Páginas da Utopia


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Versus - Páginas da Utopia

Livro Completo



São Paulo, 12 de maio de 1979 • A sede de Versus, foi invadida por um grupo paramilitar de direita. Na ocasião, os documentos da contabilidade foram roubados e a redação depredada. As marcas da ação clandestina e violenta ficaram nas paredes.

Colaboradores

Abdias do Nascimento • Abrão Slavutski • Adelto Gonçalves • Aguinaldo Silva • Alberto Frederico Beuten-Muller • Alberto Villas • Alcides Ferreira Junior • Alcy • Alfredo Bosi • Amauri Galdino • Ana Cristina Machado • Ana Dora • Ana Lúcia de Oliveira • Ana Maria de Cerqueira Leite • Ana Maria Sampaio • André Bocatto • Angel Barbados • Ângela Pralon • Angeli • Antônio Carlos Moura • Antônio Carlos Pavão • Antônio Carlos R. Pereira • Antônio F. Nunes • Antônio Moreira • Antônio Risério • Antônio Tadeu Afonso • Antônio Torres • Arnaldo Jabor • Arnaldo Schreiner • Astrogildo Esteves Filho • Augusto Boal • Avani Stein • Beatriz Cleto • Beto Chispa • Boris Schneiderman • Brasinha Calderazo • Bruno Liberati • Caco Barcellos • Caco Caetano • Capinam • Carlos Alberto da Silva • Carlos Alberto Dória • Carlos Alberto Kolecza • Carlos Alberto Medeiros • Carlos Augusto Cruz • Carlos Clémen • Carlos Cordeiro • Carlos Guilherme Motta • Carlos Lagante • Carlos Matuck • Carlos Nejar • Carlos Queiroz Telles • Carlos Rangel • Carlos Santana • Carlos Tibúrcio • Cecília Flosi • Cecília Thompson • Cecília Tolentino • Celso Luís Paulini • Celso Marinho • Celso Prudente • César Augusto de Carvalho • Chaim Samuel Katz • Chico Caruso • Chico de Oliveira • Cíntia Almeida Prado • Cláudia Celidônio • Cláudio Bojunga • Claudio Feldman • Claudius • Cleber Cajazeira • Clóvis Antônio Garcia • Clóvis Moura • Coentro • Conceição Cahú • Consuelo de Castro • Cordélia Maria Cardoso • Cremilda Medina • Cristina Daniel • Cristina Ribeiro • Cyro Martins • Daniel dos Santos • Daniel Herz • Daniel Matenho Cabixi • Danilo Ucha • David Batista dos Santos • Denise Vecchio • Dércio Marques • Diana Bellessi • Domingos Pellegrini Jr. • Duque Estrada • Durval Campos Guimarães • E. Santiago • Edgar de Souza • Edgar Vasques • Edinilton Lampião • Edson da Silva Coelho •Edson Moreira • Edson Novais • Eduardo Galeano • Eduardo Neto • Eduardo Scaletski • Eliana Haberli • Eliana Soares • Elifas Andreato •Elizabeth Marie • Emiliano Magro • Ênio Buccioni • Enio Squeff • Eric Nepomuceno • Ernest Harsch • Ethel Kawa • Eugênio Bressani • Evaldo Diniz • Evandro Salles • Federico Pagani • Felício Filho • Fernando Henrique Cardoso • Fernando Kolleritz • Fernando Morais • Fernando Peixoto • Fernando Peregrino • Fernando Rodrigues • Fernando Uchoa • Flamínio Araripe • Florestan Fernandes • Francisco Assis • Francisco de Oliveira • Francisco Julião • Francisco Weffort • Frederico de Araújo • Frei Betto • Gabriel Borba • Gabriel Cohn • Gabriel Romeiro • Galeno de Freitas • Galo Khalifé • George Abner • Geraldo Guimarães • Gerson Schirmer • Gianfrancesco Guarnieri • Gilberto Morimitsu • Gilberto Rocha • Gláucia da Motta Machado • Gleise M. de Castro • Glen Martins • Glênio Peres • Guidacci • Guilherme Calderazo • Gustavo Falcón • Halley Júnior • Hamilton Bernardes Cardoso • Hamlet Paoletti • Hélio Goldsztejn • Hélio Santos • Henfil • Henrique Faerman • Hermilo Borba Filho • Hilda Machado • Hindemburg Hiro • Ignácio de Loyola Brandão • Isabel V. Rodrigues • Ítalo Moriconi Jr. • Ivan Bustamante • Ivan Maurício • Ivone Couto • J. C. Gonzáles • J. P. Guimarães • Jacob Klintowitz • Jaime Benchimol • Jamu Minca • Jayme Leão • Jean-Claude Bernardet • Jefferson Rios • Jessie June • Jô Oliveira • João Adão de Oliveira • João Antônio • João Batista Jorge • João Costa Filho • João das Neves • João Farkas • João Silvério Trevisan • João Zero • Joca Pereira • Jorge Escosteguy • Jorge Patrício • Jorge Pinheiro • José Adão de Oliveira • José Álvaro Moisés • José Andrade • José Antônio Simch • José Augusto Guilhon de Albuquerque • José Carlos de Andrade • José Eduardo de Faro Freire • José Eduardo Mendonça • José Eurides Queiroz • José Miguel Wisnik • José Montserrat Filho • José Onofre • José Resende • José Ruperto Martínez • Jota • Juan Sanz Hernandez • Juca Martins • Júlio César Tavares • Júlio Prado • Júlio Tavares • Justino Lemos Pinheiro • Laércio Araújo • Laerte Alberto Júnior • Laurita Salles • Lauro Augusto • Léa Langone • Leda Beck Leib • Lélia Gonzales • Leonid Streliaev • Letânia Menezes • Levi Mendes Junior • Licínio Azevedo • Lisete Catarina Piccoli • Lúcia Pereira • Luciano Ornelas • Lúcio Flávio Pinto • Lúcio Yutaka Kume • Luis Eduardo Greenhalgh • Luis Fernando Ramos • Luis Leiria • Luis Paulo Pilla Vares • Luiz Antônio da Motta Britto • Luiz Carlos Ramos • Luiz Egypto • Luiz Fernando Emediato • Luiz Figueira • Luiz Gê • Luiz Peregrino • Luiz Rogério Fabrino • Luiz Rosemberg Filho • Luscar • Macedo • Magliani • Magnani • Malu Maranhão • Marcel Faerman • Marcelo Girard • Márcia Almeida • Márcia Ramos de Souza • Márcio Moreira Alves • Márcio de Souza • Marco Antônio de Morais • Marco Antônio Montandon • Marcos Faerman • Marcos Gonçalves • Marcos Magaldi • Marcos Magalhães • Marcotin • Maria Cecília Garcia • Maria da Paz Rodrigues • Maria das Graças Ferreira • Maria das Graças Pereira • Maria Dulce Pinheiro • Maria Ester Gillio • Maria Helena Cardoso • Maria Helena Limeira Tejo • Maria José Lourenço • Maria José Marcondes • Maria Rosa • Mariângela Quintella • Marilena Faerman Vieira • Marilsa Taffarel • Marinilda de Marcchi • Mário Augusto Jacobskind • Mário Merlino • Mário Pedrosa • Mário Rego • Marisa Correia • Marisilda Silva • Mark Elliot • Marlene Crespo • Marta D’Angelo • Maru Girardi • Massao Hotoshi • Matilde Araki • Maura Veiga • Maurício Kubrusly • Maurílio Ferreira Lima • Mauro Almeida • Mensah Gamba • Miguel Rio Branco • Moacir Amâncio • Moacy Cirne • Moacyr de Oliveira Filho • Moacyr Scliar • Modesto Carone • Moisés Rabinovici • Moshe Kawa • Mouzar Benedito da Silva • Murilo de Carvalho • Nagib Jorge Neto • Nair Benedito • Nei Duclós • Nélida Pinõn • Neusa Maria Pereira • Nilza Prata Belini • Niva Prado • Noemi Ribeiro • Octávio Ianni • Oliveira Silveira • Omar L. de Barros Filho • Orlando Miranda • Osmar Freitas Jr. • Oswaldo Camargo • Otoniel Santos Pereira • Paulo Barros • Paulo Caruso • Paulo de Tarso Riccordi • Paulo de Tarso Venceslau • Paulo Evaristo Arns • Paulo Gil Soares • Paulo Krischke • Paulo Matiussi • Paulo Ramos • Paulo Santilli • Paulo Schilling • Pedrinho Milliet • Pedro Porfírio • Percival de Souza • Percy Galimberti • Plínio Dentzein • Plínio Marcos • Rubens Matuck • Rafael Pinto • Raquel Moreno • Raul Moura • Raymundo Carneiro • Regina Leopassi • Regina Schneiderman • Reinaldo Cabral • Renan Antunes de Oliveira • Renata Pallottini • Renata Villas-Boas • Renato Andrade • Renato Codeço • Renato Lemos • Renato Pinto • Renato Silveira • Ricardo Alves • Ricardo Ferreira • Ricardo G. 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O Versus nosso de
cada dia nos dai hoje


Versus renasce em antologia para revelar como se fazia jornalismo de resistência na década de 70, com um olhar alternativo sobre a cultura,
a política e a história do país e do continente.

Por Omar L. de Barros Filho

O projeto que deu origem a esta antologia começou a nascer no final dos anos 90, quando conheci um assinante de Versus na fronteira do Brasil com a Bolívia, às margens do rio Guaporé, em Rondônia, onde vivi em uma fazenda isolada do mundo das notícias por muitos anos. Ele fazia parte de um grupo de consultores do Banco Mundial que percorria a área em busca de padrões de sustentabilidade para as atividades econômicas da região.

Ao me apresentar como jornalista e comentar que tinha sido editor de Versus nos anos 70, ele disse: “Li e colecionei Versus por muito tempo. Foi, na época, o jornal que mais ajudou em minha formação política e me fez ver a América Latina de forma diferente.” Depois que nos despedimos, pensei se seria possível sintetizar em uma nova publicação o resultado da atividade frenética e da inquietação cultural que sempre marcaram a redação de Versus, em São Paulo. Versus foi uma experiência única de jornalismo alternativo, que surgiu da mente inventiva de Marcos Faerman, o Marcão, para quem teve a felicidade de conhecê-lo e aprender com ele, um dos mais brilhantes repórteres e editores brasileiros de todos os tempos.

Faerman costumava dizer que Versus nascera sob o signo da tristeza provocada pela morte do jornalista Vladimir Herzog nos porões da ditadura, fato que horrorizou o país em outubro de 1975. O drama de Herzog na prisão coincidiu com a impressão da primeira edição do jornal, em torno de 12 mil exemplares, formato tablóide, 52 páginas. Distribuído precariamente de mão em mão, em bancas de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e outras poucas cidades, e financiado, em parte, por um salário anual extra de Faerman, Versus calou fundo na sensibilidade dos leitores, e iria mais longe do que o esperado.

Aos poucos, o grupo inicial de colaboradores ampliou-se, com a adesão voluntária de jornalistas, escritores, poetas, professores, cineastas, sociólogos, ilustradores, chargistas, além dos próprios leitores, que enviavam suas colaborações do Brasil e do exterior. Na redação, costumávamos dizer que o carteiro era nosso melhor repórter, porque trazia as matérias de que necessitávamos para fechar cada edição, e que completavam a pauta dia-a-dia. Foi um mutante que por um bom tempo praticou severa autocensura para sobreviver. Sempre carente de recursos, ainda assim resistiu durante quatro anos às pressões e limites estreitos estabelecidos pelo regime militar.

Versus foi também porto seguro para “desgarrados” latino-americanos e brasileiros, refugiados políticos, e outros discriminados pela sorte. Hoje, pode-se dizer, sem medo de exagerar, que a redação era uma espécie de “Cruz Vermelha”. Recebia não só fugitivos estrangeiros em busca de asilo, trabalho e documentos, como dava guarida a qualquer brasileiro com talento atrás de um espaço em uma folha de jornal para registrar suas idéias, crenças ou experiências. Muitos iniciaram em Versus o ofício de escrever, reportar ou desenhar. Era uma casa caótica e de poucas regras, mas sempre aberta, onde se respirava o jornalismo em sua verdadeira essência quase artesanal.
Logo, o projeto de construção de Versus não estava imune às influências externas. À medida que a distribuição nacional se consolidou, a vendagem em bancas cresceu, e a tiragem se multiplicou até atingir 30 mil exemplares, a influência cultural e política de Versus passou a ser muito maior do que imaginávamos ou pretendíamos no início. Nosso programa, até então, resumia-se a uma expressão-síntese sobre a qual trabalhávamos arduamente: “a cultura como forma de ação”.

Entretanto, turbulências no cenário internacional, com os Estados Unidos passando a retirar seu apoio às ditaduras, e no plano nacional, com a entrada em cena do movimento estudantil, provocaram mudanças em nossa linha editorial. Também as diferentes posições políticas existentes na redação passaram a se manifestar, algo natural em um jornal alternativo, em que muitos editores e colaboradores militavam em organizações clandestinas, na oposição institucional, ou mesmo simpatizavam com tendências estudantis nas universidades. A erupção do movimento operário no ABC paulista, as greves dos metalúrgicos e, depois, nos sindicatos de classe média, alteraram em definitivo o rumo de Versus.

O leitor desta obra perceberá as transformações decorrentes da politização da redação, que, passo a passo, abandonou o discurso original – literário, poético e épico da história da América Latina – em troca de uma visão mais crua, sociológica e imediata de nossa realidade, não só a brasileira como a do continente. A metáfora literária cedeu lugar à política, e isso se expressava não só nas reportagens, ensaios e entrevistas, mas também no próprio grafismo de Versus, nas charges, nas ilustrações, enfim, na organização editorial em seu conjunto.

Amizades foram perdidas e alianças se romperam no processo. O tempo, como sempre, tratou dos ressentimentos. Não podia ser diferente, mais de trinta anos depois. Independentemente das divergências do passado, que hoje soam pueris, o fim do caminho para Versus foi, em última análise, o mesmo de toda a imprensa alternativa. Os “nanicos”, como éramos chamados pejorativamente, desapareceram um a um no compasso da reconquista democrática, da liberdade de expressão, das crises econômicas, e do curso da monopolização da informação pelos grandes e tradicionais meios. Éramos mais de 100 jornais, li em alguma estatística, mas fazíamos o ruído de mil.

Em algum ponto do caminho, no entanto, deixamos de ser necessários.

Quanto a mim, constatei que, de todos os editores e assistentes que passaram por Versus em seus quatro anos de história, fui o que mais tempo vivenciou a aventura de fazê-lo, de novembro de 1975 a outubro de 1979, desde que deixei Porto Alegre e mudei para São Paulo com o objetivo de doar meu tempo e existência ao jornal. Em dias mais recentes, o fato de deter a memória daquele período fez com que pesquisadores, professores e estudantes passassem a me procurar na web para responder sobre questões envolvendo os caminhos de Versus, o que reforçou a idéia de que era chegada a hora de editar esta antologia.

Enquanto Versus viveu, imprimimos 33 edições normais, três extras de quadrinhos, e outras que fugiam ao calendário, mas eram relacionadas com mobilizações políticas, como as edições especiais voltadas aos aniversários do golpe do Chile e de 1º de maio, no ABC paulista. Além delas, editamos, com êxito, outros nove livros e cadernos. Versus – Páginas da utopia guarda parte de nossa história, assim como a do jornalismo que praticamos. Outras duas antologias virão a seguir.

ArgentinAAA

Em meados de 1974, lentamente, o medo tomou posse dos argentinos. Mas, antes, já havia iniciado sua luta para dominar o corpo e a alma de milhões de pessoas.

Por Tomáz Eloy Martínez • Versus 1• outubro de 1975

Somente quando se vem de longe é que se sabe até que ponto Buenos Aires já não é a mesma de três anos atrás. De início não é fácil explicar as razões: as brumas e o sol apagado de agosto levam a pensar que a tristeza do ar é outro fruto do inverno, e que, portanto, quando as flores voltarem, renascerão, também, os antigos indícios da ventura que brilhava nos balcões de Palermo ou nos tranqüilos domingos da Avenida Forest.

Mas os que conhecem outros invernos infelizes não conseguem descobrir onde pode estar o contraveneno desta sombria estação em que todas as vozes amigas flutuam envoltas em lamento. Não ouvi senão frases abatidas. Ninguém sabe para onde o país irá amanhã, que tábua de salvação agarrar, em que rincão da noite recuperar a fé perdida durante o dia. E o que é mais grave: quase todos querem partir, não em busca de prosperidade, mas de segurança. São como esses pássaros que voam em círculos sobre um mesmo horizonte do mar, com o sentido da orientação perdido e com o instinto preparado para a morte. Porque todo desterro – eles sabem disso – é uma variação da morte, um desgarramento além do qual nenhum homem continua a ser o mesmo. Que ainda assim queiram partir é o pior sinal de perigo que já vislumbrei neste país, cuja grandeza esteve cifrada até não faz muito tempo no trabalho dos seus imigrantes. A utopia dos anos 50 – os milhões de habitantes que deveríamos ter no ano 2000 – já soa a sarcasmo. Agora a meta é reter os 24 milhões que permaneceram.

Este agosto não é totalmente cruel, sem dúvida, pois o terror das sirenes noturnas desapareceu quase por completo da cidade. Disseram-me que as últimas sirenes soaram no dia 19 de julho. Não é tão habitual tropeçar pelas ruas centrais com um desses Ford Falcon, geralmente verdes, que abriam caminho à força de metralhadoras ou golpeando a borracha e as carrocerias dos automóveis distraídos. Contaram-me que não se repetem já histórias como as que vivi no dia 3 de novembro de 1974, na Avenida Santa Fé, entre Canning e Malabia, quando um assassino anônimo, protegido por dois Falcon (de uma cor que jamais pude recordar), apontou sua pistola 45 à inofensiva fronte do meu filho de três anos, pretextando, mais tarde, estar nervoso porque “você passou dos limites”. Dizem-me que tampouco é tão freqüente agora ver (como vi, no mesmo local do incidente anterior, no dia 22 de outubro de 1974), um grupo de assassinos não identificados levando, desta vez em um Peugeot negro, dois rapazes cujos gritos de socorro às vezes ainda me perturbam o sono. Dizem-me que estas histórias se acabaram casualmente no dia 19 de julho de 1975.

Acho que é menor o número de cadáveres que aparecem despedaçados em Ezeiza, em Lomas de Zamora ou nos depósitos de lixo de Riachuelo. Dizem-me que as ameaças de morte foram se tornando mais raras, que os ataques pela televisão contra a imprensa independente não passaram de uma flor suja que durou poucos dias.

Sempre desconfiei do jornalista que abusa da primeira pessoa, porque de modo geral crê que sua aventura privada é mais interessante do que o curso da História. Porém, lembro com desolação que nos últimos tempos acabou sendo cada vez menos sincero contar um fato à distância, porque nós jornalistas perdemos nossa fértil qualidade de testemunhas para nos convertermos em protagonistas de uma opressora odisséia coletiva. Peço-lhes que não me critiquem, então, se nesta história sobre o medo dos argentinos introduzo a narração do meu próprio medo, com o alívio de saber que ao menos esse medo não difere em demasia de outras vicissitudes.

A primeira pessoa do singular é útil quando se perdeu a fé na eficácia das palavras, como acontece com a maioria de nós. Li, nos diários do dia 7 de agosto, por exemplo, que um excelente jurista como o doutor Antonio J. Benítez declarava, na Câmara dos Deputados, que o Governo não pôde determinar ainda “se existe ou não” a organização conhecida como “Triple A” (AAA), apesar dos crimes assinados pelos homens dessa sigla e das admissões da sua existência por outros membros do gabinete, incluindo (no dia 28 de maio), Don José López Rega. Li que o próprio doutor Benítez considera que a faculdade do Poder Executivo de manter uma pessoa na prisão está acima do poder de absolvição dos juízes (com o que se entende cada vez menos a eficácia do regime de três poderes).

Vi também que, para o ministro do Interior, os argentinos que deixaram o país por causa das ameaças anônimas da AAA ou de outras facções extremistas, fizeram-no “por sua conta, e nada aconteceu para quem ficou – disse – estava seguro de que essas ameaças não eram outra coisa além de ameaças”.

Fiz todo o possível para ficar, e estou fazendo todo o possível para voltar, e é por isso que sentiria como cumplicidade o meu silêncio ante as afirmações do doutor Benítez, talvez pronunciadas mais em resposta a certos compromissos políticos da conjuntura atual do que por causa de sua formação jurídica ou de uma integridade política, que ele conservou intacta durante décadas de fácil contaminação.

Quando o ministro do Interior afirma que nada aconteceu para os ameaçados que ficaram, seguramente esquece o deputado Rodolfo Ortega Peña, o advogado Silvio Frondizi, o ex-policial Julio Troxler. Esqueceu o pé inutilizado do senador Hipólito Solari Yrigoyen, a viagem apressada de Raúl Lastiri e Salvador Busacca ao escritório do deputado Héctor Sandler para resgatá-lo dos bandos armados que o aguardavam na rua, com o trânsito impedido. A má memória é uma epidemia freqüente entre os argentinos, porém agora está claro que esta forma de esquecimento unilateral, que reserva a amnésia para certas vítimas, constitui um insulto às demais e até no encobrimento dos outros assassinos: os do diretor de “El Día”, de La Plata, David Kraiselburd, do ex-ministro do Interior, Arturo Mor Roig; do capitão Viola e sua filha; dos policiais e oficiais das Forças Armadas (realizados impunemente). É o esquecimento do que aconteceu ainda ontem, do que está acontecendo hoje.

Conheço exílios forçados que não perturbaram o sossego de determinadas pessoas, senão que modificaram a sorte das empresas a que pertenciam e arriscaram a estabilidade de milhares de trabalhadores. Eu e o presidente da Editorial Abril, por exemplo, Cesar Civita, junto a quem trabalhei durante alguns anos, fomos ameaçados ao mesmo tempo. Segundo a tese do doutor Benítez, as ameaças contra Civita não punham sua vida em perigo. Resta então explicar por que o Governo não o avisou antes da partida, por que não lhe ofereceu proteção equivalente à importância de suas empresas, por que não se comprometeu de modo formal e público a velar por sua vida, evitando, assim, que sua repentina partida contribuísse para a desordem de uma editora onde trabalham mil e quinhentas pessoas. Não seria demais interpelar outra vez o ministro do Interior, passando-lhe estas perguntas que ficaram no tinteiro.

Acredito que foi em meados de setembro, em 1974, quando começaram a me ameaçar por telefone. As primeiras chamadas exigiam que eu deixasse o país em 48 horas; mais tarde houve outras, com prazos generosos. Atribuí aquelas pressões a certos adversários pessoais, a desconhecidos avulsos, desgostosos com alguma frase que eu havia escrito em La Opinión ou pronunciado pela Rádio Del Plata, ou a desesperados que recorriam à ameaça como sistema para conseguir emprego. Não fiquei amedrontado porque os fatos careciam de seriedade. Porém, sempre soube que as campainhadas que sobressaltavam minha casa (e outras também) no meio da noite, eram um sinal inequívoco do pântano nacional, da insegurança fatal em que nós, argentinos, nos movíamos.

Naqueles meses (de setembro até o Natal), a angústia era como uma natureza entre os habitantes de Buenos Aires. Adivinhávamos o esbanjamento de alguns ministérios, recebíamos notícias claras sobre o paradeiro de certos fundos reservados, nos especializávamos em comentar com eufemismos e meias palavras o que tínhamos o dever de explicar em voz alta e com palavras inteiras.

No entardecer do dia 25 de abril, alguns ex-companheiros da revista “Panorama” me chamaram por telefone para contar-me que havia explodido uma bomba “lanzapanfletos” na esquina de Leandro Alem e Paraguay, e que os boletins de guerra assinados pela AAA anunciavam a morte de umas vinte pessoas, caso não abandonassem o país no monótono lapso de 48 horas. Meu nome figurava honrosamente na cabeça da lista.

Serei franco: não tive vontade, nem força, nem coragem para aceitar a ameaça. É preciso estar na pele de um jornalista pobre, que tem uma família numerosa e nenhum bem de fortuna, para saber até que ponto a atmosfera, o idioma e o afeto ao país natal são o outro nome da vida. O diretor de La Opinión me ofereceu refúgio, no qual vivi durante pouco mais de uma semana, até compreender que esse tipo de situação não pode se prolongar indefinidamente e optei (creio que no dia 5 de maio), por retornar à doce superfície, caminhar pela Rua Florida, retomar a rotina diária da redação e almoçar com os amigos nos restaurantes dos bons tempos.

Porém, fui informado de que dois sujeitos haviam interrogado o porteiro da minha casa para reconstituir alguns dos meus movimentos, e que, na garagem da frente, outros haviam identificado com zelo os sinais particulares do meu automóvel. Confesso que essas evoluções me deram medo. Pedi a Jacobo Timermam que me ajudasse a partir. Foi ele quem escolheu o Festival de Cannes como preocupação dos meus próprios dias, e quem se encarregou de que eu chegasse ao aeroporto sem outros sobressaltos que não fossem os da despedida.

Nem o cinema no Mediterrâneo é belo quando alguém não sabe se poderá voltar. Todas as manhãs, o cordão umbilical que nos mantém ligados ao país que amamos canaliza o alimento através dos jornais, das cartas e das mensagens dos amigos. O medo da morte se transfigura ali na certeza de que essa morte pode ter infinitos nomes, e que nada é tão desolador como o Desterro.

As velhas tribos da Mesopotâmia costumavam falar dos demônios em voz alta para afastar o terror. A palavra era o mais eficaz dos exorcismos, e de modo inverso, renunciar à palavra, calar o nome de Deus, era a melhor forma de mostrar temor e amor a Deus.

Assim, esta história sobre o medo tem, sobretudo, o fim de aniquilar o medo, de explicar que nem a resignação ante à desgraça, nem a perda de fé, nem a mansa submissão (até o dia 27 de junho) eram justos ou saudáveis. Não foi proibindo o nome de Perón que os epígonos da Revolução Libertadora suprimiram Perón: pelo contrário, essa proibição foi uma das forças que contribuiu para o seu regresso.

Uma tarde, faz pouco tempo, li, a seis mil quilômetros daqui, uma dessas frases magníficas, que nos ajudam a viver. Havia sido escrita em La Opinión e dizia, acho, que não se negava a liberdade de expressão aos argentinos, que simplesmente deveríamos exercê-la. No entanto, podem ser contados nos dedos da mão os que estão dispostos a correr tal risco.

À grande distância, os únicos pontos de referência sobre o estado de ânimo da Argentina são as páginas das publicações nacionais; e ainda assim, trata-se de revelações incompletas, porque chegam órfãs do complemento dos gestos e, às vezes, chegam tarde, quando estão acontecendo outras histórias.

A cem metros ao norte da casa dos atores, em uma mansão silenciosa que parece de outro século, vive o homem a quem a AAA escolheu, no dia 21 de novembro de 1973, para se apresentar à sociedade argentina. Várias oportunidades da boa sorte permitiram que o senador Hipólito Solari Yrigoyen continue ocupando obstinadamente sua bancada no Congresso, embora o incomodem as cicatrizes da perna esquerda e a memória de uma explosão que deve ter se parecido com o apocalipse, na garagem da Rua Charcas, 1376.

Há quatro meses, outro estampido fez voar sua casa de Puerto Madryn: o senador se preparava para dormir e percebeu ruídos na escada que atribuiu a desordens no encanamento. Apenas apagou a luz, sobreveio o estrondo. Ouviu os passos apressados dos agressores aproximando-se do dormitório. Quis fechar a porta e a descobriu arrombada. Deslizou até o armário para apanhar o revólver e as portas corrediças não funcionaram. Esperou, então, a morte em silêncio, envolto pela fumaça da pólvora, sem que até agora consiga saber ao certo por que não quiseram (ou não puderam) matá-lo.

Menos conhecida é a história sobre o que chegou à sua casa da Avenida Santa Fé, no dia anterior ao atentado. Era um retângulo branco, vulgar e rústico, com o endereço da Casa Radical no verso (Tucumán 1660) e por dentro um papel no qual havia três letras que nada significavam então: AAA. Nos vinte meses que se seguiram, o senador descobriria várias vezes a mesma sigla pintada no muro da casa onde agora, neste agosto solitário, bebe lentamente sua xícara de café. Nesses meses receberia também chamados telefônicos que previam, meia hora antes de partir para Ezeiza, que jamais chegaria ao aeroporto. E não obstante, sustentam que o medo não chegou a retardar nenhum dos seus regressos, nem o fez faltar com a menor das obrigações legislativas: “É que cheguei à vida política com a convicção sincera de que é um apostolado onde os dissabores são sempre mais numerosos do que as carícias”.

Para o senador, Buenos Aires vem sucumbindo à crosta suja do medo há três meses ou um ano; não desde o dia chuvoso em que foi enterrado Juan Perón, senão desde a jornada de vasta crueldade que culminou com cem mortes, a 20 de junho de 1973, nos arredores do aeroporto de Ezeiza. “Não se pode eximir Perón de culpa – explica o senador – porque ele ainda governava quando foi tolerado o golpe do tenente-coronel Navarro contra Córdoba, e à sua inspiração se devem as reformas do Código Penal que acentuaram o caráter repressor do seu regime”.

Quase da mesma maneira que Ernesto Sábato, Solari Yrigoyen mantém intata a fé no povo peronista, no povo, e sabe que a capacidade de luta dos humilhados e dos ofendidos cresce com cada golpe de desilusão. Costumam dizer-lhe – conta – que suas desventuras de senador são voluntárias, que ele mesmo procurou seus ferimentos. Ele responde que sua vocação é a de um homem de Estado, não a de um suicida que sai cada manhã “para dar esbarrões na polícia”.

Mesmo que não fosse – como é – sobrinho neto do legendário Don Hipólito e sobrinho-bisneto de Leandro N. Alem, ele tem a linguagem, o jeito de um radical de nascimento: o que lembra um desses pastores nepaleses que dispõem de só dez palavras para nomear o mundo, porque atrás da palavra Casa estão, em fila, Porta, Cama, Fogo, Homem, Prato, Comida e assim até o infinito, como quando se abre o coração das bonecas russas.

O leitor descobrirá, pois, todas as vozes que existem atrás do que Hipólito Solari Yrigoyen está dizendo agora, nestas seis ou sete frases habitadas pela confiança: “A Argentina abandonará imediatamente sua estrutura senil para aceder a um rejuvenescimento da democracia, com o apoio e a participação do povo. Não é necessário que mais uma geração se sacrifique, depositando suas liberdades e direitos fundamentais no altar de supostos benefícios. O Governo empurrou para o terrorismo e a ilegalidade setores peronistas que se tornaram privados de espaço político. Da mesma maneira, arrastou certas agremiações à rebelião e à clandestinidade. Um exemplo típico é o do Agustín Tosco, que havia sido eleito como secretário-geral de “Luz y Fuerza”, em Córdoba, por uma maioria evidente e a quem despojaram da sua missão, sem lhe dar tempo para se defender.

O medo, assim, não seria o fruto involuntário de um país desaparecido no caos, senão um animal selvagem cuja jaula foi aberta para que engendrasse o caos. Para Hipólito Solari Yrigoyen, a morte do medo só chegará quando já ninguém se oponha ao legítimo direito dos outros, quando todos os nomes (ainda que dos mais abomináveis) possam ser pronunciados em voz alta. Para Luís Brandoni, o fim do medo é outra variante do regresso. Eu supus, talvez confundido, que a voz do medo se parecia com a das sirenes prepotentes e das explosões que interrompiam todas as noites de Buenos Aires, até o dia 19 de julho, casualmente.

Porém, como sucede com todas as pestes, o medo não se foi de um dia para outro. Ainda sobrevive nas conversas dos pequenos burgueses sobre o falso paraíso do exílio, nas infinitas perguntas que ouvi sobre a prosperidade da Venezuela ou da Espanha, nas vigílias de um operário têxtil que acaba de receber seu aviso de dispensa “por motivos de força maior”, e não sabe em que porta bater amanhã para ganhar o alimento dos seus filhos.

O medo ainda está presente na bala que abriu o ventre do sapateiro Roberto Aldo Pérez, no entardecer de 25 de julho, por tentar defender seu pequeno negócio da depredação iniciada em Buenos Aires pelos “Montoneros” na véspera do aniversário de Eva Perón.

Agosto é – já se sabe – o mês mais longo e também o mais cruel. Quando se acabar, dentro de três domingos, nenhum de nós será o mesmo: andaremos, porém, tateando em busca da fé que nos tiraram, da alegria que nos roubaram, da vida que jamais recuperaremos. Talvez o medo prevaleça então no rosto de alguns irmãos. Porém nos restará, como consolo, o país enorme ao qual nenhuma das infinitas corrupções (que no entanto continuam de pé) pode derrubar por completo. Sobre a terra saqueada e desonrada continuará florescendo o trigo e os rebanhos, e haverá argentinos de boa vontade que erguerão outra vez as fábricas dentre as ruínas. Nunca se sabe quando termina uma história. Porém, agora que deixamos para trás tanto desamparo, sabemos ao menos que qualquer tempo futuro será melhor.

Hospícios, sexualidade, prisões

Durante três horas, Michel Foucault, um dos mais cruciais
pensadores europeus, conversou com Versus,
e falou sobre repressão, loucura, psicanálise, livros e política.

Por Raquel Moreno, Marcos Faerman,
Regina Schneiderman, Marilsa Taffarel e Mauro Almeida.
Tradução e edição de Cláudio Bojunga.
Versus 1• outubro de 1975

Versus – Quando e como começou a se interessar pelo problema da repressão: hospícios, sexualidade, prisões?

Foucault
– Deve ter sido quando comecei a trabalhar em um hospital psiquiátrico, em 1953/55, onde realizava estudos psicológicos. Foi uma dupla chance: a de não conhecer o hospital psiquiátrico como doente, nem como médico. Não sendo médico não detinha privilégios nem exercia poderes. Era um indivíduo “misto”, duvidoso, sem estatuto definido, o que me permitia trafegar à vontade, e ver as coisas com mais “ingenuidade”. Foi o ponto de partida biográfico. A anedota. O que tentei explicar em minha aula na USP foi que, desde o fim do nazismo e do stalinismo, o problema do funcionamento do poder no interior das sociedades capitalista e socialista está colocado. E quando menciono funcionamento do poder não me refiro apenas ao problema do aparelho do Estado, da classe dirigente, das castas hegemônicas... mas a toda essa série de poderes cada vez mais tênues, microscópicos, que são exercidos sobre os indivíduos em seus comportamentos cotidianos e até em seus próprios corpos. Vivemos imersos numa teia política de poder – e é esse poder que está em questão. Acho que desde o fim do nazismo e do stalinismo, todo mundo se coloca esse problema. É o grande problema contemporâneo.

Gostaria de acrescentar que em relação a esse problema existem duas formas de pensar e de pesquisar – duas formas interessantes, mas das quais me separo inteiramente. A primeira é uma certa concepção marxista, ortodoxa ou tradicional, que se dispõe a considerar esses problemas para em seguida reintegrá-los na velha questão do aparelho do Estado. É a tentativa de Althusser, quando usa a noção de “aparelho ideológico do Estado”. A segunda é a corrente estruturalista, lingüística, semiológica, que consiste em reduzir esse problema à “sistematicidade” no nível do significante (signifiant). São duas formas, uma marxista e a outra universitária, de reduzir esse conjunto de problemas concretos que surgiram após a Segunda Guerra.

Versus – Em seus trabalhos, a repressão, em seus vários níveis de manifestação, sempre se exerce de forma mistificatória. Ela precisa da mistificação. O trabalho do intelectual seria descobrir o que a mistificação do poder encobre... é isso?

Foucault
– Sim... foi o que aconteceu durante alguns anos. O papel do intelectual consiste já há algum tempo em tornar visível os mecanismos do poder repressivo que são exercidos de maneira dissimulada. Mostrar que a escola não é apenas uma maneira de ensinar a ler e a escrever e de comunicar o saber, mas também uma forma de impor. O mesmo em relação à psiquiatria, que foi o primeiro dos setores nos quais tentamos diagnosticar essa imposição. O aparelho psiquiátrico não foi feito para curar, mas para exercer um determinado poder sobre uma certa categoria de indivíduos. Mas a análise não deve parar aí. Ela deve mostrar que o poder é ainda mais pérfido do que isso. Que ele não consiste apenas em reprimir – algo que impede, opõe obstáculos, pune – mas que ele penetra ainda mais profundamente do que isso, criando o desejo, provocando o prazer, produzindo o saber. De maneira que é muito difícil se livrar do poder, pois se o poder apenas tivesse como função excluir, impedir ou punir, como um superego freudiano, uma tomada de consciência seria o bastante para suprimir seus efeitos, ou ainda para subvertê-los. Acho que o poder não se contenta em funcionar como um superego freudiano. Ele não se limita a reprimir, a barrar o acesso à realidade, a impedir a formulação de um discurso: o poder trabalha o corpo, penetra o comportamento, se intromete com o desejo e o prazer – e é nesse trabalho que é preciso surpreendê-lo, e essa análise, que é difícil, é a que precisa ser feita.

Versus – Então o poder é mais poderoso do que se imaginava?
Foucault
– É o que eu acho, e as pessoas que trabalham no mesmo sentido que eu, também: tentamos fazer uma análise do poder mais sutil do que a que foi realizada até hoje. De maneira geral, eu diria que a antipsiquiatria de Laing e Cooper entre 1955 e 1960 marca o início dessa análise crítica e política dos fenômenos do poder. Acho que até 1970/75, análises do poder, análises críticas, ao mesmo tempo teóricas e práticas, giraram essencialmente em torno da noção de repressão. Denunciar o poder repressivo, torná-lo visível, lutar contra ele. Mas, em seguida às mudanças operadas em 1968, é preciso abordá-lo num outro registro – não avançaríamos se continuássemos a colocar o problema nesses termos: precisamos continuar essa análise teórica e política do poder, mas de uma outra maneira.

Versus – Em que medida Cooper e Laing deram uma contribuição original à psiquiatria?

Foucault – Laing e Cooper introduziram uma nova maneira de se relacionar com a loucura que não é mais a maneira psiquiátrica e médica. A idéia de que a loucura é uma doença, é uma idéia historicamente recente. O louco não tinha o estatuto de doente até aproximadamente o século XVIII. E quando ele virou doente por essa época, houve uma tomada de poder médica sobre a loucura e uma série de fenômenos que foram a ela relacionados: basicamente todas as anomalias do comportamento, as anomalias sexuais, etc... O que Laing, Cooper, Bettelheim fizeram, o que Szasz fez, à sua maneira, foi cessar de abordar de maneira médica esses fenômenos de irregularidade no comportamento. Ser louco para Laing e Cooper não é uma forma de ser doente. Em relação à psiquiatria isso significou uma ruptura muito importante.

Versus – Essa idéia não está contida no seu Histoire de la Folie dans l´Age Classique?

Foucault – Não, não. Quando escrevi a Histoire de la Folie (História da Loucura) não conhecia a obra de Laing e de Cooper. E eles não conheciam meu trabalho. Meu livro foi publicado na França em 1960. Os primeiros livros de Laing e de Cooper devem ter aparecido em 1958/59 – e foi Cooper quem traduziu meu livro para o inglês. São trabalhos contemporâneos, mas nós nos ignorávamos mutuamente. É interessante: Szasz e Bettelheim trabalhavam nos Estados Unidos; Laing e Cooper na Inglaterra; Bazaglia, na Itália; todos eles desenvolveram seus trabalhos em função de suas respectivas práticas médicas. Na França não foi um médico quem realizou esse trabalho, mas um historiador como eu. Seria interessante saber por que a antipsiquiatria apenas foi retomada pelos médicos franceses posteriormente. Mas, desde 1960 houve esse fenômeno de pessoas que não se conheciam umas às outras trabalhando no mesmo sentido.

Versus – Por que houve essa confluência internacional no sentido de reconsiderar o fenômeno da loucura?

Foucault – Em relação a vários fenômenos, poderíamos fazer a mesma pergunta. Por exemplo, o movimento estudantil no mundo. Entre os estudantes de Nanterre e os de Berkeley em 1968 não houve nenhuma ligação. Eu estava nesse ano na Tunísia, e acontece que no mês de março houve um movimento de contestação e de luta estudantil que foi brutalmente reprimido. Com uma violência superior à empregada em outros lugares – algumas pessoas chegaram a pegar 15 anos de prisão por terem feito uma greve de um dia. O mesmo em outros países, na Alemanha, etc... movimentos sem nenhuma ligação, nenhuma comunicação explícita, que se pudesse dizer que fulano se deslocou de tal para tal lugar. Foi algo semelhante ao que aconteceu nas prisões. Na Europa e nos Estados Unidos, no espaço de seis meses, as rebeliões se alastraram como fogos de artifício: Attica, Nancy, Toul, Milan – ora, entre duas prisões as comunicações são modestas. Certamente o problema dos poderes, e do funcionamento dos poderes no interior da sociedade, é o problema da nossa geração.

Versus – Como foi sua última viagem à Espanha? ¹

Foucault – Não é preciso ser um especialista no problema das prisões para – não digo analisar o que acontece na Espanha – mas pelo menos para reagir contra o que lá ocorre. Os acontecimentos são conhecidos: foi verdadeiramente um seqüestro e uma execução de reféns. Os processos instaurados no curso das últimas semanas e que se encerraram com onze condenações de morte, cinco das quais já executadas, foram processos organizados em condições totalmente inadmissíveis. Sem nenhuma prova de culpabilidade, essas pessoas foram condenadas. Sem advogados, porque os advogados foram expulsos, sendo substituídos por oficiais do Exército – nomeados advogados da defesa. Não havia provas – havia mesmo provas negativas, que um dos acusados não se encontrava no lugar do “atentado” pelo qual ele foi condenado. Todas essas pessoas foram condenadas a morte, e cinco dentre eles foram executados unicamente para fazer pressão sobre os grupos políticos a que eles pertenciam. Foi uma maneira de dizer: claro que eles não são culpados, mas vamos matar cinco dos onze. E se continuarem os atentados, se continuar a luta política, nós mataremos todos os quatro que guardamos na prisão. Na verdade foi um seqüestro seguido de morte, como nem os grupos mais extremistas e violentos o praticam.

Versus – E as conseqüências na Espanha?

Foucault
– Não tivemos muito tempo para perceber. Mas o que nos espantou foi sentir a presença física do fascismo. Nós tínhamos lembranças de infância da França sob a ocupação alemã, mas depois tínhamos perdido o contato com essa presença. Mas lá nós a sentimos. Fomos presos pela polícia espanhola num saguão de hotel, no momento em que dávamos uma entrevista coletiva à imprensa estrangeira. Havia muitos espanhóis que estavam lá por outras razões – conversando com amigos, namorando, etc... E o que nos chamou a atenção foi que, no momento em que a polícia chegou, os espanhóis deixaram de nos ver. Nada estava acontecendo para eles ao lado deles. E havia uns cinqüenta policiais em uniforme – uma cena nada habitual num saguão de hotel. Os jornalistas saíram algemados, e nós fomos levados em furgões blindados até o aeroporto. Na Praça da Espanha, vimos uma multidão que acompanhava a cena. E lá reencontramos esse espetáculo que já havíamos conhecido durante a ocupação alemã. O silêncio da multidão que vê e não diz nada. Sentimos a simpatia que sentiam por nós, do outro lado da barreira dos guardas e dos tiras. Pessoas que reconhecem uma cena familiar e que se dizem: mais gente sendo presa. Pessoas que constatam mais uma vez os mesmos rituais, depois de tanto tempo. É patético: a presença do fascismo inscrita no corpo e no comportamento das pessoas que o sofrem.

Versus – Como vê a relação de seu trabalho intelectual – sobre a psiquiatria, prisões, escolas etc... e a prática da sociedade?

Foucault – Nosso trabalho está no início. Há 10 anos fizemos uma denúncia violenta, brutal, até grosseira, do que se passava nessas instituições. Acredito que isso tenha sido necessário. Não podíamos continuar nos contentando com projetos de reforma, tentativas de atenuação, programas de aperfeiçoamento. Isso não levava a nada. Foi preciso colocar o debate no nível político, destituindo os psiquiatras e os médicos do direito de apenas propor reformas que convêm a eles, ligando isso a outro tipo de crítica e de denúncia sobre o que acontecia nas escolas, em outros hospitais, nas prisões. Mostrar como se formavam esses centros de poder e atacá-los, não através de uma crítica especulativa, mas por uma organização política real, criar grupos que no interior dos asilos questionem certas formas de disciplina e de exercício do poder. Bom, mas isso não resolve uma série de problemas que continuam a se colocar: muita gente não consegue trabalhar, muita gente não consegue manter uma vida sexual. A crítica operada pela antipsiquiatria não vai resolver esse problema. Mas o essencial é que esses problemas não são mais reinvestidos pelo poder médico que lhes atribuindo um estatuto os neutraliza. Existem atualmente na França grupos de doentes – como eram chamados – o termo é equívoco: digamos gente que encontra dificuldade, que tem problemas, que formam pequenas comunidades, que tentam resolver seus problemas, apoiando–se uns nos outros, apelando para pessoas do exterior, que são “reguladores”. Eles são autogestionários de seus próprios problemas.

Versus – O que pensa da psicoterapia de uma maneira geral?

Foucault
– Difícil de responder por duas razões. A psicoterapia abarca um tal número de práticas diferentes, umas que não passam de puro charlatanismo, outras da aplicação do poder psiquiátrico mais tradicional no âmbito da clientela privada. A gama é enorme. Existem mesmo coisas muito interessantes. Não quero tomar partido nessa questão. Além disso, acho que os intelectuais não devem recomeçar a desempenhar um papel que eles se atribuíram durante muito tempo, que é o de legislador moral, o de ser a boa e a má consciência em todos os domínios. O papel do intelectual é o de se ligar às pessoas que são atingidas pelo assunto que lhe interessa. Portanto recuso–me a tomar posição ou emitir idéias gerais sobre domínios aos quais não estou ligado. Passei dias e dias, durante anos, em hospitais psiquiátricos. Estive na prisão durante alguns meses e durante anos, participei de grupos de ex-prisioneiros ou de famílias de prisioneiros. Com a psicoterapia não tenho contatos precisos.

Versus – Já foi psicanalisado?

Foucault – Tentei duas vezes, e acabei abandonando três ou quatro meses depois, totalmente entediado...

Versus – Que tipo de análise?

Foucault – A análise freudiana mais tradicional que há...

Versus – Há muito tempo?

Foucault – Quando era estudante, e a segunda vez, uns dez anos mais tarde.

Versus – A psicanálise, na França, é muito difundida, não?

Foucault – Não poderia responder em termos quantitativos. Mas posso dizer que até o livro de Deleuze, (L´Anti-Oedipe) não havia intelectual francês de alguma envergadura que não fosse psicanalisado. Havia duas atividades absolutamente fundamentais: quem não estava escrevendo um livro e quem não estava tagarelando no seu psicanalista não tinha vez no mundo parisiense. Houve uma brusca e saudável reação a isso.

Versus – Como?

Foucault – O livro de Deleuze é a mais radical crítica da psicanálise que já foi feita. Uma crítica que não é feita do ponto de vista da direita, de uma psiquiatria tradicional, em nome do bom senso, em nome – como foi o caso da crítica de Sartre – da consciência, da consciência cartesiana. Em nome de uma concepção extremamente tradicional do sujeito. Deleuze fê-la em nome de algo novo. E com bastante vigor, o que provocou um nojo físico e político da psicanálise.

Versus – O Movimento da Liberação da Mulher Francesa tem questionado a psicanálise...

Foucault
– Sim, por causa do caráter masculino, falocentrista, da prática psicanalítica.

Versus – E a sua crítica quanto à sexualidade?

Foucault – Durante 10 ou 15 anos, utilizou-se de uma forma um tanto grosseira da noção de repressão, do poder como repressor. Uma análise mais requintada demonstra que o que reprime é outra coisa, que a repressão tem efeitos, ao mesmo tempo muito positivos e muito difíceis de serem esclarecidos. Tomemos o exemplo da sexualidade infantil, mais precisamente em relação à proibição da masturbação, um fenômeno extraordinário, pois ele apareceu bruscamente e recentemente: 1710 na Inglaterra, 1743 na Alemanha, 1760 na França. Uma interdição baseada num imperativo generalizado – um alerta da primeira metade do século XVIII. Basta olhar as coisas de perto para repararmos que na sociedade não houve a interdição do incesto, mas a da masturbação. Não a relação com o outro, mas a relação com o próprio corpo. O poder político não se interpôs entre a criança e seus pais, entre a criança e sua mãe, dizendo–lhe: não a tocarás. Não, o poder político agiu de maneira mais próxima, dentro do próprio indivíduo – dizendo-lhe que ele não deverá se tocar. É curioso ver nos textos dessa época, os últimos textos cristãos situados no nível da “direção de consciência” do século XVIII, o problema da relação com o próprio corpo, um problema fundamental. Fato aparentemente negativo e repressor, na verdade, ele constitui aos poucos a modalidade específica da sexualidade infantil. E se a sexualidade infantil assumiu o aspecto que ela oferece atualmente, isso se deve ao poder que a controlou através da masturbação, um poder que não parece apenas feito de interditos. O trabalho do poder político sobre o corpo da criança, e no interior de sua própria família, em suas relações com os pais, foi o que me propus analisar. A noção de interdito e lei repressora parece-me excessivamente esquemática para explicar o que aconteceu.

Versus – Existe alguma diferença entre o homem e a mulher nessa questão de repressão à masturbação? Clitoridectomia não foi uma prática mais radical?

Foucault – Há um ano esse problema me preocupa. E no ano passado, quando uma moça me colocou seu problema, respondi-lhe que não via nenhuma diferença. E a que existe não me parece fundamental. Como forma repressora, a clitoridectomia (extirpação cirúrgica do clitóris) foi amplamente utilizada na Europa contra a masturbação feminina. Mas, por essa mesma época, um pouco antes mesmo, uma série de medidas cirúrgicas e médicas foram aplicadas nos meninos. Não se podia chegar à castração (a espécie precisava ser preservada), mas as torturas eram espantosas: cauterização do canal da uretra etc.

Versus – Quando isso?

Foucault
– Praticamente durante todo o século XIX. O médico de Napoleão injetava no pênis dos meninos que se masturbavam (provavelmente nos órgãos sexuais femininos também) uma solução de bicarbonato de sódio. E como ele reparou que isso queimava o tecido interno da bexiga, ele fazia um torniquete no pênis. Esses diversos tipos de repressão variaram em relação às décadas, mas não posso dizer que encontrei diferenças básicas em relação à mulher ou ao homem. Mas eu sou homem.

Versus – Quais as razões da repressão sexual?

Foucault – Acho que a resposta de Reich, embora possa ser correta globalmente, não explica tudo: repressão sexual para constituir o corpo humano como força de trabalho. Isto não corresponde à verdade: a campanha contra a masturbação à qual nos referimos começou em relação às crianças – gente que ainda não constitui uma força de trabalho. E ela foi uma campanha que se exerceu no interior da burguesia – uma campanha que a burguesia exerceu contra ela mesma. O corpo do operário não estava posto em questão. No caso do operário, prestou-se muita atenção ao incesto. Ainda não consegui formular uma resposta a esse problema, mas é certo que durante muito tempo acreditou-se que uma certa regularidade sexual era absolutamente indispensável ao bom funcionamento da sociedade. Ora, atualmente, a irregularidade sexual é perfeitamente tolerável. O capitalismo norte-americano não sofre em nada pelo fato de que 20% da população de São Francisco é composta de homossexuais. O problema da contracepção é parecido. Não é certo que a campanha natalista que se desenvolveu na Europa a partir de 1870 tenha tido algum efeito.

Versus – Voltando um pouco atrás, qual a essência da crítica de Deleuze e de Guattari à Psicanálise?

Foucault – Essa pergunta devia ser colocada a eles. De qualquer forma, eu diria que até o livro de ambos, a Psicanálise era vista como um instrumento, talvez imperfeito, talvez incompleto, mas como um instrumento de liberação. Liberação do inconsciente, da sexualidade etc. Ora, Deleuze e Guattari, retomando o pensamento freudiano e o funcionamento da psicanálise mostraram como a psicanálise, tal como ela é praticada atualmente, constitui uma submissão da libido, do desejo, ao poder familiar. Que a psicanálise edipianiza, familiariza o desejo. Ora, em vez de liberá-lo, a prática psicanalítica o submete. Mais uma demonstração de um mecanismo do poder. Deleuze desenvolveu conceitos novos que permitiram continuar uma luta que já dura mais de 10 anos.

Versus – Que luta?

Foucault – Livrar-se de Marx e Freud como pontos de referência obrigatórios para a resolução dos problemas tais como eles se apresentam hoje. Ora, nem Marx nem Freud são adequados à resolução desses problemas, pelo menos tal como eles se apresentam na Europa. Uma das tarefas dessa luta, que dura aproximadamente 15 anos, foi a de dessacralizar esses dois personagens. Em seguida, inventar categorias novas, novos instrumentos. Ora, Lacan situa-se, apesar do fato de ter inventado muita coisa, no interior do campo freudiano – o que o impede de criar novas categorias.

Versus – Como podem se conciliar os dois tipos de luta – as particulares (prisões, mulheres etc.) e uma mais geral?

Foucault – É um problema. Se as lutas particulares forem escamoteadas, o que veremos é a transposição dos sistemas de poder próprios das sociedades socialistas, burocracia, hierarquia, autoritarismo, estrutura familiar tradicional, etc... E é isso o stalinismo.

Versus – Em Vigiar e Punir existe uma concepção não reformista da prisão. Deduz-se do livro que o que importa não é reformá-la, mas combatê-la. Verdade?

Foucault – Não tratei do problema da reforma e da não reforma da prisão. Tentei mostrar que no interior do sistema penal subsiste um sistema de punição, sistema que é co-extensivo à nossa sociedade – que atravessa a caserna, o hospital, a escola etc...

Agora, quanto à questão se devemos ou não manter as prisões, não posso responder. Minha pergunta é essa: se efetivamente consideramos que o sistema penal em seu funcionamento atual é inadmissível, será preciso admitir que ele faz parte de um sistema de poder que compreende a escola, os hospitais, etc... E todos esses poderes estão colocados em questão.

Versus – Qual o seu método de trabalho, de estudo etc...?

Foucault – Tenho um tipo de doença que consiste em ser incapaz de conceder entrevistas autobiográficas. O que importa é o que acontece, não o que alguém fez. A não ser quando essa pessoa tenha uma dimensão fora do comum: acho que a autobiografia de Sartre deve ter um sentido. Minha história pessoal não tem grande interesse. A não ser pelos meus encontros, ou situações em que vivi.

Versus – O psiquiatra Alonso Fernandes tentou desqualificar suas críticas ao hospital psiquiátrico pelo fato de que você não é médico...

Foucault – É divertido e curioso. Os psiquiatras sempre acharam que eu tinha falado de doença mental, que eu tinha falado da psiquiatria contemporânea, que eu tinha falado do funcionamento das instituições psiquiátricas. Basta ler o meu livro para perceber logo que eu falo das instituições relacionadas à loucura do século XVI a 1840 (Esquirol). A irritação, a recusa do “direito de abordar esse tema pelo fato de não ser psiquiatra” é significativa. Certo dia, na rádio francesa, um psiquiatra levantou-se todo vermelho, bateu com o punho na mesa e disse que “eu não podia estar falando dessas coisas porque não era médico”. Eu apenas falei de coisas que qualquer historiador pode conhecer. E que os psiquiatras não conhecem. Não é preciso ser psiquiatra para saber como era o regime de internamento no século XVIII. Essa irritação é a melhor verificação do que eu disse. Eles se reconheceram numa verdade histórica. E dizem: “Ele está falando da psiquiatria contemporânea”. Isto é: os métodos aplicados em 1840 são ainda atuais! É a mesma coisa se o chefe de um governo atual, depois de ter lido um livro sobre Napoleão, resolva prender seu autor porque esse o criticou!

Versus – Mas, mesmo que a crítica fosse atual, o que está em questão não é um problema da epistemologia? O fato de que a filosofia da ciência teria que ser feita por “especialistas”?

Foucault – Claro. Existem livros maravilhosos sobre os asilos feitos por sociólogos. É interessante não ser psiquiatra a fim de perceber certas coisas. É um desafio que eu aceito: confrontar as histórias da psiquiatria, feitas por alguns psiquiatras, com a minha.

Versus – Você teria criticado, na USP, “o conceito da gênese, do desenvolvimento psicossexual em Freud – que contém preconceitos de normalidade e de patológico. E também o modelo de crescimento da sexualidade: fase oral, fase anal etc... até a fase genital, verdadeiro amadurecimento”?

Foucault – Não falei em nada disso. Analisei um pouco a noção de repressão em Freud e os postulados que a ela estão ligados. Critiquei a utilização do modelo do superego à análise política – o poder político funcionando como um grande superego. Disse que seria preciso inventar outros instrumentos para analisar os efeitos do poder político – que conceitos como censura e repressão são insuficientes. Mencionei a maneira pela qual o poder político investe o corpo, a sexualidade etc.

Versus – Está fundamentalmente de acordo em termos filosóficos com Deleuze?

Foucault – Discordamos em alguns pontos, mas fundamentalmente estou de acordo com eles. Não tomo posição na polêmica entre ele e Lacan. Interesso-me pelo que faz Deleuze. Acho que o que se faz de importante na França, atualmente, está ligado a alguma forma de luta política.

Versus – Você é professor onde?

Foucault – Num troço chamado Collège de France. ²

Versus – Controla doutorados, pós-graduações?

Foucault – Não, apenas pesquisas, que são explanadas em doze sessões anuais.

Versus – O que acha da Universidade e do papel do intelectual?

Foucault – Depois de 1968, todos foram unânimes em dizer que a universidade estava morta. Morta, sim, mas como o câncer – se propagando. Entre escritores, jornalistas e universitários mantém-se intercâmbio constante. O grande corte que fazia com que Baudelaire não tivesse nenhuma relação com os professores da Sorbonne não existe mais. Os “Baudelaires” de hoje são professores na Sorbonne.

Versus – E continuam Baudelaire?

Foucault – Quando digo professores quero dizer que eles são lidos, comentados, comprados pelos professores e estudantes. Pegando o exemplo francês: não se pode conceber Robe-Grillet, Butor, Sollers sem o auditório universitário que os excitou, acolheu e analisou. O seu público foi o universitário. Baudelaire entrou na Universidade 50 anos depois de sua morte. Ao mesmo tempo desaparece o papel “profeta universal” do intelectual. O trabalho intelectual passou a ser um trabalho de especialista.

Versus – Não será necessária uma síntese?

Foucault – O que faz a síntese é o processo histórico, a síntese é feita pela coletividade. Se o intelectual quiser fazer a síntese dessas várias atividades ele retomará o seu velho papel solene e inútil. A síntese se coloca no nível de cristalizações históricas.

Versus – Esse papel restrito do intelectual não estará ligado justamente à crise de uma perspectiva filosófica global? Uma situação na verdade contingente?

Foucault – Não falei da falta da síntese como algo que faz falta, mas de uma conquista: enfim nos livramos da síntese, da totalidade.

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1) Michel Foucault foi à Espanha com um grupo de intelectuais e artistas franceses, protestar contra os fuzilamentos franquistas.
2) Talvez o mais célebre da França.

*Os entrevistadores: Raquel Moreno era líder feminista e, pouco depois, foi editora do jornal Nós, Mulheres; Regina Schneiderman , psicanalista; Marilsa Taffarel, psicanalista; Mauro Almeida, jornalista; Marcos Faerman, editor de Versus. Cláudio Bojunga, jornalista, na época, era repórter especial do Jornal da Tarde.

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O guia da invasão

Um atento repórter brasileiro acompanha a
Operação Dominicana. Conheça o guia prático da invasão
de um pequeno país nos tempos da guerra fria.

Por Carlos Rangel • Versus 2• dezembro de 1975

Os fuzileiros navais permaneciam na ilha, mas já não se combatia. Juan Bosch deveria retornar ao país para iniciar, mais uma vez, sua campanha pela presidência, como chefe do Partido Revolucionário. O total de mortos era desconhecido. Mas seguramente 2.500 pessoas haviam morrido entre os dias 25 e 29 de abril, no início de tudo. Os mortos eram queimados ou jogados ao mar, se descobriam corpos de enterrados vivos. Era setembro de 1965, a guerra terminava em São Domingos.

No fim, eu estava apenas empenhado em dar o fora do El Embajador Hotel, onde uma boa refeição custava 15 dólares. Mas não sofria qualquer conflito íntimo quanto àquela grosseira invasão. Dez anos depois, no entanto, cabem análises e perguntas sobre o 28 de abril em que os marines começaram a desembarcar. O tema nos interessa particularmente, já que estivemos envolvidos com essa história nas Antilhas.

As tropas norte-americanas só descobriram as falhas nos mapas ao desembarcarem. Fico sabendo disso agora, lendo a série de relatórios especiais do Centro de Estudos Estratégicos da Universidade de Georgetown sobre a Operação Dominicana. O Centro é um órgão respeitável que examina questões políticas relacionadas com a estratégia norte-americana. E que auxilia permanentemente, com seus estudos, os interesses dos Estados Unidos.

O mapa reproduzido nos relatórios de Georgetown não coincide com o que tenho comigo, um pouco amarrotado nas dobras, onde ainda posso ver as marcas a lápis indicando alguns pontos específicos. O deles é impresso pela Esso e mostra apenas a área principal do conflito. É uma reprodução do mapa usado pelas autoridades da Embaixada Americana e pelos oficiais comandantes das Forças dos Estados Unidos que atuaram na Operação Dominicana. Esse mapa foi adotado depois que se descobriram as falhas das cartas elaboradas pela Dirección General de Turismo, usadas no início da Operação.

A intervenção foi feita tão às pressas que os oficiais adotaram o mapa da Esso apenas quando já se aproximavam perigosamente dos setores ocupados pelos rebeldes. Os relatórios de Georgetown revelam que, desde essa época, os motivos e métodos intervencionistas norte-americanos são submetidos a críticas.

O mapa da Esso ainda não era o exato. Quem não quisesse se perder ou praticar tolices nas terras onde Cristóvão Colombo já dera com os costados em 1492, deveria usar o mapa da Texaco, feito um ano antes pela Rand MacNally & Co. Os postos de gasolina ainda não o tinham, e um exemplar me caiu nas mãos por acaso. Me serviu, quase como uma senha, para que conseguisse um avião da USAF que me deixou em Porto Rico, no fim da guerra. Daí parti para Nova Iorque, onde ninguém chegava a um acordo sobre o número de mortos em combate.

Os números exatos sempre foram uma preocupação dos norte-americanos. Os relatórios de Georgetown não fogem a essa regra e contam 77 comunistas implicados na rebelião. Esses números não coincidem com a lista fornecida extra oficialmente pela embaixada americana aos repórteres que começavam a chegar, no dia 29. Os 58 nomes relacionados nessa lista deram origem a muitas controvérsias, pois na verdade a relação estava decomposta em duas listas, com cinco nomes repetidos.

O embaixador W. Tapley Bennet Jr. olhava sob um ponto de vista bem determinado e tinha sua explicação para as contradições. Para ele, a relação estava inteiramente correta. As duas listas em que aparentemente se dividiam referiam-se aos rebeldes “que tiveram treinamento cubano”, de um lado, e aos que eram conhecidos como “elementos esquerdistas ativos”, de outro.
Seja lá como for, Bennet – cuja cabeça já não poderia mais ir a prêmio – foi o responsável pelas recomendações básicas que levaram os Estados Unidos à ação. Mais ainda, se hoje existem dúvidas sobre as listas elaboradas pelas fontes de informação do Serviço Secreto norte-americano, as incorreções pouco representaram, na época. Foi com base nessas listas que o presidente Johnson transformou a operação inicial de salvamento de cidadãos norte-americanos numa ação militar destinada a impedir que um governo controlado (ou “seriamente infiltrado”) por comunistas se apoderasse do poder na República Dominicana.

O tempo não apaga certas bobagens que se fazem no decorrer da vida. Mas a Operação Dominicana poderia ter servido como lição para a escalada que se seguiu no Vietnã. O efeito, no entanto, parece ter sido contrário. Os soldados que se encontravam no Sudeste Asiático chegaram às Antilhas até mais animados. E foram mobilizados mais de 14 mil homens. No fim da guerra, quando afinal Juan Bosch decidiu retornar a São Domingos, os soldados ainda estavam na ilha e permaneceram mesmo depois do dia 3 de setembro, quando Héctor García Godoy, diplomata e homem de negócios em Santiago de los Caballeros, foi empossado às pressas como Presidente provisório.

Mais importante do que lembrar os antecedentes da revolta – dizer, por exemplo, que grande parte das dificuldades do país eram um legado da corrupta tirania de Rafael Leónidas Trujillo – é perguntar se hoje relatórios como esses de Georgetown servem para alguma coisa.

Os relatórios incluem supostos estudos aprofundados de áreas em crise, exames de suposições, problemas de pesquisas relacionadas com a política dos Estados Unidos ou ainda estudos de opções para os executantes da política. O Grupo de Estudos acaba por reconhecer que a Operação Dominicana teve graves conseqüências para os Estados Unidos e toda a América Latina. Mas termina também por justificar a intervenção, que teria sido “mal explicada ao público”.

A ambigüidade dos documentos começa no prefácio do trabalho. “As explicações oficiais a respeito dos desembarques têm sido rejeitadas pelos que sustentam que a ameaça comunista foi superestimada. Para esses, a necessidade de Forças Armadas não estava bem caracterizada e o perigo que corriam os norte–americanos na ilha era apenas um pretexto para uma intervenção política. Alguns afirmam que a revolução foi feita pelo povo, buscando conseguir várias reformas que se impunham. Outros negam a seriedade da crise e sustentam que tudo poderia ter sido resolvido de forma menos drástica. Fala-se que a Organização dos Estados Americanos poderia ter resolvido o problema sozinha, ou que a ação dos Estados Unidos era necessária, mas foi aplicada sem método e longe da oportunidade apropriada. Poucos ficaram satisfeitos com os acontecimentos. E pouquíssimos conhecem todos os fatos ou compreendem realmente o que aconteceu”.

A abertura do trabalho termina com o glossário das personagens envolvidas, com sua lista de comunistas e o mapa da Esso, onde imagino as praias da Avenida George Washington, com seus turistas banhando-se o ano todo. Com o auxílio do mapa posso estabelecer o cordon sanitaire, uma linha imaginária para isolar o centro da cidade do palco das negociações, e até indicar o aeroporto de San Isidro. Foi aí, na madrugada de 30 de abril, numa sexta-feira, que aviões de transporte C-130 começaram a descarregar 2.000 pára-quedistas vindos de Fort Bragg. No mesmo dia, saltaram mais dois batalhões, dois outros a 3 de maio e três no dia seguinte. A rapaziada que vinha por ar pertencia à 82ª Divisão Aerotransportadora, da Carolina do Norte, enquanto os 1.580 soldados que tomavam as primeiras cabeças-de-praia eram componentes do Esquadrão Anfíbio.

Os relatórios de Georgetown chegam à absurda conclusão de que não existiu rebelião popular em larga escala na República Dominicana. E afirmam que as desordens ficaram praticamente restritas à cidade de São Domingos. Claro, numa situação onde era difícil até mesmo contar os mortos, as comunicações com o resto do país não eram boas o suficiente para que se soubesse o que ocorria fora de São Domingos. Na própria cidade as comunicações eram difíceis, e o general Jesús de los Santos Céspedes insistia junto à Embaixada dos Estados Unidos para que fornecesse logo os 50 transmissores-receptores que muito mais tarde garantiram uma rede básica de contatos.

Céspedes era o chefe da Força Aérea Dominicana, e comandou o primeiro ataque aos rebeldes. Era também um dos poucos a permanecerem calmos naquela quarta-feira, 28, na base de San Isidro, quando ninguém poderia deixar de sentir uma atmosfera de colapso. Os oficiais se mostravam cansados, perturbados. Alguns até choravam. O general Belisario Peguero, ex-chefe de polícia, tinha ataque de histeria. Elias Wessin y Wessin, outro general e chefe do Centro de Treinamento do San Isidro, estava à beira da exaustão. Ele tentara arrasar a área rebelde perto de Ciudad Nueva, um bairro de São Domingos, mas perdera a coragem. Por esse motivo, Wessin y Wessin veio a ser o objetivo de um dos primeiros atos do Presidente provisório Garcia Godoy, no fim da guerra: foi reformado e exilado. Fora de San Isidro, os Cascos Brancos – a famosa polícia de choque dominicana – continuavam a servir de alvo para os guerrilheiros e eram mortos ou dispersados onde quer que aparecessem.

Havia fatos, naquele momento, que não podiam ser esquecidos. Os três envios de forças navais às costas dominicanas, ordenados pelo presidente Kennedy a fim de “proteger vidas e propriedades norte-americanas”, algum tempo depois da morte de Trujillo. Ou a disputa tola que envolveu os dois países da Isla Hispaniola – República Dominicana e Haiti –, quando mais uma vez os barcos americanos se aproximaram. Esse último episódio serviu para ajudar na derrubada de Juan Bosch, o presidente cujo retorno os rebeldes exigiram depois. O antagonismo entre os militares e Bosch, intelectualizados demais para entender tantas facções, acabaria por resultar em outro golpe, um dos tantos que se sucederam depois da morte de Trujillo. Em setembro de 1963, os militares apoiados por civis de direita e de centro conseguiram derrubar e exilar o Presidente eleito. Os Estados Unidos apenas deploraram.

Em fins de agosto, quando se perguntava se todo aquele aparato bélico valera a pena, era mais fácil obter um legítimo conhaque francês, ou uma garrafa de bom uísque, do que um copo de rum. A culpa era da Zona Franca. O verdadeiro rum – que é melhor nas Antilhas que em qualquer outra parte – era destilado do melaço puro da cana-de-açúcar, e descia bem apenas com uma rodela de limão ou transformado em daiquiri. Mas nem com uma boa dose para se aquecer o coração se poderia engolir, naquele momento de 1965, o general Antonio Imbert Barreras.

Esse era o líder da situação. Um general comissionado depois de ter tomado parte do assassínio de Trujillo, um insurreto à sua maneira, apoiado pelos norte-americanos. Um fiasco como chefe da Junta de Governo de Reconstrução Nacional.

Do outro lado estava o coronel Francisco Caamaño Denó, um ex-oficial do exército dominicano que se juntou aos rebeldes depois de breve asilo na Embaixada de El Salvador. E que reapareceu como Presidente do Governo Constitucionalista em Ciudad Nueva, posição que ocupou até a formação do Governo Provisório. Depois disso, Caamaño surgiu como adido militar em Londres e desapareceu em circunstâncias até hoje um tanto obscuras.

O antigo chefe dos Cascos Blancos era até pouco antes conhecido apenas por algumas histórias policiais. Mas, de repente, se torna o homem do momento. E é considerado um herói popular, o líder que insistia na volta de Juan Bosch e também na retirada da Força Interamericana de Paz, a FIAP. Um tipo que os diplomatas não suportavam, mas que, sem dúvida, sabia o que queria e acabou por se impor.

Caamaño foi descoberto, de certa forma, pelos repórteres e cinegrafistas americanos, que tinham carro alugado à porta do hotel, bastante dinheiro no bolso e nativos contratados para carregar seu pesado material. Havia uma emissora de TV nova iorquina que interrompia as entrevistas coletivas por alguns instantes, quase à força, e exigia que o representante dos Estados Unidos na OEA, Ellsworth Bunker, parasse de falar. O mesmo acontecia com Caamaño. A câmara fazia então um close sobre a última pasta dental com fator RH. Delicious, frisava o rapaz, que tinha essa única função durante toda a guerra civil. O grotesco dessas cenas revoltou participantes das duas facções e foi tema de uma entrevista do general Hugo Panasco Alvim, o oficial brasileiro que comandou a FIAP. Depois, naturalmente, a entrevista foi transmitida numa programação coast to coast.

A impressão que se tem, dez anos depois, é que tudo se acaba na manhã de 15 de junho, quando se reiniciaram os combates depois de uma longa e enfadonha trégua para enterrar os mortos, como diziam os jornalistas encurralados no El Embajador Hotel. A luta duraria pouco, e nós estávamos impossibilitados de passar, à noite, para o outro lado da linha, ultrapassando a Zona Internacional tida como faixa neutra.

Na verdade, depois que anoitecia tudo que se podia fazer era ouvir o matraquear das metralhadoras e a débil resposta de uma ou outra espingarda de matar passarinho. De repente, o estrondo de um balaço 105, que impunha um longo silêncio. Era tudo que percebíamos, instalados na sacada do luxuoso hotel, dentro da zona neutra, guardada por soldados americanos.

Mas, de manhã, todos os repórteres se punham em ação, na disputa inútil de chegar primeiro ao lado rebelde, constatar os estragos e ouvir mais uma vez as palavras de Caamaño, de cabelo escovinha, uma herança dos seus tempos de chefe de polícia. Depois a curiosidade se voltava para os 500 e poucos soldados brasileiros integrantes da FIAP. Se dizia que a morte de um deles poderia acender um estopim na América Latina ou impopularizar o movimento rebelde dominicano, muito mais do que a morte de 5.000 marines.

Agora havia pouco para comentar, no entanto. O incêndio que queimou seis quilômetros de instalações portuárias servira para esfriar os ânimos. Ali estava armazenada quase toda a comida que permitiria aos rebeldes continuar lutando por mais algum tempo. O fogaréu durou dois dias e, pouco depois, Caamaño acabaria por fazer concessões ao general Imbert, que era por um armistício pela deposição de armas.

A partir daí os fatos perdem o interesse, até mesmo para a Universidade de Georgetown. Os relatórios passam por cima dos últimos e patéticos acontecimentos, como a descoberta dos enterrados vivos. A princípio, nove cadáveres. Depois, outros vinte. A exumação, que prosseguiu durante dias, revelou o que acontecera. Os corpos eram encontrados de joelhos, como se as pessoas pedissem clemência antes de morrer. E suas mãos descarnadas revelavam um terrível esforço em escavar a terra para conseguir a liberdade.

Mas nada disso foi levado em conta. A guerra civil terminava, já não se viam nas ruas os mortos que queimavam ao sol do meio-dia nas Antilhas. E que eram sempre mais freqüentes nos poucos quarteirões ocupados pelos rebeldes.

Foi numa alfaiataria que vendia pequenas garrafas de rum, em junho, que soubemos de mortos ainda por sepultar. As garrafinhas ficavam nos bolsos traseiros das calças, para dar coragem, eram conduzidas como fazem os americanos com seu Bourbon vagabundo. Os dominicanos gostavam apenas dos jornalistas franceses e era difícil passarmos por argelinos ou portorriquenhos. Nossa sorte foi encontrarmos um jornalista panamenho que nos abriu caminho entre as ruas sinuosas em que se postavam os canhões 105.

Uma mulher costurava à máquina, alheia à guerra, e ouvia uma novela radiofônica. Entre as ruas que separavam os americanos dos rebeldes, uns oito ou dez quarteirões, estavam os mortos. As metralhadoras não permitiam a aproximação de ninguém. Mas, para os rebeldes, era uma questão de honra buscar os seus mortos. Ficavam em buracos, cavados pela madrugada, ou no meio da rua, protegidos por paralelepípedos. A cada rajada de metralhadora se levantavam dos abrigos e davam um tiro como resposta, à maneira de um menino travesso que usa seu estilingue para contrariar os adultos. O casario pobre, já semidestruído, fazia lembrar os baixos do bairro do Jaçanã, em São Paulo. Um ótimo lugar para brincar de esconde-esconde, mas nunca para uma guerrilha.

– “Ahora, Santo Domingo se acaba”. O alfaiate que nos fornecia rum queria referir-se à parte velha da cidade. Os sobradões desabavam como paredes de presépio. O barulho era ensurdecedor, mas a mulher continuava costurando. Numa outra esquina, caminhões americanos distribuíam leite em pó. Não há miséria que não se suporte, diria talvez Juan Onis, do The New York Times. Daquele ponto ninguém passava. Mesmo durante a trégua que, na verdade, não existia, em meio à madrugada. As últimas dezesseis ruas em poder dos rebeldes eram riscadas pelos traços luminosos dos tiros de metralhadora. A última vez que vi Caamaño foi quando dois ou três ianques se renderam. Não passavam de dois soldados visivelmente bêbados, que diziam não ter mais vontade de continuar lutando. Vinham do Vietnã, e só queriam dormir. O povo queria linchá-los, mas Caamaño ergueu o braço, tomou as armas dos soldados e os mandou de volta. Depois convocou os jornalistas para uma entrevista coletiva.

Marianne não era nenhuma mocinha e passou uma noite observando a tropa brasileira. Tinha rugas e trabalhava para algumas revistas norte-americanas. Via tudo, com seu uniforme da “Air Force” que, dizia, lhe dera sorte no Vietnã. O chapéu de abas viradas não tinha flores, e lhe acrescentava um toque jovial e bem feminino, apesar da idade.

Seu único assunto, no entanto, era guerra e mais guerra. Desde o desembarque na Normandia até a invasão da Hungria, sem contar três vezes no Vietnã. Estava em São Domingos para saber se o assunto valia a pena.
Não sei o que pensava daquilo tudo, se diria que era uma intervenção ou uma cooperação, a dúvida de muitos naquela época, que os relatórios de Georgetown queriam desfazer. Lembro apenas de uma frase dela, que vivia com calças boca de sino e filmes em todos os bolsos: “Minha casa é apenas uma pequena mala contendo chapas e poucas roupas, além do travesseiro que é minha bolsa”.

A velhota Marianne, como a chamavam outras profissionais invejosas de sua fama, morreu poucos meses depois, durante um ataque aéreo no Vietnã, para onde voltara. A notícia de sua morte ganhou pouco mais de 15 linhas no New York Times. Com ela aprendi o recurso de comer com dois dólares dominicanos (moeda ainda corrente no país) e escapar aos preços do El Embajador Hotel. Era num quiosque depois descoberto por muitos. Até mesmo pelos soldados americanos, que entraram em acordo com o dono e provocaram a ampliação das instalações.

Da cidade em volta, o que restava era um terço das construções bombardeadas e o porto arruinado pelo incêndio. Os americanos diziam – até mesmo o Times – que tinham apenas 5.000 homens em São Domingos. Mas lá estavam pelo menos 20.000. Sem contar o pessoal dos nove navios de guerra que podiam ser apontados com o dedo, da Avenida George Washington. Dia e noite, quando brilhavam com suas luzes na linha do horizonte.

Junto ao El Embajador ficavam 200 helicópteros, em campo retirado, que de cinco em cinco minutos partiam em missão de inspeção para os lados da Zona Rebelde. Mas eu já estava com o mapa que me permitiria sair dali. Encontrei-o por acaso na praia junto à Avenida George Washington. Era outubro, o sol já não queimava tanto em São Domingos e as pessoas retornavam aos banhos de mar como se o verão nunca se acabasse e a memória da gente fosse uma folha de papel em branco.

Jack London

O extraordinário escritor norte-americano, em
sua desesperada profusão de idéias, fundiu para
sempre o documentário e a ficção, e revelou a
todos a relação convulsa entre a arte e a vida.

Por Paulo Ramos • Versus 3 • março de 1976

Sacanagem: cem anos depois de seu nascimento, John Griffith (Jack) London, está quase esquecido. Seus livros, outrora entre os mais lidos do mundo, rolam rasgados pelas prateleiras encardidas de um ou outro sebo desatualizado.

Não podia ser diferente: a cultura axilar exalada pelos críticos literários de consumo não merece mesmo registrar o centenário daquele que sempre colocou a aventura da vida muito acima do “escrever livros”. Jack London foi o pai da grande corrente da literatura social norte-americana: aquela raça de grandes escritores que trouxe para o papel a experiência da própria vida. Homens que não caíram no grande equívoco da arte contemporânea: homens que nunca se preocuparam em recuperar o mundo da subjetividade perdida, dos gastos aveludados e dos castelos embolorados. Homens do domínio dos largos horizontes, das serras, das selvas, das estradas sem fim, dos navios fantasmas e seus passageiros: do “Lobo do Mar” e dos “Caninos Brancos”.

A genialidade de Jack London: reelaborar, em outro nível, o que sempre existiu – e ainda existe – em estado bruto na consciência dos gêneros populares, no arquétipo das sociedades, na memória maltratada do povo: dialética entre o viver e o escrever. Em sua desesperada profusão de idéias fundiu-se para sempre o documentário e a ficção: o azul do céu contrastando com o vermelho do sangue e o verde do mar. A exaltação da violência e o sentido trágico da existência; a relação convulsa entre a arte e a vida; o ser preconceitual abolido em favor do estar fenomenológico.

Vida, obra e morte

Adotado por um operário ferroviário, a infância de Jack London foi marcada pela miséria e pela violência. Mal termina o curso primário e é preso por vadiagem. Quando sai do reformatório é obrigado a trabalhar durante o dia como jornaleiro e sorveteiro. À noite, envolve-se em brigas e bebedeiras nos botequins sórdidos da beira do cais de São Francisco. Entre porres homéricos e ressacas violentas agarra-se desesperadamente aos livros. Lê tudo o que lhe cai nas mãos, especialmente histórias de aventuras. Dois livros marcam sua vida: A Viagem à África, de Paul de Chaillu e Moby Dick, de Melville.

Aos 17 anos realiza seu primeiro grande sonho: embarca no Sutherland e parte para as costas da Sibéria pescar focas. Quando volta está novamente desempregado e começa a vagar clandestinamente pelas estradas de ferro dos Estados Unidos, roubando aqui e ali; imperador do norte; on the road; precursor da lost generation, de Hemingway, dos beats, de Kerouac, dos hipsters de Gregory Corso; easy rider.

Obcecado pelos livros, consegue ingressar na Universidade da Califórnia onde descobre Darwin, Spencer, Marx, Malthus e Nietszche. Seis meses depois abandona tudo e se incorpora à corrida do ouro em direção às planícies geladas do Klondyke. Cai gravemente doente e só então começa a escrever sistematicamente. Seus primeiros contos obtêm sucesso fulminante: são histórias rápidas cheias de ação e violência. Não demora muito tempo para que o magnata da imprensa, Hearst – com seu faro de caçador de talentos – perceba a potencialidade do repórter Jack London. Paga-lhe um salário astronômico para que ele cubra a guerra russo-japonesa. As reportagens enviadas do front são memoráveis. Jack London torna-se um nome internacional. Os jornais de Hearst faturam ainda mais alto.

O antigo órfão de São Francisco começa a nadar em dinheiro. Escreve alucinadamente. Sua capacidade de trabalho é extraordinária: dezoito ou vinte horas por dia. Os manuscritos jorram. “O Chamado da Selva” desperta num público já então enojado com a vida das grandes cidades, o sonho impossível de um retorno à natureza selvagem: é a história de um fascinante cachorro que foge do cativeiro e volta para a floresta, onde termina como chefe de uma alcatéia de lobos. “Smock Bellew” descreve a aventura louca de um jornalista perdido no Yukon. “O Lobo do Mar” conduz os leitores ao último lugar livre do planeta: a vastidão dos oceanos. “Burning Daylight” é a história de um homem simples e abrutalhado que arranca uma fortuna das minas geladas do Alaska e depois abandona tudo. “The Game”, a tragédia de um pugilista, é outra canção de derrota. “O Tacão de Ferro” é a impressionante profecia da ascensão do fascismo num mundo dominado pela voragem do consumo e pela alienação política. “Vale da Lua” tenta ingenuamente um retorno à vida agrícola. Seu maior livro é nitidamente autobiográfico: “Martin Éden”, a tragédia de um escritor que depois de atingir o auge da fama abandona tudo e parte em busca do nada.

Tudo é nada: o fim de Jack London se aproxima rapidamente, como nas grandes catástrofes. Podre de bêbado ele ainda consegue escrever um último livro: “John Barleycon”, onde por trás de uma visão moralizante pode-se perceber o alcoolismo como um nítido sentimento de culpa, o uso do maior dos tóxicos não passando de uma tentativa sempre renovada de auto superação, de “encantamento”, de mudança da personalidade – por ódio, medo ou desprezo ao próprio ser. No fundo percebe-se que os homens bebem ou se intoxicam quando a vida corre com demasiado vigor ou muita rapidez – e quando a tentativa de recuperação do passado é uma aventura inútil. Também Hemingway, mais tarde, descobrirá esta verdade: o alcoolismo é incurável porque não é uma doença do corpo nem da alma; é um “encantamento” do espírito. Também Hemingway arrebentará os miolos.

Jack London procurou a morte. Várias vezes lançou-se ao mar completamente embriagado na esperança que as ondas o arrastassem para sempre.
Forte e fraco, sério e engraçado, noturno e diurno, real e irreal, efêmero e eterno, Jack London resolve fechar bruscamente seu maior romance na madrugada de 22 de novembro de 1916. Corta o fio da própria vida aos quarenta anos de idade. Depois de ter percorrido o mundo e atingindo a fama, nada mais lhe restava a não ser um sentimento de solidão essencial. Quer ficar só.

Pede que coloquem sobre o seu túmulo uma enorme pedra monolítica, como se tivesse medo de sair novamente à luz do sol para percorrer as estradas empoeiradas do oeste, ou sentir no rosto bronzeado o vento revigorante do mar.

Discurso aos
tupiniquins ou nambás...


Mário Pedrosa estava exilado e sentia
saudades do Brasil. Então, enviou a Versus
um texto escrito em Paris.

Por Mário Pedrosa Versus 4 • junho de 1976

Em países como os nossos, que não chegam esgotados, ainda que oprimidos e subdesenvolvidos, ao nível da história contemporânea, mas que flutuam por sua situação necessária sobre a linha do meridiano maior, ou francamente mais abaixo dela, quando se diz que sua arte é primitiva ou popular, vale tanto quanto dizer que é futurista. Nos velhos países de franca civilização burguesa não é assim e o caminho da arte bifurca-se ou trifurca-se, em veredas que sobem na escala social para perderem-se nos vértices das diversas elites que se fixam no delta extremo das especializações, ou que fluem para baixo como um filete d´água que desaparece no subsolo ou estanca em charcos.

Nunca tantos “ismos” cobriram áreas tão pequenas, singulares e extravagantes para consumidores tão refinados ou mais sutis. Nos outros países, aquelas filigranas ou ramificações chegam como subprodutos elitistas das orlas das capitais, dos aeroportos cosmopolitas, dos shoppings ou supermercados e hotéis transnacionais. Fora dessas áreas há as oficinas de artesanato, o trabalho não propriamente assalariado, mas onde se trava o esforço anônimo da criatividade, da inventividade autêntica, quer dizer, o esforço para a coletividade. A arte nesses rincões tem suas raízes na natureza ou tudo o que a esta pertence – terra, pedras, árvores, bichos, idéias ou quase idéias que escudam dificilmente as coisas e as gentes que com estas convivem, com estas se misturam ou talvez se completam. Aqui, o que é natureza já é cultura e o que é cultura ainda é natureza, mas não se confundem e menos ainda se fundem, pois não se trata do processo triédrico da dialética, que terminaria, ainda que provisoriamente, em uma síntese.

O que aqui acontece é outra coisa, é o nascimento de um quarto reino mais para lá dos três tradicionais da natureza, o animal, o vegetal, o mineral, quer dizer, o reino da arte. Esta não é uma afirmação tão audaciosa quanto parece. Para demonstrá-la basta levantar a seguinte questão. Quem criou a arte? O homem. Como? Quando? Toda a história da arte está hoje em irremediável decadência ao tentar responder à pergunta. O estado da questão está agora tanto mais inextrincavelmente confuso quanto se levanta hoje nas grandes metrópoles uma plêiade brilhantíssima, cultíssima, de espíritos para proclamar que a arte morreu. Outros, talvez não menos brilhantes, dizem que não, e defendem com unhas e dentes as instituições dedicadas à promoção da arte. É claro que a arte não pode morrer porque ninguém a pode matar, uma vez que está condicionada não só à história do homem como também à história mesma da natureza.

O que acontece é que existem sociedades propícias ao desenvolvimento do fenômeno artístico e outras que já não o são. As grandes sociedades industriais ou superindustriais do Ocidente, à medida que se desenvolvem, cada vez mais movidas por um mecanismo interno inexorável em sua contínua expansão, que subordina todas as classes a seu frenético ritmo tecnológico e mercantil, castram as colméias de toda criatividade e tiram qualquer oportunidade aos homens de vocação ainda desinteressada e especulativa para resistir à corrente de força que conduz tudo e todos vertiginosamente à voragem do mercado capitalista.

Chama-se arte, sob este condicionamento, algo como uma relativamente nova profissão ou ofício que produz objetos sui generis que agradam à vista ou ocupam recintos fechados de um modo caprichoso ou mesmo sedutor, quer dizer, não em função utilitária direta, como mesa, armário, urinol. Há bastante clientes para consumo dessas coisas. Enquanto haja clientes para comprá-la, esta “arte” existe. É claro que se fazem muitas promoções para que o distinto comércio prossiga; para isto superabundam galerias, museus, bienais, trienais etc. É sintomático que essa atividade esteja hoje submetida à vastíssima indústria da publicidade, que a protege e assegura seu progresso e sua persistência. Aqui, e definitivamente, a velha arte perdeu sua autonomia existencial e naturalmente espiritual. E não há que chorar por isto; tentar restaurá-la é uma tarefa anacrônica, condenada de antemão como uma das muitas restaurações das quais a história da arte ainda recente conhece tantos episódios fracassados.

Os artistas, os críticos, estetas e até sociólogos, condutores do mundo das artes e de outras coisas das grandes metrópoles, sabem melhor que ninguém que o “revivalismo” é uma falsa solução e, conscientes desta falsa via, eles se lançam na direção contrária ao vanguardismo.

Nestas metrópoles pós-industriais, de avanços tecnológicos vertiginosos, as vanguardas artísticas sucedem-se dia a dia, levadas por uma necessidade premente de mudar o produto para contentar uma clientela que não gosta em geral de investir no já visto, como os artistas, principalmente jovens, tampouco gostam de repetir o que se está fazendo. Não é mudança de estilo, como nas grandes épocas, o que se verifica no domínio das artes plásticas é antes a estilização ou o processo de modernizações que se comemora todos os anos nas feiras e salões de automóveis nas grandes capitais da Europa e América.

Nos países da periferia, na faixa do subdesenvolvimento, as vanguardas também aparecem, mas aqui seu propósito seria antes o de afirmar-se como up to date. Elas têm, entretanto, os olhos postos nas irresistíveis mudanças ditadas pela lei da civilização do consumo pelo consumo, quer dizer, a dos grandes mercados. Por isto nossos artistas “de vanguarda” estão sempre correndo atrás para alcançar a ultimíssima novidade. Esta corrida – as estatísticas o demonstram cada vez mais – é uma vã e triste ilusão. Os países pobres e subdesenvolvidos já não podem alcançar o avanço dos ricos.

Essa disparidade verifica-se também no campo da arte. Aqui, igualmente, a quantidade se transforma em qualidade. Na fase histórica em que estamos vivendo, o Terceiro Mundo, para não marginalizar-se de todo, para não derrapar da estrada do contemporâneo, tem que construir seu próprio caminho de desenvolvimento, e forçosamente diferente do que tomou e toma o mundo dos ricos do hemisfério norte. A história cultural do Terceiro Mundo já não será uma repetição em raccourci da história recente dos Estados Unidos, Alemanha Ocidental, França, etc. Ele tem que expulsar de seu seio a mentalidade “desenvolvimentismo”, que é a barra em que se apóia o espírito colonialista. Este implica a estilização do automóvel e seus complementos que vão até o vestir, a casa, o viver, a decoração, a recreação. Para o seu desenvolvimento, Tanzânia preferiu o ensinamento da China; Saigon, o de Washington. O símbolo do progresso daquela foi a estrada de ferro, o deste foi o bordel. São estas as opções fundamentais. Pela lentidão mesma do seu desenvolvimento, a arte dos nossos países já não poderá repetir a evolução dos países industrializados. A civilização burguesa imperialista está num beco sem saída. Deste beco não temos que participar – os bugres das baixas latitudes e adjacências.

As populações destituídas da América Latina carregam consigo um passado que nunca lhes foi possível sobrepujar ou sequer exprimir, quer dizer, fazê-lo teoricamente; porque tal expressão nos chega em livros na maior parte deformados ou disfarçados nas más historiografias de origem metropolitana. As vivências e experiências destes povos não são as mesmas dos povos do norte. São muito diferentes, ainda que suas aspirações sejam contemporâneas. Na verdade, a qualidade da vida, como se diz hoje no jargão político da Europa (França), difere da de nossos povos, como o pisco do vinho. Os pobres da América Latina vivem e convivem com os escombros e os cheiros inconfortáveis do passado. O ultramodernismo e alguns de seus progressos, de molde comumente americano, estão umbilicalmente vinculados a nossas favelas e barriadas. O paradoxo é que estas são as que não mudam, como não mudam a miséria, a fome, a pobreza, choças e ruínas. Mas é por aí que passa o futuro. Aqui está a opção do Terceiro Mundo: um futuro aberto ou a miséria eterna. Necessariamente, instintivamente, esse futuro recusa os produtos ultramodernos das áreas adiantadas da civilização “transnacional”, que de futuro só apresenta a aparência. Efetivamente, o que ela nos propõe como futuro são na realidade variantes do status quo que o imperialismo trata de defender por todos os meios, inclusive a guerra. A única arte susceptível de renascimento, quer dizer, de encontrar continuidades culturais imprevisíveis ou não suspeitadas não pode resultar de idéias abstratas, deduzidas do progresso permanente do cosmopolitismo multinacional. No entanto é desta derivação abstrata que se nutre o processo da sucessão obrigatória das vanguardas já aqui analisadas (O mapa das escolas, ismos e estilos que se sucederam a partir, digamos, da pop art anglo-americana, indica a origem derivada dessas sucessões).

A tarefa criativa da humanidade começa a mudar de latitude. Avança agora para as áreas mais amplas e mais dispersas do Terceiro Mundo. A miséria, a fome, a pobreza podem conduzir ao desespero suas populações (assim o crê e disto adverte à sua gente o presidente do Banco Mundial, o Senhor McNamara), mas elas não estão contagiadas o bastante pelos poderosos complexos sadomasoquistas que reinam na sociedade da riqueza, da prosperidade, da saturação cultural, para serem levadas ao suicídio coletivo. É mais lógico que se espere delas algo mais positivo para arremeter-se contra o status quo. Existe mesmo em processo, em andamento, um pouco por toda parte, um projeto a realizar, condição sine qua non para conceber o futuro, ou seja, manter aberta, para todos, uma perspectiva desimpedida de desenvolvimento histórico. O que é isto senão uma revolução? Sim, uma revolução. A única realmente susceptível de mobilizar os povos da maioria da humanidade. A única positivamente concebível como a tarefa histórica do vigésimo primeiro século.

Somente dentro deste contexto universal será possível pensar no engendramento de uma nova arte. Será esta uma das faces mais vitais deste prisma revolucionário em gestação nas entranhas convulsas dos povos que Fanon chamou os “danados da terra”. Puro visionarismo? Dá no mesmo. É talvez um ponto de partida metodologicamente necessário para abarcar em sua totalidade a vasta problemática apocalíptica da divisão dos povos do planeta entre o imperialismo, seus satélites e acaudilhados, tacitamente mancomunados para defender, em última instância, por todos os meios, o status quo, e a imensa maioria dos outros, de preferência de raças não brancas, condenados como por uma maldição bíblica à fome e ao atraso. Quem esquece esse dilema preliminar não pode falar. Já está mobilizado pelo outro lado, pelo lado de cima. Já se colocou, mesmo que não o saiba, na outra perspectiva de que nos fala Samir Amin.

Daqui se pode entender a profunda diferença entre o que ainda se conhece por arte no hemisfério dos ricos e imperiais e o que pode ou deve surgir em nossos mundos deserdados.

A arte, na medida em que existia entre os burgueses imperialistas, é cada vez mais um claro capricho, de luxo, estetizante, que se consome a si mesmo, indiferente a tudo o mais. Estudando o panorama da arte de seu tempo, em pleno triunfo do fascismo, Walter Benjamin via no manifesto futurista de Marinetti sobre a guerra da Etiópia “a perfeita revelação da arte pela arte”, o coroamento de sua suprema palavra de ordem: flat art, pereart mundus. Comentando este alto pensamento da estética fascista, Benjamim alcança tal acuidade que suas palavras de então, 1936, são de uma atualidade espantosa: “Ao tempo de Homero, a humanidade se oferecia em espetáculo aos deuses do Olimpo; ela se fez agora seu próprio espetáculo. Tornou-se ela bastante estranha a si mesma para conseguir viver sua própria destruição como um gozo estético de primeira ordem”.

Uma geração depois do filósofo, quando uma segunda guerra imperialista passou, mais devastadora ainda que a primeira, a arte continuou sua carreira inexorável para o acaso, ainda que esta carreira não se fizesse linearmente e sim aos tropeções, com fulgurantes espasmos revolucionários, que Dada e o Surrealismo anunciaram e Marcel Duchamp, à sua maneira incorruptível e laica, acentua nos momentos do anti-vaticínio e da contestação permanente. Consciência não profética, mas no fundo sistemática da negatividade, ele preside a evolução estética-não-estética do século. Atrás dele vêm os artistas de hoje, com suas proclamas revolucionárias. Um deles começa por refazer sua descoberta do ready made, mas substitui o primeiro exemplo histórico, “o urinol”, pelo corpo vivo e belo de seu próprio modelo: é Pierre Manzoni, que morreu aos trinta anos, em 1965, não se sabe de quê. De si mesmo? Depois, da mesma família, chegam os protagonistas da “arte corporal”.

Como que se amparando ainda no mestre incomparável e distante, atacam-se ao próprio corpo, invocando a tonsura que Duchamp se havia feito na cabeça, sob a forma de uma estrela. É impossível não evocar as velhas palavras de Benjamin, em face das experiências revulsivas destes ultralógicos nihilistas da “arte corporal”: “Tornou-se (a humanidade)... bastante estranha a si mesma para... viver sua própria destruição como um gozo estético de primeira ordem”. E logo a figura de Rudolf Schwarkogler nos vem à mente: um ano mais moço que seu êmulo italiano quando morreu (1969), este jovem artista austríaco, arrebatado por seus impulsos autodestrutivos e narcísicos, inconformado com os determinismos atávicos da vontade de ser, iniciou uma série de atos de agressão ao próprio corpo e acabou por cortar o pênis, imolado a obscuras idéias (ou purgas?) pelas quais se matou. Esses atos de agressão ao corpo, objeto de adoração, de repulsa e ódio, abrem a série de ações que querem ser edificantes para a família da “arte corpórea”.

Seria simples demais, além de injusto, identificar formalmente a “estética destes artistas, cujo pensamento explícito é negar toda estética”, com a atitude tão claramente sádica de Marinetti e seus seguidores. Há uma diferença substancial entre os Marinetti de então e os artistas da “arte corporal” de hoje. Naqueles, os determinismos sádicos predominavam e Marinetti cantava de gozo ao espetáculo da destruição dos negros da Abissínia sob os bombardeios aéreos dos fascistas italianos, pálidos precursores dos bombardeios supermodernos dos americanos contra os vietnamitas de nossos dias.

Nos artistas de agora, os atavismos que pesam sobre eles, sejam alemães austríacos, italianos, americanos, franceses, são tão complicados que escapam à análise. Não se oferecem aos outros como espetáculo, como faziam Marinetti e seus fascistas; se dão a si mesmos, pois seu corpo é seu objeto, o objeto de sua busca. A destruição volta-se contra eles mesmos, contra o que não são em seu ser mesmo, pura autodestruição, é esta que se dá em espetáculo – e espetáculo que pretende ser edificante. Querem edificar pela autodestruição. O ato estético, que sempre negaram, transforma-se em ato moral. Como qualificar tais ações? Como testemunho de um condicionamento cultural final, sem abertura, nem existencial nem transcendental. O ciclo da pretensa revolução fecha-se sobre si mesmo. E o que resulta é uma regressão patética sem retorno: decadência. Aceitam a morte como inevitável, em nome da saturação cultural e da irracionalidade invencível da vida. Chegam ao cul de sac perfeito. Entretanto, abaixo da linha do hemisfério saturado de riqueza, de progresso e de cultura, germina a vida. Uma arte nova ameaça brotar.

JOÃO

Um diálogo com João Saldanha,
o lendário jornalista que virou técnico
da seleção brasileira de futebol.

Por Vitor VieiraVersus 5 • agosto de 1976

A partida do Stanislaw Ponte Preta machucou? A partida do Neném Prancha incomodou? O time do Posto 4 de Copacabana não existe mais? Você não joga mais bola na praia? Mas e daí? Dizem que você não passava de um razoável peladeiro (você não aceita esta). “Lá, eu fui um bom, um craque”. É, alguns amigos dizem que você tinha classe. Que matava a bola no peito. Que deixava ela escorregar. Que entregava a bola de primeira. “Ele não ficava muito tempo com a bola.”

E, agora, eu o encontro nesse apartamento do Leblon, quase à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas. Não é uma boa hora, concordo. São 9:30 da manhã. Você me oferece um Toddy. Eu nem sabia que isso ainda existia. “Lá ra ra ra lá, nós somos os patrulheiros Toddy”. Nesse apartamento você está sozinho. Você e sua bronquite.

Desculpe-me. Eu quero ouvir histórias, você não quer contar. Dá uma entrevista de duas horas e depois diz: “Bom, eu não sei o que você vai fazer com tudo isso. Dá para escrever um livro”. Saio com a impressão de que fui tratado como repórter de jornal laboratório de escola de jornalismo. Depois começo a alinhavar tudo. E chego a me perguntar: terei que chegar aos 52 anos para ter essa paciência, essa bondade, essa quase resignação, essa paixão?

Escuto um quase discurso monologado nesse seu modo pausado de falar, com tom grave, e me esforço para ficar atento. Mas eu não vou mentir, João, minha imaginação está no Estádio Universitário, na Cidade do México, com as aventuras de Garrincha que li no seu Subterrâneos do Futebol, e que vou lembrando, agora, quando escrevo esta história, e que vocês vão ler em negrito, e que será publicado em contraponto ao que eu ouvi, naquele momento, do João, que me falava de um diálogo filosófico de 2500 anos atrás.

Garrincha está com a bola. O jogo é duro, com o River Plate, da Argentina. Só esse time tem 10 titulares da seleção. Os grupos de mariaches se rivalizam.

De um trecho dos Textos Esportivos da Antigüidade, em uma edição francesa muito velha, “uma relíquia”.

– Eu tenho que tomar muito cuidado com meus livros. Especialmente com o Paulo Mendes Campos. Ele é um grande ladrão de livros. Um dia parei ele na porta e disse: olha, me devolve esse livro aí.

Cem mil espectadores olham Vairo, o lateral esquerdo e olham Garrincha, que vem com a bola. O “torto” passa, Vairo fica com as pernas para o ar.

– Esse negócio é muito sério. Veja o que dizia Sócrates: “Você não acha, Glaucon, que só a ginástica atrofia o homem?”.

Só a torcida mexicana, com seu traquejo de touradas, poderia, de forma tão sincronizada e perfeita, dar um “olé” daquele tamanho. Toda vez que Mané parava na frente de Vairo, os espectadores mantinham-se no mais profundo silêncio.

E Glaucon, um filósofo grego da segunda divisão, como time do interior, retrucou: “Mas você não acha, Sócrates, que só a cultura musical também atrofia o homem?”.

Ôôôôôôô-lê. O som do “olé” mexicano é diferente do nosso. O deles é o típico das touradas. Começa com um “ô” bem prolongado, em tom bem grave, parecendo um vento forte, em crescendo, e termina com a sílaba “lê” dita de forma rápida. Verdadeira festa. Num dos momentos em que Vairo estava parado em frente a Garrincha, um dos clarins dos mariaches atacou aquele trecho da Carmem que é tocado na abertura das touradas. Quase veio abaixo o Estádio Universitário.

– É preciso que se diga que os gregos tinham um senso bem mais completo de cultura musical, que eles entendiam por tudo que se referia ao desenvolvimento do intelecto.

O jogo terminou empatado. Vairo não foi até o fim. Vairo saiu rindo e exclamando: “No hay nada que hacer. Imposible” – e dirigindo-se ao suplente que entrava, gozou: “Buena suerte, muchacho. Pero antes, te aconsejo que escribas algo a tu mamá”.

O telefone toca. Está meio enguiçado. Chamam da redação de um jornal. Querem sua opinião a respeito de Geraldo José de Almeida, o Bola-Bola, que está mal, no hospital.

– É um negócio chato isso, nem gosto de falar. É um tipo maravilhoso. Com um enorme amor pela vida. Nem parece um sujeito que já tem sessenta e tantos anos, pela vitalidade, pela disposição. É um tipo incrível. Ajudava todo mundo, e vivia num miserê danado. Mas sempre com aquela mesma feição.

O pequeno intervalo é para mexer com uma idéia marota.

– Ele levou 14 ternos para a Copa do Mundo. E 20 e tantas camisas. Dormia no meu quarto. Ele levava uma malinha com a roupa, não chegava a ser uma roupa rota, mas de trabalho. Mandava passar tudo aquilo e parecia que estava saindo para um banquete. Parecia um Lord. Bom sujeito.

Uma chave gira na porta da cozinha deste pequeno apartamento. Entra a pretinha, a empregada.

– Quer alguma coisa, seu João?

– Não. Olha, você conseguiu dormir à noite? Eu ainda dormi, fechei a porta. Esses salafrários aí do lado não encheram muito com aquela barulheira de música?

Lembro então de como o vi pela primeira vez. Eu o procurava nos corredores do Maracanã e você caminhava à minha frente, lento, em direção às cabines de rádio. Dia de jogo de Fluminense e Vasco. Você pára e olha o público, o olhar perdido. Mas está com a atenção fixa. Quer saber por que aqueles soldados estão na marquise do estádio, armados com metralhadoras. Isso foi um dia antes. Agora estou à sua frente.

– Então você vê companheiros e coleguinhas, no nosso ramo de atividade, acho que nós fazemos parte, querendo ou não, da intelectualidade brasileira, eu acho que, no Brasil, a partir do curso secundário, o indivíduo é um intelectual, mas você vê caras inteiramente dedicados à cultura, e que não se dedicam, já não é nem um problema pessoal, está bem que eles se atrofiem, ao esporte. E a verdade é que eles têm má saúde. Saúde, o intelecto deles, embora seja da melhor qualidade, não vai funcionar bem durante muito tempo.

Olho para o canto da sala, perto da janela, para a mesinha onde devia estar sua máquina de escrever. Mas ela foi roubada, por ladrões que não respeitaram sua tarde de domingo, quando você estava no estádio para comentar um jogo do Flamengo. Na certa estavam observando seus hábitos. Você mesmo acha que foi assim.

– A sociedade, quer dizer, o homem, descobriu a importância do exercício físico para ele poder se desenvolver. O que é mal, e a Olimpíada é um exemplo fiel disso, um dos grandes males é que o povo brasileiro não participa dos esportes.

Nesta manhã de segunda feira, recordo do programa de televisão da noite passada. Em uma mesa em forma de “U”, sentavam-se repórteres de campo, comentaristas, locutores, jogadores e alguns dirigentes. Por duas horas trocaram idéias, comportadinhos, e eu tinha a impressão de uma falta ali.

– Mas é também importante se notar que, se você vê algum desenvolvimento esportivo do centro do Brasil para baixo, para o sul, não vê nenhum para o norte. Porque você conta com uma saúde muito precária e incapaz para os esportes. Entretanto, o futebol no Brasil se transformou em um esporte de primeira qualidade. Isso se deve a uma série de coincidências, étnicas e etnológicas, a culpa não é minha, e nem da história, é da formação.

É João, acho que a culpa também não é sua de que você tenha entrado desde já para a história. Lembra, João, do que disse para os jornalistas que foram à sua casa quando você foi escolhido para técnico da Seleção Brasileira? “É pessoal, vão ter que me desculpar, mas aqui em casa, por enquanto, só tenho cerveja gelada para oferecer. A grana tá curta. Pedi demissão dos meus quatro empregos, ainda não recebi e o dinheiro da seleção vai demorar para entrar”.

É engraçada a sua relação com comida, bebida, refrescos. Eu me lembro agora dos lances que envolveram sua dispensa da seleção. Foi no dia 17 de março de 1970. Você chegou à sede da CBD para a reunião. Os cartolas todos lá, sem jeito. Você foi franco.

– Eu estou demitido também?

A Comissão Técnica é que foi dissolvida.

Você deveria ter desconfiado João, ou você já sabia. O outro João era muito conhecido. Aliás, o nome dele não era como o teu, um João sonoro e brasileiro. O dele era Jean. Mas você não baixou a cabeça. E da sua boca irreverente e valente saiu quase um palavrão.

– Dissolvido, não, que eu não sou sorvete.

Quac! Essa é uma frase de parar legião romana em formação de cunha. Como é que o Jean reagiu? Assim:

– Então, está demitido.

E o que você fez? Nada. Parece que você não é cara de esperar. Consta que foi embora sem ouvir os motivos de Jean. E que encontrou à porta um repórter que não lhe agradava, que escrevia declarações suas entre aspas. E o que disse para ele?

– Não sou mais técnico da Seleção, e como você está na minha lista negra, podemos tirar a diferença no mano a mano a qualquer hora.

“Mano a mano”? Mas que língua é essa? Você andou escutando tango? Dizem que você gosta mesmo dessas fanfarronadas. Eu não vi, mas ouvi muito contar esta história, de como você fez o Manga correr a tiro. Engraçado, mas não é você que conta essa história. Alguns o recriminam pelo que fez, logo você, que diz gostar tanto dos jogadores. Seu velho amigo Jacinto de Thormes
é que não se faz de rogado:

– O João tinha insinuado que o Manga estava na gaveta em um jogo do Botafogo. E o Manga disse que ia pegá-lo e lhe dar uma surra. A coisa estava mal parada. Mas o João não se incomodou. Tinha que ir a um banquete no Botafogo e sabia que o Manga estaria lá, que iria logo em sua direção para brigar. Então ele planejou uma coisa e ainda avisou para os amigos. Pensou ir ao banquete, armado, e, quando o Manga se aproximasse para a briga, daria um tiro em direção aos seus pés. Disse e fez.

Mas que coisa. Como imaginar o resultado disso? Como ter certeza de que o Manga sairia correndo? Parece filme de mocinho. Mesmo assim ainda contam a história errada, dizem que foi no campo, depois de um treino. No entanto, você ficou o resto do banquete comendo. Você continua brigando?

E aquela história da briga com o motorista? Sua amiga Szu Szu Vieira conta direitinho. Você saiu do cinema com sua mulher. Chovia, o motorista do táxi não queria parar. Você xingou. Ele parou. Um sujeito magro e fino daquele jeito não podia ser parada para aquele motorista. Só podia estar armado, o motorista concluiu rápido. Desceu com uma barra de ferro na mão. Você o chamou para a briga no braço. Que motorista burro! Largar a barra de ferro, só para você pegá-la e desancá-lo a pau.

Você ainda briga? Eu o olho e tenho a impressão de que não. Fico pensando na sua recente internação. Você me diz que parou de fumar. Meu cinzeiro já está cheio e você ainda não fumou um cigarro sequer. O ex-fumante inveterado. Fico envergonhado, tento um pedido de desculpas. Seu gesto é quase o de um “não tem importância”. Mas ainda briga sim, porque discutiu feio no jornal, outro dia, quando lhe disseram que um comentário seu tinha avançado o sinal.

Talvez por isso é que você é você mesmo.

– Quando a gente afirma que o Brasil tem o melhor futebol do mundo, e corre o risco de deixar de tê-lo, é que o futebol aqui é paixão popular. Eu qualifico o futebol dentro da arte, da arte popular. Ele é, sem dúvida. Há gente que pratica o futebol, em forma de pelada, que seja, não importa. Esse é o aspecto esportivo, aspecto do desenvolvimento físico, da educação do corpo. Agora, mas há gente que vai assistir ao futebol. Estádio só lota com o artista. Aquele que atrai grande multidão, que enche o circo, o campo de futebol, é um artista. Evidentemente é desse futebol que nós estamos falando, do futebol dos artistas. Podemos ter, e quase já atingimos, uma espécie de apogeu. Nós podemos disputar em pé de igualdade, neste único ramo de atividade, com qualquer país, em qualquer época, em qualquer lugar, lá ou cá. Aqui, então, é barbada pra nós. Maringá até nem digo, Maringá é invicto. Lá nenhuma seleção européia ganha. Maringá é fogo!

Por que você não escreveu outro livro além de “Subterrâneos do Futebol” para falar disso tudo, de como está encarando o futebol agora? Um cronista razoável, já disseram. Mas você foi elogiado por Jorge Amado. E quem vai dizer que Jorge Amado não escreve bem? Sei que você não quer escrever mais, que se encheu com a história do primeiro e único livro, que não lhe rendeu quase nada. De como os vendedores saíram do Rio em sua companhia, com um monte de livros, lhe acompanhando numa dessas tantas excursões do futebol; de como foram aconselhados a vender por um preço maior, coisa que eles fizeram, mas sempre se esquecendo de apresentar o relatório na editora com o verdadeiro preço de venda.

Sem outro livro a gente tem que ficar lembrando coisas para que elas não se percam, como estas “Por que o Brasil tomou esse gosto? Porque, no começo, o futebol era um esporte muito caro, uma coisa só de grã-fino, quase como o golfe, ele vivia exclusivamente do material importado. A bola, quando furava, tinha que se esperar que viesse outra da Europa, que um navio chegasse e trouxesse outra. A chuteira, aqui jogavam de sapato, mas jogavam no São Paulo Athletic, no The Paissandu, na Light, no The Great Western, no The Bangu, no The Corinthians, no Rio Grande do Sul, na cidade de Rio Grande, que era o time da Swift, tudo de ingleses, de frigoríficos, fábricas de tecidos e outros. Já brasileiros, que se ligavam a eles, gente vinculada ao comércio externo, também jogavam. Não podia ser um esporte de massa... qualquer encouraçado inglês, passou um encouraçado inglês aí, o “Exeter”, e deu em todo mundo. Quando uma Seleção Brasileira ganhou de um encouraçado, foi um banzé, todas as fábricas apitavam. Parece que foi em 1910, por aí. Bom, um encouraçado inglês que aparecer por aqui, hoje, apanha de cem. Aliás, apanhou. O 1º Distrito Naval, jogo entre eles, puro amadorismo, enfiou oito ou nove num encouraçado que passou por aí outro dia. Entretanto, o nosso nível era de um encouraçadinho, um desses pequenininhos que tem por aí, um cruzador, sei lá, não sei o nome dessas coisas”.

Depois você fala da evolução da indústria, que socorreu nosso futebol. De como as bolas passaram a ser fabricadas aqui, de vários números, a 2, a 3, a 4, e a famosa número 5, a bola oficial, o sonho de todo garoto, um pedido sempre renovado na época do Natal, ou perto da época do exame de admissão ao ginásio. E como, por aí, o futebol pegou conteúdo e nível de massa, e como o clima favoreceu muito. E você pensa no garoto brasileiro, que anda descalço.

E aquela história, a da fábrica alemã? Você põe sua mão em cima do microfone, para não registrar o nome, mas eu posso dizer: a Adidas. Ela fez uma pesquisa de mercado no Brasil, não foi? O que aconteceu?

– Eles viram que não adiantava botar uma fábrica de tênis para várias modalidades esportivas aqui, porque não tinha comprador. Nós fabricamos uma pequena quantidade de calçados, calçados comuns, e nossa indústria é obrigada a exportar. Ela não faz nem 20 por cento da necessidade que deveria ter o Brasil. Isso significa o quê? Que o brasileiro anda descalço. E o clima do Brasil é o único que permite jogar futebol descalço, o ano inteiro, com exceção de um inverno mais rigoroso, do Paraná para baixo. Mas no resto do Brasil se joga o ano inteiro descalço.

Tem também o problema do preconceito, e dessa perseguição sem sentido à criança. Talvez eles sejam até seus amigos, ou conhecidos, mas você fala um pouco com raiva deles. De caras como Lúcio Costa.

– Essa teoria de que quem joga futebol é moleque ainda se encontra até hoje, em alguns urbanistas, inclusive os urbanistas que fizeram Brasília, os que fizeram Jacarepaguá, ou outras urbanizações de sentido prévio, o BNH, lá em Natal, onde eles fizeram habitações para 20 mil pessoas e não fizeram uma quadra de vôlei. Ué, onde é que as crianças vão brincar? Se em Brasília não tem no plano piloto, o Lúcio Costa esqueceu de botar área para esportes, em Jacarepaguá ele botou no plano que é proibido ter campo de futebol. Aqui, no centro-sul do país, tínhamos cerca de 30 mil campos de futebol e agora não temos nem mil. Porque desapareceram os que estavam perto de Porto Alegre, de Curitiba, os que estavam perto de São Paulo.

Quanta amargura, João! E essa paixão que se vai embora, lentamente, fugindo sem jeito de se impedir. E não foge mais rápido porque a gente se agarra desesperado às lembranças. Você lembra, João, da Gazeta Esportiva, que tirava dois ou três cadernos de desafios de clubes no sábado, e que tirava outros tantos cadernos na segunda, para dar os resultados daqueles clubinhos? Você diz que isso era a base do sustentáculo da Gazeta. E ela está correndo perigo, e o futebol está correndo um perigo muito sério. Porque os campos de pelada estão desaparecendo no mundo inteiro.

– No mundo inteiro não, no Brasil. Na Holanda estão se desenvolvendo prá burro, na Alemanha, nos países pequenos, na Bélgica, na Itália. É só aqui. O governo brasileiro se caracteriza pela falta de patrimônio. Nem governos municipais, estaduais e federal têm grande patrimônio. Isso vem das capitanias. As capitanias transformaram o território brasileiro em propriedade particular. E nas cidades elas também existiam. Tinha a légua de sesmaria no campo e tinha o lote na cidade. Loteamento, do particular. O governo fez Brasília, loteou e vendeu, caramba!

Onde estão os campos ali da Moóca, Alto da Moóca, Vila Prudente, e pra lá, onde está a Ford, e seguindo adiante, Vila Zelinda, ou então seguindo para Cubatão, Ribeirão Pires? Ali era uma várzea só, dos dois lados. Onde estão os campos de pelada? E pro outro lado, Vila Matilde, passando Tatuapé, Quinta Parada, ali também, Arthur Alvim, ali também era um campo só. Acabou. E Vila Formosa, Vila Ema, ali perto do Belenzinho, acabaram, não tem mais. Ali, a Vila Guilherme, no Canindé, na Avenida dos Estados, quem sobe para a Glória, ali era um campo só, perto da Rua Independência. Lá, no Carandiru, perto do Campo de Marte, minha Nossa Senhora, que barbaridade, lá na margem do Tietê, onde tem a ligação da Dutra com a Anhangüera. Lá, onde é verdade, as enchentes acabavam de vez em quando com as peladas. Tem só um ou outro.

É, é uma ironia dizer que nosso futebol cresceu e se tornou no que é por causa da amplidão do espaço. João, e os políticos, o que eles estão fazendo? Ora, dá para se acreditar nessa gente? E nós não temos aí o campeonato nacional para dar um exemplo?

– O campeonato nacional está se tornando até meio ridículo. De 54 clubes, você pode tranqüilamente formar três, quatro divisões, dado o desnível. Procura se nivelar por leis e decretos. No esporte isso é absolutamente impossível. Está sendo contrariada uma espécie de lei natural. E esse rolo todo. Em Belém do Pará, o presidente da Liga quer forçar o Remo a fazer uma coisa. Ele é de um partido, e o presidente do clube de outro. No Espírito Santo a mesma coisa. O Vitória devia entrar no campeonato. Mas aí apareceu um político de maior prestígio que inventou uma jogada, e o Rio Branco entrou no lugar. Sacaram o Vitória. Não adiantou provar que o Vitória não tinha nem um jogo sub judice, porque aí a Loteria Esportiva já tinha feito os talões da boloteca, ou moloteca, sei lá, mais um tipo de jogo que vão fazer aí. Então, é o que se viu, um prejuízo imenso, mas como a Loteria tem patrocínio nacional, a Loteria disse que não, é o fim da picada, a Loteria está organizando até a tabela.

Isso é futebol? Homem, que graça você vê nisso? Aliás, vê alguma graça? Eu pergunto pelo seu primeiro contato com o futebol. E você diz: o mesmo de todo mundo. Não é verdade. Você pensa um pouco e concorda. Conta uma das poucas histórias que eu vou ouvir. De como você foi ao Campeonato Mundial Universitário de 1938, na França, em Nice.

Tempos difíceis, a Segunda Grande Guerra Mundial está pronta para começar. E vocês jogando. Gente interessante. Os austríacos estão participando desse campeonato. Faz um frio muito forte. Os campos estão largamente enlameados. Vários dos austríacos não podem voltar para casa. São judeus. E vocês, quanta grandeza no coração, oferecem a taça a esses pobres austríacos e encerram o campeonato no meio. Que bela homenagem! Você tem a alma de um estudante, João. Aliás, como é que você, até hoje, tem só um pulmão? Contam muitas histórias, eu não sei. Você não diz. O que me disseram é que perdeu um deles em Porto Alegre, no seu tempo de estudante, protestando, e recebendo o castigo.

E a sua filha, que está na Europa? João, quantos casamentos você teve? João, deixa de amar tanto a tudo. João, para quê? Você está se irritando com o que estão fazendo com o jogador, com o torcedor. Ontem, quando eu o procurava, depois do encontro marcado, quase desisti de pensar nisto. Um garoto, camisa do Vasco em cima do corpo, chorava como poucas vezes vi alguém chorar, pela derrota de seu time. Eu não queria pensar. Não, João, não desista. Dê-lhes o exemplo de Silva Rocha, você o entregou a mim. Um homem de perseverança, capaz de apontar no Portugal de Salazar para problemas graves.

– “Nossa população universitária aumentou, de 58 a 68, em 110 por cento. E esse pessoal, não vai fazer ginástica?”

Está certo, ele foi corrido do país, mas voltou. Você mesmo não diz que acha que ele voltou agora?

Quanta coisa você já viu. Quanta aparente criancice, e só você percebendo a grandeza onde outros se recusavam a vê-la. E aquela vez que queriam afastar os crioulos da festa do clube? E aquela vez que o time do Botafogo se recusou a tomar um avião, na Colômbia, e obrigou o piloto a decolar e fazer umas demonstrações para que todos tivessem certeza da eficácia do aparelho? E quando você viu uma revolução, derrubando o ditador Pérez Giménez, na Venezuela, tudo transmitido pela televisão no Curaçau, ali, em frente à costa da Venezuela? E a zona das mulheres em Curaçau, vivendo em um campo de concentração? E a história do Sete Bóias e sua Cremilda, uma dentadura roubada pelos companheiros de time? E o prêmio que o Botafogo pagou, talvez o mais insólito na história do futebol, para a bailarina que acompanhava Garrincha em um torneio de bolero, em El Salvador, porque ele abandonou o concurso quando você entrou no dancing?

Saio de sua casa com tudo zunindo na minha cabeça. Preciso pegar um avião, rapidamente. Mas uma frase baila na minha mente. Você falava ainda a respeito da necessidade de aliar o cuidado com o corpo com o cuidado pela mente. E você solta sua última piada, nessa manhã ensolarada do Rio de Janeiro, referindo-se aos intelectuais “Esses caras todos brancos, que não agüentam o tranco. Ai, ai, ai, não me bate que eu sou escritor”.
João, voa daí, vem prá perto da gente.

A ética da conquista

A história do Frei Bartolomeu de Las Casas, que há
séculos tentou proteger a vida dos índios da América e
defendeu uma colonização pacífica, contada pelo líder político
José Martí, mártir da independência cubana.

Por José Martí Versus 5 • agosto de 1976

Quatro séculos é muito, são quatrocentos anos. Há quatrocentos anos viveu o Padre Las Casas, e parece que está vivo ainda, porque foi bom. Não se pode ver um lírio sem pensar no Padre Las Casas, porque com a bondade foi ficando da cor do lírio, e dizem que era lindo vê-lo escrever, com sua túnica branca, sentado em sua poltrona pregada com tachinhas, lutando com a pena da caneta, porque esta não escrevia depressa. E outras vezes se levantava da poltrona, como se o queimasse; apertava a testa com as duas mãos, andava de um lado para o outro no seu claustro a passos largos e parecia sentir uma grande dor. Estava escrevendo seu livro mais famoso A destruição das Índias Ocidentais, os horrores que viu nas Américas, quando chegou da Espanha o conquistador. Seus olhos brilhavam, e ele se sentava outra vez, com os cotovelos na mesa, com a cara cheia de lágrimas. Assim passou a vida, defendendo os índios.

Licenciou-se na Espanha, o que era alguma coisa naqueles tempos, veio com Colombo à Ilha Hispaniola, num daqueles navios de velas infladas pelo ar e como uma casca de noz. Falava muito a bordo, e com grande eloqüência. Os marinheiros diziam que era grande seu conhecimento para um jovem de vinte e quatro anos. Ia alegre no barco, como quem vai ver maravilhas. Mas desde que chegou começou a falar pouco. A terra sim, era muito bonita, vivia-se como uma flor, porém aqueles conquistadores assassinos deviam vir do inferno, não da Espanha! Espanhol ele também era, e seu pai e sua mãe, mas por que em dez anos já não existia um índio vivo dos três milhões que havia na Hispaniola? Ele não os caçava como cachorros, para matá-los nas minas; ele não lhes queimava as mãos e os pés, quando se sentavam, porque já não agüentavam andar ou caía-lhes a picareta porque não tinham mais forças para trabalhar; ele também não os chicoteava até que desmaiassem porque não sabiam dizer a seu amo onde existia mais ouro; ele não gozava ao ver os índios caírem por não poder com o peso do carregamento de ouro; ele não vestia a capa que chamavam ferreruelo, para ir muito pomposo à praça, ao meio-dia, ver a queima de índios pela justiça do governador. Ele os viu serem queimados, viu-os olhar com desprezo da fogueira para seus verdugos e nunca mais pôs seu gibão preto, nem carregou o bastão de ouro, como os outros licenciados ricos e gorduchos, mas foi consolar os índios nos montes, ajudado apenas pelo seu bastão de galhos de árvores.

No monte, os índios tinham ido para se defender dos espanhóis. Como amigos tinham recebido aquele homem branco de barbas, eles o tinham recompensado com seu mel e seu milho, e o próprio rei Behechio lhe deu como mulher sua filha Higuemota, que era como a pomba e a palmeira real, eles lhes haviam mostrado suas minas de ouro, e seus rios de água de ouro, e seus adornos, todos de ouro fino, e lhe tinham posto sobre sua couraça e luvas de ferro da sua armadura, pulseiras e colares de ouro; e aqueles homens cruéis que os atavam em cadeias? Roubavam suas índias, e seus filhos aprisionavam nas minas bem lá no fundo para sustentarem a carga de pedra com a testa, dividiam-nos como escravos e os marcavam a ferro. Naquele país de pássaros e frutas os homens eram belos e amáveis, mas não eram fortes. Tinham o pensamento azul como o céu e claro como os arroios, não sabiam matar escondidos debaixo das armaduras de ferro, e com o arcabuz carregado de pólvora. Com ossos e gomos de plantas não se pode atravessar uma couraça. Caíam como as plumas e as folhas. Morriam de penas, de fúria, de cansaço, de fome e de mordidas de cachorros. O melhor era refugiarem-se nos montes junto ao valente Guaroa e com o menino Guarocuya, para se defender com pedras, com a água, para salvar o reizinho bravo, Guarocuya. Ele, que pulava o arroio, de margem em margem; ele cravava sua lança longe, como um guerreiro; na hora de andar ele ia na frente, sua risada era ouvida através da noite, como um canto; o que ele não queria era ser levado nos ombros por alguém. Assim iam pelos montes. Assim iam pelo monte, quando apareceu entre os espanhóis o Padre Las Casas, com seus olhos tristes no seu gibão e sua capa curta. Ele não disparava a sua arma contra eles; ele abria-lhes os braços. E deu um beijo em Guaroa.

Já na ilha todos o conheciam, e na Espanha falavam dele. Era magro e tinha o nariz muito comprido e a roupa caía do seu corpo e não tinha outro poder senão seu coração, mas de casa em casa andava jogando na cara dos donatários a morte dos índios em seus domínios; ia ao palácio pedir ao governador que mandasse cumprir as ordens reais; ia aos portões dos tribunais para dizer aos auditores com muito espanto que tinha visto morrerem seis mil índios pequenos de uma vez. E os auditores lhe diziam: “Acalme-se, licenciado, que já haverá justiça”; e punham as luvas nos ombros e iam tranqüilos merendar com os donatários, que eram os ricos da América e possuíam tudo do bom e do melhor. Nem merenda nem sonhos existiam para Las Casas; sentia na sua própria carne os dentes dos cachorros molosos, que os donatários soltavam sobre os índios; parecia que era sua mão que jorrava sangue, quando sabia que tinham cortado a mão de um índio porque não conseguiu agüentar a pá; achava que era o culpado de toda a crueldade porque não podia terminar com ela. Sentiu como os índios americanos eram pouco a pouco seus filhos. Como advogado não tinha forças e estava isolado, como sacerdote teria a força da Igreja e voltaria à Espanha e daria o recado dos céus, e se a Corte não acabasse com os crimes e com a escravidão, faria a Corte tremer. E no dia que entrou para o convento todos na ilha foram vê-lo, com assombro pela súbita mudança de um licenciado de fortuna que, pelos seus beijos, as índias deixavam que ele passeasse com seus filhos menores.

Então começou seu meio século de lutas, para que os índios não fossem escravos; de luta na América, de luta em Madri; de luta contra o próprio rei; contra toda a Espanha, ele sozinho. Colombo foi o primeiro a enviar índios à Europa para pagar as roupas e comidas que os navios espanhóis traziam ao novo continente. E na América já tinha havido a divisão de índios para a servidão. A rainha lá da Espanha, dizem que era boa, mandou um governador tirar os índios da escravidão, mas os donatários deram ao governador o bom vinho e o encheram de presentes, e sua parte nos lucros foi mais que nunca os mortos, as mãos cortadas, os escravos e os soterramentos nas minas. “Eu vi trazerem manietadas estas amáveis criaturas e todas juntas serem mortas como ovelhas”. Foi esta a Cuba de Diego Velásquez, hedionda. Numa ilha de quinhentos mil índios, ficaram onze. Eram aqueles conquistadores soldados bárbaros, que não conheciam os mandamentos da lei, e ensinavam aos índios a doutrina cristã, golpes de chicotes e as mordidas de cachorros! De noite, sem dormir, pela angústia, fala com seu amigo Renteria, outro espanhol de ouro. Temos que ir pedir justiça ao Fernando de Aragon! Embarcou numa galera simples e foi ao encontro do rei.

Seis vezes esteve na Espanha, com a força da virtude, aquele padre que não comia carne. Nem do rei tinha medo, também não temia a tempestade. Ficava na coberta mesmo em dias de mau tempo; e na bonança passava o dia na ponte apontando suas idéias no caderno de fio de pano, e dando o tinteiro para que o enchessem “porque a maldade não se cura sem dizê-la e existe muita maldade para ser contada e eu a estou colocando onde ninguém a possa negar nem em latim, nem em castelhano! Se em Madri o rei pudesse ser encontrado no palácio, antes dele, Las Casas, ir até uma hospedaria descansar, ia vê-lo. Se estava em Viena, quando o rei Carlos da Espanha, também imperador da Alemanha, vestia outra vez o hábito e lá ia ele para Viena. Se era o seu inimigo Fonseca quem convocava e mandava na junta de advogados e clérigos que o rei utilizava para assuntos da América, a ele ir ver para processá-lo no Conselho das Índias. Se o cronista Oviedo, por ordem e serviço dos donatários, escrevia mentiras sobre os americanos ele o taxava de mentiroso, ainda que o rei fosse um dos interessados nas mentiras. Se Sepúlveda nas suas histórias justificava o direito dos reis de repartirem a servidão no Novo Continente, atacava a Sepúlveda dizendo que culpa não tinham os que nunca souberam da existência de Cristo, nem soubessem da linguagem que Cristo falou, e que tinham de Cristo como única notícia as marcas de seus arcabuzes. E se o rei em pessoa franzia a testa, como para interrompê-lo, sua voz ficava mais forte e grave, com o punho levantado, dizendo ao rei, cara a cara, que quem governa a homens tem o dever de cuidá-los, e se ele não os sabe cuidar, não os pode governar, e que tinham que ouvi-lo em paz, porque ele não tinha outra arma senão as manchas de ouro na sua túnica branca, nem outra defesa senão a cruz.

Ou falava ou escrevia sem descanso. Os frades dominicanos o ajudavam, e no convento dos frades ficou oito anos escrevendo. Sabia religião e leis, autores latinos, que era o que se aprendia na época, mas tudo era usado com habilidade para defender os direitos do homem à liberdade, e o dever dos governantes de respeitá-los. Isso era muito, por causa disso os homens eram queimados e o rei, vestido de gala, ia assistir ao ato, com a rainha e os nobres, para ver a Inquisição executar sua tarefa. Fonseca e Sepúlveda queriam que o padre Las Casas cometesse nas suas lutas algum pecado contra a autoridade da Igreja, para que os inquisidores o queimassem por heresia. Mas o padre dizia a Fonseca: “o que eu digo foi o que disse a Santa Rainha Isabel no seu testamento” e você não o aceita porque eu com isso tiro o pão de sangue que te alimenta, e acuso a capitania que você tem na América”. E a Sepúlveda, que já era o confessor do rei, dizia: “Você é um combatente famoso e te chamam o Lívio de Espanha, pelas tuas histórias, mas eu não temo ao eloqüente que fala contra seu coração e que defende a maldade e te desafio para que me proves em discurso que os índios são malfeitores e demônios, quando na verdade são claros e bons como mariposas”. E a discussão com Sepúlveda durou cinco dias. Este começou com desdém e acabou confuso. O padre olhava-o com a cabeça baixa, os lábios tremendo e a fronte inchada. Enquanto Sepúlveda sentava-se satisfeito, como aquele que fincou um alfinete onde quis, o padre ficava de pé, magnífico: “Não é verdade que os índios do México fizeram cinqüenta mil sacrifícios por ano, mas vinte apenas, que é muito menos do que a Espanha sacrifica por ano na forca. Não é verdade que sejam gente bárbara e de pecados horríveis porque não existe pecado deles que não o tenhamos em maior tamanho os europeus; não somos nós, com todos os nossos cantões e nossa avareza, que poderemos nos comparar a eles na ternura e no amável; nem é para tratá-los como feras, porque eles possuem virtudes, poetas, ofícios, e governos e artes!

Não é verdade senão iniqüidade que o modo melhor que tenha o rei para fazê-los seus súditos seja exterminá-los, nem a melhor maneira de ensinar-lhes religião seja jogar-lhes na cara em nome da religião os trabalhos forçados; e tirar-lhes os filhos e a comida; e colocá-los na carga como parelhas de bois”. E citava versículos da Bíblia, artigos de lei, exemplos históricos, parágrafos de autores latinos tudo cheio de grande vigor e beleza, como as águas da correnteza, arrastando na espuma as pedras e os detritos dos montes.

Só esteve na luta; só esteve quando Fernando, que ninguém se atrevia contrariá-lo e que também não quis contrariar os conquistadores que lhe enviavam o ouro em grandes cargas; só com Carlos V que de pequeno o escutava com veneração, e depois o traiu para levar a cabo planos ambiciosos, e não estava com disposição para defender o clérigo contra todos os interesses da América, que lhe enviava tributos; só quando Felipe II, que passou um reinado tentando conquistar outro, que ao morrer deixou tudo morto, envenenado e frio, como um buraco onde uma víbora passou a noite. Se ia ver o rei não podia encontrá-lo porque a ante-sala estava cheia de donatários, vestidos em seda e chapéus de pena, com colares de ouro extraídos pelos índios. O mesmo acontecia quando queria falar com um ministro, porque este também era donatário e tinha minas, ou então gozava dos frutos que possuía em nome de outros. Com medo de perder os favores na Corte, mesmo os que não tinham interesses na América, não o ajudavam. Os que mais o respeitavam por bravo, por justo, por eloqüente, não queriam dizer, ou diziam que não o ouviam, porque os homens costumam admirar os virtuosos enquanto não estão sendo tocados seus lucros e seus interesses, mas quando eles se põem no seu caminho, baixam a cabeça ao vê-los passar, ou dizem maldades deles, ou os cumprimentam pela frente e os apunhalam por trás. O homem virtuoso deve ser forte de ânimo e não ter medo da solidão, nem esperar que os demais o ajudem, porque vai estar sempre só: mas com a alegria de trabalhar bem, com o céu do futuro limpo.

E como era tão sagaz que dizia coisas que não ofendiam nem ao rei, nem à Inquisição, senão que pedia bondade com os índios para o bem do rei, e para que existissem mais cristãos, não tinham os da Corte nenhum modo de não agradá-lo na frente, chegando inclusive a outorgar-lhe o título de “Protetor Universal dos Índios”, com a assinatura do próprio Fernando, mas que não acatavam sua autoridade protetora; e outra, ao cabo de quarenta anos de meditar, disseram-lhe que pusesse seus pensamentos no papel porque achava que os índios não deveriam ser escravos; e outra, deram-lhe permissão para levar trabalhadoras da Espanha à colônia de Cumaná onde veriam os índios com amor, e na Espanha foram encontrados somente cinqüenta elementos que quiseram realmente trabalhar no lugar. Os quais foram vestidos com túnicas com uma cruz no peito, mas não puderam estabelecer a colônia porque o adelantado tinha chegado antes deles com tropas e armas, e os índios enfurecidos disparavam suas flechas contra todos os que portavam uma cruz no peito. Por fim encarregaram-no, como que para distraí-lo, de pedir as leis que pareciam-lhe justas para os índios: “quantas leis quisessem; porque por lei, mais ou menos, não devemos brigar”, e ele as escrevia e o rei mandava cumpri-las, mas no navio ia a lei e o modo de desobedecê-la. O rei concedia-lhe uma audiência e fingia que seguia seus conselhos, mas logo a seguir entrava Sepúlveda, com seus pés brandos e seus olhos de raposa, trazendo recados dos que mandavam ouro nos galeões e o que se punha na prática era o que dizia o conselheiro. Las Casas sabia bem, mas não por isto baixou o tom de suas acusações, nem deixou de contar em suas Descrições as crueldades cometidas contra os índios. O nome dos maus não os escrevia porque era nobre e tinha-lhes compaixão. Escrevia como falava, com a letra forte e desigual, cheia de manchas de tintas, como um cavalo que leva o cavaleiro que quer chegar logo e vai levantando o pó e tirando faíscas das pedras.

Foi o bispo, mas não de Cuzco que era um bispado rico, mas de Chiapas, onde pelo longe que estavam do vice-rei, os índios viviam na pior escravidão. Foi a Chiapas, para chorar com os índios, mas não só, porque com lágrimas e queixas não se vence os bandidos, senão acusando-os sem medo, falando em conselhos de justiça, com discursos que eram ternos e terríveis ao mesmo tempo, e deixavam os donatários como árvores depois do vendaval. Mas os donatários podiam mais que ele, porque tinham nas suas mãos os governos e compunham cantares acusando-o de mau espanhol e traidor, tentando atemorizá-lo com tiros de arcabuzes na porta da sua casa. E rodeavam seu convento armados, todos armados contra um velho magro e só. E até foram ao encontro dele no caminho da Ciudad Real para que não voltasse à cidade. Ele vinha acompanhado de dois amigos espanhóis e um negro que o estimava como a um pai; porque é verdade que Las Casas aconselhou que substituíssem os índios por negros que resistem melhor ao calor, mas logo que viu esses homens sofrerem se arrependeu dizendo: “com meu sangue eu gostaria de pagar o pecado que cometi quando aconselhei a vinda dos negros pelo meu amor aos índios”. Com seu negro carinhoso e os espanhóis ele vinha caminhando. Vinha para tentar salvar a pobre índia que o abraçou nos joelhos à porta de um templo mexicano, louca de dor porque os espanhóis tinham matado seu marido que tinha ido rezar num templo. E percebeu que eram as índias as sentinelas que os espanhóis puseram para impedir seu caminho. Ele dava-lhes sua vida e os índios vinham atacá-lo a mando dos seus senhores! Não se queixou, senão disse: “Por estes meus filhos terei que lutar mais, porque de tão martirizados que estão já não sabem defender sua própria vontade”. Os índios se atiraram a seus pés pedindo perdão. Entrou na Ciudad Real onde os donatários o esperavam armados de arcabuz e canhão, como se estivessem preparados para a guerra. Quase às escondidas o vice-rei o enviou de volta à Espanha para que não o matassem. Ele foi embora de volta para o seu convento espanhol, a lutar, defender, chorar, e escrever. Morrendo sem cansar-se aos noventa e dois anos.

Glauber Rocha: eu e o cinema
fotogramas de uma vida

O mais importante cineasta brasileiro não queria ser
entrevistado. Temia a mistificação de seu nome. Era um dia
chuvoso no Rio de Janeiro. Mas depois que ele começou,
falou durante quase quatro horas para os dois repórteres.

Por Mário Augusto Jacobskind e Toninho Mendes
Versus 6 • outubro de 1976

Cena um: na casa de Glauber. Ele começa a falar da infância.
Rápida aceleração para o futuro e o presente.


Eu, Glauber Rocha, uma máquina na mão, uma idéia na cabeça, cineasta do Terceiro Mundo, odiado por mentes colonizadas, confesso que nasci em Vitória da Conquista, sertão sul da Bahia, fronteira com Minas Gerais, aos quatorze dias de março de 1939.

– Esclareço que não sou rico, apesar do que falam as colunas sociais. Um dia destes eu li debaixo do título “glauberianas”, no “Globo”, que o Glauber estava montando a ópera “O Guarani”, com Caetano Veloso, que o Glauber vai fazer treze filmes para a TV Globo, que o Glauber vai fazer filmes pra TV sobre Antônio das Mortes. Tudo isso é mentira.

– Objetivamente, eu tenho dois livros para lançar. Agora, vou publicar um livro sobre cinema, que vai sair provavelmente em dois volumes, Cinema Um e Cinema Dois. São vinte anos de trabalho crítico cinematográfico e teórico. E tem outros textos que eu escrevi que não são de cinema, alguma coisa de ficção, poesia, crítica ou outro tipo de atividade literária, que eu acho que é o momento de publicar.

– Informo: estou atrás de um editor. Mas não tenho muito tempo para seguir o livro. É como produzir um filme complicado. É um processo cansativo, filho da p...

– Projeto de filme também existe; “A Idade da Terra”. Este eu sei que a Embrafilme não financia. Vai achar perigoso. Este, capitalista não financia, porque não é comercial. Mas vou fazer este filme, na velha forma do Cinema Novo. Vou produzir o filme, vou emprestar dinheiro, vou assumir as responsabilidades capitalistas para fazer o filme que vai sair a partir de novembro, dezembro.

– Sempre estou em crise financeira. Porque a única forma de você ter
liberdade mental transando com o capitalismo é não reconhecer o capital. Então eu sou constantemente roubado, dragado e explorado, e não paro de filmar para pedir contas, se fizer isso não filmo mais.

– Quando o sujeito quer aliar o capital à criatividade, se aliena. O capital sobe, a criatividade desce.

Cena dois: flash back.
Nos colégios da meninice de Glauber, no sertão sul da Bahia.
Casa, escola, casa.

Mãe: família protestante. Criadores de gado, mas não grandes proprietários. Pai: de família de pequenos agricultores de cacau. Zona de Ilhéus.

– De forma que fui criado dentro da religião protestante, da seita Batista de Sion. Mas estudei o primário em Conquista, num colégio católico oficioso, porque meu pai era ateu, e não tinha colégio protestante na cidade. Mas logo, pra fazer o ginásio, a minha família se transferiu pra Salvador. Isso também aconteceu em função dos negócios do meu pai, que era comerciante, e depois foi construtor de estradas de ferro e de rodagem. Em Salvador, tinha um colégio norte-americano, olha só como o imperialismo também penetra pela região. Um colégio norte-americano, da Organização Mackenzie, que também tem em São Paulo, e foi um dos primeiros colégios protestantes da seita presbiteriana instalados no Brasil. Um colégio pras elites, pras minorias protestantes, porque as elites brasileiras são católicas. Mas o colégio Mackenzie abrigava minorias protestantes, judaicas, árabes, filhos de diplomatas, e alguns católicos mais rebeldes, então eu estudava no Colégio Dois de Julho, onde os professores norte-americanos educavam os alunos no amor e na dedicação aos Estados Unidos, falando em inglês.

– O protestantismo proíbe fumo, jogo, dança. Mas o sujeito se batiza aos dezoito anos. Quer dizer: até os dezoito anos é livre para escolher.

– O protestante não adora imagem, não adora santo, não impõe ritual. O Colégio Dois de Julho era misto. Os dormitórios eram separados, mas durante o dia os rapazes conviviam com as moças. Tinha muita festa, encontro, e a gente podia namorar – isso, no começo dos anos 50! Então, até 53, estudei em colégio norte-americano, curso de ginásio, onde, por protesto, não aprendi inglês, entrei em choque, fui expulso do externato. Mais tarde, aprendi a falar inglês, mas, nessa época, inconscientemente, eu era antiimperialista, transando com esses pastores que eram terríveis nas punições. Fui expulso do internato, por brigas, rebeldias. Aí eu fiz o clássico no Colégio Estadual da Bahia, que é o colégio público, já fora do internato, nem católico, nem protestante – e foi assim pelos anos 54, 55, 56. E vestibular para Faculdade de Direito.

Cena três: o rapaz que não tem cabeça pra matemática, ora, vai pra editoria de polícia!

Então, o nosso personagem morava nas províncias da Bahia. Se o coitado está querendo fazer cinema, nesta época, não faz mesmo, porque não tem laboratório, nem capital, nem nada. Então, Glauber Rocha volta a falar:

– A província confina. Então, é tradicional na Bahia, que é uma cidade universitária das elites, o sujeito começa no Direito, vai pro jornalismo, e termina deputado – eu escapei. Nunca quis ser médico, engenheiro, era fraco nas matemáticas, não tinha jeito pra ciência experimental, não era ligado ao racionalismo imediato. Então, se escolhe entre a Filosofia e o Direito, mas eu nunca tive vocação para estudar Filosofia, e esta Faculdade exigia muito esforço no vestibular, e você tinha que se dedicar àquele negócio, e como eu nunca quis ser professor universitário, tinha mais tendência pra política, e era mais ligado ao cinema e ao jornalismo, preferi fazer jornalismo cotidiano, e crítica de cinema em jornais semanais. Em 58, criou-se o Jornal da Bahia, com um grupo de novos jornalistas de lá, o Inácio de Alencar, Florisvaldo Mattos, Paulo Gil Soares, Fernando da Rocha Félix, o gravador Calasans Neto, quer dizer, um grupo muito forte. Entrei como repórter de polícia, chefe da edição de polícia e crítico de cinema, e ainda acumulei o cargo de diretor do suplemento literário. Quer dizer: só podia entrar na Faculdade de Direito. O vestibular era facílimo, e eu podia fazer política no Diretório. Entrei para a imprensa universitária, dirigi a revista Mapas, participei de jornais. Tinha clube de cinema na Bahia, que era um negócio muito importante, e eu entrei em contato com o Valter da Silveira, que era crítico de cinema. Primeiramente¸ nós organizamos o teatro, isso exatamente em 1955, que se chamava Jogralesco Teatralização Poética, que encenava poesias brasileiras, de preferência, e que tinha um sentido nacionalista, contra um tipo de estética importada que se fazia no Brasil, principalmente no sul. Naquela época, estava surgindo, na mesma linha, o Teatro de Arena em São Paulo, reação ao TBC – e a toda uma cultura alienada. Estava no começo, também, o concretismo que era uma cultura colonizada e formalista. Mas nosso espetáculo foi proibido pela censura, que não aceitou nossa coreografia, que era realmente blasfema, buñuelesca, desafiando o santo catolicismo baiano. Muita gente protestou pelo país, foi um caos. Mas, nesta época, eu entrava para o Jornal da Bahia, como ia dizendo, e acumulava algumas funções porque precisava de dinheiro, queria casar! Ficava na redação copidescando textos, reportagens, mas cheguei a fazer entrevistas e reportagens na penitenciária, já acusando as aberrações judiciárias. Saí do setor policial, depois de três anos, e fiquei fazendo só crítica de cinema. Depois fui para o Diário de Notícias, dos Associados, onde fiz várias coisas: copidescagem, diagramação, um suplemento literário, que dirigi por três ou quatro anos, no governo liberal de Juracy Magalhães. Aí comecei a escrever para o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, que era dirigido pelo Reinaldo Jardim.

Cena quatro: ora bolas, Hitchcock! Ora, bolas, Joyce!
Ora, bolas, Pound! (O crítico irado).

Dois anos de Glauber Rocha no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil. Era o jornal mais bonito do Brasil. Os rapazes na província suspiravam olhando as páginas do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil. Era o mais bem mais diagramado, era o mais louco, o mais estranho, onde se lia as melhores coisas.
Anos 61, 62. Glauber Rocha declara que:

•Escrevia artigos sobre o cinema brasileiro.
•Era um crítico (duro) do cinema estrangeiro.
•Era um crítico (duríssimo) do cinema convencional.
•Analisava a questão do colonialismo cultural.
•Brigava com a crítica tradicional que não entendia que o problema do cinema brasileiro era um problema da estrutura econômica-política-cultural do país.
Glauber Rocha filmou “O Pátio”, na Bahia, e veio para o Rio montar, aí conheceu quem? Carlos Diegues, Joaquim Pedro, Leon Hirshman e outros cineclubistas que escreviam para o jornal “O Metropolitano” (O Metropolitano da União Metropolitana de Estudantes. O melhor jornal estudantil da história do Brasil. Era dirigido por Cacá Diegues, que era da União Nacional dos Estudantes).

Começa uma transação entre cariocas, paulistas e baianos: as raízes do Cinema Novo. Estão jogando semente: Glauber, Amorim Lucena, Luis Paulino dos Santos, Roberto Pires, Paulo Emílio Salles Gomes, Almeida Salles, Gustavo Dahl, Jean Claude Bernardet – alguns eram críticos, professores, gente nova de cinema, o pessoal da Cinemateca, no Rio.

O Cinema Novo (aqui, Glauber retoma a palavra) já tinha o embasamento teórico nos artigos de Paulo Emílio, Gustavo Dahl, Jean-Claude, publicados no Suplemento Literário do Estado de S. Paulo, onde faziam uma revisão global do cinema e deixavam teses definitivas. Inclusive, hoje, já não se escreve isto no Brasil. E nada disto é conhecido, o que é absurdo, deviam até republicar urgentemente estes textos. Por exemplo, Paulo Emílio escreveu uma tese chamada Uma Situação, ou seja: explicava que a miséria estética vinha de uma situação econômica colonial. Quer dizer: reinvertia as interpretações idealísticas dos críticos que ficavam discutindo se o cinema brasileiro era bom ou não, se os diretores brasileiros eram bons ou não, sem querer aprofundar o complexo econômico, histórico e social que gera qualquer produto cultural, sobretudo o cinema que é um troço industrial, que custa cara a produção. E que a distribuição depende da competição com os Estados Unidos, em suma, com o imperialismo. Também o Jean-Claude Bernardet colocou problemas importantes a respeito da ideologia e da mise-en-scène, criticando a forma convencional dos filmes imperialistas, demonstrando como essa linguagem era sustentáculo de uma ideologia profundamente reacionária, que os críticos engoliam e que o público aceitava irresponsavelmente, de filmes fascistas e de direita como os filmes da CIA e de Hitchcock. O Gustavo Dahl escreveu um texto muito importante, chamado Coisas Nossas, que era uma ruptura com o cinema estrangeiro e uma colocação do cinema brasileiro enquanto produto brasileiro típico mesmo. Essa coisa nova seria para o cinema quase um manifesto de Oswaldo de Andrade para a literatura. Dizia: vamos às nossas coisas!

– O Pátio nasceu da minha experiência concretista. Quer dizer, eu, escrevendo no Suplemento Dominical do JB, estava rompido culturalmente com o concretismo, porque o concretismo pregava uma sintetização emergente, como é o Brasil – um país que está aprendendo a falar. Então, você não pode criar um parâmetro estético da produção poética. Ao mesmo tempo, o concretismo colocava discussões no nível da estrutura bastante interessantes, era desmobilizador de certas conversações e introduzia noções importantes do espaço e do tempo. Os concretistas diziam que eram oswaldianos, mas não eram. Eram anti-oswaldianos. Porque eles importavam a literatura de Joyce, de Pound, em suma, a literatura imperialista, idealista e formalista. Logo mais, houve uma ruptura no grupo concretista. Ferreira Gullar e Reinaldo Jardim romperam com os irmãos Campos (Augusto e Haroldo, n. da r.) e fundaram o neoconcretismo, que já tentava dar uma perspectiva nacional, política e social. Isso foi desembocar no Cinema Novo, Teatro de Arena, Bossa Nova. Depois cada grupo tomou o seu próprio caminho e assumiu as contradições de sua própria prática. E tudo isso vai até o Poema Sujo de Ferreira Gullar.

Era a época do surgimento da Bossa Nova. A transação entre Vinícius de Morais e Tom Jobim na peça Orfeu Negro deu origem à Bossa Nova, que era um troço novo. O nome Cinema Novo é inspirado na Bossa Nova. A Bossa Nova era uma preposição de música brasileira importante. Ela resgatava, de um lado, o samba da condição de subdesenvolvimento. Transava descolonizadamente com o jazz, quer dizer, reaplicando o jazz dentro do samba, criando um estilo novo de harmonia e do cantar, recuperando a tradição sinfônica de Villa-Lobos e da música romântica. O Tom Jobim incorporou tudo isso à Bossa Nova. Muitas letras do samba popular são boas, mas algumas delas são servilistas, como todo o folclore brasileiro, que, inconscientemente, tem muito do servir também. Então, eu não estou de acordo com críticas que se fazem à BN, como uma coisa americanizada, instrumentalizada pelo imperialismo. A música brasileira não se liberta da BN porque Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque – todos são legítimos herdeiros e filhos da BN, e Tom Jobim é o melhor músico que o Brasil tem, o herdeiro de Villa-Lobos.

Na época em que fiz O Pátio, eu estava preocupado com a questão da linguagem. Eu dizia: quero partir de um filme sem história. Não quero narrar nada. Quero criar um clima. Parti de uma montagem dialética – a montagem por contradição, não montagem por narração. O Pátio é uma montagem extremamente formalista, sobre o preto e o branco. Quando eu fiz este filme, vim pro Rio. Fiquei montando na Líder. Preparava a produção do filme Barravento, na Iglu Filmes, com Roberto Pires. Fui deixando a Imprensa. Fui largando os velhos amigos. Passei a andar com a turma do cinema. Na Iglu, se produziu Barravento, que dirigi, A Grande Feira, dirigida por Roberto Pires, Tocaia no Asfalto, também do Roberto Pires. Foi o ciclo do Cinema Baiano. Nessa época, Nelson Pereira dos Santos foi para lá fazer Mandacaru Vermelho. O Anselmo Duarte foi fazer O Pagador de Promessas, Miguel Torres e Aurélio Teixeira fizeram Os Três Cabras de Lampião. Rui Guerra foi fazer Os Fuzis. Nelson voltou pra fazer Vidas Secas. E eu filmei Deus e o Diabo na terra do Sol O Ciclo Baiano: de 1959 a 1964.

Gianfrancesco Guarnieri
Eu e o teatro: uma vida em seis atos

Guarnieri afirma: “Para chegar ao povo,
não é necessária uma nova arte no teatro brasileiro,
mas sim uma nova cultura.”

Por Rui Veiga, Ana Maria de Cerqueira Leite,
Hélio Goldsztejn e Vitor Vieira

Versus 6 • outubro de 1976


Primeiro ato - De calças curtas
“Cheguei da Itália com dois anos e fomos para o Rio de Janeiro. Meus pais eram músicos. Meu pai, maestro; minha mãe, harpista. Estive pouco com eles. Convivi muito, desde a infância, com empregada. Uma delas chegou à minha casa quando eu tinha sete para oito anos. Ficou muito tempo com a gente, uns 12 anos.

Boa moça a Margarida, ensinou coisas importantes para o menino Gianfrancesco. Os pais trabalhavam o dia inteiro, ensaiando ou dando concertos.

Ela me mostrou um lado da vida que, em outras circunstâncias, eu não teria visto. Falo com certa familiaridade de pessoas, convivências com outras classes e os jovens de hoje ficam espantados. Morei em subúrbio e conheço favela. Era um meio de trabalhadores. Mas andei roçando pelo marginalismo mesmo”.


A vida do menino Gianfrancesco: brincar na rua, tinha suas turmas, patotas. Jogava futebol, com bola de meia, ou de papel, amarrada com arame. Quando uma bola destas rebentou, ele levou uma aramada no rosto. Até hoje tem uma marca. Era isso. Brincadeiras de escola. A parte mais chata mesmo era o estudo.

“Até hoje tenho inveja dos meus filhos, porque esse tal de sistema pedagógico mudou muito. Durante minha infância o bom era não ir à aula. Juntava-se uma turma de gazeteiros e se jogava bola”.

Ele aprendia mais na rua. Até com as figuras típicas do bairro, as diversas Chicas Malucas que existem em todo canto. Aquele tipo miserável que perdeu tudo, que ficou sozinha, com quem todo mundo goza, brinca e também tem medo. O menino vai guardar lembranças importantes. Esses personagens vão aparecer mais tarde, em suas peças. Até os nomes são verdadeiros. A Romana, em Eles não usam black-tie. Ela existiu. Era a mãe da Margarida

“Romana, uma mulher de muita sabedoria. Ignorante, não sabia ler nem escrever. Não ouvia rádio porque não gostava. E ficava em um canto, pitando e sabendo de tudo. Mulher que a gente não sabia a idade. Nem Margarida sabia. Essa mulher teve os filhos à beira do rio. Falava-se que a avó tinha sido escrava. Povão brasileiro, típico. Saiu do campo e ficou na cidade. Criou os filhos, uns oito ou nove. Morava todo mundo entulhado num quarto. Eu gostava muito de papear com ela, ouvir coisas do campo e da vida”.

A favela. Também existiu. O Morro do Chico, uma favela muito pequena. Ali mandava Gimba, que não era realmente um malandro. Era mais guarda-costas de bicheiro. Muito forte, forte e brigador. Desses de brigar com duas equipes de policiais e bater nos oito. Parece que despinguelou depois, bateu lá por cima e sumiu. Ficou sete dias sem aparecer.

“Ele era muito respeitado. E eu podia, com dez anos, andar numa barra pesada, porque era amigo do Gimba. Depois soube que esse Gimba, respeitado e tal, abandonou o negócio de bicho e deve estar ainda como salva-vidas, vivendo de turista americano”.

1944 – fim da guerra, bem antes da queda de Getúlio. Época diferente, bem diferente desse clima de banditismo de agora.

Feijoada no morro, comida na mão, que é muito gostoso, até com aquele bolinho na mão. Gianfrancesco teve mulher em puxado de barraco. E a sábia da dona Romana fechando a janelinha que ele tinha deixado aberta, para deixar o casal à vontade.

“Mulher genial. Eu tinha 14 anos e acreditava que tinha arranjado minha primeira mulher na vida. Não era assim. A Margarida tinha arrumado tudo. Fiquei muito chateado, pensei que era precoce e não. Era a Margarida que tinha acertado tudo, planificado. Sei disso, porque ao voltar para casa ela estava me esperando com uma gemada e brincando muito comigo”.

No teatro. Desde os cinco anos acompanhando as temporadas líricas, de pé, do poço da orquestra, ouviu Wagner inteiro. Gostava daquele negócio de palco. Uma mágica extraordinária, refletores, cenários, maquinaria. Conhecia o regisseur. Ópera ainda era muito conservadora. E o regisseur falava da cenografia, da direção. Também não lhe passava pela cabeça ser dessa profissão. Fazer faculdade, ter diploma de médico ou dentista, uma profissão liberal. Qualquer coisa assim lhe passava vagamente pela cabeça. E os pais não forçavam a herança artística. Achavam muito duro. Exigiam talento, talento.

“Eles tiveram muito sucesso, mas foi uma briga. Nunca estavam satisfeitos com as condições de trabalho. Perfeccionistas. Quase todo músico sério é. Meu pai reclamava de tudo – ‘Não tá legal’. Meu pai era um cara que, depois do concerto, se cuspia no espelho. Ele achava que um artista, se fosse realmente um artista, passaria por um enorme sofrimento”.

No colégio de padres a primeira experiência de teatro, amador. Colégio de padres porque a patota da rua estava lá. Na parede do colégio o nome de Mário Brasini, o homem que começou a fazer teatro na escola, no ginásio Santo Antônio Maria Zacharias. E, no recreio, Gianfrancesco descobre que o rapaz que faz o “ponto” está faltando para o ensaio. E também está faltando alguém para representar o personagem de um velhinho, na peça Honrarás Pai e Mãe, uma dessas peças educativas dos salesianos, de fundo moral edificante.

“O castelo pega fogo e o velhinho escapa do calabouço. Entra no salão do castelo e ele, o velhinho, que perdeu o filho, lê em voz alta o que está escrito em um quadro: ‘Honrarás Pai e Mãe’. Eu empolguei meus companheiros”.

Gianfrancesco se torna comediante. Passa a fazer chanchadas. E escreve sua primeira peça, satírica, alegórica, metafórica, uma parábola. Sombras do Passado. Esse negócio de alegoria não é de hoje. Gianfrancesco não suportava o vice–reitor do colégio, um sujeito que obrigava todos os alunos a andar em forma junto à parede, e o primeiro da fila tinha uma régua de vinte centímetros. Ninguém podia andar nem mais nem menos distante da parede do que isso. Gianfrancesco representava na fila: simulava desmaios, mentia que estava se sentindo mal. E o vice-reitor era gago: “segunda Aa”, “segunda Bb”.

Em Sombras do Passado, várias pessoas vão comprar uma casa. Mas eram dominados por uma pessoa prepotente. A peça só passou porque o padre que tomava conta do teatro era muito bom, até largou a batina mais tarde. E os estudantes logo viram que o personagem prepotente era muito parecido com o vice-reitor. Começaram a gritar seu nome durante a representação. Gianfrancesco representou muito bem, foi aplaudido e recebeu congratulações, junto com uma cartinha pedindo que se retirasse do colégio. Ficou então conhecendo a censura.

“Voltei para outro colégio, o Franco Brasileiro, onde comecei a ter um súbito interesse pelo movimento estudantil, quando tinha 15 anos, e levei o negócio muito a sério mesmo. Vi que, se eu não gostava da escola, é porque algo estava errado nela. Percebi a importância da educação para o país e a pouca importância que ele dava a ela. Começou a me vir na cabeça o problema da dependência cultural, da colônia sempre colônia”.

Nesse processo Gianfrancesco Guarnieri chega a ser presidente da Associação Metropolitana de Estudantes Secundários, em 1953, e secretário-geral da União Nacional dos Estudantes Secundários. Por causa do movimento estudantil fica marcando passo no curso colegial.

“Secundarista não era igual a universitário. A gente sentia que precisava pegar essa moçada e dar um pau na máquina”.

Apesar dos dogmatismos próprios do meio, Gianfrancesco vai abrindo sua cabeça, enfiando algumas idéias nela e mudando por outras antes que fiquem muito endurecidas. Porque, todo mundo sabe, quando uma idéia toma conta da cabeça, depois é muito difícil abandoná-la.

E mais uma mudança. A família decide se mudar para São Paulo. Os pais são contratados pela Sinfônica de São Paulo. Ficar no Rio de Janeiro já não era possível. E Gianfrancesco estava ganhando muito pouco nessa época, trabalhando para uma construtora, fazendo o pagamento dos operários, ouvindo todas aquelas reclamações na hora de entregar o envelope. Ao menos, em São Paulo, teria casa de graça. Mas aquelas coisas que tomam uma vida não vão desaparecer de repente. Continua a ligação, em São Paulo, com o movimento estudantil, um movimento que tinha expressão, com participação intensa nas organizações estudantis.

“Foi aí que nós sentimos a falta de um trabalho de ordem cultural. Ninguém pensava nisso. Resolvemos, muito acanhadamente, montar alguns showzinhos na UPES, bem mambembes, e com aquela necessidade típica de interessar, de abrir, de fazer as pessoas acordarem”.

Assim, o menino Gianfrancesco Guarnieri, filho de artistas italianos, homem do povo, amigo no morro, fraterno com sua empregada Margarida, completa sua educação básica e parte para a conquista da parte do mundo que deve lhe pertencer. Começa o segundo ato desta existência.

Segundo ato - O estopim
Em 1948 começa uma revolução no teatro brasileiro. Ela não é acompanhada pelo nosso personagem. Mas ele vai descobrir isso mais tarde. Em 1948 começa realmente uma renovação, mas é mais uma importação do teatro que é feito nos grandes centros, no Exterior. Os paradigmas: a Comédie Française, Old Vic. Então se forma o TBC – Teatro Brasileiro de Comédias.

A elite paulista está fazendo seu teatro e chamando diretores estrangeiros importantes. Eles darão uma contribuição inestimável e irão se esgotar. Mas, se não houvesse este movimento do TBC, iria demorar bem mais o encontro do caminho pelas pessoas do teatro brasileiro. Esses homens, esses estrangeiros, vinham com um desconhecimento completo do país, trazendo o que tinham aprendido, por exemplo, na Academia de Roma. Este era Ruggero Jacobbi. E até que ele era um pouco diferente. Conseguiu descobrir Gonçalves Dias. E escrevia para teatro. E tinha uma peça muito boa, chamada Leonor de Mendonça. Bom Ruggero, de uma cultura extraordinária, uma memória incrível, lia a noite inteira, tinha insônia. Sempre, sempre. O TBC é um estopim. Surgem outras companhias. A de Maria Della Costa, por exemplo.

E, em 1952, a primeira turma de formandos da EAD – Escola de Artes Dramáticas – forma o Teatro de Arena. Não havia sede: só o entusiasmo de Zé Renato, Geraldo Matheus, Xandó Batista. E a turma se reunia em um barzinho da rua Teodoro Baima. Principal problema dos rapazes: enfrentar os problemas de produção. Ninguém tinha dinheiro. Portanto, todos tinham que descobrir uma forma de teatro viável, que pudesse se deslocar com facilidade, atingir o público sem depender das tradicionais casas de espetáculo.
Se não fossem estudantes, qualquer um poderia dizer: gente pretensiosa essa. Mas eram estudantes, e resolveriam seus problemas: fazer teatro realmente para estudante. O que tinha na época? O teatro de Paschoal Carlos Magno, o Teatro Douze, de doze. Todos tinham dado muita gente boa. Mas não era isso que os estudantes queriam.

E surge o cérebro, na forma de um estudante de arquitetura: o Vianinha. Gianfrancesco ainda é um estudante secundarista. Nesse processo, nesses encontros, resolve-se formar um teatro dos estudantes, com universitários e secundaristas. O pessoal se interessa muito e lá, no meio, estão Vianinha e Flávio Império. As citações desses nomes não são gratuitas. São os dois que conseguiram levar a situação até isto.

O primeiro espetáculo do teatro dos estudantes se transforma em uma festinha, um negócio para a “sociedade”, um “tebecezinho” de jovens, com a montagem de uma peça de Lennox Holmes.

Ambiente da época: fofoquinhas, dissenções internas, o teatro dos estudantes começava viciado, com todos os defeitos que se conhece.
Ah, as vanguardas! Em teatro se é de vanguarda só porque se alugou uma garagem e se resolveu montar ali um teatro? Não. Vianinha, Ruggero e os estudantes terão uma conversa a sério. Não, absolutamente, não é isso que eles querem fazer. Montam uma plataforma. Primeiro ponto: ir para as escolas, com um repertório diferente.

Também é necessário promover a iniciativa. E tudo fica um pouco confuso ainda. Outra peça de autor conhecido é montada, uma de Labiche. Parece que os rapazes não sabem como fugir do repertório tradicional, do interessante, do muito engraçado, do puro divertimento.

O TBC fazia isso muito melhor, mas os estudantes vão participar do festival com a peça Está lá fora o inspetor, de Priesley. Há uma badalação na época. O público gosta. Gianfrancesco ganha o primeiro prêmio de interpretação.
Na televisão a “grande dama” Cacilda Becker tem um programa, na TV Record, A Chance na TV. E o prêmio se acumulando, está em 15 mil cruzeiros, e o TPE não tem dinheiro, não tem dinheiro para comprar refletores. Todos se inscrevem: Gianfrancesco, Vianinha, Mariúsa Viana, Raul Cortez e até Pedro Paulo Uzeda Moreira, mais tarde um dos introdutores do psicodrama em São Paulo. Gianfrancesco tira o primeiro prêmio e não fica sequer com dez por cento dele. E está duro. Com esse dinheirinho já podia pensar em fazer algo na vida.

Surge mais uma vez Zé Renato, do Teatro de Arena, fazendo uma proposta para o TPE, para o pessoal do TPE funcionar como support cast nos espetáculos. E o Arena cederia material e assistência técnica. Já é 1955 e o Arena acaba de inaugurar o teatro da Teodoro Baima, que ainda cheira a tinta.

Aparecem os descontentamentos, principalmente entre o pessoal do Arena. Zé Renato era o que mais defendia essa turma jovem, identificada com os interesses do Arena e ainda representando um bom negócio, um grupo de talento à disposição e que não pesava na folha de pagamentos. Montagens seguidas. Em primeiro A Escola de Maridos, de Molière; logo depois uma peça classe B, Dias Felizes, Vianinha e Gianfrancesco decidem: teatro é mesmo o que querem fazer e o que não sabem fazer. Precisam estudar, fazer um curso intensivo, ler o que nunca tinham lido, dedicação full time. E passam o TPE para Beatriz Segall.

Velha mania de estudante. Eles chamam todo o pessoal da Escola de Artes Dramáticas, os críticos, eles levantam a questão e lá está montado, no Arena, um curso intensivo, e duzentas pessoas ficam acompanhando aquilo. Aulas sobre história do teatro, estética, interpretação, direção. Pela primeira vez alguns ouvem falar de Brecht, com Júlio Gouveia. Todo mundo discute muito, há uma intensiva troca de bibliografia.

Zé Renato era o diretor e colocava as coisas na prática. Mas não podia assumir sozinho a continuidade do trabalho. Sábato Magaldi sugere o nome de Augusto Boal. Para o pessoal o nome era afrancesado mesmo: August Boá. Ninguém o conhecia. Um sujeito que vinha dos Estados Unidos. E como todo mundo gostava dos Estados Unidos naquela época! Mas Sábato foi o passaporte para Boal, porque se interessava pelo teatro nacional, pela dramaturgia nacional. Augusto Boal, nada disso. Apenas um descendente de portugueses, nascido no Rio de Janeiro. É que ele tinha ficado algum tempo na Colômbia, estudando dramaturgia, e chegou querendo utilizar a turma nova, riscando a antiga, e ainda acrescendo gente, como Milton Gonçalves, Flávio Migliaccio e José Serber.

Actor´s Studio: uma preocupação nova para o pessoal, através do cinema. Boal surge com essa idéia de pesquisar interpretação. Porque todos sabiam o que não queriam, mas não sabiam ainda o que queriam. Certamente não era o estilo do TBC, esse estilo do Sérgio Cardoso em Hamlet, da Maria Della Costa. Não, vamos estudar um comportamento nosso, que tenha mais a ver com a nossa cultura. E ainda assim persistia o problema da dramaturgia. Todos os rapazes estão cheios de coisas a dizer neste momento, só ainda não sabem o quê. Então, a elaboração de Ratos e Homens se torna muito importante. Muitas discussões, 24 horas passadas dentro do teatro. Logo a seguir, Juno e o Pavão. Esta fase se chama de pré-fase do Teatro de Arena, e vai de 1952 a 1955.

Ratos e Homens. Um marco. Sucesso de público e bilheteria. Ninguém estava acostumado com aquela forma de atuar, largada, os atores relaxados, não na cara, no nariz. Um espetáculo elaborado de dentro para fora. Não era para se aboletar em uma forma e fazer daquela forma. A forma realmente existia porque havia algo concreto a ser formalizado. Os passos seguintes do Teatro de Arena são alguns retrocessos. Zé Renato resolve voltar ao repertório estrangeiro classe B. A única peça nacional desta época, no repertório, é uma que Boal não gosta sequer de ouvir o nome: Marido magro e mulher chata. Um pecadilho de Boal. Mas deu lucro. Depois vem Esta noite é nossa. A burguesia paulista adora e a peça faz enorme sucesso.

E o pessoal ali, sem uma democracia interna, sem muita discussão. A ação correndo lá no palco e todo mundo lá no alto, na cabine de luz, lendo Lima Barreto, Machado de Assis. Esse todo mundo é mais Gianfrancesco e Vianinha.
Aqui ocorre algo de especial com Gianfrancesco Guarnieri. Por puro divertimento, ou seja por que for, ele resolve escrever uma peça nessa época: Eles não usam black-tie. O texto é lido para o pessoal do TPE, na casa de Beatriz Segall. O crítico Sábato Magaldi está lá. E o Arena estava a ponto de abrir falência. Vianinha tinha se mandado para o Rio de Janeiro. Boal, sem ter o que fazer, foi dirigir outra companhia. Aliás, foi dirigir Dercy Gonçalves. Grandes discussões. Ninguém aceitava isto. Só restaram o Zé Renato e o Flávio Império para ser diretor de teatro. E já que estava nesta situação, toca a montar Eles não usam black-tie.

Olha, mas que coisa bem sacada. Um grande sucesso, algo que deu realmente certo. Eles não usam black-tie: Lélia Abramo no papel principal; Eugênio Kusnet fazia o pai; Gianfrancesco, o Tião; Miriam Mehler, a namorada do Tião; Celeste Lima, Tezinha, Riva Nimitz, Chico de Assis, Milton Gonçalves, Flávio Migliaccio é Chiquinho, sob protesto, porque tinha que representar um garoto de dez anos. Esta peça tem um mérito: ser a primeira encenação da dramaturgia nacional atual com temática urbana.

E se completa assim o ciclo que chega ao começo da idade do compromisso de Gianfrancesco Guarnieri, garoto imigrado, brasileiro por paixão, irremediavelmente comprometido.

Terceiro ato - De black-tie
Mil a mil e duzentas pessoas acompanham cada representação de Eles não usam black-tie. A conclusão é simples: é a isso que o pessoal deve se dedicar. Quem tinha se afastado, volta. Nessa época também começam a acontecer as manifestações novas na música, o cinema começa a dar seus primeiros e bem decididos passos. Jorge de Andrade volta a escrever. Época do presidente Juscelino. Há um ambiente nacional em que todo mundo parece respirar. Debate aberto em todo lugar, nas TVs, rádios, jornais. Ninguém conseguia ficar parado, não tinha silêncio, não tinha fossa.

Quarto ato - O Arena
Chapetuba F. C., de Vianinha, já é um passo seguinte, acompanhado por outras representações de autores novos. E eles estão se apresentando até através do Seminário de Dramaturgia. Gimba viaja em 1959. Gianfrancesco Guarnieri volta da Europa, em 1960. Em 1961, mais um passo. O TBC está em crise, por fechar. A classe teatral se mobiliza, vai para a porta do teatro para impedir que isto aconteça. E começa a nova fase do TBC. Só são montados textos de autores nacionais: A Semente, de Guarnieri; O pagador de Promessas, de Dias Gomes, A Estrada, Vereda da Salvação, A Escada e Os Ossos do Barão, todas de Jorge de Andrade. O TBC é assumido pelo governo. E tudo isto muda no ano seguinte. O novo governo já não apóia o TBC, que poderia ter sido nosso Teatro Nacional.

Zé Renato resolve vender o Arena. Boal, Gianfrancesco, Milton, Paulo José, Flávio Império e Juca de Oliveira resolvem comprar o teatro. E tem início nova fase: autores clássicos e nacionais. As remontagens de Eles não usam black-tie, A Mandrágora, O melhor juiz e, o rei (que excursiona pelo nordeste). Em 1963, Gianfrancesco Guarnieri escreve O Filho do cão. A peça fica em cartaz até fins de março de 1964. Mudanças políticas, clima instável, teatro parado. Há um recesso. O Arena retorna à atividade com O Tartufo, de Molière.

Frente à nova realidade política do País, a reação surge em Arena conta Zumbi. E, pela primeira vez no Brasil, é utilizado o sistema do “coringa”, com todos os atores se revezando em todos os papéis. Na mesma linha, a montagem de Arena conta Tiradentes. A última manifestação é a Feira Paulista de Opinião. Em 1968, surge o AI-5.

Quinto ato - A diferença
“Existe um teatro tradicional, que é político; existe um teatro chamado de vanguarda, que pode ser descaracterizado politicamente. Acho que não há uma ligação entre tradicionalismo e outras formas, entre o fato de ser político ou não. Se o autor procura tratar do seu mundo, da sua realidade, se ele quiser realmente se aprofundar, dificilmente vai deixar de ser político. Todas as peças têm o seu posicionamento.

O que não gosto mesmo é das peças de tese, peça de propaganda. Em geral, elas acabam tendo o efeito contrário. Não se pode esquecer que teatro é arte. É indiscutível que, em determinadas situações do processo histórico de um país, o teatro, a forma teatral, pode ser usada em campanhas, discussões. O teatro pode ser usado para a alfabetização, por exemplo. Mas aí já é uma utilização da forma dramática para se ganhar em expressão na busca de um objetivo prático. E isso não quer dizer que estará havendo uma elaboração artística. Essa é a distinção que precisamos fazer, do teatro como uma obra de arte e a forma dramática usada em outro sentido.

Há uma diferença entre fazer política com o teatro e fazer teatro como a forma de expressão de um artista filtrando a realidade. Por teatro político entendo quando um autor não desvincula os seus personagens de uma sociedade igual à dele e procura refletir esse processo em todos os campos, inclusive no campo político.

Essa foi uma grande discussão, em torno do trabalho do CPC no Rio de Janeiro que tinha diferenças bem acentuadas de outras iniciativas, como o Movimento de Cultura Popular, no Recife. O que seria um teatro popular? Seria aquele que procurasse aprofundar sua realidade, procurasse o máximo de eficiência estética para maior comunicação com um público sem qualquer tradição de teatro. O público, por mais ignorante, sabe perceber ao primeiro contato se o autor está querendo lhe impingir algo ou se está lhe apresentando alguma coisa que ele sinta como resultado de uma experiência aprofundada, autêntica, verdadeira e sincera. O teatro popular, que sai do povo e vai encontrar esse mesmo povo, é essencialmente um teatro político.

Essa problemática toda tem que desabrochar em coisas práticas. Todos os problemas têm que ser solucionados na base da terra. Existe um tipo de teatro que escamoteia isso, levando a solução dos problemas para a alienação, querendo demonstrar que na terra é impossível a solução de uma tragédia. Uma visão mais objetiva prova o contrário. É aqui, unicamente, que se pode dar soluções aos problemas e o homem deve agir politicamente, deve chegar a essa consciência.

Desde 1950 temos um teatro de inspiração popular. Digo de inspiração para evitar essa confusão de que teatro popular só pode ser feito para as grandes massas.
É importante distinguir se o teatro se coloca na perspectiva do povo ou se se coloca na perspectiva de determinadas camadas dominantes. Na década de 50 tivemos a procura de um Teatro Nacional Popular, com raízes na nossa cultura, na nossa maneira de ser e nas perspectivas de quem sofre mais agudamente. Foi quando os personagens do nosso teatro deixaram de ser burguesia e os grandes personagens foram figuras do povo. Foi a primeira vez que se apresentou o operariado em cena, não mais servindo como contraponto ao desenvolvimento de uma temática do senhor da terra, mas como temática do próprio homem do campo ou da cidade. Esse teatro que fizemos através de alguns piques isolados de grupos, chegou a atingir uma parcela do que a gente pode chamar de povo.

Em três peças, especificamente, tivemos uma experiência mais profunda de ligação com o povo: Eles não usam black-tie, Revolução na América Latina e O melhor juiz e, o rei. Na medida em que se fale claramente, que não se intelectualize, que não se faça abstrações a ponto de se cair em um papo só para eleitos, então mesmo uma peça feita em redondilhas é entendida e perfeitamente aceita pelo povo. No Norte, o povo dava nota para o que se estava representando. Durante a apresentação de O melhor juiz e, o rei, de Lope da Vega, em uma adaptação minha e de Boal, o público, às vezes, dava nota cem para o lavrador que se opunha às vontades do senhor feudal.

Experiências foram feitas, porém sempre isoladas e sem continuidade. Este não é um trabalho só do teatro. É uma questão de orientação da cultura. Mas acho que é muito importante o trabalho dos grupos periféricos que lidam com teatro popular. É preciso que essas pessoas não se conformem. Sei que há muita dificuldade com o problema do repertório, porque não há qualquer apoio. Esse pessoal realmente trabalha por teimosia. Não são necessários cinqüenta mil refletores para se fazer teatro. Pode-se fazer ainda com um mínimo de recursos precários.

Nosso teatro de espetáculo, em geral, é muito elitista, inclusive na linguagem, o que faz com que o povo sinta que não é coisa dele. Nosso teatro está num compasso de espera. O que precisa reencontrar é a linguagem descoberta já na década de 50. Precisamos estudar os problemas do país e nos aprofundarmos neles. Não se queira esperar também que, com todas as dificuldades atuais, surja um artista importante. Só vai aparecer esse artista quando surgir uma nova realidade. Não estamos exigindo uma nova arte no teatro brasileiro, mas sim uma nova cultura”.


Sexto ato - O circo
O último ato: a criação, a reflexão, cinema, teatro, TV; circo. O que podem as frases diante da vida? Mas as frases existem e são parte da vida.

“Quando Roberto Santos me chamou para fazer cinema no Grande Momento, minha vida mudou. Meu papel era de um cara do povão, eletricista, corredor de bicicleta, que vai casar. O filme é de 1957 e continua sendo exibido até hoje. O cinema tem um caráter de documentação: pode arquivar no tempo manifestações que iriam desaparecer. Outra questão importante no cinema é a relação de trabalho: você está diretamente em contato com o trabalhador. Isto também existe na TV: o contato com a turma da pesada, como eu digo. O teatro tem o perigo de isolar o ator em igrejinhas. No cinema, este contato ajuda a desalienar.

Há muito tempo não nego a TV. Estou dentro da TV. Mas ando meio afastado. Não é um repúdio. Prefiro me dedicar mais ao cinema e ao teatro, porque estão contribuindo mais para o desenvolvimento da dramaturgia do que ela. A TV obriga o indivíduo a exorcizar suas necessidades primeiras e ficar completamente robotizado e colonizado culturalmente. Em alguns casos, existe uma quebra circunstancial desse esquema. Por exemplo: o esforço que o Bráulio Pedroso está fazendo no Casarão, que é uma tentativa de mostrar ao espectador seu país e sua história... Mas entre cada capítulo tem aquele montão de anúncios... e para que o espectador perceba isso, tem que ter visão crítica.

Para elaborar uma peça, sempre faço de conta que não estou trabalhando nela. É deixar correr e esquecer o trabalho. Fico procurando juntar as coisas que mais me tocam e me afetam. Procurando ampliar, entender e generalizar as coisas que acontecem. É um processo interior, com muito de cabeça e de coração. Não anoto qualquer coisa. É nessa hora que começo a discutir com as pessoas sobre o que estou fazendo. É nessa hora em que leio sobre o tema e investigo tudo, ou quase tudo, sobre minha futura peça. E... de repente, vem a vontade e a necessidade de sentar e escrever. Escrever é só o trabalho de bater à máquina, pouco tempo. O que mais me atrapalha é quando eu me detenho e começo a pensar que estou elaborando alguma coisa. O negócio todo precisa vir quase como um vôo. Se eu vejo a coisa como trabalho, então complica tudo”.

Última peça: Ponto de partida
O fundamental em Ponto de Partida é a eterna luta do velho contra o novo. A ação se passa numa aldeia imaginária afastada no tempo. Essa aldeia entra em crise por causa de uma morte. Esse acontecimento será o centro da luta que vai se processar e demonstrar o choque do poderoso e do fraco. Ele será o gerador do elemento novo que se produz nessa crise.

As palavras aprisionadas

Um manifesto de libertação: a busca das palavras implica
linguagem capaz de captá-la. Essa linguagem não é uma fuga,
mas o único caminho para nos levar à débil captação
de uma sociedade e de suas contradições. E da única coisa que
nos interessa: o ser humano sufocado em sua vontade de ser.

Por Marcos FaermanVersus 7 • dezembro de 1976

1 – O repórter e sua perplexidade. O repórter tem diante de si a realidade. A realidade é a indagação a ser feita. A realidade é a natureza e os outros homens. Como entender tudo o que nos rodeia? Como entender os conflitos, as mentiras aparentes, as verdades ocultas? Que instrumento usar no momento da descoberta? Que instrumentos usar na hora da revelação?

2 – Saindo da abstração. A realidade pode ser um homem encolhido à beira de um rio. O repórter é um ser em disponibilidade. Esta é quase que sua essência. Ele está à disposição dos “chefes”, do jornal em que trabalha. Cumpre horários, ordens. Num dia qualquer, uma hora qualquer, é mandado para um lugar qualquer. É sempre assim. Ele poderá ter diante de si este homem ajoelhado no barro, olhando para um rio. O repórter olha para este homem. Procura saber sua história. A reportagem pedida: a vida de uma aldeia, à beira de um rio, corroído pelo mercúrio que mata os peixes que alimentam os homens.

3 – O repórter e sua perplexidade. O repórter recebe ordens. O repórter diante da “pauta”. Os problemas de um Estado diante da poluição. O que dizem as autoridades. O que diz o povo. O que dizem os industriais. As técnicas do repórter: o papel, a caneta Bic, o gravador. Os olhares das pessoas para ele – como o olhar daquele homem ajoelhado à beira do rio, não dá para esquecer. Um homem de roupas rasgadas, um pescador, que me fala com uma linguagem confusa como o vento que bate na água. Uma canoa parada no rio e uma rede. O olhar um pouco louco do homem. O olhar do repórter que cai em suas mãos. Mãos cortadas pelo barro.

4 – Os direitos do repórter e do jornal. A lembrança, diante daquele homem, das perguntas de um outro repórter, das inquietações de outro repórter diante de outra realidade. “Parece-me curioso, para não dizer obsceno e totalmente aterrorizante, que pudesse ocorrer a um grupo de seres humanos reunidos através da necessidade e do acaso, e por lucro, numa empresa, num órgão jornalístico, intrometer-se intimamente nas vidas de um indefeso e arruinado grupo de seres humanos, uma ignorante e abandonada família rural, com o propósito de exibir a nudez, a humilhação e a inferioridade destas vidas, em nome da ciência, do jornalismo honesto, da humanidade e do destemor (...)”.

5 – Saindo da abstração. O repórter em busca da realidade. Com a sua sensibilidade. Com a sua insensibilidade. Em nome de uma Empresa Jornalística. Ouvindo histórias das vidas dos outros. Sugando dos outros a única coisa que eles têm, além do corpo nu: uma história, a sua vida, a sua perplexidade, as suas dúvidas, as suas mínimas certezas. O repórter e sua própria pobreza. E as suas próprias dúvidas e pequenas verdades (e separa grande medo). E o que ele ouviu que era “jornalismo”. E uma linguagem que lhe disseram que era jornalística. Como esta linguagem que lhe disseram ser “jornalística” se adequa aos olhos e às mãos daquele homem à beira do rio?

6 – As lembranças do repórter. “Tudo isto me parece curioso, obsceno, aterrorizante”; disse certa vez um repórter, James Agee, de quem fiz a citação anterior. James Agee. Um repórter. Morreu há dez, quinze anos. Era um garoto quando a Life lhe pediu a história de algumas famílias rurais na época da Depressão, nos Estados Unidos, de onde nasceu uma espantosa reportagem. E Louvemos Agora os Grandes Homens. A Life rejeitou a reportagem de Agee por considerá-la antijornalística. Agee descrevia com minúcias até a respiração do pesado sono de trabalhador. Construiu um documento eterno. Seu relato é obra à altura de Steinbeck. John dos Passos, Faulkner. Quem quiser saber alguma coisa sobre a vida camponesa nos anos trinta terá que ler este relato que a Life rejeitou por considerá-lo “antijornalismo”. O relato seria publicado na forma de livro. Trinta anos depois seria editado numa coleção de antropologia dirigida por Lévi Strauss. Da rejeição em nome do jornalismo para a glória. (As famílias camponesas assassinadas em nome do jornalismo renasceram!).

7 – O repórter e sua formação. Todas estas idéias nascendo na cabeça do repórter a partir da questão da linguagem da imprensa. A certeza que o repórter tem de que muitos colegas ainda têm na cabeça o mito do texto jornalístico e do texto antijornalístico. A certeza de que em nome do jornalismo muitos colegas rejeitariam o texto de Agee e muitos outros textos. A questão do “texto objetivo”. A pergunta: que texto é este? Onde nasce e com quem a técnica jornalística ensinada pelo que é publicado nos jornais e revistas e pelas “Escolas de Comunicação”? Onde nasceram e como as idéias de objetividade e neutralidade? Uma resposta possível: este texto jornalístico, esta linguagem fluente nos jornais surge com a estruturação da imprensa em forma de empresa/imprensa; empresas ligadas diretamente a determinada forma de organização da sociedade, o capitalismo. A linguagem da imprensa norte-americana se disseminando pelo mundo. A expansão de um império e das idéias que o justificam.

8 – Ainda a formação do repórter. A linguagem oficial da imprensa é defendida por muitos jornalistas. Ou não discutida. Ela é implantada nos jornais por jornalistas. Os “Vigilantes do Texto”. Às vezes, os “Policiais do Texto”. Uma arma na mão, a caneta. O direito que ganham de modificar o texto. O texto nasce do olhar do repórter sobre a realidade. Mas um olhar que não baixou para a realidade pode modificar as palavras. A defesa de uma linguagem. O esquecimento de que a “linguagem vem sempre de algum lugar”. De que a linguagem está sempre referida a uma classe social, a um grupo humano. E de que há uma linguagem do poder, como há uma linguagem de crítica ao poder. O quanto pode a linguagem do poder se disseminar pela realidade toda, preenchendo até a linguagem dos sonhos, até se tornar uma linguagem aparentemente neutra e objetiva? A linguagem do poder alcançando até os espaços últimos do senso comum. Pensar em tudo isto. E ainda analisar a forma como esta linguagem se confunde com a expressão jornalística.

9 – Saindo da abstração. Volto ao homem curvado sobre o rio. A responsabilidade que temos diante dele e daquele momento. A necessidade de saber ouvir e de saber descrever. A necessidade de uma linguagem que capte aquela realidade. O jargão jornalístico, economicista, sociologuês pode captar esta realidade? Mas é aquele homem que eu devo descrever, e não uma abstração. Será que é ser “literato” abrir meu mundo até aquele homem, absorver a sua realidade, a sua linguagem – achar as palavras certas para revelá-lo? E uma outra idéia: a relação entre as palavras que vão aparecendo na minha máquina e aquele homem.

10 – Ficção e realidade. Colocando algumas idéias, a partir de James Agee. Numa novela, uma casa ou uma pessoa tem seu significado, sua existência, inteiramente a partir do escritor. No jornalismo, uma casa ou pessoa tem apenas o mais limitado dos seus significados através do repórter. Seu verdadeiro significado é muito maior. O personagem existe num ser concreto, como você e eu. “Seu grande mistério, peso e dignidade estão neste fato”. Outra questão: o jornalismo é um método de trabalho e não uma linguagem. Carlos Fuentes, Rodolfo Walsh, James Agee, García Márquez, Eduardo Galeano, Heródoto, René Chateaubriand, Norman Mailer, Euclides da Cunha – eis os nomes de alguns repórteres. O jornalismo de Agee é menos literário do que sua ficção? O jornalismo de Norman Mailer é menos literário do que a sua ficção? O jornalismo é um método: trabalha como instrumento de descoberta de uma realidade, com formas próprias, anotações, pesquisa. Uma outra idéia: o pensamento escolástico contemporâneo, os intelectuais de gabinete, o pensamento universitário preservando a Arte e a Literatura com Maiúsculas. Esquecendo – em nome de uma visão elitista – o sentido mais contemporâneo do conceito de Escrita. Uma última idéia: muito da melhor literatura brasileira desta década vai ser descoberto (quando???) em alguns jornais e algumas revistas (por quem???).

11 – Manifesto de Libertação da Palavra. A busca de uma realidade implica uma linguagem capaz de captá-la. Conselheiro Acácio em ação??? Essa linguagem não é uma fuga. É o único caminho para nos levar à débil captação de uma sociedade e de suas contradições. E da única coisa que nos interessa: o ser humano sufocado em sua vontade de ser.

A perseguição

Do sertão de Serra Talhada,
onde não se brinca de valente,
narrativas de morte e vingança

Por Caco BarcelosVersus 7 • dezembro de 1976

Os inimigos ali na frente, vendo a sua agonia. Nenhuma facada a mais. Nenhuma agressão. Nunca um Gaia agonizou aos olhos do inimigo. Batista Gaia, o mais corajoso dos Gaias, do alto sertão de Pernambuco, está morrendo num quarto de bordel de Serra Talhada.

Os inimigos continuam ao pé da cama. O velho mal consegue erguer os pés. O corpo esticado sobre a cama já não lhe obedece à vontade. Batista põe a folha do poema para tapar o buraco do pescoço ferido pelo punhal e jamais deixa de encarar os homens que estão de pé com a faca. Se ao menos a menina de 20 anos que está com ele acordasse...

Consegue arrastar o braço pelo lençol ensangüentado. Apóia a mão esquerda na cabeça da mulher. Sacode. Mas ela dorme. A única arma de Batista é a que resta em sua mão: a poesia – que escrevia para ela naquela hora – folha molhada de sangue que joga na cara de um inimigo.

A perseguição
Por que não matam de uma vez esse velho!?
O grito é de uma mulher, veio da boca de mais um inimigo que está no quarto e o velho ainda não sabia. Matem logo! O pedido é da menina loira que fingia dormir. Uma traição a Batista em troca de 500 cruzeiros e de proteção que os três inimigos prometem. A traição parece tê-la enlouquecido. A mulher vê Batista esfaqueado, vivo, olhando e continua gritando matem, matem!

Ela está desesperada quando os três homens terminam de matar Batista com coronhaços de rifles na cabeça, facadas e tiros no sexo. Quase meia-noite, a mulher chora sobre a cama ensangüentada, os 500 cruzeiros estão espalhados no chão e o corpo do velho é arrastado do cabaré até a sarjeta de uma rua escura que sobe no Alto do Urubu, em Serra Talhada.

Serra Talhada fica numa planície, são cinco ou seis ruas paralelas que rodeiam uma praça, as casas são baixas e antigas. Todo caminho termina numa subida. A cidade é cercada por montanhas que têm profundas rachaduras cobertas de vegetação rasteira. Daí o nome Serra Talhada. E em um desses morros que cercam a cidade, no Alto do Urubu, que Vilmar Gaia, um rapaz parecido com Batista, moreno, alto, olhos amendoados, pele de índio, encontra o cadáver do pai. A cabeça esmagada, a camisa em pedaços, sem calças, o sapato trocado de pé e no lado do corpo, o rifle 44 em cima de uma folha escrita pelos inimigos, com data.

Dia 6 de junho de 1971: “Última poesia do velho mulherengo”.
Minha morte é uma justiça. No sertão não se brinca de valente. Os Gaias mataram os soldados. Eu morro com os inimigos na frente.

Sertão de Pernambuco, seca de 1970. A história da morte de Batista começa em 30 de dezembro de 70, durante a grande seca, numa frente de trabalho da SUDENE. Os trabalhadores reclamam pela falta de dinheiro ao engenheiro encarregado do pagamento. Batista está entre os homens que reclamam. Também estava na multidão quando dois soldados da Polícia Militar de Pernambuco, Adalberto Clementino de Moura e Alberto Alves de Moura, começam a agredi-los a pontapés e cacetadas. Os trabalhadores, humilhados, voltam à fila. Mas não todos. Aqueles cinco irmãos com cara de índio se revoltaram. Armados de foices e lambedeiras, cinco irmãos Gaia, Cícero, Eduardo, Tozinho, Antônio e Enoque, matam a dupla de soldados. E o velho Batista Gaia escreve uma poesia em homenagem à vitória da família. Ainda durante a seca, começa a perseguição ao velho, que é assassinado seis meses depois, naquele cabaré, no Alto do Urubu.

Alto do Urubu, voltamos a junho de 71. Morre Batista Gaia e, no enterro, seu filho Vilmar agarrado ao rifle 44, jura vingança.
Ele desconfia dos parentes, dos amigos, até do padre que benze o caixão de Batista. Todas as pessoas que vê para ele são o inimigo. A namorada, o juiz da cidade, as crianças. Vilmar interroga todos que estão no cemitério de Serra Talhada. Faz tantas perguntas que a loira amante de Batista lhe confessa quem são os criminosos:

Três soldados (da 17ª Companhia Militar de Pernambuco) mataram Batista!
Ainda na noite do dia do enterro, Vilmar, 22 anos, de bermudas, chinelo e sem camisa, vai à caatinga e torna-se pistoleiro. Coloca na mata um lampião a 50 metros de distância, apóia o rifle na clavícula, mira, aperta o gatilho e os tiros apagam o fogo mais de 20 vezes nessa madrugada. Amanhecia quando Vilmar é visto atravessando a Praça Nossa Senhora da Penha. Às 8 horas continuava investigando. Vestia apenas a bermuda, com dois revólveres na cintura, quando entra no prédio da delegacia para falar com o delegado Sebastião Nogueira. Seu plano começava a dar certo porque o delegado aceita o seu pedido.

Agora Vilmar, além de pistoleiro, é policial da 17ª Companhia.

Nos primeiros cinco dias na polícia, Vilmar continua nas investigações e ganha dezenas de cartucheiras dos soldados. Conversa sobre o crime pelos corredores e à noite tiroteia em garrafas de cerveja, latas de sardinhas, em alvos cada vez menores. Em uma semana descobre o inquérito sobre a morte do pai nos arquivos da delegacia, e sabe, assim, os nomes dos soldados criminosos.

No dia seguinte à descoberta, o delegado Sebastião Nogueira reprova Vilmar no teste de capacidade intelectual. Ele é expulso da 17ª Companhia e duas semanas depois mata com 16 tiros um dos três inimigos, Arnaldo Cipriano, num bar de Salgueiro, a 300 quilômetros de Serra Talhada.

Fazenda Lavra de Mangueira, outubro de 73. O suplente de comissário, Pedro Inácio, dá uma festa na fazenda. Como fazia o velho Batista, Vilmar entra na festa acompanhado de uma prostituta. Pedro Inácio manda ele embora. Os dois discutem, brigam e depois tiroteiam. Vilmar é ferido no ombro e cai. Do chão ele atira e mata o comissário. O baile continua.

A polícia é avisada do crime e Vilmar dança no salão. Calça e camisa pretas, duas cartucheiras na cintura, ele dança uma rancheira. A prostituta veste uma saia curta a um palmo do joelho e aperta o corpo de Vilmar. Ela rebola, desabotoa a camisa do pistoleiro e beija-lhe o peito na hora em que alguém dá um tiro.

Apagam-se as luzes, é a polícia chegando.

Vilmar está na escuridão dentro da casa cercada pela patrulha. Da janela ele vê que outro matador de seu pai, o soldado Natalício, está na chefia da patrulha. As mulheres gritam e correm do salão, puxadas pelos homens. O último a sair na porta do salão é Vilmar Gaia, com rifle na mira de Natalício, que morre com um único tiro no peito. Nenhum outro soldado reage. E Vilmar foge a cavalo com a prostituta.

No Velório de Natalício:
à meia-noite Vilmar vai ao velório do inimigo. A mesma roupa preta, um chapéu de abas largas, óculos de lente escura, ele distribui cópias da última poesia do velho mulherengo e vai embora.

Três dias depois da morte de Natalício: É morto o cunhado de Vilmar Gaia, Luiz Zuza. O corpo é enterrado na caatinga.

Tribunal de Justiça, outubro de 74:
O juiz Ítalo José Nandi decreta prisão preventiva de Vilmar. E também é acusado de matar o primo Antônio Augusto que teria se vendido para a família de José Cipriano. A família que pagou para matar seu pai. Morre o soldado Luiz Gonzaga que Vilmar perseguia para completar sua vingança. O povo atribui a Vilmar mais de 30 mortes. E o juiz sofre um atentado, um dos tiros quebra a antena do seu carro.

Novembro. Circulam folhetos de cordel em homenagem ao pistoleiro que fez sua própria justiça no Alto do Sertão de Pernambuco:

“Filho de Serra Talhada/ No sertão de terra quente/ onde nasceu Lampião/ Natureza de serpente/ Agora tem Vilmar Gaia, feio, disposto e valente/ Dizem que ele se encanta/ Num pé de mandacaru/ Vive também envultado/ Numa onça canguçu/ Extasiando maior assombro no Vale do Pageú/ Só tem 26 anos/Esta é a sua idade/Mas dizem que ele briga/De 110 qualidade/ Briga dentro da caatinga e luta em qualquer cidade/Já fez 32 mortes/Abraçou a miséria e deu coice na sorte/ É o maior cangaceiro que temos aqui no Norte”.

Fevereiro de 75. Chegada de David Jurubeba e seus pistoleiros em Serra Talhada. Jurubeba veio para acabar com os Gaias. Ele é um rastejador profissional desde a década de 40, quando perseguia Virgulino Lampião. Sua inimizade aos Gaias vem dessa época, pois o velho Batista protegia o cangaceiro das volantes. Com a morte dos soldados Natalício e Luiz Gonzaga, seus parentes, aumenta o ódio de Jurubeba:

– Vim para matar. Venho das terras de Nazaré e só voltarei quando for eliminada a raça dos Gaias. Eu sou do clã dos Ferraz Jurubeba. Minha vida é no mundo perseguindo bandido. Se esse tal de Vilmar é valente como falam eu o perseguirei até a morte. Quero cortar a cabeça desse cabra como fizemos com Lampião. Batista era coiteiro e família que protege o cangaço não merece o perdão. Estou pronto para a luta.

Primeiros dias de março – Jurubeba e dois pistoleiros carregam munição para uma camioneta, defronte ao prédio da delegacia. No mesmo dia um cunhado de Vilmar, Arnaldo Gaia, é fuzilado no balcão da caixa da sua mercearia, no centro de Serra Talhada. No dia seguinte é a vez de Batistinha Gaia, irmão de Arnaldo. Os pistoleiros fuzilam à queima-roupa. No dia 5, as cinco famílias dos irmãos do velho Batista estão em pânico com a entrada de Jurubeba e sua volante em suas terras.

Os fuzis apontam para os cinco irmãos.

Os dois canos grossos da arma estão bem junto aos olhos de Laudelino. O fuzilamento será à queima-roupa. Ao lado de Laudelino está Tozinho, pele de índio, cabelo preto, liso, com a baioneta do fuzil quase lhe raspando o nariz. Depois de Tozinho vem Eduardo, depois Cícero e por último Enoque. Todos os irmãos Gaia morrerão se não responder à pergunta:

– Onde está Vilmar Gaia?
– Respondam bandidos!


No milharal da fazenda, as mulheres vêem aquela cena e pedem de joelhos proteção a São Tomás de Aquino, a Frei Damião e a Padre Cícero. As crianças cantavam orações. De longe dali se ouvia a cantoria que só não era mais forte que o som dos gritos do fuzilamento.

Fogo nos bandidos!

Como nenhum dos irmãos fala sobre Vilmar, os policiais apertam o gatilho. Os tiros fizeram mulheres e crianças correrem e os animais da fazenda corriam juntos para todos os lados. Mas os Gaias continuam de pé. O fuzilamento fora uma ameaça. Os tiros passaram rentes à cabeça de Enoque e ele permaneceu como estava, o olhar fixo nos olhos do carrasco.

Indiferente, mudo, parece tranqüilo. Enoque está tão calmo que Jurubeba, o carrasco, assustado, muda de tática. Amarra os pulsos de Enoque e a mesma corda é amarrada nas ensilhas do cavalo. Assim ele começa a ser arrastado pelas terras do distrito de São João, a norte de Serra Talhada.

O cavalo de Jurubeba é um animal selvagem que corre a trotes largos em direção às montanhas. A estrada é de pedregulhos e o corpo de Enoque se mantém um pouco atrás das patas do cavalo, os braços esticados, a cabeça erguida, o peito arrastando, já sem botas e sangrando. Nas poucas vezes que abre os olhos, o que vê é poeira e patas. O cavalo abre caminho. Enoque ainda ouve o relincho quando cruza os milharais.

Enoque ainda vive.

– O cavalo de Jurubeba é arisco, selvagem. Mas não consigo imaginar a que velocidade anda. Sei que andava rápido quando começou a malvadeza. Naquela hora você não sente dores. Eu estava sendo arrastado de bruços e sentia as pedras que batiam no meu corpo, sentia as pedras entrando na minha carne. Os galhos secos eram espinhos grandes e a terra queria devorar a minha barriga. Meu corpo estava mole, saltava como borracha.
Mas um homem nesta hora ainda sente muita força.

– Nunca me passou a idéia de trair o meu sobrinho. Eu sabia que estava sofrendo a malvadeza por causa dele. Mas eu sou dos homens que não sabem trair o irmão de sangue. Dizer onde está Vilmar Gaia é desprezar a nossa grande vingança. Seria uma atitude de homem que não preza amor da família. Que as patas me furem os olhos mas eu não falo. Podem me chutar a boca, que me quebrem os dentes porque eu não digo. Vou proteger a pele do menino Vilmar até a morte se for preciso. É certo que Vilmar é pistoleiro e bandido. Mas também é certo que um homem só é afoito e valente se antes ele foi revoltado e corajoso. O caso de Vilmar é de revolta pela morte do pai. Ele fez sua própria justiça aqui no sertão. A justiça que os homens tiveram medo de fazer. Jamais vou trair um menino assim. Eu esperava pela morte porque a morte me salvaria daquele momento. Eu queria que a morte viesse depressa para não dizer o esconderijo de Vilmar, queria a morte como salvadora, como uma aliada contra o inimigo.

O sol é forte no sertão quando Jurubeba desata a corda do pulso de Enoque desfalecido. A roupa está úmida do sangue que escorre do rosto, a sobrancelha puída pela terra, a cabeça de Enoque é uma grande ferida. O couro cabeludo foi pelado, os fios de cabelo ficaram pelo caminho da tortura. E aquelas perguntas continuam...

Os habituais interrogatórios aos Gaias tornam-se trágicos. Maria Aparecida, uma tia de Vilmar, morre de colapso cardíaco quando vê o corpo de Enoque torturado. Ninguém denuncia, mas David Jurubeba continua a perseguição. Oferece um Volks para o Gaia que delatar Vilmar.

Serra Talhada, 22 de março. O governo do Estado de Pernambuco contrata o campeão brasileiro de tiro-livre, capitão João Ferreira dos Anjos, para perseguir Vilmar Gaia. E a Secretaria de Segurança pernambucana substitui todos os policiais de Serra Talhada, inclusive o delegado Sebastião Nogueira. Quarenta policiais militares selecionados, com modernas metralhadoras, granadas e bombas de gás lacrimogênio auxiliam o capitão João Ferreira nas diligências.

Maio de 75. A Rede Globo de Televisão oferece 25 mil ao capitão João Ferreira para que ele garanta uma entrevista exclusiva de Vilmar no dia em que ele for preso. A família Gaia é interrogada todos os dias.

Caatinga, junho, julho, agosto. Tem dias que o capitão João Ferreira caminha 40 quilômetros a pé na caatinga. Os Gaias estão aflitos. Toda a família. Quando ouvem um ruído de carro, eles pensam que é volante que vem chegando. Mec Gaia, uma criança, quase um bebê, nunca mais voltou de uma fuga. A polícia acha que ele está no esconderijo de Vilmar.
A única pista da polícia é o cocô de Mec. Um cocô enroscado, fino, menor que o de um gato. É o que resta na caatinga de uma criança de dois anos, de um foragido da volante. Os cães, um rastejador profissional e 30 homens armados perseguem Mec.

Sem camisa, o calção puído na bundinha, o fugitivo chupa bico e carrega no pescoço, preso a um cordão, um presente do tio Vilmar: o cartucho 44 do tiro de vingança. Talvez ele esteja morrendo. A merdinha do Mec diminui a cada dia. Mas a família Gaia crê na sobrevivência do menino, crê na proteção da caatinga aos perseguidos, crê no sol como um alimento a Mec. Eles crêem que um dia Mec voltará transformado em mais um Gaia vingador.

De 17 a 20 de agosto de 76. O capitão João Ferreira não dorme há três dias e avança o sertão do Ceará em direção à fronteira da Paraíba. Às 4 horas da madrugada do dia 22 chega ao vilarejo de Ipaumerim e dá ordens para 30 soldados fazerem o cerco na casa da Fazenda Quitéria.

Duas portas e oito janelas na mira de três metralhadoras, dez mosquetões, bombas de gás lacrimogênio, uma pistola e um rifle. Na casa tudo quieto – apenas Vilmar Gaia, que dormia nu em uma rede, se movimenta para pegar o revólver Taurus 38. A polícia nunca esteve tão perto depois que ele fugiu de Serra Talhada.

Os soldados estão prontos para matar, o capitão João Ferreira está deitado no chão com a arma carregada de balas alemãs. A porta se abre, peito nu, cabeça baixa para a braguilha que tenta abotoar. Depois Vilmar levanta a cabeça, ergue os braços e caminha em direção ao capitão João Ferreira dos Anjos.

Vilmar Gaia chega preso ao xadrez de Serra Talhada.

Os homens esqueceram a justiça. A justiça de Deus é com ele. Minha justiça eu já fiz. Agora o capitão João Ferreira que faça a dele.

Dia 20 de agosto. David Jurubeba, maior inimigo dos Gaias, abandona Serra Talhada. Carrega uma maleta de mão, cartucheira, um rifle nas costas, volta às terras de Nazaré e fala decepcionado: “Eu não sei viver sem um grande duelo. Desde Lampião espero por um bandido perigoso que me desafie. Vilmar era a minha grande esperança, eu queria matar esse menino, queria matar todos os Gaias em um grande incêndio. A prisão de Vilmar não teve graça. Por isso continuarei na perseguição aos pistoleiros. Ainda espero pelo grande duelo, tenho paciência. Enquanto esse dia não chegar perseguirei até mulher barriguda do sertão. Alguma coisa me diz que a cada segundo pode nascer um homem perigoso, um novo Lampião. A polícia de Pernambuco que se cuide”.

No dia da prisão de Vilmar Gaia, as rádios de Serra Talhada transmitem a notícia de dez em dez minutos. E tocam a música Cabra macho do Rocha, inspirada no pistoleiro. O comércio fecha, estão suspensos os expedientes dos bancos e repartições públicas. Uma multidão empurra os soldados na porta de entrada da delegacia para ver Vilmar.

Às 9 horas do dia, o capitão João Ferreira comunica a prisão de Vilmar ao secretário de segurança, Rui Aires Lobo, que dá ordens para uma escolta levá-lo ao Dops de Recife. Nessa hora as crianças brincam de Vilmar Gaia pelas ruas de Serra Talhada.

Um menino que nem forças tem para manter a arma erguida também brinca na janela do colégio. A arma está engatilhada. Ele faz a pontaria enquanto a professora escreve no quadro negro. Quando a professora vira de frente o menino recua e se agacha. Espera alguns minutos e quando aperta o gatilho o tiro é certeiro e acerta de verdade no alvo: a nuca de um coleguinha. Ninguém soube dizer os motivos do crime. O menino fugiu. O povo conta que o menino era Mec Gaia porque a arma do crime foi descoberta.

Era um rifle calibre 44.

Segredos atômicos do Brasil

Esta é uma história das intrigas que envolveram a
utilização da energia atômica no Brasil. Relata como, no
passado, o Brasil escolheu a Alemanha como parceira nuclear.

Por Marcos FaermanVersus 8 • março 1977

Parte Um: Viagem à Alemanha
Ou: O Almirante que queria o átomo brasileiro
Ou: Algumas vidas estão em perigo


I
Onde é que começa esta história? Talvez nenhum dos seus protagonistas saiba. Mas ela é a história de uma paixão. A paixão de alguns homens. Que se projeta no cenário das intrigas internacionais dos anos 40 e 50, nas retortas dos laboratórios em que se cria a Arma das Armas, os conflitos da Segunda Grande Guerra, os lances de espionagem, os cientistas que são erguidos à condição de heróis ou jogados nos campos de concentração, e mais a situação dos países coloniais ou semicoloniais, os produtores de matérias primas – os que figuram em cena da história como sombras e não como entre reais.

II
Esta história poderia começar em qualquer ponto. Mas nós vamos centrar o drama, inicialmente, na figura de um homem, o almirante brasileiro Álvaro Alberto. No começo dos anos cinqüenta, ele está convencido de uma coisa: os Estados Unidos não permitirão que o Brasil conheça alguns dos seus segredos nucleares. O Almirante é um gênio científico. Tornou-se famoso entre militares e cientistas alemães por suas pesquisas em torno de explosivos. Trabalhando sozinho, chegou aos sofisticados explosivos que a Alemanha empregou na Primeira Guerra. Em 1945, desmentiu um artigo da revista Time a respeito da primeira explosão nuclear, explicando em poucas linhas o que, realmente, era a bomba atômica, e como ela havia sido produzida! Era um homem de ciência. Mas no começo dos anos 50, achava que devia ser mais do que isto para fazer sua nação chegar aos segredos atômicos.

III
Aquele alegre professor de química da Marinha não era de se acomodar, mesmo nas piores situações. Como primeiro presidente do Conselho Nacional de Pesquisas, que ajudou a criar, ele fez um pedido ao presidente Getúlio Vargas: queria ir à Europa, para tentar obter tecnologia nuclear, que os norte–americanos recusavam ao Brasil.

E lá foi ele.

Primeiro ponto do seu roteiro político-científico: França. Onde assina um acordo a respeito de extração e tecnologia do urânio. Na Alemanha, ele vai chegar imediatamente, através do ex-reitor da Universidade de Hamburgo, professor Paul Hartek, aos professores William Groth, do Instituto Físico-Químico, da Universidade de Bonn, Baverle, da Associação Max Plank para o Desenvolvimento da Ciência, e ao descobridor da fissão nuclear, Otto Hahn. Álvaro Alberto joga alto.

Propõe aos cientistas alemães que trabalhem com o Brasil. Naquele distante país eles encontrariam os recursos para a sua ação. Eles nada podiam fazer em seu próprio país, afinal, que estava ocupado pelos aliados, não?

Os cientistas disseram que sim.

IV
O General Caiado de Castro, irritadamente, comentou com o presidente Getúlio Vargas os carimbos de SECRETO, postos por Álvaro Alberto, DUAS VEZES, em cada página de seu relatório de viagem à Alemanha. O almirante estava convencido de que a vida dos cientistas estaria em perigo, se a sua futura colaboração com o Brasil chegasse a certos ouvidos.

Parte dois: uma volta no tempo.
A reunião de 1947 que indignou nosso Almirante.
Por que ele se indignou?

I
Então a história estava naquele ponto: cientistas alemães iam colaborar com o Brasil num programa nuclear. Isto acontece no começo dos anos 50. Mas o que isto significa na ordem das coisas? Que peso tem este fato na política científica internacional? Ou melhor, na política internacional? Uma bomba atômica, explodida há cinco anos tinha acabado com uma guerra que parecia eterna. O átomo era o coração da Grande Política. Ali parecia que se jogava o futuro do mundo.

II
Propõe-se então um novo começo para a história. Estamos no ano de 1946. O Brasil participa de uma Comissão de Energia Atômica da ONU. Cérebros brilhantes iluminam a reunião. Não está ali um Bernard Barouch, dos Estados Unidos? Não está ali o famoso Vichinsky, da União Soviética?

A tecnologia nuclear, àquelas alturas, estava nas mãos dos americanos, soviéticos, franceses e ingleses.

A produção ou a posse de matéria prima radioativa não estava com indianos, canadenses, belgas e, sim, brasileiros.

E lá estava o Brasil na Grande Área dos interesses internacionais. Sustente-se a metáfora: nosso treinador era o almirante Álvaro Alberto. Ele não era bobo. Nada gostou do Plano Baruch dos Estados Unidos. Já é 1947. Nada gostou daquela melodramática proposta de “vamos reparar os erros da natureza”.

III
Ou seja: não é de hoje que as injustiças da natureza são apontadas por quem não tem muito do que se queixar. Ou não? O almirante Álvaro Alberto torceu o nariz a quê, exatamente? O Plano Baruch queria reparar as “injustiças da natureza” que negou minérios radioativos a quem os necessitava tanto, claro, ou seja, pecado, aos Estados Unidos! Dar os minerais a uns e não a outros, ora! Que a Lei compensasse os malefícios do mundo natural. Em nome do Justo. Em nome do Certo. Em nome de tantas coisas, que se desapropriassem as reservas minerais radioativas. A sua utilização seria regulada por uma Comissão Internacional, naturalmente neutra.

IV
Embarcou nesta canoa nosso Almirante?

Foi o único.

Levantou o dedo. Chiou. Disse que a tese da “reparação da injustiça” era absolutamente injusta. Ele não aprovaria tal coisa.

E se tal Plano Baruch foi aprovado, com duas abstenções, ao menos a sua tese central não passou.

V

O Almirante não ficou bem-visto em certos círculos depois deste episódio. Mas sua atuação foi tão brilhante que a revista Time lhe dedicou uma capa, veja-se só. Ele foi em frente. Escreveu um memorando, com a data de 25 de novembro de 1947, dirigido ao governo brasileiro.

“É minha convicção que nos encontramos em face de um dilema decisivo e incorrigível: ou nos preparamos para tomar posse de nossas riquezas naturais – no caso específico, atômicas – ou nos veremos constrangidos ao espetáculo degradante de assistirmos, impotentes, à evasão delas, por bem ou por mal... É essa a impressão objetiva que guardamos dos debates em que, com a maior sem-cerimônia se tratou das matérias primas como res communs, de “reajustamento das injustiças da natureza”.

VI
Vamos voltar um pouco mais no tempo. E vamos chegar ao gabinete de um homem muito importante: o presidente dos Estados Unidos, em pessoa.

Parte três: o presidente Truman coça a cabeça
e pergunta aos seus homens: o que nós vamos fazer?

I
Talvez o almirante Álvaro Alberto fosse um homem preocupado com uma certa dimensão de justiça. Talvez ele fosse um humorista. Talvez ele tivesse esse sentido do ético aliado a uma boa pitada de humor. O fato é que ele se dispôs a reparar, num certo momento, as injustiças da natureza que preocupavam os norte-americanos, desde que eles corrigissem outras injustiças. O átomo seria de todos, se o petróleo fosse de todos! Foi isso que ele falou.

II
Mas não íamos começar a falar de um outro tempo? Começamos então. A 6 de agosto, uma bomba de mais de vinte mil toneladas de TNT explode em Hiroshima. É preciso ser mais preciso: era uma bomba mais poderosa do que vinte mil toneladas de TNT, era a bomba atômica. Ela destruiu a vida dos homens e dos insetos, terminou com uma guerra, iniciou outro ciclo da história. O presidente Truman comunicava ao mundo que a energia desta bomba era fabulosa: “forças de onde o sol extrai sua potência foram liberadas”.

A referência ao sol não era uma figura de linguagem. A bomba cósmica abalava os homens. Mas o presidente dos Estados Unidos tinha uma pergunta a fazer.

III
Pergunta do presidente Truman aos Super-Cientistas criadores da bomba A, ao seu Secretário de Estado, aos seus Conselheiros Científicos:
A respeito da bomba... Para onde vamos, daqui?

IV
Os Super-Cientistas disseram que a energia atômica podia fazer tanta coisa pelos homens, tanta! Mas que era de se temer que bombas florescessem aqui, ali, com tão grandes perigos para todos. Era por isto que eles recomendavam a criação de um organismo internacional que controlasse todas as atividades deste setor... e que se criasse um organismo internacional, da mais absoluta confiança dos Estados Unidos, para, rigorosamente, controlar todas as atividades no setor... Enquanto não surgisse esse organismo, era essencial o monopólio tecnológico e de informação. A qualquer preço, este monopólio deveria ser mantido. Os bons cientistas e os bons profissionais do setor militar norte-americano recomendavam, ainda, que se fizesse um estoque dos minerais radioativos, um grande estoque, já que o país era pobre em urânio e que as nações, em geral, não estavam atentas à questão.

V
Um aparte breve. Voltamos aos trópicos. Desde 1944, dentro do esforço de guerra aliado, o Brasil fornece areia monazítica aos Estados Unidos. Areia radioativa com preço abaixo do preço da banana.

VI
Quem vai vencer no Congresso americano? May-Johnson ou Mac Mahon? A dupla May-Johnson (o Johnson que seria presidente dos Estados Unidos!) perde para Mac Mahon. Ou seja: a tese de que a energia nuclear deveria ser controlada inteiramente pelos militares. Monopólio total do setor é concedido à Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos. A nova lei do Congresso prevê até a pena de morte para quem violar segredos nucleares. Por esta lei, um casal vai ser torrado na cadeira elétrica, os Rosemberg. É esta lei que proíbe, ainda, a venda, o fornecimento de qualquer informação que possibilite a qualquer país o desenvolvimento da tecnologia nuclear.

Parte Quatro:
Nós vendemos nossos minérios
Quem nos vende reatores?

I
Assim pensavam os norte-americanos. O que ia gerar uma área de tensão entre Brasil e Estados Unidos, tendo como pólo de fricção a questão atômica. O Brasil saía da Segunda Guerra extremamente identificado com os Estados Unidos. Apesar desta identificação, setores políticos e militares não aceitavam a política nuclear norte-americana, nem as pressões que eram feitas para que o Brasil vendesse – sem uma compensação significativa – seus minérios atômicos.

II
É quase impossível andar dois passos, nesta história, sem dar com a figura de Álvaro Alberto. A política brasileira de energia atômica praticamente seria formulada por ele, ainda na discussão do Plano Baruch.

Ele defendia, ainda antes dos anos 50, a nacionalização de todas as minas de tório e urânio; a revisão das concessões dessas minerações – antes da nacionalização se consumar: obrigatoriedade do tratamento do urânio e do tório, no Brasil: estímulo a firmas idôneas para que se montassem as primeiras usinas de tratamento químico dos minérios; formação urgente de técnicos, nos grandes centros estrangeiros; fundação do Conselho Nacional de Pesquisas, instituição de uma Comissão Nacional de Pesquisas; proibição imediata da transmissão da propriedade das concessões e das minas, enquanto não se efetivasse a nacionalização; monopolização de todas as atividades ligadas à energia atômica; pesquisa livre, mas satisfazendo os imperativos do interessa nacional.

III
O que significava? Desde 1944, a areia monazítica brasileira era carregada para os Estados Unidos a um preço, assim, de quarenta dólares a tonelada. Isto continuou, depois. Tocar nesta questão, naquela hora, era levantar uma questão delicadíssima. E o Almirante vinha e dizia tudo isto. E dizia, por exemplo, num discurso de 1948:

– Impõe-se a nós, inadiavelmente, o dever de cuidarmos por nós mesmos de promover o aproveitamento de nossas riquezas, particularmente a atômica, com o concurso, se necessário, daqueles que estiverem em condições de colaborar conosco.

IV
Um pouco antes, ele tinha dito:

– Não é possível que se queira expropriar minerais radioativos do meu país e não nos dêem uma única compensação, qual seja, a preferência da utilização dos combustíveis que possa resultar no uso desses minerais ou na propriedade para obtenção de reatores primários e secundários.

Seguindo as recomendações de Álvaro Alberto, o general Dutra mandou uma mensagem ao Congresso propondo a criação do Conselho Nacional de Pesquisas, que foi aprovado pela Lei 1310, de 15 de janeiro de 1951.
O artigo 4, da Lei 1310, dizia o seguinte:

– É proibida a exportação de qualquer forma de tório e urânio, seus compostos e minérios, salvo de governo para governo, ouvidos os órgãos específicos. Estes órgãos eram o Conselho Nacional de Pesquisas, o Conselho de Segurança Nacional ou outro órgão que fosse designado pelo Presidente da República. (O ex-deputado Renato Archer, que várias vezes levantou estas questões na Câmara Federal, diria que esta expressão “outros órgãos, apontados pelo Presidente”, seria o furo por onde sairiam milhares de toneladas de minério radioativos brasileiros).

V
Pouco a pouco explicitavam-se as linhas do drama. De um lado, um país pobre em fontes naturais de radioatividade, procurando, de qualquer maneira, abastecer seus estoques. De outro lado, um país, rico em minérios radioativos, estabelecendo condições muito especiais para esta exportação. Assim surgiria a chamada política de compensações específicas – que seria violada por pressões externas e indivíduos e grupos internos – mas que, oficialmente, era um grande problema para os Estados Unidos.

Para falar mais claramente: o Brasil se dispunha a só vender minérios atômicos a quem, além do preço justo, se dispusesse a vender equipamentos para que este setor se desenvolvesse.

VI
As negociações oficiais chegavam sempre até este ponto: o Brasil reivindicando reatores de potência, os Estados Unidos, os negando.

Parte Cinco: De como um acordo
semi-secreto, ou secreto, pode modificar
uma política e surpreender homens.

A história da exportação semiclandestina de minerais atômicos, também.

Mas sabe-se de muitos navios que carregavam areias preciosas como lastro.
Sabe-se do conflito entre o Itamaraty, no começo dos anos 50, que se colocava contra a cláusula das compensações específicas, para facilitar sua política com os Estados Unidos, e o Conselho de Segurança Nacional e o Conselho Nacional de Pesquisas que defendiam a cláusula, para que o país adquirisse tecnologia nuclear.

Em 1952 Álvaro Alberto era um incômodo, por sua “intransigência”.

Diz o então deputado Renato Archer, num discurso na Câmara dos Deputados, que o Almirante fora enviado ao exterior numa “missão especial”. Assim foi afastado, por algum tempo, do Conselho Nacional de Pesquisas. Através de pressões do Ministro de Relações Exteriores, João Neves da Fontoura, foi assinado um acordo de características secretas, pelo prazo de três anos, pelo qual o Brasil se comprometia a vender dez mil toneladas anuais de areia monazítica.

Duas mil e quinhentas delas deveriam ser processadas pela Orquima, empresa dirigida pelo hoje falecido poeta Augusto Frederico Shmidt.

Em 1954, o poeta foi uma das últimas pessoas que esteve com o presidente Getúlio Vargas.

Uma das cláusulas do contrato afirmava que os Estados Unidos poderiam receber, em um ano, o minério correspondente a três – a seu critério. Outra cláusula: o acordo seria renovável a cada ano.

À margem do Conselho de Segurança Nacional, da Comissão Nacional de Pesquisas, do Estado Maior das Forças Armadas – afirmou-se na Câmara Federal – foi violado um pacto nacional. O Parágrafo 11 do Relatório Secreto sobre a política no setor da energia atômica, de 25 de novembro de 1953, assinado pelo Secretário Geral do Conselho de Segurança Nacional, general Caiado de Castro, é uma demonstração deste fato. Diz Caiado de Castro que só tomou conhecimento do acordo negociado com os Estados Unidos... sete meses depois, isto é, a 22 de setembro de 1952. O acordo foi assinado a 21 de fevereiro de 1952.

“Esta constituiu pela primeira vez no Governo de V. Excelência a quebra da política defendida pelo Conselho Nacional de Pesquisas e pelo Conselho de Segurança Nacional, no tocante à exportação de minerais atômicos”.
O drible no CNPq e no CSN foi dado através da criação de Comissão de Exportação de Minerais Estratégicos – que ficou subordinada... ao Ministério de Relações Exteriores.

“Era a etapa necessária para a neutralização da política brasileira de minérios atômicos”, diz um testemunho da época.

E o almirante Álvaro Alberto, como recebeu a notícia do acordo?

Parte seis: brevíssimo
relato e uma advertência.
O Relato: Diz-que-diz-que. O ministro João Neves da Fontoura teria dito que era mais conveniente ao Brasil vender areias monazíticas e tório do que mandar soldados para a Coréia.

A advertência: documentos secretos dos Estados Unidos desta época serão liberados, agora. Muitos fatos secretos deixarão de ser secretos.

Então...

Parte sete:
em que se volta à Parte Um, depois de um
intervalo histórico, e vamos
encontrar Álvaro Alberto na Alemanha e...

I
Então, Álvaro Alberto desiste da tecnologia norte-americana, e vai à Europa. E chega à Alemanha. Os cientistas alemães tinham ido longe na pesquisa do átomo. Einstein, em 35, escreveu uma angustiada carta ao presidente dos Estados Unidos, e nela dizia que a Alemanha nazista poderia chegar à bomba atômica. “Mas Hitler achou que dois anos era muito tempo” – diz Renato Archer, e desestimulou as pesquisas. Além disso, alguns cientistas eram judeus, e fogem da Alemanha. (Lisa Meiner foge, vestida de freira).

II
1952. Alemanha ainda ocupada. Em várias cidades, grupos de cientistas constróem peças da centrifugadora. Há um cheiro de conspiração em tudo isto.

III
O Instituto Físico-Químico de Bonn recebe oitenta mil dólares. A transferência é feita pelo Banco Germânico para a América do Sul. É o preço de três ultracentrífugas. Com estes aparelhos, os alemães esperavam poder fabricar urânio enriquecido necessário para o reator de urânio levemente enriquecido.

IV
Frase de Renato Archer, na Câmara Federal, em 56:
– Mais tarde saberíamos que por este caminho se poderia chegar até a fabricação da própria bomba atômica.

Parte Oito: se esta história lhe parece misteriosa,
prepare-se: o mistério está apenas começando.

I
“Esse complô” – diz Renato Archer – “prossegue até o dia em que, prontas as partes do equipamento fabricado em várias partes da Alemanha, precisou-se pedir a algumas autoridades brasileiras providências para a exportação do equipamento”.

II
Álvaro Alberto havia pedido a Getúlio Vargas, o Presidente, que o “material” fosse embarcado, com a dispensa de certos vistos necessários. Getúlio Vargas concorda. São transmitidas, através do Itamarati, ordens ao embaixador Edmundo Barbosa da Silva, na Alemanha. O embaixador transmite ordens aos cônsules das cidades alemãs. O “material” deve vir para o Brasil sem as tramitações burocráticas de praxe.

III
Menos de doze horas depois, o “material” é apreendido pelo Military Board of Security. A Alemanha, ocupada, era governada alternativamente por americanos, russos, franceses, ingleses. Os governantes de plantão eram ingleses. A Alemanha era governada, naquela hora, pelo brigadeiro, inglês, Harvey Smith. O que tinha a Inglaterra contra o embarque das peças de laboratório?

IV
Getúlio Vargas manda Álvaro Alberto à Alemanha. Missão: discutir com as autoridades de Ocupação a liberação do material.

V
Álvaro Alberto diz ao Brigadeiro inglês que é muito estranho que a Alemanha, país ocupado, possa produzir o equipamento. E que o Brasil, país aliado, não possa importá-lo. O Brigadeiro inglês lhe responde:

– O meu governo não tem nenhuma objeção a apresentar à retirada desse equipamento, mas eu sou aqui o fiel cumpridor da vontade de quatro nações. Quem me pediu a apreensão do material foi o Alto Comissário Americano, professor James Conant. A liberação depende exclusivamente de sua autorização.

VI
Não foi nada simpático o Alto Comissário norte-americano com Álvaro Alberto. E os dois se conheciam, eram igualmente professores de química, já haviam participado de congressos internacionais... O professor James Conant recebeu o almirante num sábado, e nem ao menos mandou que ele se sentasse... Conversaram em pé.

VII
Na conversa rápida, ouviu o almirante que ele, James Conant, nada tinha a opor à saída dos aparelhos. Estava convencido de que a capacidade dos aparelhos de enriquecer o urânio não iria ao ponto de possibilitar a fabricação da bomba atômica. Mas o presidente da Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos, Lewis Straus, tinha dado ordens precisas: os aparelhos não deviam sair da Alemanha.

VIII
Álvaro Alberto entra em contato com Getúlio. E vai aos Estados Unidos conversar com o novo presidente da Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos. Diz Lewis Straus que não poderia liberar o equipamento retido na Alemanha. Mas que os Estados Unidos estavam dispostos a ajudar o Brasil no setor da energia atômica.

IX
Ah, sim. Pois o Brasil faz um pedido de equipamento para refinação de urânio, usina para fabricação de hexafluoreto, reatores primários e secundários.

X
O requerimento de Almirante Alberto é preciso. O Almirante Lewis Straus lhe diz, simplesmente, que o “material pedido não existia. Era invenção da imaginação fantasiosa dos cientistas”.

Parte Nove: onde se narram
alguns fatos absolutamente isolados, ou não.
E se encerra esta história sem final.


I
“No dia 23 de agosto de 1954, véspera da morte de Getúlio Vargas, ele autorizou, do seu próprio punho, mais uma exportação de areia monazítica, depois de, em dois despachos consecutivos, haver concordado com a recusa do Conselho Nacional de Pesquisas e do Conselho de Segurança Nacional. Poder-se-ia supor que ele, ao se submeter à exigência, pretendesse fazer cessar a pressão que era exercida sobre o governo brasileiro. Essa exportação vai ser realizada durante o governo Café Filho, com os protestos do Conselho Nacional de Pesquisas, mas com a concordância do Itamaraty.” (Renato Archer, discurso na Câmara Federal, a 9 de novembro de 1967).

II
Pouco antes de sua morte, Getúlio Vargas esteve com um dos homens ligados à exportação de minérios atômicos, Augusto Frederico Schmidt.

III
“Durante cerca de três anos, os Estados Unidos vêm tentando estabelecer um acordo sobre energia atômica com o Brasil, sem maior sucesso.

A principal figura, nessas negociações, do lado brasileiro, tem sido o Almirante. Os Estados Unidos chegaram à conclusão de que, provavelmente, é impossível chegar a qualquer entendimento satisfatório, mediante novas negociações com o Almirante, ou com o Conselho, tal como se acha atualmente constituído.” (Documento secreto, de 1954).

IV
“O Almirante parece confiar, grandemente, em certas negociações que fez na França e na Alemanha. Não compreendemos como essas negociações poderiam dar lugar a resultados práticos para o Brasil, em futuro próximo.” (Do mesmo documento).

V
“O Almirante, pressionado a assinar o acordo de pesquisa, recusou–se a fazê–lo, demitindo-se em carta de 13 de janeiro de 1955 ao Presidente Café Filho.” (Renato Archer, Câmara Federal, 6 de junho de 1956, 9 de novembro de 1967).

VI
“As ultracentrifugadoras brasileiras (produzidas na Alemanha) vieram para nosso país em 1956, e foram colocadas no Instituto de Pesquisas Tecnológicas, em São Paulo, e lá abandonadas.” (ainda Renato Archer).


_____________________________________________________________

Álvaro Alberto da Motta e Silva morreu a 1º de fevereiro de 1976, aos 87 anos. Morreu sem satisfazer um dos seus grandes desejos: participar da festa de inauguração do reator nuclear de Angra dos Reis, que tem este nome: Almirante Álvaro Alberto. Cursou a Escola Naval, matriculou-se em 1910 na Escola Politécnica do Rio. Dedicou-se à carreira militar, foi professor e pesquisador. Logo depois da II Guerra, em 1946, foi o presidente da Comissão de Energia Atômica, da ONU, onde representava o Brasil. Foi o inspirador e primeiro presidente do Conselho Nacional de Pesquisas, e esteve na Comissão Nacional de Energia Atômica. Lecionou Química na Escola Naval, de 1919 a 1946. A discordância com a política nuclear do governo Café Filho fez com que ele se afastasse do CNPq e da CNEA. Sua morte foi lamentada por pessoas das mais diversas correntes políticas.
“Ele defendeu os interesses brasileiros, sempre”, escreveu neste dia Barbosa Lima Sobrinho, numa crônica no Jornal do Brasil.

Memorial do gaudério

Gaudério é um homem que não aceita castigo.
Gaudério é um homem que foge, que anda pelas campanhas,
que vai levar consigo sua vida e misturá-la com a do índio.
E que vai conhecer o uso das plantas, os remédios,
as simpatias. Do gaudério nasce o pajador.

Por Paulo Barros Versus 8 • março de 1977

I. Das raízes
As raízes de tua história, América, se espalham por todas as Pátrias que te dividem. Da exploração de tuas bandeiras, que descobriram as nascentes e navegaram por teus rios, surgiu o povo gaudério, encravado em Três Nações, que insiste em resistir, contrabandeando a história na alma dos pajadores.

Depois de derramar em cachoeiras o sangue dos incas, os invasores descobriram a prata de Potosí. Os galeões dos conquistadores arrancaram o minério de tuas entranhas, e seguiram de volta para a Espanha, pelo Estreito do Panamá. No mar das Caraíbas, ingleses, franceses e holandeses assaltavam os galeões espanhóis, na guerra pelos tesouros.

E o Rio Paraná era percorrido e devassado por espanhóis e portugueses. Fugindo dos assaltos inimigos, os espanhóis fundavam pequenas colonizações – as que vão dar origem a Assunção, Buenos Aires, Corrientes, Santa Fé. Ali, os espanhóis buscavam proteção. Um gado gordo no más povoava essas planuras.

Então nasceu o gaudério.

II. Das histórias
O dia estava coberto pelas nuvens de agosto. Neste mês, ele contava as histórias mais tristes. Sentado a cavalo na cadeira, contava as lendas das ruínas de São Miguel e das pedras preciosas que os ourives diziam nada valer. O mês de agosto é assim por causa das tristezas que existiam nas ruínas de São Miguel. Em agosto, por lá, não se casa, não se faz nada. Mês azarado.

Mas na frente do ranchinho de capim Santa Fé, sentado lá fora, tomando chimarrão ou café de inhame, as batatas no borralho, o velho gaudério Zeferino Cavalheiro do Amaral – magro, alto, mestiço e jesuíta – ensinava ao neto as rezas, os remédios, as lendas que aprendeu nas viagens.

Viajava muito o velho. E cada vez que voltava ao ranchinho do filho, no Passo da Ronda, mais cansado estava. E mais doente. Bateando a areia. Arrancando a pedra dura como a própria vida. Acampado o ano inteiro. Solitário e andarengo. Mas no mês de agosto ele ficava em casa. Contava histórias para o neto. Preparado para enfrentar incursão até do diabo.

Gaúcho a pé. No forno de barro do rancho, atirava as pedras verdes, azuis e vermelhas, que ele mesmo preparava, como índio, para ver se botava nos olhos do ourives o mesmo brilho que sentia quando olhava cada uma.

Atirado pra trás. Atiradão no más. No mês triste, com a alma e a esperança no peito, contava as lendas das ruínas de São Miguel.

E quando a República Guaranítica era uma próspera nação, certa vez os jesuítas encontraram, desgarrada no pampa, a serpente gigantesca. Olhos de fogo, asas quebradas, a coitada estava ferida. Era uma serpente filhote. Bondosos que eram, os padres levaram a serpente filhote para a igreja, e a criaram num porão. Com o tempo, a serpente foi crescendo, e cada vez que um índio ia levar comida no porão, a serpente comia o índio. Os jesuítas, então, resolveram colocar a serpente numa torre, bem presa por grades. (Por ali, passava a comida para a retovada). Até que um dia vieram os estrangeiros e expulsaram os jesuítas, e mataram os índios, fazendo tantos milhares de escravos, deixando tantas mães sem filho e tantos filhos sem mãe. E a serpente ficou sozinha, a pobre. Quase nunca comia. Mas vez que outra um paisano subia na torre, atrás do ouro dos padres, e enchia a barriga do bicho. Por isso, pelas pessoas que comeu, como castigo, Deus mandou um raio, que entrou pela torre, e acertou a serpente na cabeça. Até hoje, quem for às ruínas de São Miguel, pode encontrar as marcas de graxa do monstro, que escorreram pelas paredes da torre da catedral dos jesuítas.

Ninguém me fale de penas
Porque eu penando vivo
E ninguém se mostre altivo
mesmo estando por montar
pois a pé pode ficar
até o gaúcho mais vivo.
Junta experiência na vida
até pra dar e emprestar
quem a teve que passar
entre sofrimento e pranto
pois que nada ensina tanto
como sofrer e chorar.

III. Da raça
Desde os primeiros momentos da ocupação espanhola na América, os invasores se estabeleceram como raça superior. Sangue de gente era sangue espanhol. Mas os colonialistas não traziam mulheres. E a terra americana espalha o seu sangue pelo sangue europeu. E começa a se criar uma geração mestiça.

Aos olhos do conquistador, sangue índio não prestava. O mestiço segregado. Isolados nos castelos de pureza, os espanhóis eram minorias. Povo não tinha direito a heranças. Povo era no máximo administrador de fazenda, fosse comportado ainda o indivíduo. Impossibilitado de progresso numa sociedade fechada, o mestiço torna-se um rebelde. Parte sem rumo pelo pampa. Passa os dias pajando e peleando, desabafando a opressão.

Mas as suas atitudes contestadoras também servem ao opressor. E o seu temperamento retovado é canalizado para a guerra, onde o gaúcho aprende a esgrima do facão.

Limpei o facão nos pastos
desatei meu redomão;
montei sem pressa e saí,
ao tranco, pra o canhadão.

Soube, depois, que ao finado
nem mesmo sequer velaram
e, retovado num couro,
sem encomenda o enterraram.

IV. Das gerações
Filho de velho gaudério, que andou o pampa todo atrás de pedras preciosas, João Batista Cavalheiro do Amaral, chamado Cavalheiro, filho do Zeferino Cavalheiro Amaral, é um gaúcho pobre, mas de muita honra e coragem, que já peleou a facão com o próprio diabo. E venceu.

Quem conhece Cavalheiro sabe que ele é um homem muito bom, trabalhador, mas sabe também que por algum motivo pega da adaga, até do tempo sai faísca, e até a noite se ilumina.

Com o pai aprendeu a esgrima do facão.

Para o filho ensinou o que sabia.

Plantou em Ijuí, nas terras dos índios pobres, que pediam esmola, comida... e bebida. Na frente da casa de costaneira, tocavam gaita de boca e violão. Bêbados, os desgraçados.

Não tinha cavalo em casa, nem carroça. Acreditava na fortuna. Sonhava com as panelas de dinheiro.

A panela de dinheiro é uma panela de barro que se faz cobrindo uma panela de ferro. A panela vai para o forno e depois de seca é recheada de ouro e enterrada no chão a bem de motivo qualquer.

Cavalheiro acreditava na fortuna. Numa manhã do mês de agosto, ele tropeçou num buraco onde uma panela de dinheiro tinha sido enterrada. Mês azarento. Ela foi levada por algum taura sortudo. Mierda.

Quando brigou com o diabo estava são numa encruzilhada lá do Rincão do Tigre indo para o Passo da Ronda. O galo preto apareceu batendo as asas. Do chão se levantou um bicho velho, a coisa mais feia deste mundo, com uns olhos iluminados como tochas e umas guampas que reluziam ao luar.

Arrancou do facão e se atracou. O bicho amoleceu e sumiu. Foi assim que João Batista Cavalheiro do Amaral, chamado por Cavalheiro, venceu o diabo, galo preto.

V. Dos desafios
O gaudério é um homem que toca sua viola, fazendo sua música de improviso. Cantando coplas, que é o desafio brasileiro. É o homem que fez a guerra (quantas vezes a mando de outros?). É um homem que se desenvolve em terras de horizontes distantes. Nunca teve direitos. Mas repudiou os deveres, e sua vida era a luta contra o estabelecido (pelas mãos dos outros)...

Não aceita a ordenação do trabalho das fazendas. Nos postos militares, onde nos primeiros momentos de ocupação se organizavam pequenas sociedades civis, a disciplina imposta era a dos militares. Rigoroso o castigo das faltas disciplinares.

Gaudério é o homem que não aceita o castigo. Gaudério é o homem que foge, que anda pelas campanhas, que vai levar consigo sua vida e misturá–la com a do índio. Que vai conhecer o uso das plantas, os remédios, as simpatias.

Do gaudério nasce o pajador.

VI. Da fuga
Em setembro, ele foi até as ruínas de São Miguel ver com seus próprios olhos a graxa de uma serpente que morreu há muito tempo numa torre porque Deus lhe acertou um raio na cabeça. O dia clareava. Índio Potiguar ficou muitas horas quieto. Pegou a viola, tentou cantar o que sentia. Emocionou–se: ali estava a marca da graxa da serpente, como seu avô, Zeferino Cavalheiro do Amaral lhe contara. A marca da graxa da serpente. Pensou nos jesuítas e nos índios.

Andarengo. Índio Potiguar fugiu de casa com 14 anos. Com 12 ganhou do pai, João Batista Cavalheiro do Amaral, um violão. O velho ensinou a primeira posição de uma milonga antiga. Ré maior.

Cantou nos bolichos de Nonoai, a cidade que o chamou de caboclo para não o chamar de negro. Depois, foi embora. De churrascaria em churrascaria, engraxando a guitarra, de bolicho em bolicho, de galpão em galpão.

Cantor povoeiro é poeta...
Canta o gaúcho... ai, Jesus...
o miram como avestruz,
sua ignorância os assombra,
mas sempre serviu a sombra
para ressaltar a luz.
Quem me queira corrigir
muito terá que saber,
terá muito que aprender
quem me souber escutar
terá muito a meditar
quem me souber entender.
Prestem–me, pois, atenção
se assim me querem honrar,
senão terei que calar,
pois o pássaro cantor
jamais se põe a cantar
em rama que não dá flor.

A borracha, a selva,
os heróis sem nome


Soldados de uma guerra perdida, os sobreviventes do
Exército da Borracha tinham que vencer as longas viagens
nos rios, os chefes prepotentes, os salários minguados,
a condição de seringueiros. Estamos no ano de 1942, e....

Por Luiz Egypto Versus 8 • março de 1977

Esta é a história de homens sem nome – soldados sem fortuna que lutarão nas selvas (sem armas). Serão levados por forças que não conhecem para a guerra. Ganharão o nome de soldados da borracha. Estamos em 1942. A borracha da Amazônia havia sido abandonada há um bom tempo. O colonialismo inglês plantava seringueiras na Malásia, Ceilão, Java e Bornéus. O ciclo da borracha se encerrava no Brasil. Mas, agora, era o tempo da II Guerra. Submarinos alemães vigiavam aqueles mares. A batalha da produção exigia borracha para os aliados. O presidente Getúlio Vargas decide criar o Exército da Borracha. Zé Tupi veio de São José de Lage, Alagoas. Foi alistado em sua cidadezinha. Foi um soldado da borracha.

– Eram eu e mais mil e quatrocentos e tal no navio do Lóide. E fora o embarque saído na frente. E fora o embarque que veio depois. O pouso era uma casona grande e tudo, as redes atadas. Hora de comer era o canecozinho pra farinha e o prato pra comida. Era eu e um irmão meu que agora está em Manaus. Olha, eu queria que o senhor visse o que nos falavam na hora do registro, Deus o livre, mas o cara dizia: “olha, é juntar dinheiro com a mão mesmo, debaixo da seringueira”. Foi diferente. Mas aquele homem tinha que mostrar um seringueiro bonito, de reclame, no mato limpo, e ele nos dizia: “lá é assim”. Que nada, seu, era diferente. E tinha onça no mato, que comia gente. Agora, é a onça que foge. A gente quando vê uma onça já fica mais animado para ver se ela vem mesmo pra perto da gente, eh, eh, eh!

O nome deste outro homem é José Benedito Ferraz. Veio do interior da Paraíba. Também vai falar daquele tempo. Fala numa estrada que vai de Leopoldina a Petrolina. Mas o exército toma conta da estrada. Ele e outros trabalhadores decidem ir para o Exército da Borracha.

– Não. Não era tão fácil como eles diziam que ia ser. A gente ia chegando e vendo que não era fácil. Tinha um capitão lá no pouso, que quando saiu um pessoal embarcado para o rio, parece que para o rio Javari, aí, no dia em que saíram, ele deu um discurso, e nesse discurso, ele terminou chorando. “Olha – ele falou – vocês vão, se vocês não se derem bem, podem voltar que aqui o pouso está aberto pra vocês, à hora que chegarem”. Aí nós ficamos desconfiados. Não podia ser um bom rio, não? Porque prum camarada dar um discurso e findar chorando... Ele estava pensando em algum sofrimento lá do pessoal que saía, não? Aí nós chegamos, fomos pro rio Juruá, e lá tinha um capanga, e se a pessoa tirava um saldo, por exemplo, o patrão ia pagar... O camarada era levado pro mato, e o capanga matava dentro dos caminhos. O saldo era assim: por exemplo, eu estou trabalhando com o senhor, eu compro do senhor, aí embarco minha borracha, o produto que eu fizer dá mais do valor que eu lhe compro, isto é, o saldo que eles chamam aqui. Aí eu tirava um conto ou dois de saldo. O patrão chamava um camarada e falava: vai tirar um assaí com o moço. E ganhava as matas. E chegava lá dentro e matava o empregado pra não pagar. Naquele tempo, a justiça era a bala, o capanga. Depois é que foi se criando a lei.

Por cada homem alistado, um agente ganhava cem mil réis. Depois de alistados, eram levados para Fortaleza. Lá, eram empilhados na coberta e nos porões dos navios do Lóide. Seguiam para Belém. O porto de pouso era Ponta Pelada, em Manaus. Do pouso, saíam com destino certo. Os donos dos seringais freqüentavam os grandes galpões, repletos de redes atadas, em busca de homens para trabalhar em suas terras. Os galpões eram cercados por uma cerca de arame farpado. O patrão escolhia seus empregados pelo mocotó, pela canela. Quem tinha canela fina, era bom para andar no mato. Quem tinha canela grossa, não. Não iria agüentar os chupões do chavascal e do carapanã.

– Rapaz, – vai falando o mesmo José Benedito Ferraz – quando eu cheguei na mata, achei muito difícil. A primeira vez que eu cortei seringa foi em Quari, aí no Barro Alto. Foi um rapaz nos ensinar a cortar, porque ninguém sabia. Levou nós pra lá e passou uma semana ensinando como é que era. A gente levantava cedo, três ou quatro horas da madrugada, fazia o café e tomava com uma carne assada, aí ganhava o mato e ia chegar de volta era uma ou duas horas da tarde. Aí, quando chegava com o leite, ia fazer fogo pra fazer um café e alguma coisa pra comer, então é que ia defumar aquele leite pra fazer a borracha. Trabalhei uns vinte anos no Japurá cortando seringa. Lá tinha índios, mas em pouco tempo eles amansaram. E a região que eu fiquei não era muito doentia mas agora esse rio Tefé... escapou bem pouco seringueiro lá... Um deles baixou aqui e não tinha um fio de cabelo. Era a beribéri, a tal da febre que derrubava os cabelos... Daí ele fez uma jura que nunca mais ia cortar seringa. Ele nunca mais cortou mesmo.

Cadê a bota até o joelho?
Cadê a espingarda?
Cadê o terreno limpo?

Era trabalhar no igarapé perdido. Era cortar seringa o dia todo. Era entrar a noite defumando. Era morrer de febre, ser picado por tachi. Enfrentar onça, enfrentar cobra. Vender toda a produção para o patrão. Comprar mantimentos só do patrão. Com os preços que o patrão queria. Eles iam fazer o quê?

Histórias da seringa. Os donos fechavam os rios e exerciam sua autoridade sobre aquelas terras. Zé Tupi e suas lembranças: “Só porque é dono dos terrenos, lote e mais lote, eles querem mandar demais. Isso é até privação, né? A mata tem a sova, tem a seringa, tem a castanha. Quer dizer: só bastava o patrão dizer: entre a boca desse rio e as cabeceiras, o terreno é meu. Não tem que colocar a mão. O povo ficava com medo”.

O primeiro trabalho nas matas era abrir estrada. Eram caminhos abertos na selva. Levavam até as seringueiras. Trilhas marcadas por rastros, balizadas por árvores previamente escolhidas no meio dos igapós, atoleiros, troncos abatidos, grandes formigueiros, gigantescas castanheiras ou sapopembas que o seringueiro era obrigado a contornar. No fim, ficava um zigue–zague enorme que era percorrido pelo soldado da borracha. Todos os dias andando até vinte quilômetros por vez. Cada um na sua própria estrada. “A gente chegava (lembranças de Zé Tupi) e via tudo estranho ali. Não se conhecia nem o tachi, um bichinho desse tamanhinho, que ferra e fica um calombo que arde que só o diabo. A gente não esperava e o tachi descia na roupa da gente e a gente ficava, ô formiga danada! E os mateiros ficavam ali só gozando a cara da gente, os camaradas que eram arigó mesmo... Quando eu vim para cá era tipo boiada, por isso que chama arigó: bando de pássaros ah, ah, ah, quem tivesse mocotó grosso eles diziam que não queriam não, porque era vagabundo, não dava pra andar ligeiro com perna grossa, ah, ah, ah”.

Calcula-se que uns cem mil nordestinos participaram desta migração forçada. Uma porção deles está soterrada no meio da mata. Um outro tanto ainda vive por aquelas bandas. Muitos não voltaram às regiões de origem por absoluta falta de dinheiro para pagar a viagem. Outra vez se fala em reativar os seringais. Zé Tupi acha que não dá.

“Veja o senhor, a 50 contos o quilo do café, onde o pobre pai de família que tiver seis filhos pra criar vai arrumar jeito de viver? Pelo menos se não existisse essa raça de comerciantes! Eles massacram a população! Mas o negociante também está encalacrado em tirar o dinheiro do bando para pagar! Eu não volto pra seringa porque estou de barba branca, pra dar topada não dá mais não. Estou na Amazônia desde 43 e de tudo já fiz: cortei seringa, tirei madeira, tirei sova, marisquei pirarucu, marisquei jacaré, de tudo já fiz”.

(O ciclo da borracha: metade do século dezenove, a descoberta das propriedades do leite viscoso que corria dos cortes dados da seringa, interessando ao mundo industrial. Prosperidade sem precedentes na Amazônia. Os testemunhos dessa época ainda estão por lá, em Belém e Manaus, nas moradas da burguesia que enriqueceu com a borracha). 1873: o colonialismo inglês bota os olhos nos seringais. A famosa passagem do botânico James Collins, a serviço de Sua Majestade. Recolhe centenas de sementes da hevea brasiliensis. Publica estudo sobre processos de corte, colheita, preparação do látex. Outro botânico, Henry Wickhan, ainda a serviço de Sua Majestade, publica estudo sobre processos de corte, mil sementes em uma estufa especial montada em seu navio. Em Belém convidou os agentes alfandegários e autoridades portuárias para um grande jantar a bordo e polidamente se desculpou por não poder mostrar-lhes o conteúdo da estufa: ela continha mudas de orquídeas encomendadas diretamente por Sua Majestade britânica para enfeitar seus jardins e qualquer violação das especiais condições da estufa poria toda carga a perder. O ardil deu certo. Plantou as sementes em Paradeniya, Ceilão, onde vingaram 2.800 árvores. Começava ali a decadência da borracha no Amazonas.

Em 1881 as primeiras plantas já frutificavam em Singapura e de lá outras sementes foram levadas para a Malásia, Java, Sumatra e Bornéus, e antes do fim do século XIX as primeiras partidas de borracha asiática eram vendidas na Europa. Na Amazônia, as seringueiras estavam espalhadas pela selva enquanto nas colônias inglesas foram plantadas em áreas especiais, tornando sua exploração mais fácil e barata.

Em 1912 a produção brasileira atingiu 42.000 toneladas, correspondentes a uma receita de 16.800.000 libras esterlinas. Foi o ponto culminante desde que tinha começado a sofrer mais sensivelmente os efeitos da concorrência asiática, e, em 1930, o Brasil detinha apenas 1% da exportação mundial, estimada em 800.000 toneladas. O desastre acarretou a desarticulação total da economia amazônica: falências aos milhares, paralisação da exploração dos seringais e da frota fluvial que garantia o transporte do produto, além do desemprego.

– A borracha dá na fumaça. E na fumaça ela mesma se acaba. Um dito certo é esse.

Assim falou Zé Tupi, pensador do sertão.

Paulo Freire:
o andarilho do óbvio


O educador Paulo Freire conversa com os repórteres
de Versus na Guiné–Bissau, dá seu testemunho sobre
a educação no Brasil e no mundo, e diz que foi ingênuo
na procura, na crítica e na análise do que viu.

Por Licínio de Azevedo e Maria da Paz Rodrigues
Versus 8 • março de 1977

Professor, pedagogo, aluno. Passageiro certo para as companhias aéreas internacionais. Vinte dias em Angola, alguns na Suíça, Cabo Verde, Guiné–Bissau. Escala em Paris, África. Seminário na Inglaterra, Alemanha, debate em São Tomé. Paulo Freire, pernambucano, 52 anos. Um andarilho do óbvio. Endereço para correspondência: Genebra, Suíça.

Mas o óbvio nem sempre é óbvio. E nessa andarilhagem pelo mundo, ele descobriu que é preciso falar do caráter político, natural, intrínseco da educação. É preciso arrebentar a casca, olhar por dentro. Pôr o miolo na mesa para discutir.

“A minha prática é social e não individual. Isso não significa que nela não exista uma dimensão individual. Quando procuro lembrar o início das minhas preocupações com o processo educativo, a minha curiosidade, sinto que isso me sacode para uma porção de anos atrás. E recordo que desde o princípio, desde o primeiro momento em que fui curiosamente atraído pela ação educativa, por n razões, já orientei a minha mirada à análise do que fazer no Brasil de forma crítica ao sistema educacional tradicional que se impunha como objeto da minha reflexão.

E fui ingênuo nesses primeiros momentos. Na minha prática, na perspectiva de procurar, criticar e analisar tudo o que via quanto à educação. E uma coisa engraçada. A prática que tive, sobretudo na educação de adultos, era uma prática que acho correta. Era dinâmica e funcionava, tanto quanto possível, dialeticamente.

Foi na sua análise, na tentativa de teorizá–la, que fui ingênuo. Quem lê o meu primeiro livro, “Educação com prática de liberdade”, percebe que não faço alusão, nem ao menos uma vez, ao caráter eminentemente político da educação. E isso foi uma ingenuidade.

Não quero a minha defesa. Pelo contrário, quero fazer a minha crítica. Embora naquela época, ao lado dessa ingenuidade, para mim fundamental, eu já tivesse anúncios críticos. Um dos erros de quem me analisa hoje e faz artigos sobre mim, que me critica, com acerto, em relação a este primeiro livro, é justamente parar na leitura dele. É importante ler o que escrevi depois para saber se continuei insistindo naquela ingenuidade. Que então não seria mais apenas isso, mas um jogo astuto, ideológico, no qual, através de uma posição de classe, eu procurasse emascarar o processo educativo a serviço das classes dominantes.

A minha prática continua. Ainda estou vivo. E é exatamente essa prática que não parou quando deixei o Brasil. Que continuei em outros países da América Latina, nos países chamados do primeiro mundo. Ela me ensinou a ver o que não tinha visto antes. Esse é um esforço que faço constantemente: pensar sempre a prática como único meio de pensar certo.

Eu havia feito a denúncia do sistema até mesmo na época da ingenuidade. Mas faltou precisão em certos conceitos. Era necessário esclarecer melhor esses conceitos como fiz em trabalhos posteriores. Se não fizesse poderia dar margem a uma certa recuperação, ao uso do que eu dissera por parte de certos grupos. Uma das minhas grandes preocupações atualmente é ser claro. O mais claro possível na análise do fenômeno educativo como um fato político.

A minha primeira experiência com adultos não foi inicialmente no campo da alfabetização. Mais exatamente no terreno que podemos chamar de pós-alfabetização, independentemente das pessoas serem alfabetizadas ou não. Eu tentava realizar com eles uma discussão da realidade. Desafiá-los a fazer uma releitura de sua realidade. E é curioso que tenha feito isso, que é um fato político e, ao teorizar, não fizesse referência ao caráter político da educação. Há certas coisas inexplicáveis. Não. No fundo podem ser analisadas: eu também tinha os meus condicionamentos. A minha própria posição de classe, na qual, evidentemente, estava ideologizado.

Tinha 23 anos quando comecei esse trabalho com adultos. Estudava durante um período do dia e no outro trabalhava com pais de crianças ligadas às escolas primárias de áreas populares de Recife. Procurava interpretar com os pais os problemas dos filhos na escola. Isso me abriu uma oportunidade enorme de aprender. Com o analfabeto, com o semi-analfabeto. Estou escrevendo um livro, uma espécie de relatório sobre tudo isso, sobre as experiências em que estive envolvido até hoje.

A minha infância foi um pouco dura, não tão dramática quanto outras infâncias. Mas nela tive possibilidade de ter companheiros da mesma posição que eu, classe média, também filhos de operários, camponeses. Isso me proporcionou um aprendizado fantástico. Ao lado dessa experiência da fome, aprendi muito bem a compreender como é difícil para uma criança que não come assimilar as lições da escola primária, secundária.

Eu mesmo experimentei essa dificuldade. De ler e não entender. De abrir o caderno de lições de geografia e ter que fechar os olhos, com aquela alimentação terrível: França, capital Paris, Inglaterra, capital Londres. E também se dizia – repete, menino repete que tu aprendes. Eu tinha que repetir e fechava os olhos. Não podia aprender aquilo porque a única geografia que conhecia bem era a da minha fome. A geografia dos quintais onde eu ia roubar bananas e jaca. Essa era a geografia que conhecia. Sabia o melhor local para esconder a banana, abafada nas folhas da própria bananeira.

Na juventude, reatei contato com os operários. Aí, já como educador que começava a aprender a ser educador, com eles. Esse reencontro foi incrível. Lembro que custei a suportar certo tipo de erros, mesmo apesar da minha experiência anterior que me ajudava a ter comunicação fácil com esses adultos. Custei a vencer alguns aspectos da pedagogia tradicional. Por exemplo, a mania de fazer discursos.

Também comecei fazendo os meus discursos. Discursos em que criticava a pedagogia tradicional. Só depois de algum tempo pude fazer a coerência entre o discurso crítico que pronunciava e a prática que propunha. Então fui superando os discursos e entrando na experiência dialógica. Propunha uma certa temática e discutia com os grupos. Pedia sugestões sobre que assuntos poderiam ser discutidos na próxima reunião. E elaborávamos os temas sugeridos. Passei a fazer discussões em torno do assunto proposto em vez de conferências. É um aprendizado que vai se tendo.

Nessa época já me preocupava em ter uma compreensão histórico-cultural do Brasil. Em adquirir uma visão da história da educação, interessava-me conhecer, no tempo e no espaço, as teses dos chamados filósofos da educação. Sem desprezar um estudo sistematizado ou o pensamento e as experiências de outros educadores, preocupava-me, principalmente, em pensar a nossa realidade. Em como realizar um trabalho no campo da educação em função dessa realidade.

Eu procurava superar os modelos estranhos. Não que estivesse negando as experiências de outros contextos. Já percebia, como hoje, que as experiências se reinventam, mas não se transplantam. Então, não estava interessado, de maneira nenhuma, em utilizar projetos de outras realidades para segui-los ou transferi-los para o Brasil. Compreendi também que dentro do próprio contexto brasileiro existe uma série de variações. Mais tarde, na campanha de alfabetização, percebi que o programa de trabalho deveria variar até dentro de uma mesma área de uma capital como Recife. As palavras geradoras aplicadas num bairro não seriam, necessariamente, aplicadas em outro.

Tive essa preocupação desde jovem. Na escola, sentia-me como se estivesse sendo enchido de conteúdos. A qualquer nível, coisa que analisei depois na “pedagogia do oprimido”. Por isso, quando faço uma crítica, ela resulta da prática. Porque eu participei. Não só enquanto crítico dessa prática, também como objeto dela. A crítica foi se clarificando na medida em que fui tendo uma prática distinta ou mesmo propondo. A prática é, realmente, a matriz do conhecimento. A prática social.

O problema não está na escola. Eu digo que não há escola nem boa nem má em si mesma. Ela não é uma categoria metafísica, é uma instituição social. Então, o problema é político e ideológico. A educação não é de maneira nenhuma neutra, é sempre um ato político, não importa o nível em que ela se dê. Na escola primária, secundária, universitária, numa atividade extra.

A questão que se coloca é saber em função de quem, para quem, contra quem se faz esta política. Evidentemente, numa sociedade de classes, o sistema educacional tem que ser um multiplicador da ideologia do grupo mais poderoso.

Eu sempre digo que nenhum sistema educacional, em qualquer sociedade do mundo, é forjador da sociedade. Isso é óbvio. Como se houvesse na história um caso, pelo menos, de uma coletividade que antes de constituir-se em sociedade, convocasse as grandes massas populares para um simpósio em que se discutisse um perfil a ser adotado. Perfil de homem e mulher para ser concretizado depois, através da educação. E terminado o simpósio se dissesse: muito bem, encontramos este modelo ideal e agora vamos montar a nossa educação para criar essa sociedade. Isso seria impossível. Quando se estabelece a infra-estrutura, a produção e o modo de produção de uma sociedade, então, o sistema educacional emerge dessa realidade.

Isso não é um processo mecânico. É dialético. Há uma relação dialética entre a estrutura da sociedade em que a educação, enquanto subsistema se constitui, e a própria educação que se volta sobre as condições materiais que a constituíram. Para condicioná-la, para preservá-la e para multiplicar a ideologia dominante em que ela se funda. Agora, o que não é possível é esperar que a transformação social se faça através da educação, sobretudo sistemática.

A escola será sempre uma reprodutora da vida social. Não pode ser diferente. Jamais foi ou será uma agência neutra, como diz o pedagogo clássico. Isso não existe. Digo isto sem defender a escola. Apenas constato.

Não tenho dúvida nenhuma de que se eu dissesse que não há solução para a escola, estaria pensando metafisicamente. Eu admitiria que a escola é uma categoria em si, com uma essência imutável. E nisso não creio. Creio na dinâmica da escola, nas contradições. É evidente que para que essa escola se faça, se mude, os seres humanos devem agir. Enquanto agentes dessa transformação, em função da realidade material existente. A partir da base material estabelecida é necessário ajudar, empurrar também o que a base material possibilite.

Eu diria: a educação pode ser dogmática, o que me parece errado.

É preciso não cair na manipulação para não ser dogmático, nem se cair no espontaneísmo para fugir à manipulação. Se você cair no espontaneísmo em nome de uma liberdade, essa liberdade inexiste. Se cair na manipulação, você castra a capacidade criadora do educando.

O que eu defendo é exatamente o conceito de escola como centro democrático. A presença do professor e do estudante engajados na realização de determinados objetivos sociais e não individuais, para a reconstrução da sua sociedade. No fundo, é uma busca comum em que os dois se comprometem nesse descobrimento. No trabalho conjunto, surge também uma prática e uma nação no campo da produção.

Samora Machel, por exemplo, propõe um tipo de escola que não tem nada a ver com a instituição encarregada de domesticar consciências. O que se coloca é saber até que ponto essa escola já está existindo em Moçambique. Evidentemente, ainda não pode estar existindo em termos preponderantes. Não visitei o país, mas tenho a certeza que muitas coisas devem estar sendo feitas no sentido da análise que Samora Machel faz do problema da escola. E só poderão ser realizadas na medida em que se aprofundam as transformações da sociedade, em que se cria o homem novo e mulher nova dentro desse processo. E isso não é fácil. É um trabalho em que é necessário, ao mesmo tempo, capacitar o novo educador e recapacitar o antigo. Nesse esforço é preciso enfatizar muito a análise da carga ideológica que o antigo professor guarda dentro dele, por sua própria prática numa sociedade diferente daquela em que ele está agora, em processo de recriação e mudança.

A minha prática nos últimos anos tem sido, sobretudo, a prática de pensá-la. Não de pensar apenas a minha prática. Também a dos outros. De tomá-la como objeto de uma reflexão crítica para compreender os acertos e os desacertos da prática que se dá a mim como objeto de conhecimento. Nesse sentido, estou absolutamente convencido de que a escola, em qualquer nível, se vincula à produção. É uma ilusão pensar o contrário.

Numa outra perspectiva, a prática unida à teoria implica uma relação distinta. Isso pode ser analisado através de vários casos. No aprendizado de como fazer um rádio. Antes de discutir com o educando como fazer um rádio, é preciso discutir a necessidade desse rádio. Qual o objetivo do aparelho enquanto instrumento receptivo, transmissor. A quem serve e a quem desserve.

No meu entender, para formar um técnico numa sociedade em transformação, importa, prioritariamente, desenvolver sua consciência. Para que ele saiba, afinal de contas, em favor de quem ele se capacita. Basta isso para dizer que esta já é uma escola diferente. Não é mais aquela escola que distribui diplomas com os quais o indivíduo procura um lugar ao sol. É uma instituição em que se busca conhecer, aprender para melhor servir à coletividade.

Aí é importante começar a pensar quais as novas relações que deverão surgir entre educador e educando. Elas não vão mudar a partir de decretos. Mudam na medida em que a prática social global também começa a mudar. E isso depende de como essa sociedade se recria. Em função de que objetivos, em função de quem. Todos esses fatores estão relacionados com a produção.

Quer dizer, o que produzir, como produzir, para que e para quem produzir. A escola nova, sem nada a ver com a anterior, só aparece no momento em que a sociedade marcha para uma transformação radical das relações de produção.
Digo quatro características, que lembro agora, que se encontram numa sociedade burguesa. Não necessariamente apenas nela. Quatro dicotomias, quatro separações. A dicotomia entre trabalho manual e intelectual. Entre prática e teoria. Entre ensinar e aprender. Entre assimilar o conhecimento que existe hoje e criar o novo conhecimento. Quando se dicotomizam esses atos já se pensa formalmente. Sem superar essas quatro contradições que estão visceralmente ligadas à prática social, só é possível fazer a denúncia e o anúncio de futuras relações entre educador e educando. Mas não se pode estabelecer novas relações a não ser em ilhas. No que costumo chamar de espaços livres.

Esse processo não se dá automaticamente com uma mudança na política do sistema. A modificação educador-educando só pode aparecer com a superação dessas contradições básicas. Nesse momento, o educador deixa de ser educador exclusivo do educando, para ser também educando. E o educando deixa de ser educando exclusivo do educador, para ser o educador do educador. Então, já não há mais um educador e um educando enquanto contraditórios. Há, agora, uma síntese entre o educador-educando e o educando-educador.

Enquanto não se chegar à plenitude dessa relação é preciso que os dois busquem conhecer juntos, mediados pelo objetivo em si, para que não haja apenas transferência de conhecimento. Antes desse momento, que demora devido à carga social que ainda não se transformou completamente, é tempo de começar a enunciar. De fazer as primeiras práticas novas. Mas essa plenitude nunca é total. Gera novas contradições. Se a gente admitisse essa plenitude absoluta na relação entre educador e educando, estaria admitindo a parada da história. Isso não ocorre.

A relação entre educador e educando é uma questão eminentemente política e não exclusivamente pedagógica. Eu digo que não há problemas pedagógicos. Eles são políticos e ideológicos. E, como reflexo, são pedagógicos. Daí a necessidade da clareza política do educador. O resto vem depois.

A transformação das relações entre educador e educando fazem parte de um processo. Enquanto processo inacabado ou inacabável, enquanto processo que se faz e se refaz. Costumo dizer que a revolução que foi já não é. Porque para ser, tem que não ter sido. Tem que estar sendo. Isso implica que a sociedade sofra uma transformação na sua infra-estrutura e se opere o esforço crítico-consciente sobre a superestrutura, a ideologia. É esse processo que chamo de transformação intra–estrutural. No qual, de um lado é preciso fazer a modificação das relações sociais de produção que vão constituir uma nova prática, que, por sua vez, vai reconstituir a consciência. De outro, fazer um ataque à velha ideologia que era coerente com a antiga estrutura que foi transformada.

Isso é exatamente o que a Guiné–Bissau busca. É uma sociedade que está superando a etapa colonial em busca da criação de um sistema novo.

O problema está numa transformação radical da herança do colonizador. Mas essa transformação radical não pode ser feita da noite para o dia. Muitas dificuldades impedem o avanço. Falta a capacitação de novos quadros e também a prática social que vai se transformando. Daí, que Mário Cabral, o Ministro da Educação, tenha falado numa etapa de transição, necessária. De pouco a pouco, introduzir uma série de modificações no velho sistema, buscando o novo. E quando digo pouco a pouco, não digo em cinco anos você faz uma coisinha, em outros cinco, outra. Não. Eles estão fazendo uma série de coisas.

Um dos grandes problemas do ensino renovado é que, sem a transformação da prática social, teremos apenas reformas no sistema tradicional. Nunca uma modificação radical do sistema. Mas não é legítimo dizer que não devemos fazer reformas enquanto a transformação de uma sociedade não chega. A partir da própria sociedade dominante é preciso fazer transformações.

Às vezes a gente faz esforços no sentido de capacitar professores, educadores. Grande parte deles terminam recuperados pelo. Mas se você me pergunta: Paulo, então qualquer tentativa como essa é perda de tempo? Digo: não. Muita coisa feita hoje e considerada por certas pessoas como uma prática sem sentido, ganha significado talvez oito anos depois. Quando você menos espera. Como resultado daquilo que foi feito e que, aparentemente, não tinha sentido.

O importante é estabelecer as prioridades e não usar demasiado tempo em coisas que são menos eficientes. Concordo que a experiência do ensino renovado tem dado poucos resultados. Tenho tido essa experiência ao longo da minha vida. Mas também tenho tido outra. Posso dar um exemplo, que prefiro não localizar.

Em 1969 recebi cartas de ex-analfabetos de um certo país, que não era o Brasil. Cartas muito afetivas, para me agradecer. Dois anos depois encontrei-me com um jovem desse país e ele fez referência à experiência da qual resultavam as tais cartas. Disse que as pessoas que as tinham dirigido haviam distorcido o meu pensamento. Eu respondi: não é muito fácil fazer uma coisa muito radical dentro das condições políticas do teu país. Anos depois houve uma transformação nesse país. Estive lá e visitei a zona rural onde, cinco ou seis anos antes, um certo grupo havia sido alfabetizado e me escrito as cartas. Observei que essa comunidade camponesa era uma das que dava maior apoio ao novo poder que se estabelecia.

Vejam o seguinte: oito anos antes, essa experiência foi considerada sem sentido. Passado esse tempo, você percebe que houve algo, apesar de tudo. Isso não significa que a gente se satisfaça apenas com certas coisas menores, se você quer a tarefa maior. Em síntese, o que eu queria dizer é que em história se faz o que se pode. Não o que se gostaria de fazer. E a única possibilidade que tenho de fazer amanhã o impossível de hoje, á fazer hoje, o possível de hoje. É fazendo o possível de hoje que faço o impossível de hoje e amanhã. O que ocorre é que, às vezes, o possível de hoje é chato. Chato. Me desculpem a palavra.

As reformas de caráter avançado, onde quer que se dêem, de um modo geral tendem a ser recuperadas pelo poder. O que é natural. Mas ocorre também que o próprio governo é obrigado a fazer reformas. E ao fazer, elas saem das mãos de quem as fez. Assim podem trabalhar contra os que as fizeram. Isso acontece muito. Eu sou contra o reformismo, mas não sou contra as reformas. Estrategicamente não quero reformas. Mas, taticamente, eu as aceito.

Nos últimos tempos tenho tentado pôr em prática as coisas que penso. Estou trabalhando há um ano na Guiné-Bissau e em Cabo Verde, juntamente com o IDAC – Instituto de Ação Cultural. Lado a lado, braço com braço, com as equipes nacionais. Porque há uma coisa em que insisto, não somente eu, mas todo o pessoal do IDAC: a nossa tarefa nestes países jamais poderia ser neutra. Uma tarefa de peritos internacionais neutros. De técnicos que desembarcassem no aeroporto com as suas valises, carregadas de planos, propostas, soluções e relatórios para doar aos nacionais. Pelo contrário, desde o primeiro momento em que o Governo nos convidou, através do ministro da Educação, estávamos convencidos de que o nosso trabalho seria diferente. Aprendendo com os nacionais também poderíamos ensinar algo a eles. Jamais pretendemos ser professores dos nacionais ou os formadores.

Por uma série de razões, por falta de tempo e de quadros, o IDAC não pode participar no trabalho que estamos realizando em Angola e São Tomé. Nesses países tenho colaborado apenas com Elza, minha mulher, junto dos educadores nacionais. Na mesma perspectiva, na mesma linha de pensamento. Sem pensar em ir para lá como um invasor. E isso nos deu uma oportunidade de aprender, de discutir. O que me dá uma alegria enorme.

O IDAC é um instituto que está fazendo um trabalho interessante. Uma organização privada, com um grupo de trabalho que vive de contribuições ou de suportes a projetos que apresenta. Começou a funcionar em 1971. Na época, convidei uns amigos para discutir na nossa casa a possibilidade de criação de um instituto desse tipo. Depois, o Claudius também se associou. Trabalhamos, eles mais do que eu, cerca de um ano para a sua estruturação, para ajustar tudo de acordo com a lei suíça.

Acho que sou o presidente do conselho, não sei. Neste momento, a minha participação se dá exclusivamente no nível da experiência da Guiné. Não participo dos outros seminários que eles organizam nos outros países. Não tenho tempo. Hoje, o IDAC é constituído por alguns brasileiros, alguns norte-americanos, duas européias, e tem sede em Genebra. Desenvolve um trabalho de seminários no primeiro mundo também. Discute toda a problemática de como aproveitar um espaço livre e realizar algo, como o que discutimos aqui. Não uma pedagogia dirigista, mas dialógica.

Isso é mais ou menos o que procuro na minha andarilhagem do óbvio. Se você me pergunta: Paulo, tu te alegras com a tua tarefa? Digo, em primeiro lugar: essa é a tarefa humilde que posso ter no momento. E não mais que esta. Também tenho as minhas limitações. E esse é o trabalho humilde que tenho. Então, não fico triste dentro da minha limitação. Pelo contrário, procuro fazer ao máximo, o mínimo que posso fazer. Daí que eu tenha uma constante alegria do viver. Não há um momento em que me sinta desesperançado da vida. Toda a segunda, terça, quarta-feira, estou sempre assim. Contente com a tarefinha mínima que as circunstâncias me deram. “Porque nem sequer a escolhi”.

Os mortos de setembro

O repórter percorre os cemitérios
do Chile em busca das histórias dos mortos de setembro.
Das lápides de suas tumbas, eles ainda resistem.

Por Wagner Carelli • Versus 9 • abril de 1977

“Quando julgar necessário o mal, o Príncipe deve aplicá–lo todo, de uma única vez. Assim, cumprem-se seus desígnios e, um dia, todo o mal será esquecido”. Maquiavel

1
Nas datas, compassos de um tempo. Um único tempo: um mês. Monótonos compassos repetidos em centenas de lápides. Atrás delas, todas as vidas e toda a morte. Nos visitantes, todo o silêncio é tácito e respeitoso diante de cada tumba. Não há orações, e as flores são poucas na estreiteza de cada faixa do ossuário. Os cravos se dividem: um à memória do irmão, outro à frente do nome de Pablo Neruda. Do mesmo ramo saem as rosas para o filho e para Victor Jara. Não são muitos os que se demoram na ala mais suja e abandonada do Cemitério Geral de Santiago do Chile. Parece penosa a permanência ali, onde se alonga um eterno setembro de toda a violência. E, de uma vez, todo o mal. Mas ninguém esquece o tempo e os mortos.

2
– Por favor, a tumba de Violeta Parra?

– Siga em frente e, na última rua, dobre à esquerda. Violeta está próxima ao pedágio.

– E a de Pablo Neruda?

– Dom Pablo estava numa cripta emprestada, mas foi retirado de lá. Agora, se não me engano, está na rua México. Exatamente, rua México. Módulo U-3. Quando sair da tumba de Violeta, pegue a avenida central Bernardo O´Higgins e siga em frente.

A mulher fala com naturalidade das ruas, avenidas e pedágios, estranhas características do cemitério chileno. E continua o crochê, que tece com paciência sentada no mármore de uma lápide. Todas as zeladoras das sepulturas se parecem, na indiferença. Mas elas conhecem detalhadamente cada mistério da pequena cidade dos mortos, sabem suas histórias. E falam como se ali todos continuassem a viver.

O túmulo de Violeta Parra fica na parte antiga do cemitério, um pouco afastado dos grandes sepulcros das famílias poderosas e ricas. É uma tumba modesta, mas digna, em frente a um insólito ponto de ônibus e a alguns metros de uma barraca de sorvetes. Está coberta de flores: é 5 de fevereiro de 1977, e faz exatamente dez anos que a encontraram com a cabeça ensangüentada sobre o revólver que acabara de usar, em sua tenda no bairro de La Reina. Pergunto ao sorveteiro se houve alguma cerimônia. Ele diz que não, e passa a observar com atenção minhas manobras para fotografar a tumba e as flores. Alguém me avisa para tomar cuidado.

3
A avenida Bernardo O´Higgins parte do grande portão principal do cemitério, que cruza de sul a norte. É o caminho mais rápido para chegar-se à rua México e ao túmulo de Pablo Neruda. Por aí entrou o imenso cortejo que acompanhou o ataúde metálico do poeta, desde sua casa saqueada e semi-destruída no monte San Cristóbal até a sua antiga sepultura. A princípio, a avenida está ladeada por álamos e ciprestes, em meio a tumbas monumentais, com destaque para os heróis do passado: Manuel Montt, Arturo Pratt. E para os modernos: desponta, grande e azul entre os demais, o mausoléu da Força Aérea do Chile. Devidamente guardado por dois soldados da mesma Arma.

De repente, a paisagem muda. Não há mais árvores, nem a sombra dos gigantescos monumentos funerários. E nas centenas de covas justapostas – que marcam o fim da antiga ala do cemitério – nem ao menos cabem lápides de mármore. Há rústicas cruzes de ferro, com nomes inscritos em pequenas letras e quase sempre com erros ortográficos. Os homens simples que aos sábados e domingos se dedicam sozinhos a cimentar as covas de parentes são, em geral, semi-alfabetos. Ali é o lugar dos pobres, mortos e vivos. Onde ainda não se enterrou ninguém, as zeladoras e coveiros plantam hortaliças.

Restos e detritos se acumulam entre os túmulos. Já nada se vê além das seqüências de covas e, ao fundo, junto à parede sul do cemitério, os ossuários dispostos como armários de cimento. Em nenhuma outra parte, contudo, se percebe tanto movimento. Entre as covas, os homens trabalham e os funcionários têm suas casas e filhos. Parece constrangedor o nome de Bernardo O´Higgins na placa indicando a avenida: atrás dela estão os banheiros mais imundos de Santiago, os meninos jogam bola sobre a urina que avança na rua onde termina a avenida. É a seca, poeirenta e suja rua México. Aí está o ossuário.

4
Compañeros, enterrame em Islã Negra, frente al mar que conozco, a cada área rugosa de piedras y de olas que mis ojos perdidos no volverán a ver.

Era difícil acreditar que o túmulo de Pablo Neruda estivesse próximo. E tão longe de Isla Negra que, em seu Canto General, o poeta pedia como sepultura. Seria na casa deixada em testamento, inscrito no mesmo poema, aos sindicatos do cobre, do carvão e do salitre. Mas ele estava ali, no módulo U-3, o canto mais miserável do maior cemitério do Chile. Em frente à lápide com seu nome, uma lata de alimento em conserva vazia, servindo de vaso. Sem flores. Um homem se aproxima, sério, e deixa ali um cravo. Depois, junta-se à família que o espera diante de outra tumba e se vai. No nicho em que deixou os cravos restantes está o nome de um menino de 15 anos e uma pequena placa de bronze: Homenagem de seus companheiros da 3ª série ginasial, que jamais esquecerão o seu valor. E, sobre o mármore, a data da morte: 11 de setembro de 1973.

5
Então percebi que as datas não variavam, ou variavam pouco. E que Pablo Neruda não estava ali por uma simples coincidência. São dezenas de lápides com os mortos do dia 11. Depois, outras dezenas entre 12 e 15, entre 16 e 25, 26 e 30. Naqueles grandes e precários módulos de concreto, improvisados em meio ao lixo dos fundos do Cemitério Geral de Santiago, estavam os mortos de setembro. Centenas de pessoas – jovens, em sua maioria – dispostas geometricamente, juntas, a exemplo de toda a cólera e furor desencadeados num único golpe. Em cada epitáfio, um desconsolo e um desafio: a revolta que os sobreviventes são obrigados a calar. Nos cemitérios chilenos, os mortos resistem.

6
De longe, algumas pessoas olhavam. Os dois soldados do mausoléu da Força Aérea, uma velha zeladora e o sorveteiro, que parecia ter adivinhado que me encontraria ali. Quando me aproximo, aponta uma tumba:

– Por que não fotografa esse aí?
Na lápide estava o nome de Victor Jara. Ele me conta: a maioria dos chilenos não sabe que o corpo do cantor está em Santiago. Depois, indica a sepultura de Miguel Hernández, o guerrilheiro morto em 1975 – mas colocado junto aos cadáveres de dois anos antes.

A velha me pergunta se procuro algum nome, em especial. Digo que não, que já vou. Ela insiste: quer que fotografe a lápide de um sindicalista. Me conta sua história, diz de sua morte na sede da corporação à qual pertencia. Fala da menina de 17 anos, morta na porta de sua casa. Mostra no mármore o nome de dois cunhados, quer contar mais esse caso, pergunta se sou argentino, por que fotografo, o que quero fazer. Longe, os soldados continuam olhando. Guardo a máquina e vou. A velha me grita pelas costas: No hay que tener miedo. Hay que sacar a los valores.

7
À noite é difícil dormir. O festival da canção de Viña Del Mar absorve a atenção dos chilenos. Pela televisão, todos esperam a presença de Julio Iglesias, uma espécie de Roberto Carlos espanhol que o jornal El Mercúrio chama de huracán. No auditório lotado, todas as moças se agitam ruidosamente. Os homens admiram. Lembro que na estranha lápide de pedra cinza cobrindo a tumba de Victor Jara, a data de sua morte está quase apagada: 14 de setembro de 1973. No Estádio Nacional, pouco depois de escrever seus últimos versos: Ay, canto, que mal me sales! Cuánto tengo que cantar, espanto! / Espanto como el que vivo, / Como que muero, espanto. / De verme entre tanto y tantos / momentos del infinito / en que el silêncio y el grito / son las metas de este canto.

A canção ficou incompleta. Poucos no Chile puderam conhecê-la. Mas Julio Iglesias seguia cantando em todos os vídeos, até que o toque de recolher calasse o país.

Rupa

S Hiroito Joanides cumpria longa pena em uma prisão
de São Paulo, quando fez chegar à redação de Versus,
por meio de um irmão, uma reportagem
carregada de desespero, violência e autenticidade.

Por Hiroito Joanides • Versus 9 • abril de 1977

As adagas rústicas, de feitura manual, possuíam corte nos dois lados e eram exageradamente pontiagudas. A verdade é que não passavam de compridas barras de ferro, pacienciosamente desgastadas contra a pedra até adquirirem aquele formato. Depois, foi aprimorado o gume. O cabo ficou sendo a extremidade da barra, ali deixada intacta uns dez centímetros. Tiras de pano, enroladas, davam segurança à empunhadura. Teriam meio metro desde o cabo, de onde grossos cordões pendiam lembrando longas caudas. Nenhuma obra-prima de cutelaria. Apenas boas armas. Três.

Usando os dentes e a mão esquerda, cada um tratou de amarrar os cordões em torno da destra que empunhava a adaga. Assim enleadas uma na outra, mão e arma se fundiam em mútuo prolongamento. Rapidamente, o mais alto e de nariz adunco ajuda a amarrar uma terceira adaga na mão do companheiro de olhos cinza. No céu de abril nenhuma nuvem. Taça emborcada, a luminosidade do sol os envolvia em sua beleza insuportável.

No recreio do pátio, o procedimento da dupla não passara desapercebido aos mais próximos, que trataram de recuar, ressabiados. E a dupla se dividiu, e como se cercassem frangos, foram indo devagar para o centro do pátio ensolarado. Caminhando com os braços punhais junto ao corpo, Olhos-Cinza lembra um soldado em posição de sentido.

Os outros correram. Um rapaz girou a cabeça e defrontou-se com Olhos-Cinza que avançava. Tentou escapar, olhando arregaladamente para trás, as pernas sem impulso. Caiu diante de Nariz-Adunco, cujo braço-punhal veio cortar-lhe a corrida – penetrando-lhe fundo a barriga. No choque de corpo e adaga, a lâmina penetrou até o punho. Permaneceram ligados no encontrão, que se desfez quando os corpos se repeliram, arremessados de volta pela violência do choque.

Nariz-Adunco caiu sentado, enquanto o outro estremecia – a baba sangrenta escorreu.

Olhos-Cinza o atingiu por sua vez, furando-lhe as costas com o braço-adaga da destra, seguido pelo braço-adaga esquerdo que lhe retalhou a cintura dobrada. O sangue borrou o rosto e o peito nu de Olhos-Cinza.

Nariz-Adunco buscou o portão do pátio, apinhado com a manada em pânico que se pisoteava para escapar. Ereto junto ao cadáver, Olhos-Cinza com um gesto distraído de punho afasta os fios de cabelo que lhe caíram sobre a vista, tingindo de sangue sua testa. Seu olhar passeia pela clareira aberta no pátio e se detém na figura delicada de um outro, acocorado e contorcido de horror. Os caçadores convergem tranqüilamente para ele. Figura-Delicada era o próximo eleito. Gritou nãos, curtos, sobrepostos, crescentes, os braços entreabertos de ave na iminência de alçar vôo.

Como que catapultado, ele vara a distância entre os caçadores, caindo entre os dois, até que o golpe de Olhos-Cinza o detém, ao furar a flacidez do braço. Os braços pontiagudos, turbinas, de metal, penetram o corpo de Figura-Delicada, até que cessam o esperneio e os urros.

Os caçadores, agora, caminham sem pressa, escolhendo. A eleição cabia desta vez a Nariz-Adunco: o homem-caça foi destacado do bloco humano e encurralado a um canto com leves pontaços repetidos em todo o corpo. Reagiu, afinal, com um pontapé que atingiu o quadril de Nariz-Adunco, no instante em que seu pescoço era atravessado, em riste, por Olhos-Cinza, que ali fora cravar-se até a empunhadura de trapos, emendado pelas velozes cutiladas desferidas por Nariz-Adunco na carne exposta, pendurada, que arriava lentamente, a face contorcida, de viés, pescoço trespassado pela adaga que o sustinha na ossatura da nuca e do maxilar, até que chegou ao chão de joelhos, decepando os próprios dedos agarrados à lâmina, olhos abertos para o céu.

O pátio estava deserto. Afora os matadores, na planura monótona do solo de cimento restavam os despojos da caçada.

O ano foi o de 1973 e o local da chacina situa-se a menos de quatro quilômetros do Marco Zero da CIDADE QUE MAIS CRESCE NO MUNDO. Mais precisamente: aconteceu no Pátio do Segundo Pavilhão da Penitenciária do Estado de São Paulo, entre sentenciados reeducandos, conforme a gíria dos assistentes sociais.

Reeducandos, pois, na plenitude de sua recuperação pela Sociedade: Olhos-Cinza, o de duas adagas, foi registrado em Cartório quando nenê com as letras C–A–R–L–O–S A–L–B–E–R–T–O D–A C–O–S–TA e enquanto crescia foi sendo chamado de Carlão. Nariz-Adunco tinha uma Certidão de Nascimento onde estava escrito J–A–M–I–L H–A–D–D–A–D. Arquivos e Computadores os conheciam como os Sentenciados 25.516 e 25.520.

Eram objetos de necessidades e interesses d´A Sociedade: usuários, para o transporte e a comunicação; para os correios, destinatários e remetentes; fregueses do comércio; consumidores da Propaganda; mão-de-obra para a indústria; colegas, vizinhos, eleitores, distinto público para todo mundo; fiéis para a religião; suspeitos, réus, sentenciados para a lei e para a justiça; alunos da educação, alunos da vida perenemente reeducandos, e, um para o outro, companheiros...

O primeiro a tombar fora chamado CONSTANTINO AUGUSTO DE DEUS, jocosamente apelidado Zé do Quepe. Feições-Delicadas, que inexplicavelmente viria a sobreviver, possuía o número 24.953 e um apelido impublicável. ARMANDO FERNANDES, o Boca, fora o terceiro a tombar varado de morte. Era o número 24.754.

No silêncio do vazio do pátio, sentindo o vento da tarde em seus peitos e pêlos ensangüentados, os dois participantes da chacina, em sua parte ativa, sabiam que lhes bastava por enquanto e os compensava de tudo.
Eles seguiriam matando.

Seus corações pulsavam tranqüilamente quando, acenando um ao outro, dirigem-se ao ângulo da muralha entre o segundo e o terceiro pavilhão. Jamil passa por cima do cadáver do Zé do Quepe, Carlão pisa entre as pernas abertas do morto e vai deixando pelo chão pegadas rubras. No canto do pátio, subindo às costas de Carlão agachado, Jamil-Acrobata se ergue até o parapeito de uma janela gradeada e se alça à muralha. Para Carlão é difícil, as adagas o atrapalham, e o companheiro tem que puxá-lo pelos pulsos ferindo nas lâminas os próprios braços.

Ei-los no alto da muralha. Não para fugir mas para matar.
No pátio vizinho, outros cento e cinqüenta sentenciados tomam sol (seu sol deve estar sendo tomado de alguém, talvez do Dono da Natureza), apreensivos com os berros e o tropel escutados há pouco: ao divisarem sobre a muralha os dois homens-adaga cobertos de sangue, afastam-se todos ao mesmo tempo para a estreita saída ao canto do pátio onde vão confluir amontoadamente.

Os dois se dependuram à muralha e deixam-se cair ao chão. Carlão corre para o portão e passa a desferir adagadas nas costas, traseiros, coxas dos que estão ali embolados. Não indiscriminadamente, como seria de esperar, mas andando, atento, em torno à massa humana que esmaga a si mesma contra o portão, ferindo, aqui, este, logo adiante, outro, além, aquele, com critério seletivo que restará para sempre desconhecido.

Jamil havia corrido para um canto, escolhido seu predileto, que reage. Ferido, ele se atraca e em luta rolam pelo solo. O braço-adaga está preso por uma garra de força desesperada. Jamil grita, alto, chamando Carlão que acode na corrida. Sua destra-adaga penetra o espinhaço do homenzarrão trepado por cima de Jamil, e no excesso de ímpeto a ponta varante desponta do umbigo.

Atravessado pelo ferro, o corpulento tórax se abate de bruços arrastando Carlão, puxado na queda. O braço-adaga ficou entalado entre a musculatura e os ossos. Naquele curvamento forçado de seu corpo, Carlão tenta firmar os pés no chão e sustentar-se nas pernas para, desentalando o braço, erguer-se. O dorso sem vida recua com ele, erguendo-se um palmo.

Carlão é prisioneiro de seu cadáver.

Jamil, de pé e de orgulho ferido, castiga o ombro, o pescoço, a cabeça do morto.

Entreolham-se os dois ofegando.

Fitam ao seu redor outro pátio vazio, clareira ensolarada.

Conseguindo vazar pela estreita passagem, a massa humana espalhava lá dentro seu alarido ao longo de escadas e corredores. O portão fora fechado pelos Guardas de Segurança, que se mantêm do lado de dentro, nada animados a intervir no pátio.

Reinicia-se o interminável diálogo humano: Jamil e Carlão, extenuados, decidem que só entregarão suas armas a um companheiro – Botina –, matador veterano a quem admiram.

Há acordo. Botina é conduzido ao local, tem início a cerimônia protocolar de rendição. Desamarradas das mãos pegajosas, as pegajosas adagas passam às mãos nodosas e toscas de Botina, e destas, para os guardas de mãos manicuradas.

Nem hino, nem tambor. Apenas uma pomba arrulha na cornija da guarita em cima da muralha.

O quarto a tombar fora GONÇALO GOMES TOBIAS, o nº 25.297. Os nomes de uma vintena de mutilados ou feridos estão se desvanecendo na única distração perfeita, a do esquecimento, válvulas de nossa vigília de sobreviventes.

Qual o motivo do esquecimento?

Tensões. Por que não dizer assim?

Tensão – in-tensão: despedaçamento de a-tenção. Dia-lética global.

Importa evitar esta interminável reiteração da violência. Impedir a compulsão a multiplicá-la. Unificar seus fragmentados motivos, numa palavra que signifique O MESMO em vários dialetos eficazes: Tensão.

Pois não há de ser escrevendo carta que haveremos de suprimir o correio: nenhuma jogada de dados abolirá o azar.

Fragmentada, a motivação suscita intermitentes intensões re-geradoras de tensões, perenemente turbando a paz, o caminho, a verdade, a vida.

Ainda há tempo de compreendermos: é ao serem ditas que as “coisas” são suscitadas. Nós as re-suscitamos, momento a momento.

É PRECISO NOS DECIDIRMOS A DEIXAR QUE OS MORTOS ENTERREM OS MORTOS.

Viver, aprendendo a morte.

Vivemos raramente.

Resignamos os outros e nos resignamos.

Rupa: com quatro letras convenientes salvou-se o acontecimento, batizando-o. Entretanto, cada acontecimento é único. Irrepetível. Apenas nossa pré-tensão o conserva, salva, pelo batismo.

Os indonésios batizaram de amok algo parecido à rupa. Outros, europeus, sofisticados em sua ferocidade, salvaram a coisa com esta frase feita: angústia do espaço vital. Maias e incas, citas e mongóis, centenas de povos, milhões de indivíduos desvanecidos em pó no turbilhão da História, conheceram o acontecimento sem batismo.

Trata-se de odiar.

A frio, com persistência humaníssima. Memorizar. Pacienciosamente. Ódio entre concidadãos, com acúmulo resultante de distribuição irregular (carregamento elétrico de energia). Polarização. Ódio cuidadoso no planejamento do mútuo extermínio, espetaculosamente rápido e direto ou requintadamente adiativo e sub-reptício, conforme aptidão e gosto. Até que algum co-eficiente, dificilmente previsível, atue em dose suficiente para explodir o acúmulo – acontecendo – de modo terrível e doloroso ou inconsciente e imperceptível.

Naquela tarde, o co-eficiente bem pode ter sido a simples beleza de um céu no verão.

Poetas entendem disso melhor que os sociologistas.

Personagens:

Que dizer dos personagens? Re-signá-los?

Re-petição, frases-feitas, lugares comuns?

Eles vinham despedaçando e sendo despedaçados desde sempre.

Só por acontecer de modo espetacularmente raro o despedaçamento consegue “chamar” a a-tensão anestesiada, ausente.

Os re–educandos, como se costuma batizá-los depois de encarcerados rigorosamente, são vítimas de uma pré-tensão: a de fazê-los purgar sozinhos as culpas coletivas.

No rigor do novo cárcere, continuam funcionando com mecânica de marionetes movidas por teias inefáveis, por quase inaudíveis badaladas de sino.

O sino!

Sempre, no presídio, ao cruzar o portão em qualquer das direções, o homem ouve seu som: uma badalada ressonante para cada um que entra, uma badalada ressonante para cada um que sai.

Sua humanidade está entregue ao sino regente, que o iça da enxerga pela manhã badalando le-van-te-se, que irá badalar quando a grade da cela abrir-se no ritual assinalado, que o conduzirá pela fila para o pátio do recreio.

Uma badalada para que a fila do 1º Pavimento se ponha a andar.

Duas, e os homens-badalo do 2º Pavimento são movidos.

Ao soarem três, serão os do 3º.

E depois os do 4º e do 5º.

E o sino há de voltar a ressoar na reiterada operação de retorno ao cubículo. E hão de soar uma, duas, três, quatro, cinco, as badaladas na hora e no dia marcados para as sessões do Cinema, da Missa, da Televisão. E tornará a soar e ressonar o badalo sempre que o re-educando saia e entre, ande e pare, estude e trabalhe, e volte para dormir no catre da cela para levantar-se ao som do badalo.

Cada individualidade – o maior e o menor dos números, o único realmente possível – cortada, dobrada em séries de fragmentos, na terra de ninguém entre o menos e o mais, a vontade própria confiscada pelas ex-tensões da alheia, emparedada viva numa persona sob medida, sarcófago-móbil treinada para re-presentar estereótipos de ex-pressões consagradas, re-agindo ao ato feito, ao fato, automaticamente. Sonâmbulo, agonizante, ex-alguém, que nem chegou a ser, montão de fragmentos aglutinados numa colagem elétrica de polarizações, para “fazer sentido” nos gráficos, nos fichários e arquivos da Estadística.

Rês sacrificada na ara do Cálculo em rituais do culto ao Meio - Termo (projeto de super-homem aristotélico) pelos sacerdotes da Média.

As rupas prosseguirão.

No espaço de alguns meses, outros doze sentenciados se auto-suprimiriam ainda espetacularmente, sobrando algumas dezenas de estropiados.

Já no domingo seguinte, AGENOR MARIANO DA SILVA, o 23.980, armado de punhal, matava completamente AUTO PEREIRA DUARTE, sentenciado número 23.994.

Recolhido à cela forte onde se encontravam Carlão e Jamil, seria trucidado a facadas durante uma ducha, na sala de banho, vigiada pelos Guardas do Batalhão de Choque. Alguém deixara escondida uma faca debaixo do estrado, para Carlão saciar seu apetite.

Outra execução, a de um Guarda, também sacrificado com arma branca, separaria por um intervalo de refluxo as ondas da maré deste mar de sangue. Dois dias depois, centenas de soldados da Força Pública, em operação de guerra, invadiam o lugar para busca de armas e instauração da Ordem.

Naquela madrugada, quando o rabecão cruzou pela guarita levando os cadáveres dos mortos, três badaladas ressoaram no ar, enquanto no jardim do presídio sombras tomavam os caminhos, e o primeiro clarão do dia vinha iluminar o dístico no soturno frontispício da Prisão:

“AQUI O TRABALHO, A DISCIPLINA, A BONDADE, RESGATAM A FALTA COMETIDA,
RECONDUZINDO O HOMEM À COMUNHÃO SOCIAL”.

A carta da morte

O testemunho do repórter e escritor argentino Rodolfo
Walsh provocou seu seqüestro e assassinato. Era a
retaliação de um governo arbitrário. Walsh sabia que seria perseguido e que não o escutariam. Mesmo assim escreveu
uma última carta dirigida à Junta Militar.

Por Rodolfo Walsh • Versus 11• junho de 1977

Um dia, recebemos pelo correio um envelope sem remetente que abalou a todos na redação de Versus, em São Paulo. Continha uma carta aberta à Junta Militar da Argentina, assinada pelo escritor e jornalista Rodolfo Walsh, que denunciava os crimes políticos e econômicos do regime. Walsh, pouco depois, acabou seqüestrado e morto. Seu corpo apareceu no dia 25 de março de 1977, nas instalações da Escuela de Mecánica de la Armada, um centro de torturas, hoje transformada em Museo de la Memoria. Na época, somente Versus publicou esse texto no Brasil. Anteriormente, havíamos publicado um fragmento de “Operação Massacre”, livro em que Walsh descreve o massacre de peronistas, praticado pela “Revolução Libertadora” de 1956, assim como a descrição de seu “desaparecimento” após a entrega da carta aos militares.

Agora, para maior autenticidade, mantive, essencialmente, os termos da tradução para a língua portuguesa, preparada pela redação naquela ocasião, quando muitos de nossos colaboradores também militavam em organizações clandestinas de esquerda e, portanto, eram possíveis alvos de repressão. Por essa razão, o trabalho de tradução nem sempre foi perfeito, porque executado em um contexto desfavorável e inseguro. Mesmo assim, peço, agora, desculpas pelas possíveis falhas existentes em nossa versão.


(Omar L. de Barros Filho)

Carta Aberta à Junta Militar

1 – A censura de imprensa, a perseguição a intelectuais, a invasão de minha casa, o assassinato de amigos queridos e a perda de uma filha que morreu combatendo-os são alguns dos fatos que me obrigam a esta forma de expressão depois de ter opinado livremente como escritor e jornalista durante quase trinta anos.

O primeiro aniversário dessa Junta Militar motivou um balanço da ação do governo em documentos e discursos oficiais, onde o que os senhores chamam acertos são erros, o que reconhecem como erros são crimes e o que omitem são calamidades.

A 24 de março de 1976, os senhores derrubaram um governo do qual faziam parte, cujo desprestígio contribuíram como executores de sua política repressiva e cujo fim estava marcado por eleições convocadas para nove meses mais tarde. Nessa perspectiva, o que os senhores liquidaram não foi o mandato transitório de Isabel Martínez, mas sim a possibilidade de um processo democrático, onde o povo remediaria males que os senhores continuaram e agravaram.

Ilegítimo em sua origem, o governo que exercem pode legitimar-se nos fatos, recuperando o programa com o qual coincidiram, nas eleições de 1973, oitenta por cento dos argentinos e que continua em pé como expressão objetiva da vontade do povo, único significado possível desse “ser nacional” que os senhores invocam tão freqüentemente.

Invertendo esse caminho, os senhores restauraram a corrente de idéias e interesses de minorias derrotadas que travam o desenvolvimento das forças produtivas, exploram o povo e desagregam a Nação. Uma política semelhante só pode ser imposta transitoriamente proibindo-se os partidos, intervindo-se nos sindicatos, amordaçando a imprensa e implantando o terror mais profundo que a sociedade Argentina já conheceu.

2 – Quinze mil desaparecidos, dez mil presos, quatro mil mortos, dezenas de milhares de desterrados são a cifra nua desse terror.

Lotadas as prisões comuns, os senhores criaram nas principais guarnições do país virtuais campos de concentração, onde não entra nenhum juiz, advogado, jornalista, observador internacional. O segredo dos procedimentos, invocado como necessário para as investigações, converte a maioria das detenções em seqüestros que permitem a tortura sem limite e o fuzilamento sem julgamento.¹

Mais de sete mil recursos de habeas corpus foram negados neste último ano. Em outros milhares de casos de desaparecimento o recurso nem sequer foi apresentado porque se sabe de antemão que é inútil ou porque não se encontra advogado que ouse apresentá-lo depois que os cinqüenta ou sessenta que o faziam foram, por sua vez, seqüestrados.

Deste modo os senhores despojaram a tortura de seu limite no tempo. Como o detido não existe, não há possibilidade de apresentá-lo ao juiz no prazo de dez dias, segundo manda a lei, que foi respeitada mesmo no auge da repressão de ditaduras anteriores.

A falta de limite no tempo foi complementada pela falta de limite nos métodos, retrocedendo a épocas em que se operou diretamente sobre as articulações e as vísceras das vítimas, agora com auxiliares cirúrgicos e farmacológicos de que não dispunham os antigos verdugos.

Mediante sucessivas concessões à pressuposição de que o fim de exterminar a guerrilha justifica os meios que se usam, os senhores chegaram à tortura absoluta, intemporal, metafísica, na medida em que o fim original de extrair informações se extravia nas mentes perturbadas que administram, para ceder ao impulso de triturar a substância humana até quebrá-la e fazê-la perder a dignidade, que o verdugo perdeu, que os senhores mesmos perderam.

3 – O fato de que essa Junta se negue a publicar os nomes dos prisioneiros é deste modo a cobertura de uma sistemática execução de reféns em lugares descampados, em horas da madrugada, com o pretexto de combates forjados e imaginárias tentativas de fuga.

Extremistas que distribuem panfletos nos campos, pintam os canais de irrigação ou se amontoam de dez em dez em veículos que pegam fogo são os estereótipos de um libreto que não foi feito para ser acreditado mas sim para burlar a reação internacional diante de execuções de praxe, enquanto no plano interno, se destaca seu caráter de represálias desatadas nos mesmos lugares e em data imediata às ações guerrilheiras.

Setenta fuzilados depois da bomba na Seguridad Federal, 55 em resposta à explosão do Departamento de Polícia de La Plata, 30 pelo atentado no Ministério da Defesa, 40 no Massacre do Ano Novo que se seguiu à morte do coronel Castellanos, 19 depois da explosão que destruiu a delegacia de Ciudadela, fazem parte de 1.200 execuções em 300 supostos combates, onde o oponente não teve feridos e as forças a seu comando não tiveram mortos.

Depositários de uma culpa coletiva abolida nas normas civilizadas de justiça, incapazes de influir na política que dita os fatos pelos quais sofrem a represália, muitos desses reféns são delegados sindicais, intelectuais, parentes de guerrilheiros, opositores não armados, simples suspeitos que são mortos para equilibrar a balança das baixas, segundo a doutrina estrangeira de “conta-cadáveres” que as SS usaram nos países ocupados e os invasores no Vietnã.

A eliminação de guerrilheiros feridos ou capturados em combates reais é uma evidência, que surge por si mesma, dos comunicados militares que, em um ano, atribuíram à guerrilha 600 mortos e só 10 ou 15 feridos, proporção desconhecida nos mais encarniçados conflitos. Esta impressão é confirmada por um balanço jornalístico, de circulação paralela que revela que entre 18 de setembro de 1976 e 3 de fevereiro de 1977, em 40 ações reais, as forças legais tiveram 23 mortos e 40 feridos, e a guerrilha 63 mortos. ²

Mais de cem processados foram igualmente abatidos em tentativas de fuga, cujo relato oficial tampouco é destinado a que alguém acredite nele mas sim para prevenir a guerrilha e os partidos, que mesmo os presos políticos reconhecidos, são a reserva estratégica das represálias de que os senhores dispõem, segundo a marcha dos combates, a conveniência didática ou o humor do momento.

Assim ganhou seus lauréis o general Benjamín Menéndez, comandante do III Exército, antes do 24 de março, com o assassinato de Marcos Osatinsky, detido em Córdoba, depois, com a morte de Hugo Vaca Narvaja e outros cinqüenta prisioneiros em diversas aplicações da lei de fuga executadas sem piedade e narradas sem pudor. ³

O assassinato de Dardo Cabo, detido em abril de 1975, fuzilado a 6 de janeiro de 1977 com outros sete prisioneiros na jurisdição do I Exército, comandado pelo general Suárez Mason, revela que estes episódios não são excessos de alguns centuriões alucinados (...)

4 – Entre mil e quinhentas e três mil pessoas foram massacradas em segredo depois que os senhores proibiram de se informar sobre descobertas de cadáveres que, no entanto, transcenderam em alguns casos, por afetar outros países, por sua magnitude genocida ou pelo espanto provocado entre suas próprias forças. 4

Vinte e cinco corpos mutilados afloraram entre março e outubro de 1976 nas costas uruguaias, pequena parte talvez do carregamento de torturados até a morte, retirados do Rio da Prata por navios, incluindo o menino de 15 anos Floreal Avellaneda, de pés e mãos atados, “com ferimentos na região anal e fraturas expostas”, segundo sua autópsia.

Um verdadeiro cemitério lacustre foi descoberto em agosto de 1976 por um homem que mergulhava no Lago San Roque em Córdoba, que foi à delegacia onde não receberam a denúncia e que escreveu aos jornais que não a publicaram. 5

Trinta e quatro cadáveres em Buenos Aires entre 3 e 9 de abril de 1976, oito em San Telmo a 4 de julho, dez no Rio Luján a 9 de outubro, servem de marco para os massacres de 20 de agosto, que deixaram 30 mortos empilhados a 15 quilômetros do Campo de Mayo e 17 em Lomas de Zamora.

Nesses enunciados se esgota a ficção de grupos de direita, supostos herdeiros da AAA de López Rega, capazes de atravessar a maior guarnição do país em caminhões, de forrar de mortos o Rio da Prata ou de jogar prisioneiros no mar com os transportes da Primeira Brigada Aérea 6, sem que disso fiquem sabendo o general Videla, o almirante Masera, o brigadeiro Agosti. (...)

A mesma continuidade histórica liga o assassinato do general Carlos Prats, durante o governo anterior, com o seqüestro e morte do general Juan José Torres, Zelmar Michelini, Héctor Gutiérrez Ruiz e dezenas de asilados nos quais se quis assassinar a possibilidade de processos democráticos no Chile, na Bolívia e no Uruguai. 7

A certa participação nesses crimes do Departamento de Assuntos Estrangeiros da Polícia Federal, conduzido por oficiais que receberam bolsas da CIA através da AID, como os delegados Juan Cattei e Antonio Gettor, por sua vez submetidos à autoridade de Mr. Gardner Hathaway, Station Chief da CIA na Argentina, é um foco de futuras revelações como as que hoje abalam a comunidade internacional. (...)

Este quadro de extermínio não exclui nem sequer o ajuste pessoal de contas como o assassinato do capitão Horacio Gándara, que há uma década investigava os negócios dos altos comandantes da Marinha, ou do jornalista da Prensa Libre Horacio Novillo, apunhalado e calcinado depois que seu jornal denunciou as conexões do ministro Martínez de Hoz com os monopólios internacionais.

À luz destes episódios, ganha seu significado final a definição de guerra pronunciada por um de seus chefes: “A luta que travávamos não reconhece limites morais nem naturais, se realiza mais além do bem e do mal”. 8

5 – Estes fatos, que abalam a consciência do mundo civilizado, não são porém os que maiores sofrimentos trouxeram ao povo argentino nem as piores violações dos direitos humanos em que os senhores incorrem. Na política econômica desse governo deve ser procurada não só a explicação de seus crimes mas também uma atrocidade maior, que castiga milhões de seres humanos com a miséria planificada.

Num ano os senhores reduziram o salário real dos trabalhadores em 40 por cento, diminuíram sua participação na renda nacional a 30 por cento, elevaram de 6 a 18 horas a jornada de trabalho que um operário precisa para atender às necessidades básicas 9, ressuscitando assim formas de trabalho forçado que não persistem nem nos últimos redutos coloniais.

Congelando salários a coronhadas, enquanto os preços sobem nas pontas das baionetas, abolindo toda forma de reivindicação coletiva, proibindo assembléias e comissões internas, alargando horários, elevando o desemprego ao recorde de nove por centro 10 e prometendo aumentá-lo com 300 mil novas demissões, retrocederam as relações de produção aos primórdios da era industrial e quando os trabalhadores quiseram protestar qualificaram-nos de subversivos, seqüestrando organismos inteiros delegados, que em alguns casos apareceram mortos e, em outros, não apareceram. 11

Os resultados dessa política foram fulminantes. Neste primeiro ano de governo, o consumo de alimentos diminuiu em 40 por cento, o de roupas em mais de 50 por cento, o de medicamentos praticamente desapareceu nas camadas populares. Já existem zonas da Grande Buenos Aires onde a mortalidade infantil supera os 30 por cento, cifra que nos iguala à Rodésia, Daomé ou às Guianas; onde doenças como a diarréia, a parasitose e até a raiva atingem as marcas mundiais ou as superam. Como se essas fossem metas desejadas e procuradas, os senhores reduziram o orçamento da saúde pública a menos de um terço dos gastos militares, suprimindo até os hospitais gratuitos, enquanto centenas de médicos, profissionais e técnicos somam–se ao êxodo provocado pelo terror, os baixos salários ou a “racionalização”.

Basta andar umas horas pela Grande Buenos Aires para comprovar a rapidez com que semelhante política a transforma numa favela de dez milhões de habitantes. Cidades a meia-luz, bairros inteiros sem água porque as indústrias monopolistas saqueiam as fontes subterrâneas, milhares de quadras transformadas num covil, só porque os senhores só pavimentam certos bairros e só enfeitam a Plaza de Mayo, o maior rio do mundo, poluído em todas as suas praias porque os sócios do ministro Martínez de Hoz jogam nele seus detritos industriais e a única medida do governo, que os senhores tomaram, foi proibir que as pessoas nadem nele.

Tampouco nas notas abstratas da economia os senhores foram mais felizes. Uma queda do produto nacional bruto que gira em torno dos três por cento, uma dívida externa que alcança 600 dólares por habitante, uma inflação anual de 400 por cento, um aumento do meio circulante que em só uma semana de dezembro chegou a nove por cento, uma queda de 13 por cento nos investimentos internos constituem também marcas mundiais, fruto raro da deliberação fria e da crua inépcia.

Enquanto todas as funções criadoras e protetoras do Estado se atrofiam até se dissolver na pura anomia, uma só cresce e se torna autônoma. Um bilhão e oitocentos milhões de dólares, que equivalem à metade das exportações argentinas, como verba de Segurança e Defesa em 1977, quatro mil novas vagas de agentes na Polícia Federal, doze mil na província de Buenos Aires, onde os salários são o dobro do de um operário industrial e o triplo de um diretor de escola, enquanto em segredo são aumentados em 20 por cento, a partir de fevereiro, os próprios soldos militares, provam que não há congelamento nem desemprego no reino da tortura e da morte, único campo da atividade argentina, onde o produto cresce e onde a cotação por guerrilheiro abatido sobe mais depressa que o dólar.

6 – Ditada pelo Fundo Monetário Internacional segundo uma receita que se aplica indistintamente ao Zaire ou ao Chile, ao Uruguai ou à Indonésia, a política econômica dessa Junta só reconhece como beneficiários a velha oligarquia pecuarista, a nova oligarquia especuladora e um grupo seleto de monopólios internacionais encabeçados pela ITT, a Esso, as indústrias automobilísticas, a U. S. Steel, a Siemens, aos quais estão ligados pessoalmente o ministro Martínez de Hoz e todos os membros de seu gabinete.

O aumento de 722 por cento nos preços dos produtos animais, em 1976, define a magnitude da restauração oligárquica, empreendida por Martínez de Hoz, em consonância com o credo da Sociedade Rural, exposto por seu presidente Celedonio Pereda: “Enche de espanto que certos grupos pequenos mas ativos continuem insistindo que os alimentos devem ser baratos”. 12
O espetáculo de uma Bolsa de Valores de onde numa semana foi possível ganhar sem trabalhar cem ou duzentos por cento, onde há empresas que da noite para o dia duplicaram seu capital sem produzir mais que antes, a roda louca da especulação com dólares, letras, obrigações reajustáveis, a usura simples que já calcula o lucro por hora, são fatos bem curiosos sob um governo que veio para acabar com “o festim dos corruptos”.

Desnacionalizando bancos se coloca a poupança e o crédito nacional nas mãos dos meios financeiros internacionais, indenizando a ITT e a Siemens, se premiam empresas que lesaram o Estado, devolvendo os postos de gasolina aumentam-se os lucros da Shell e da Esso, abaixando as taxas alfandegárias se criam empregos em Hong Kong ou Cingapura e desemprego na Argentina. Frente ao conjunto desses fatos cabe perguntar quem são os apátridas dos comunicados oficiais, onde estão os mercenários a serviço de interesses estrangeiros, qual é a ideologia que ameaça o ser nacional.

Se uma propaganda esmagadora, reflexo deformado de fatos perversos, não pretendesse que essa Junta procura a paz, que o general Videla defende os direitos humanos ou que o almirante Massera ama a vida, ainda caberia pedir aos senhores comandantes-chefes das três Armas que meditassem sobre o abismo para o qual conduzem o país, atrás da ilusão de ganhar uma guerra que, mesmo se matassem o último guerrilheiro, não faria mais que começar sob novas formas, porque as causas que há mais de vinte anos movem a resistência do povo argentino não desapareceriam, mas sim se agravariam com a lembrança do estrago causado e a revelação das atrocidades cometidas.

Estas são as revelações que no primeiro aniversário de seu infausto governo quis fazer chegar aos membros dessa Junta, sem esperança de ser ouvido, com a certeza de ser perseguido, mas fiel ao compromisso que assumi há muito tempo de prestar testemunho em momentos difíceis.

Notas do autor

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1) Desde janeiro de 1977, a Junta começou a publicar listas incompletas de novos detidos e de “liberados”, que em sua maioria não o são, mas sim processados que deixam de estar à sua disposição, mas continuam presos. Os nomes de milhares de prisioneiros ainda são segredo militar.

2) “Cadena Informativa”, boletim nº 4, fevereiro de 1977.

3) Uma versão exata aparece nesta carta dos presos de Encausados ao bispo de Córdoba, dom Primatesta: “A 17 de maio são retirados com o engodo de ir à enfermaria seis companheiros que logo são fuzilados. Trata-se de Miguel Angel Mosse, José Svagusa, Diana Fidelman, Luis Verón, Ricardo Yung, Eduardo Hernández, cuja morte, numa tentativa de fuga, o III Exército comunicou. A 29 de maio são retirados José Pucheta e Carlos Sgadurra. O último havia sido castigado a ponto de que não podia manter-se em pé, sofrendo várias fraturas de membros. Logo também aparecem fuzilados numa tentativa de fuga”.

4) Nos primeiros 15 dias de governo militar apareceram 63 cadáveres, segundo os jornais. Uma projeção anual dá a cifra de 1.500. A suposição de que pode ascender ao dobro baseia-se no fato de que, desde janeiro de 1976, a informação jornalística era incompleta, e no aumento global da repressão depois do golpe. Uma estimativa global verossímil das mortes produzidas pela Junta é a seguinte. Mortos em combate: 600. Fuzilados: 1.300. Executados em segredo: 2.000. Vários: 100. Total: 4.000.

5) Cartas de Isaías Zonatti divulgada pela Agência Clandestina de Notícias, ANCLA.

6) “Programa” dirigido entre julho e dezembro de 1976 pelo brigadeiro Mariani, chefe da Primeira Brigada Aérea de Palomar. Usaram-se transportes Fokker F-27.

7) O general Prats, último ministro do Exército do presidente Allende, morto por uma bomba em setembro de 1974. Os Parlamentares uruguaios Michelini e Gutiérrez Ruiz apareceram cravados de balas em 2–5–76. O cadáver do general Torres, ex-presidente da Bolívia, apareceu em 2–6–76, depois que o ministro do Interior e ex-chefe de Polícia de Isabel Martínez, general Harguindeguy, o acusou de “simular” seu seqüestro.


8) Tenente-Coronel Hugo Hildebrando Pascarelli, segundo La Razón de 12–6–76. Chefe do Grupo I de Artilharia de Ciudadela, Pascarelli é o suposto responsável por 33 fuzilamentos entre 5 de janeiro e 3 de fevereiro de 1977.

9) Unión de Bancos Suizos, dado correspondente a junho de 1976. Depois a situação piorou ainda mais.

10) Jornal Clarín.

11) Entre os dirigentes nacionais seqüestrados incluem-se Mário Aguirre da ATE, Jorge di Pasquele do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Farmacêuticas, Oscar Smith do Luz y Fuerza. Os seqüestros e assassinatos de delegados foram particularmente graves entre os trabalhadores nas indústrias metalúrgica e naval.

12) Prensa Libre, 16–12–76.

Darcy Ribeiro

O perfil do ex-ministro da Educação, o indianista,
o antropólogo, o exilado, o romancista,
o futurista Darcy Ribeiro, um brasileiro imortal.

Por Maria da Paz Rodrigues • Versus 11• junho de 1977

O antropólogo está com pele de jaguar, vestido de romancista. Escreveu Maíra no exílio, nos dias cinzentos de Lima, longe do calçadão de Copacabana. Sem poder olhar a Avenida Atlântica, mulher bonita, cachorro, bicha. Voltou agora, há pouco mais de um ano. E ficou um tempo com uma alegria enorme, só de andar pelas ruas, de zanzar por aí.

Darcy Ribeiro não pretende ser coerente, gosta de suas contradições. Acha que não está construído, sente que não tem idade. Ainda pode mudar de idéias ou vestir uma nova pele. Já teve muitas. Uma como jovem revolucionário estudantil, lá pelos anos 40. Outra de cientista, de etnólogo pelas selvas brasileiras. Foi Ministro da Educação, Chefe da Casa Civil do governo Jango. Depois cobriu-se com o couro de exilado político, de sapateiro remendão de universidades no exterior. Assustou-se em 1974: câncer. Tirou um pulmão. Mas o tiro saiu sem pontaria. As pernas seguiam caminhando.

– Alô, sou eu. (...) – Vou bem, e você? (...) – Lauro? Pompeu querido, como vai? (...) – Você está bom? Onde está? (...) – Aqui no Rio? (...) – Precisamos nos ver. (...) – Vai ficar vários dias aqui? (...) – Ah, dá uma chegadinha se puder. Não vou sair, estou meio gripadão. (...) – Se estiver com medo de gripe não vem não. (...) – É entre a Figueiredo Magalhães e a Santa Clara.


– Como é mesmo? Eu estava dizendo besteira, que era brilhante mas não inteligente. Sou inteligentíssimo, pensando bem.

– Você tem certeza?

– Sei que não sou inteligente. Tenho a certeza dolorosa. Sinto freqüentemente um limite, uma parede. Chego aqui e não vou adiante. E para furar esse muro é sempre um trabalho brutal. Mas quando me comparo aos outros me acho fantástico. Comparativamente. Absolutamente, sou burro. Burro. Não, limitado. Sei do que não sei em quantidade espantosa. E não estou certo de nada do que sei. Brilhante, sou. Capaz de me enganar, de enrolar as pessoas.

– E quando escreve?

– Tudo o que faço é o melhor possível naquele momento. Mas depois de 15 dias já desconfio. Por isso tomo o cuidado de não reler meus livros. Só quando há outra edição e o editor obriga. Aí começo a me achar burro, tudo é insuficiente e ruim. Genial é só o que acabei de fazer.

– O que você faz melhor?

– Namorar.

– É?

– Não. Não sou muito bom namorador, você não acha? Esse meu jeito sério. Engano, brinco comigo. Não acredito nesse negócio de se apaixonar, de ficar gostando dos outros sem limite. Para mim é uma enfermidade e exige medidas preventivas. O amor dá febre, suores noturnos, ataque cardíaco.

– Você já teve isso?

– Poucas vezes, mas quando começa eu fujo. Olha, deixa de bobagem, você não queria conversar assuntos sérios?

Ele sempre agiu com a ousadia dos inscientes. Acreditava-se imortal. Para atravessar a avenida, andar de avião. O câncer o colocou em presença da morte. Pela primeira vez a sentiu provável, andou vários meses de mãos dadas com ela. Mas avisou: não haveria segunda operação. Não queria ser um pedacinho de gente, pulsando desconjuntado, graças a um milagre médico.

Com a idade passou a perceber o tempo de outra forma. Detesta fazer a barba, enfrentar o espelho de manhã. É a hora de se encarar. Não pode ficar indiferente, há uma mudança. Isso também aconteceu outro dia quando olhou uma fotografia antiga, tomando posse como Ministro da Educação. Era um menino bonito, ficou com saudades dele. O contraste da cara de 1961 para cá estava muito evidente.

Ainda assim faz força para acreditar que o importante de sua vida virá. Está tudo no futuro, não no passado. Inventa um ritmo, canta, debocha dele mesmo: “Esse grande amor, aquele livro formidável, o romance total, a ação pública salvadora.” Fica sério. “A velhice é terrível, a idéia de sermos definitivos. Em certa idade é preciso tomar a iniciativa. Decidir. Pronto, acabou.”

– Não gosto nada quando na França me chamam de ancien Ministre. Ancien a p.q.p. Sempre evito o ex. Mas agora começo a desconfiar. Cinqüenta e quatro anos, pode ser que não. Pô... sou só a testemunha do que fiz? Isso é uma merda. O tremendo e o belo da vida é ela ser um leque. Aos dez anos está abertíssimo. Você poderia ser freira, p..., sábia para ganhar prêmio Nobel, brilhante escritora, grande jornalista, dona de casa, imbecil, lésbica. Aos 20 já teria que excluir algumas hipóteses, aos 30 mais ainda, aos 50, aos 54 está muito fechado. Já não posso ir à lua nem ser Papa. É uma perda. O tempo passa e as possibilidades se estreitam.

Na casa da família em Montes Claros entravam apenas dois jornais: Ave Maria e Minas Gerais, o órgão oficial onde escreviam os velhos senhores. Descobriu a notícia com 16 anos folheando o Ave Maria. “Havia uma guerra espanhola com uns comunistas interessados em comer freiras.” Poxa, que doidura é essa? Não dava para entender. Mas o tio voltou do Rio trazendo uma revista Argentina: Pan. Devorou o número, releu tantas vezes que ficou todo amarfanhado. Aprendeu um montão de coisas e o motivo verdadeiro da Guerra Civil Espanhola.

Era o menino mais chato da cidade. Falador, adultinho. Discutia com os tios, lia muito. Aquelas coleções de romances em treze volumes de literatura espírita, ensaios. Por safadeza olhava livros de anatomia. Não dançava, quase não tinha vida social.

Em 1940 leu o primeiro livro importante. Conhecia um livreiro chamado Paulo Tanderman que, a pedido de Chico Campos, Ministro da Justiça, importava obras marxistas da Argentina. Recebeu dois exemplares de uma publicação da Editorial Claridad: A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, de Engels. Darcy ficou entusiasmado, decorou muitas passagens. Trinta anos mais tarde, publicaria O Processo Civilizatório numa tentativa de reescrever esse livro. Depois veio o Cavaleiro da Esperança, de Jorge Amado e muitos outros. O ambiente abriu-se um pouco com a entrada do Brasil na guerra, a informação começou a circular.

Foi para a universidade procurando o mesmo prestígio do tio médico. Entrou com 18 anos para mexer em cadáveres, formol, doentes. Nessa época começou a escrever um diário. Vivia angustiado com a obsessão da morte e do suicídio. Preparou um romance de 300 páginas, A Lapa Grande. A história de um cego que entra numa gruta, participa de uma série de acontecimentos até recuperar a vista. Aí vê a cara da mãe: feia, horrível. O original chegou a ser mandado para um concurso da José Olímpio. Não ganhou. “Felizmente. Seria um vexame. O suficiente para começar mal a carreira.”

O barulho da campainha é suave. Pompeu entra. Abraços de velhos amigos, de quem não se encontra há muito. Darcy senta novamente na poltrona de couro bege, o útero, como costuma dizer. Descalço, moreno de praia. Blue jeans e camisa xadrez aberta no peito. Riem sem parar. E contam histórias esquecidas da Universidade de Brasília, do trabalho que fizeram juntos: “Formula aí, Pompeu. Estamos gravando.”

– Ih rapaz, não esqueço aquele almoço. Nunca tinha falado contigo, você estava num canto, brilhante. Quase no fim um amigo virou para mim e perguntou: Quem é aquele gênio com cara de Paulo Mendes Campos? Era Darcy. E parece que andou conseguindo certas facilidades dizendo que era poeta.

Ele tomava bomba em Medicina todo o ano e ficava frustrado. Decidiu que convinha mais estudar Filosofia. Fez um ano e meio encantado com as babaquices dos gênios mineiros de 1942. Kantistas, tomistas. Mas apareceu um professor americano de Sociologia, Donald Pierson, com uma descoberta nova: a Sociologia Moderna.

O professor se encantou com Darcy. Levou-o para São Paulo e propôs que começasse o curso outra vez, do primeiro ano. Solução sensata, aceitou. E ingressou no am