80,
alvo, como Versus e outros, de campanha terrorista e vítima
das mudanças do País.
(Fonte: O Estado de S. Paulo, 4/5/09)
Documento indica pressão
do governo Geisel sobre jornal
AE - Agencia Estado
Receita Federal, Previdência Social, Ministério do
Trabalho. As pressões contra o jornal "Versus"
explodiram no fim de 1978, após autorização
do presidente Ernesto Geisel para a devassa fiscal na publicação.
O aval está registrado em documentos, obtidos pelo Estado,
da extinta Divisão de Segurança e Informações
do Ministério da Justiça. Ex-editor do "Versus",
o jornalista Omar L. de Barros Filho conta que, na ocasião,
foi chamado a depor na Polícia Federal em São Paulo.
Os policiais queriam saber de onde vinha o dinheiro que sustentava
o mensário. Logo depois, recebemos uma informação
privilegiada avisando que estava sendo preparada uma devassa nas
nossas contas, conta Barros Filho.
A perseguição atingiu também fornecedores
do "Versus" que, segundo o jornalista, passaram a ser
ameaçados com devassas fiscais. Vendedores de papel apertaram
as exigências. Gráficas recusaram-se a imprimir a publicação.
?Trocamos de oficina umas cinco vezes?, relata. ?Fomos da capital
para o interior, dizendo que ''Versus'' era um jornal voltado para
o turismo na América Latina.? O processo gerou episódios
cômicos, como quando a publicação foi impressa
na empresa de um militar, que só tardiamente soube que produzira
uma publicação de esquerda, com direito a Cuba na
capa, em plena ditadura brasileira.
Os problemas se agravaram depois que integrantes de uma autodenominada
Organização Nacionalista Estudantil, na ausência
dos funcionários, invadiram a redação, quebraram
tudo, picharam as paredes com ameaças e furtaram todos os
livros contábeis. ?A coisa ficou difícil, não
tínhamos como comprovar nada.? "Versus" surgiu
em 1975 e fechou as portas em 1980. De dezembro de 1976 a janeiro
de 1977, sob o bipartidarismo Arena-MDB, defendeu a criação
de um partido dos trabalhadores, socialista, o que, diz o ex-editor,
enfureceu a ditadura.
Simonsen autorizou ação
contra imprensa, mostra ofício
AE – Agencia Estado
RIO - Em ofício de 1º de abril de 1977, o então
ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen, afirmou que
uma ação fiscal contra jornais de oposição
sugerida pelo II Exército poderia ser uma “providência
auxiliar às medidas de preservação da Segurança
Nacional” - termo da época para designar iniciativas
de repressão. No texto, o economista reconhece explicitamente
qual seria o objetivo: fechar, pela fiscalização do
recolhimento de impostos, os jornais alternativos.
Creio que, através de auditoria contábil-fiscal nas
empresas referidas e, quando necessário, nas pessoas físicas
de sócios e diretores (...) poderá ser possível
a obtenção de evidências ou provas documentais
suficientes não só para a instauração
(...) de processo judicial por crime contra a Fazenda Nacional,
mas, também, para subsidiar a aplicação de
providências legais (...) no sentido de promover, se for o
caso, o encerramento das atividades desse tipo de empresa?, escreve
Simonsen.
Uma operação secreta de uso da Receita Federal para
exterminar a imprensa alternativa foi desencadeada entre 1976 e
1978 pelo governo Ernesto Geisel (1974-1979), mostram documentos
sigilosos da extinta Divisão de Segurança e Informações
do Ministério da Justiça (DSI-MJ) obtidos pelo Estado.
Embora notabilizado pela suspensão da censura a jornais,
pelo fim da tortura de presos políticos e pela distensão
?lenta, segura e gradual?, o general, penúltimo ditador do
ciclo militar de 1964, autorizou a ofensiva contra os pequenos veículos
em despachos com o então ministro da Justiça, Armando
Falcão.
Imprensa alternativa
reuniu opositores à ditadura
AE - Agencia Estado
RIO - Subproduto inesperado do golpe militar de 1964, a imprensa
alternativa abrigou, durante pelo menos 20 anos, profissionais e
assuntos banidos dos grandes veículos de comunicação
por força da ditadura. Foi um dos núcleos aglutinadores
da oposição ao autoritarismo, tendo lançado,
de 1964 até o fim dos anos 70, cerca de 160 títulos
no País, segundo o jornalista e professor Bernardo Kucinski,
estudioso do assunto.
“Houve de fato perseguição fiscal aos jornais
alternativos, embora eu não saiba localizar como e quando,
porque nunca me detive nesse aspecto”, diz Kucinski. Considera-se
que a origem da imprensa alternativa no País foi o lançamento
do jornal "Pif-Paf", de Millôr Fernandes, em 1964.
Seu maior fenômeno foi "O Pasquim", semanário
carioca lançado em 1969.
Uma operação secreta de uso da Receita Federal para
exterminar a imprensa alternativa foi desencadeada entre 1976 e
1978 pelo governo Ernesto Geisel (1974-1979), mostram documentos
sigilosos da extinta Divisão de Segurança e Informações
do Ministério da Justiça (DSI-MJ) obtidos pelo Estado.
Embora notabilizado pela suspensão da censura a jornais,
pelo fim da tortura de presos políticos e pela distensão
“lenta, segura e gradual”, o general, penúltimo
ditador do ciclo militar de 1964, autorizou a ofensiva contra os
pequenos veículos em despachos com o então ministro
da Justiça, Armando Falcão.
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