| De Versus a Versus
Por Ana Cristina C. Machado
Rio de Janeiro – Publicado entre 1975 e 1979, Versus
fazia parte daqueles que passaram à História com o
rótulo genérico de “imprensa alternativa”
ou “nanica”, caracterizada, em sua absoluta diversidade,
como os veículos de oposição frontal ao regime
militar instaurado em 1964. Foram cerca de 150 títulos (isso
mesmo: 150 jornais) entre 1964 e 1985, segundo o jornalista e pesquisador
da USP Bernardo Kucinski, autor de Jornalistas e revolucionários
nos tempos da imprensa alternativa (São Paulo, Página
Aberta, 1991), obra de referência sobre o tema.
Os nanicos eram, para os setores mais conscientes e inconformados
da sociedade amordaçada, a única alternativa de informação
independente e debate político, cultural, comportamental.
Eram de uma heterogeneidade só: havia desde o impagável
e duradouro Pasquim, até títulos que tiveram
uma ou duas edições; havia os “nacionais”
(ou do eixo Rio-São Paulo), como Opinião, Movimento,
EX, Versus, até os regionais como o gaúcho Coojornal,
o mineiro De Fato, o baiano Boca do Inferno, o
paraense Resistência; havia os de temática
mais geral, e os então chocantes Lampião da Esquina,
Brasil Mulher, Mulherio e Nós Mulheres, que impuseram
à esquerda e aos setores democráticos o debate sobre
a sexualidade e as opressões.
Mas eram todos mesmo nanicos – termo que surgiu como xingamento
dos detratores mas que foi assumido com carinho pelos fazedores
de jornais –, porque eram todos pequenos, de circulação
restrita, finanças à míngua e avessos ao lucro.
De alguma forma militantes. Versus foi tudo isso: nanico,
alternativo, independente, militante. Mas diferente da grande maioria.
“Era desordenado, indisciplinado, inventivo”, relembra
o jornalista e cineasta Omar de Barros Filho, o editor que mais
tempo esteve à frente de Versus. Nascido da criatividade
e disposição incansáveis do repórter
e editor gaúcho Marcos Faerman (1944-1999), o Marcão
(que havia passado pela Zero Hora, pelo Jornal da Tarde,
de São Paulo, e saía do EX, outro nanico histórico),
Versus não tinha nada de nacionalista nem convencional na
forma, como a maioria dos jornais exclusivamente político-ideológicos
do período.
New journalism latino-americano
O projeto de Versus teve a ousadia de beber de duas fontes
díspares e conciliá-las. De um lado, o new journalism
norte-americano, aquele da New Yorker, com que Capote,
Hershman e Gould transformaram a narrativa factual em literatura.
De outro, mais próximo, a experiência da revista cultural
argentina Crisis, que, de 1973 a 1976, reunia em sua redação
intelectuais do porte do romancista Ernesto Sábato, do poeta
Juan Gelman e do escritor uruguaio Eduardo Galeano.
Faerman entrevistou Galeano para o EX e encantou-se pela
experiência de Crisis. “A influência
de Galeano e equipe em nosso fazer jornalístico e político”,
conta Barros Filho, “foi além do programa inicial,
que enunciávamos como ‘cultura como forma de ação’,
e que mais tarde desbordou na luta aberta pela formação
de um novo partido dos trabalhadores, de caráter socialista”.
(Depois de fechada a Crisis, com o golpe de 1976, Galeano,
exilado, passou a colaborar com Versus.)
O resultado foi não apenas uma revista político-literária-cultural
a la Crisis, com a introdução inédita,
numa esquerda brasileira então majoritariamente moldada pelo
nacionalismo stalinista, desinformada sobre a América hispânica,
avessa às demandas étnicas, raciais e de gênero,
das temáticas sobre os negros, índios, regionais,
latino-americanas, que até então não existiam
nas preocupações e muito menos no programa das organizações
clandestinas. “Conhecer a realidade repressiva latino-americana
foi um choque em nosso espírito provinciano, em geral muito
mais acostumado e sensível aos assuntos e debates da moda
em Paris ou Nova York”, lembra Barros Filho. “Versus
trabalhava sobre os mitos, a história, as culturas do continente
com emoção.”
O impacto das novidades estéticas e temáticas de Versus
foi enorme. Lançado poucos dias depois de anunciada a morte
de Vladimir Herzog nas mãos da repressão (um marco
na história das lutas por liberdades democráticas
e, por consequência, da história da imprensa alternativa),
o jornal começou a ser distribuído de mão em
mão pelos colaboradores, com 12 mil exemplares de tiragem,
para chegar em pouco tempo a cerca de 30 mil jornais vendidos.
Para o êxito, além dos atrativos do jornal, contribuiu
decisivamente outra “sacação” de Faerman:
buscar vincular-se à intelectualidade e aos estudantes de
uma Universidade então altamente cerceada. “O diálogo
com setores engajados da Academia trouxe à redação
Fernando Henrique Cardoso, o grande tradutor de russo Boris Schneiderman,
Modesto Carone, Octavio Ianni, Francisco Weffort, Gabriel Cohn e
tantos outros”, relata Barros Filho. “Também
os estudantes ficaram mais próximos de nós, à
medida que Versus politizou ainda mais seu discurso e passou
a debater os rumos da Universidade e do Brasil, na batalha da democracia.”
Reler as páginas de Versus, ao contrário
do que possa parecer às novas e não tão novas
gerações, não é um exercício
de saudosismo. O que se encontra no primeiro volume da antologia
organizada por Barros Filho (que prepara mais dois), bem como no
sítio do jornal, é muito mais que material para historiadores
e comunicólogos. Entrevistas com Michel Foucault, Jack London,
Glauber Rocha, João Saldanha, Paulo Freire (então
na Guiné-Bissau), Chico Buarque, Gianfrancesco Guarnieri,
Mário Schenberg são ricas viagens pelo pensamento
e personalidade de criadores, pensadores, cientistas cujas obras
mantêm a ressonância.
Ousadia editorial
Artigos assinados guardam seu sabor de inusitado depois
de três décadas: o crítico de arte Mário
Pedrosa, o internacionalista refinado, declarava em 1976, em Paris,
suas saudades de casa (“Discurso aos tupiniquins ou nambás...”).
O teatrólogo Augusto Boal descrevia peripécias pela
Itália (“Na terra de Pirandello”), enquanto Galeano
relatava aos leitores de Versus uma viagem ao “princípio
de Cuba” (“Gran tierra”). Plínio Marcos,
o dramaturgo maldito, e Lívio Xavier, o trotskista, registraram
seus próprios perfis.
As reportagens não eram menos inéditas e impactantes:
Faerman foi autor da capa “Segredos atômicos do Brasil”
(sobre o acordo Brasil-Alemanha). Caco Barcellos já revelava
a vocação para viver perigosamente, na reportagem
sobre a violência cotidiana no sertão nordestino. Carlos
Rangel relatou os bastidores da invasão da República
Dominicana pelos Estados Unidos. Luiz Egypto, outra alma de Versus,
foi à Amazônia ao encontro dos sobreviventes do ciclo
da borracha.
A ousadia na luta contra as ditaduras no continente foi marca de
Versus, que publicou a carta-denúncia sobre prisões,
sequestros e desaparecimentos em seu país do escritor e repórter
argentino Rodolfo Walsh – que viria a ser o último
escrito de Walsh antes de seu próprio sequestro e morte.
Em julho de 78, a edição 23 de Versus publicava uma
carta de um preso político brasileiro, o socialista Amadeu
de Almeida Rocha, ao General Ernesto Geisel (“Carta aberta
de um torturado ao general”) artigo que valeu ao jornal o
Prêmio Vladimir Herzog. Em dezembro do mesmo ano, o repórter
Renan Antunes de Oliveira (Prêmio Esso de jornalismo em 2005)
relatava aos leitores brasileiros o caso da brasileira Flávia
Schilling, presa política no Uruguai. Em abril de 1979, foi
a vez de Hélio Goldsztejn: o repórter ouviu o ditador
nicaraguense Anastasio Somoza, acuado em seu bunker pouco antes
do fim. A entrevista acabou reproduzida no New York Times.
No terreno da luta política, da reorganização
dos movimentos e dos partidos então clandestinos, Versus
não fez por menos: abriu páginas para intelectuais,
estudantes, para o debate sobre a democratização das
instituições de ensino, para o nascente e já
poderoso movimento operário do ABC paulista, chamou a construção
de um partido socialista e pouco tempo depois, sob forte impacto
das greves operárias, foi porta-voz de um chamado então
ainda frágil pela construção de “um partido
dos trabalhadores”. Em junho de 1979, bem a seu estilo, Versus
publica uma entrevista-ficção com Friedrich Engels,
de autoria de Enio Bucchioni, sobre a necessidade de os trabalhadores
se organizarem politicamente de forma independente (“Aliás,
Engels”).
Muito se debateu, brigou e rompeu por conta do final de Versus,
em fins de 1979. Há até hoje quem diga, como o pesquisador
Kucinski, que a então Convergência Socialista (organização
trotskista da qual derivaram o PSTU e parte do PSOL) “tomou”
Versus para acabar com ele. “Essa tese não tem nada
a ver com nada”, rebate o professor Enio Bucchioni, colaborador
e editor do jornal em seu último ano e meio e então
dirigente da Convergência. “Podemos ter cometido erros,
mas teria sido estúpido querer acabar com o patrimônio
que era Versus.”
Segundo Bucchioni, com a abertura política, todos os jornais
alternativos passaram a fazer mais ênfase na política
e acabaram se “partidarizando”. “Foi assim com
o Movimento e o PCdoB, com o Em Tempo e a Democracia
Socialista. Além disso, a grande imprensa, sob vigilância
menor, passou a pautar temas e publicar assuntos antes só
tratados pelos nanicos. “Foi o destino de todos nós”.
25/4/2009
Fonte:ViaPolítica/Versus Online da UFRJ/A autora
http://www.versus.ufrj.br/index.htm
URL: http://www.versus.ufrj.br/vs_n1/vsn1_doispontos_ver_ver.html
Link relacionado: www.versus.jor.br
Ana Cristina C. Machado é jornalista e servidora
federal. Foi, depois de revisora de Versus quando estudante, repórter
e editora-assistente em O Dia, Jornal do Brasil, O Globo e Valor
Econômico.
Saiba mais:
Versus é uma publicação
do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas
da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Plural e interdisciplinar,
a publicação, na versão impressa e online,
tem o objetivo de reunir o pensamento crítico das diversas
áreas do conhecimento voltadas para os problemas sociais,
econômicos, políticos e culturais da sociedade contemporânea.
VERSUS nasceu com o propósito de se constituir num polo aglutinador
do esforço intelectual para entender o Brasil e a realidade
internacional, a partir de múltiplos olhares. O nº Zero
da revista foi lançado em dezembro de 2008 e tem como assunto
principal a crise econômica mundial.
Equipe: Alcino Ferreira Camara Neto (editor);
Luiz Carlos Maranhão (editor-executivo); Elisa Monteiro (produção
e reportagem); Gilson Castro (projeto gráfico e webdesign);
Márcia Rocha de Aquino (secretaria); Ana Cristina Carvalhaes
(tradução); Roberto Azul (revisão)
Conselho Editorial: Abílio Pereira de Lucena,
Alcino Ferreira Camara Neto, Aloísio Teixeira, Ana Célia
Castro, Ana Clara Torres de Ribeiro, Carlos Aguiar de Medeiros,
Carlos Esteban, Carlos F.T.M.R de Lessa, Carmem Feijó, Francisco
Amaral, José Antonio Ortega, José Luis Fiori, Matias
Vernengo, Nilo Batista, Rafhaeli Di Giogi, Rosélia Piquet
Carneiro, Thomas Palley
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