| Versus - Páginas da
Utopia
Livro Completo
São Paulo, 12 de maio de 1979 • A sede de Versus,
foi invadida por um grupo paramilitar de direita. Na ocasião,
os documentos da contabilidade foram roubados e a redação
depredada. As marcas da ação clandestina e violenta
ficaram nas paredes.
Colaboradores
Abdias do Nascimento • Abrão Slavutski • Adelto
Gonçalves • Aguinaldo Silva • Alberto Frederico
Beuten-Muller • Alberto Villas • Alcides Ferreira Junior
• Alcy • Alfredo Bosi • Amauri Galdino •
Ana Cristina Machado • Ana Dora • Ana Lúcia de
Oliveira • Ana Maria de Cerqueira Leite • Ana Maria
Sampaio • André Bocatto • Angel Barbados •
Ângela Pralon • Angeli • Antônio Carlos
Moura • Antônio Carlos Pavão • Antônio
Carlos R. Pereira • Antônio F. Nunes • Antônio
Moreira • Antônio Risério • Antônio
Tadeu Afonso • Antônio Torres • Arnaldo Jabor
• Arnaldo Schreiner • Astrogildo Esteves Filho •
Augusto Boal • Avani Stein • Beatriz Cleto • Beto
Chispa • Boris Schneiderman • Brasinha Calderazo •
Bruno Liberati • Caco Barcellos • Caco Caetano •
Capinam • Carlos Alberto da Silva • Carlos Alberto Dória
• Carlos Alberto Kolecza • Carlos Alberto Medeiros •
Carlos Augusto Cruz • Carlos Clémen • Carlos
Cordeiro • Carlos Guilherme Motta • Carlos Lagante •
Carlos Matuck • Carlos Nejar • Carlos Queiroz Telles
• Carlos Rangel • Carlos Santana • Carlos Tibúrcio
• Cecília Flosi • Cecília Thompson •
Cecília Tolentino • Celso Luís Paulini •
Celso Marinho • Celso Prudente • César Augusto
de Carvalho • Chaim Samuel Katz • Chico Caruso •
Chico de Oliveira • Cíntia Almeida Prado • Cláudia
Celidônio • Cláudio Bojunga • Claudio Feldman
• Claudius • Cleber Cajazeira • Clóvis
Antônio Garcia • Clóvis Moura • Coentro
• Conceição Cahú • Consuelo de
Castro • Cordélia Maria Cardoso • Cremilda Medina
• Cristina Daniel • Cristina Ribeiro • Cyro Martins
• Daniel dos Santos • Daniel Herz • Daniel Matenho
Cabixi • Danilo Ucha • David Batista dos Santos •
Denise Vecchio • Dércio Marques • Diana Bellessi
• Domingos Pellegrini Jr. • Duque Estrada • Durval
Campos Guimarães • E. Santiago • Edgar de Souza
• Edgar Vasques • Edinilton Lampião • Edson
da Silva Coelho •Edson Moreira • Edson Novais •
Eduardo Galeano • Eduardo Neto • Eduardo Scaletski •
Eliana Haberli • Eliana Soares • Elifas Andreato •Elizabeth
Marie • Emiliano Magro • Ênio Buccioni •
Enio Squeff • Eric Nepomuceno • Ernest Harsch •
Ethel Kawa • Eugênio Bressani • Evaldo Diniz •
Evandro Salles • Federico Pagani • Felício Filho
• Fernando Henrique Cardoso • Fernando Kolleritz •
Fernando Morais • Fernando Peixoto • Fernando Peregrino
• Fernando Rodrigues • Fernando Uchoa • Flamínio
Araripe • Florestan Fernandes • Francisco Assis •
Francisco de Oliveira • Francisco Julião • Francisco
Weffort • Frederico de Araújo • Frei Betto •
Gabriel Borba • Gabriel Cohn • Gabriel Romeiro •
Galeno de Freitas • Galo Khalifé • George Abner
• Geraldo Guimarães • Gerson Schirmer •
Gianfrancesco Guarnieri • Gilberto Morimitsu • Gilberto
Rocha • Gláucia da Motta Machado • Gleise M.
de Castro • Glen Martins • Glênio Peres •
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• Halley Júnior • Hamilton Bernardes Cardoso
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Hélio Santos • Henfil • Henrique Faerman •
Hermilo Borba Filho • Hilda Machado • Hindemburg Hiro
• Ignácio de Loyola Brandão • Isabel V.
Rodrigues • Ítalo Moriconi Jr. • Ivan Bustamante
• Ivan Maurício • Ivone Couto • J. C. Gonzáles
• J. P. Guimarães • Jacob Klintowitz •
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• Jô Oliveira • João Adão de Oliveira
• João Antônio • João Batista Jorge
• João Costa Filho • João das Neves •
João Farkas • João Silvério Trevisan
• João Zero • Joca Pereira • Jorge Escosteguy
• Jorge Patrício • Jorge Pinheiro • José
Adão de Oliveira • José Álvaro Moisés
• José Andrade • José Antônio Simch
• José Augusto Guilhon de Albuquerque • José
Carlos de Andrade • José Eduardo de Faro Freire •
José Eduardo Mendonça • José Eurides
Queiroz • José Miguel Wisnik • José Montserrat
Filho • José Onofre • José Resende •
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Hernandez • Juca Martins • Júlio César
Tavares • Júlio Prado • Júlio Tavares
• Justino Lemos Pinheiro • Laércio Araújo
• Laerte Alberto Júnior • Laurita Salles •
Lauro Augusto • Léa Langone • Leda Beck Leib
• Lélia Gonzales • Leonid Streliaev • Letânia
Menezes • Levi Mendes Junior • Licínio Azevedo
• Lisete Catarina Piccoli • Lúcia Pereira •
Luciano Ornelas • Lúcio Flávio Pinto •
Lúcio Yutaka Kume • Luis Eduardo Greenhalgh •
Luis Fernando Ramos • Luis Leiria • Luis Paulo Pilla
Vares • Luiz Antônio da Motta Britto • Luiz Carlos
Ramos • Luiz Egypto • Luiz Fernando Emediato •
Luiz Figueira • Luiz Gê • Luiz Peregrino •
Luiz Rogério Fabrino • Luiz Rosemberg Filho •
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Maranhão • Marcel Faerman • Marcelo Girard •
Márcia Almeida • Márcia Ramos de Souza •
Márcio Moreira Alves • Márcio de Souza •
Marco Antônio de Morais • Marco Antônio Montandon
• Marcos Faerman • Marcos Gonçalves • Marcos
Magaldi • Marcos Magalhães • Marcotin •
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Maria das Graças Ferreira • Maria das Graças
Pereira • Maria Dulce Pinheiro • Maria Ester Gillio
• Maria Helena Cardoso • Maria Helena Limeira Tejo •
Maria José Lourenço • Maria José Marcondes
• Maria Rosa • Mariângela Quintella • Marilena
Faerman Vieira • Marilsa Taffarel • Marinilda de Marcchi
• Mário Augusto Jacobskind • Mário Merlino
• Mário Pedrosa • Mário Rego • Marisa
Correia • Marisilda Silva • Mark Elliot • Marlene
Crespo • Marta D’Angelo • Maru Girardi •
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Maurício Kubrusly • Maurílio Ferreira Lima •
Mauro Almeida • Mensah Gamba • Miguel Rio Branco •
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Filho • Moacyr Scliar • Modesto Carone • Moisés
Rabinovici • Moshe Kawa • Mouzar Benedito da Silva •
Murilo de Carvalho • Nagib Jorge Neto • Nair Benedito
• Nei Duclós • Nélida Pinõn •
Neusa Maria Pereira • Nilza Prata Belini • Niva Prado
• Noemi Ribeiro • Octávio Ianni • Oliveira
Silveira • Omar L. de Barros Filho • Orlando Miranda
• Osmar Freitas Jr. • Oswaldo Camargo • Otoniel
Santos Pereira • Paulo Barros • Paulo Caruso •
Paulo de Tarso Riccordi • Paulo de Tarso Venceslau •
Paulo Evaristo Arns • Paulo Gil Soares • Paulo Krischke
• Paulo Matiussi • Paulo Ramos • Paulo Santilli
• Paulo Schilling • Pedrinho Milliet • Pedro Porfírio
• Percival de Souza • Percy Galimberti • Plínio
Dentzein • Plínio Marcos • Rubens Matuck •
Rafael Pinto • Raquel Moreno • Raul Moura • Raymundo
Carneiro • Regina Leopassi • Regina Schneiderman •
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Pallottini • Renata Villas-Boas • Renato Andrade •
Renato Codeço • Renato Lemos • Renato Pinto •
Renato Silveira • Ricardo Alves • Ricardo Ferreira •
Ricardo G. Ramos • Ricardo Papa • Ricardo Vespucci •
Rico • Rita Galvão • Rivaldo Chinem • Roberto
Gonçalves • Roberto Piva • Roberval Goulart •
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• Rolando de Freitas • Roniwalter Jatobá •
Rosa Freitas •Rosa Gauditano • Rosalice Fernandes •
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Kovadloff • Santiago Terra • Sérgio Arnoud •
Sérgio Chacon • Sérgio Kraselis • Sérgio
Schaeffer • Sérgio Sister • Severo Lucca de Crudo
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Medina • Solange Esteves • Sônia Blauth •
Souza Freitas • Souzalopes • Tacus • Tânia
Regina Pinto • Tê Cruvinel • Tenka • Teotônio
dos Santos • Titilo • Toninho Mendes • Ubirajara
Motta • Valderedo • Valdir Baiano • Valdo Mermelstein
• Valfrido Lima • Vampré • Vanderlei José
Maria • Vera Lúcia de Jesus • Vilma Grycinski
• Vitor Vieira • Wagner Carelli • Waldira Alcântara
• Walmir de Oliveira • Wilma Grycinski • Wilson
Prudente • Wladimir Ungaretti • Wolfgang Leo Maar.
O Versus nosso de
cada dia nos dai hoje
Versus renasce em antologia para revelar como se fazia
jornalismo de resistência na década de 70, com um olhar
alternativo sobre a cultura,
a política e a história do país e do continente.
Por Omar L. de Barros Filho
O projeto que deu origem a esta antologia começou a nascer
no final dos anos 90, quando conheci um assinante de Versus
na fronteira do Brasil com a Bolívia, às margens do
rio Guaporé, em Rondônia, onde vivi em uma fazenda
isolada do mundo das notícias por muitos anos. Ele fazia
parte de um grupo de consultores do Banco Mundial que percorria
a área em busca de padrões de sustentabilidade para
as atividades econômicas da região.
Ao me apresentar como jornalista e comentar que tinha sido editor
de Versus nos anos 70, ele disse: “Li e colecionei
Versus por muito tempo. Foi, na época, o jornal
que mais ajudou em minha formação política
e me fez ver a América Latina de forma diferente.”
Depois que nos despedimos, pensei se seria possível sintetizar
em uma nova publicação o resultado da atividade frenética
e da inquietação cultural que sempre marcaram a redação
de Versus, em São Paulo. Versus foi uma
experiência única de jornalismo alternativo, que surgiu
da mente inventiva de Marcos Faerman, o Marcão, para quem
teve a felicidade de conhecê-lo e aprender com ele, um dos
mais brilhantes repórteres e editores brasileiros de todos
os tempos.
Faerman costumava dizer que Versus nascera sob o signo
da tristeza provocada pela morte do jornalista Vladimir Herzog nos
porões da ditadura, fato que horrorizou o país em
outubro de 1975. O drama de Herzog na prisão coincidiu com
a impressão da primeira edição do jornal, em
torno de 12 mil exemplares, formato tablóide, 52 páginas.
Distribuído precariamente de mão em mão, em
bancas de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e outras
poucas cidades, e financiado, em parte, por um salário anual
extra de Faerman, Versus calou fundo na sensibilidade dos
leitores, e iria mais longe do que o esperado.
Aos poucos, o grupo inicial de colaboradores ampliou-se, com a adesão
voluntária de jornalistas, escritores, poetas, professores,
cineastas, sociólogos, ilustradores, chargistas, além
dos próprios leitores, que enviavam suas colaborações
do Brasil e do exterior. Na redação, costumávamos
dizer que o carteiro era nosso melhor repórter, porque trazia
as matérias de que necessitávamos para fechar cada
edição, e que completavam a pauta dia-a-dia. Foi um
mutante que por um bom tempo praticou severa autocensura para sobreviver.
Sempre carente de recursos, ainda assim resistiu durante quatro
anos às pressões e limites estreitos estabelecidos
pelo regime militar.
Versus foi também porto seguro para “desgarrados”
latino-americanos e brasileiros, refugiados políticos, e
outros discriminados pela sorte. Hoje, pode-se dizer, sem medo de
exagerar, que a redação era uma espécie de
“Cruz Vermelha”. Recebia não só fugitivos
estrangeiros em busca de asilo, trabalho e documentos, como dava
guarida a qualquer brasileiro com talento atrás de um espaço
em uma folha de jornal para registrar suas idéias, crenças
ou experiências. Muitos iniciaram em Versus o ofício
de escrever, reportar ou desenhar. Era uma casa caótica e
de poucas regras, mas sempre aberta, onde se respirava o jornalismo
em sua verdadeira essência quase artesanal.
Logo, o projeto de construção de Versus não
estava imune às influências externas. À medida
que a distribuição nacional se consolidou, a vendagem
em bancas cresceu, e a tiragem se multiplicou até atingir
30 mil exemplares, a influência cultural e política
de Versus passou a ser muito maior do que imaginávamos ou
pretendíamos no início. Nosso programa, até
então, resumia-se a uma expressão-síntese sobre
a qual trabalhávamos arduamente: “a cultura como forma
de ação”.
Entretanto, turbulências no cenário internacional,
com os Estados Unidos passando a retirar seu apoio às ditaduras,
e no plano nacional, com a entrada em cena do movimento estudantil,
provocaram mudanças em nossa linha editorial. Também
as diferentes posições políticas existentes
na redação passaram a se manifestar, algo natural
em um jornal alternativo, em que muitos editores e colaboradores
militavam em organizações clandestinas, na oposição
institucional, ou mesmo simpatizavam com tendências estudantis
nas universidades. A erupção do movimento operário
no ABC paulista, as greves dos metalúrgicos e, depois, nos
sindicatos de classe média, alteraram em definitivo o rumo
de Versus.
O leitor desta obra perceberá as transformações
decorrentes da politização da redação,
que, passo a passo, abandonou o discurso original – literário,
poético e épico da história da América
Latina – em troca de uma visão mais crua, sociológica
e imediata de nossa realidade, não só a brasileira
como a do continente. A metáfora literária cedeu lugar
à política, e isso se expressava não só
nas reportagens, ensaios e entrevistas, mas também no próprio
grafismo de Versus, nas charges, nas ilustrações,
enfim, na organização editorial em seu conjunto.
Amizades foram perdidas e alianças se romperam no processo.
O tempo, como sempre, tratou dos ressentimentos. Não podia
ser diferente, mais de trinta anos depois. Independentemente das
divergências do passado, que hoje soam pueris, o fim do caminho
para Versus foi, em última análise, o mesmo
de toda a imprensa alternativa. Os “nanicos”, como éramos
chamados pejorativamente, desapareceram um a um no compasso da reconquista
democrática, da liberdade de expressão, das crises
econômicas, e do curso da monopolização da informação
pelos grandes e tradicionais meios. Éramos mais de 100 jornais,
li em alguma estatística, mas fazíamos o ruído
de mil.
Em algum ponto do caminho, no entanto, deixamos de ser necessários.
Quanto a mim, constatei que, de todos os editores e assistentes
que passaram por Versus em seus quatro anos de história,
fui o que mais tempo vivenciou a aventura de fazê-lo, de novembro
de 1975 a outubro de 1979, desde que deixei Porto Alegre e mudei
para São Paulo com o objetivo de doar meu tempo e existência
ao jornal. Em dias mais recentes, o fato de deter a memória
daquele período fez com que pesquisadores, professores e
estudantes passassem a me procurar na web para responder sobre questões
envolvendo os caminhos de Versus, o que reforçou
a idéia de que era chegada a hora de editar esta antologia.
Enquanto Versus viveu, imprimimos 33 edições
normais, três extras de quadrinhos, e outras que fugiam ao
calendário, mas eram relacionadas com mobilizações
políticas, como as edições especiais voltadas
aos aniversários do golpe do Chile e de 1º de maio,
no ABC paulista. Além delas, editamos, com êxito, outros
nove livros e cadernos. Versus – Páginas da utopia
guarda parte de nossa história, assim como a do jornalismo
que praticamos. Outras duas antologias virão a seguir.
ArgentinAAA
Em meados de 1974, lentamente, o medo tomou posse dos argentinos.
Mas, antes, já havia iniciado sua luta para dominar o corpo
e a alma de milhões de pessoas.
Por Tomáz Eloy Martínez •
Versus 1• outubro de 1975
Somente quando se vem de longe é que se sabe até
que ponto Buenos Aires já não é a mesma de
três anos atrás. De início não é
fácil explicar as razões: as brumas e o sol apagado
de agosto levam a pensar que a tristeza do ar é outro fruto
do inverno, e que, portanto, quando as flores voltarem, renascerão,
também, os antigos indícios da ventura que brilhava
nos balcões de Palermo ou nos tranqüilos domingos da
Avenida Forest.
Mas os que conhecem outros invernos infelizes não conseguem
descobrir onde pode estar o contraveneno desta sombria estação
em que todas as vozes amigas flutuam envoltas em lamento. Não
ouvi senão frases abatidas. Ninguém sabe para onde
o país irá amanhã, que tábua de salvação
agarrar, em que rincão da noite recuperar a fé perdida
durante o dia. E o que é mais grave: quase todos querem partir,
não em busca de prosperidade, mas de segurança. São
como esses pássaros que voam em círculos sobre um
mesmo horizonte do mar, com o sentido da orientação
perdido e com o instinto preparado para a morte. Porque todo desterro
– eles sabem disso – é uma variação
da morte, um desgarramento além do qual nenhum homem continua
a ser o mesmo. Que ainda assim queiram partir é o pior sinal
de perigo que já vislumbrei neste país, cuja grandeza
esteve cifrada até não faz muito tempo no trabalho
dos seus imigrantes. A utopia dos anos 50 – os milhões
de habitantes que deveríamos ter no ano 2000 – já
soa a sarcasmo. Agora a meta é reter os 24 milhões
que permaneceram.
Este agosto não é totalmente cruel, sem dúvida,
pois o terror das sirenes noturnas desapareceu quase por completo
da cidade. Disseram-me que as últimas sirenes soaram no dia
19 de julho. Não é tão habitual tropeçar
pelas ruas centrais com um desses Ford Falcon, geralmente verdes,
que abriam caminho à força de metralhadoras ou golpeando
a borracha e as carrocerias dos automóveis distraídos.
Contaram-me que não se repetem já histórias
como as que vivi no dia 3 de novembro de 1974, na Avenida Santa
Fé, entre Canning e Malabia, quando um assassino anônimo,
protegido por dois Falcon (de uma cor que jamais pude recordar),
apontou sua pistola 45 à inofensiva fronte do meu filho de
três anos, pretextando, mais tarde, estar nervoso porque “você
passou dos limites”. Dizem-me que tampouco é tão
freqüente agora ver (como vi, no mesmo local do incidente anterior,
no dia 22 de outubro de 1974), um grupo de assassinos não
identificados levando, desta vez em um Peugeot negro, dois rapazes
cujos gritos de socorro às vezes ainda me perturbam o sono.
Dizem-me que estas histórias se acabaram casualmente no dia
19 de julho de 1975.
Acho que é menor o número de cadáveres que
aparecem despedaçados em Ezeiza, em Lomas de Zamora ou nos
depósitos de lixo de Riachuelo. Dizem-me que as ameaças
de morte foram se tornando mais raras, que os ataques pela televisão
contra a imprensa independente não passaram de uma flor suja
que durou poucos dias.
Sempre desconfiei do jornalista que abusa da primeira pessoa, porque
de modo geral crê que sua aventura privada é mais interessante
do que o curso da História. Porém, lembro com desolação
que nos últimos tempos acabou sendo cada vez menos sincero
contar um fato à distância, porque nós jornalistas
perdemos nossa fértil qualidade de testemunhas para nos convertermos
em protagonistas de uma opressora odisséia coletiva. Peço-lhes
que não me critiquem, então, se nesta história
sobre o medo dos argentinos introduzo a narração do
meu próprio medo, com o alívio de saber que ao menos
esse medo não difere em demasia de outras vicissitudes.
A primeira pessoa do singular é útil quando se perdeu
a fé na eficácia das palavras, como acontece com a
maioria de nós. Li, nos diários do dia 7 de agosto,
por exemplo, que um excelente jurista como o doutor Antonio J. Benítez
declarava, na Câmara dos Deputados, que o Governo não
pôde determinar ainda “se existe ou não”
a organização conhecida como “Triple A”
(AAA), apesar dos crimes assinados pelos homens dessa sigla e das
admissões da sua existência por outros membros do gabinete,
incluindo (no dia 28 de maio), Don José López Rega.
Li que o próprio doutor Benítez considera que a faculdade
do Poder Executivo de manter uma pessoa na prisão está
acima do poder de absolvição dos juízes (com
o que se entende cada vez menos a eficácia do regime de três
poderes).
Vi também que, para o ministro do Interior, os argentinos
que deixaram o país por causa das ameaças anônimas
da AAA ou de outras facções extremistas, fizeram-no
“por sua conta, e nada aconteceu para quem ficou – disse
– estava seguro de que essas ameaças não eram
outra coisa além de ameaças”.
Fiz todo o possível para ficar, e estou fazendo todo o possível
para voltar, e é por isso que sentiria como cumplicidade
o meu silêncio ante as afirmações do doutor
Benítez, talvez pronunciadas mais em resposta a certos compromissos
políticos da conjuntura atual do que por causa de sua formação
jurídica ou de uma integridade política, que ele conservou
intacta durante décadas de fácil contaminação.
Quando o ministro do Interior afirma que nada aconteceu para os
ameaçados que ficaram, seguramente esquece o deputado Rodolfo
Ortega Peña, o advogado Silvio Frondizi, o ex-policial Julio
Troxler. Esqueceu o pé inutilizado do senador Hipólito
Solari Yrigoyen, a viagem apressada de Raúl Lastiri e Salvador
Busacca ao escritório do deputado Héctor Sandler para
resgatá-lo dos bandos armados que o aguardavam na rua, com
o trânsito impedido. A má memória é uma
epidemia freqüente entre os argentinos, porém agora
está claro que esta forma de esquecimento unilateral, que
reserva a amnésia para certas vítimas, constitui um
insulto às demais e até no encobrimento dos outros
assassinos: os do diretor de “El Día”, de La
Plata, David Kraiselburd, do ex-ministro do Interior, Arturo Mor
Roig; do capitão Viola e sua filha; dos policiais e oficiais
das Forças Armadas (realizados impunemente). É o esquecimento
do que aconteceu ainda ontem, do que está acontecendo hoje.
Conheço exílios forçados que não perturbaram
o sossego de determinadas pessoas, senão que modificaram
a sorte das empresas a que pertenciam e arriscaram a estabilidade
de milhares de trabalhadores. Eu e o presidente da Editorial Abril,
por exemplo, Cesar Civita, junto a quem trabalhei durante alguns
anos, fomos ameaçados ao mesmo tempo. Segundo a tese do doutor
Benítez, as ameaças contra Civita não punham
sua vida em perigo. Resta então explicar por que o Governo
não o avisou antes da partida, por que não lhe ofereceu
proteção equivalente à importância de
suas empresas, por que não se comprometeu de modo formal
e público a velar por sua vida, evitando, assim, que sua
repentina partida contribuísse para a desordem de uma editora
onde trabalham mil e quinhentas pessoas. Não seria demais
interpelar outra vez o ministro do Interior, passando-lhe estas
perguntas que ficaram no tinteiro.
Acredito que foi em meados de setembro, em 1974, quando começaram
a me ameaçar por telefone. As primeiras chamadas exigiam
que eu deixasse o país em 48 horas; mais tarde houve outras,
com prazos generosos. Atribuí aquelas pressões a certos
adversários pessoais, a desconhecidos avulsos, desgostosos
com alguma frase que eu havia escrito em La Opinión
ou pronunciado pela Rádio Del Plata, ou a desesperados que
recorriam à ameaça como sistema para conseguir emprego.
Não fiquei amedrontado porque os fatos careciam de seriedade.
Porém, sempre soube que as campainhadas que sobressaltavam
minha casa (e outras também) no meio da noite, eram um sinal
inequívoco do pântano nacional, da insegurança
fatal em que nós, argentinos, nos movíamos.
Naqueles meses (de setembro até o Natal), a angústia
era como uma natureza entre os habitantes de Buenos Aires. Adivinhávamos
o esbanjamento de alguns ministérios, recebíamos notícias
claras sobre o paradeiro de certos fundos reservados, nos especializávamos
em comentar com eufemismos e meias palavras o que tínhamos
o dever de explicar em voz alta e com palavras inteiras.
No entardecer do dia 25 de abril, alguns ex-companheiros da revista
“Panorama” me chamaram por telefone para contar-me que
havia explodido uma bomba “lanzapanfletos” na esquina
de Leandro Alem e Paraguay, e que os boletins de guerra assinados
pela AAA anunciavam a morte de umas vinte pessoas, caso não
abandonassem o país no monótono lapso de 48 horas.
Meu nome figurava honrosamente na cabeça da lista.
Serei franco: não tive vontade, nem força, nem coragem
para aceitar a ameaça. É preciso estar na pele de
um jornalista pobre, que tem uma família numerosa e nenhum
bem de fortuna, para saber até que ponto a atmosfera, o idioma
e o afeto ao país natal são o outro nome da vida.
O diretor de La Opinión me ofereceu refúgio,
no qual vivi durante pouco mais de uma semana, até compreender
que esse tipo de situação não pode se prolongar
indefinidamente e optei (creio que no dia 5 de maio), por retornar
à doce superfície, caminhar pela Rua Florida, retomar
a rotina diária da redação e almoçar
com os amigos nos restaurantes dos bons tempos.
Porém, fui informado de que dois sujeitos haviam interrogado
o porteiro da minha casa para reconstituir alguns dos meus movimentos,
e que, na garagem da frente, outros haviam identificado com zelo
os sinais particulares do meu automóvel. Confesso que essas
evoluções me deram medo. Pedi a Jacobo Timermam que
me ajudasse a partir. Foi ele quem escolheu o Festival de Cannes
como preocupação dos meus próprios dias, e
quem se encarregou de que eu chegasse ao aeroporto sem outros sobressaltos
que não fossem os da despedida.
Nem o cinema no Mediterrâneo é belo quando alguém
não sabe se poderá voltar. Todas as manhãs,
o cordão umbilical que nos mantém ligados ao país
que amamos canaliza o alimento através dos jornais, das cartas
e das mensagens dos amigos. O medo da morte se transfigura ali na
certeza de que essa morte pode ter infinitos nomes, e que nada é
tão desolador como o Desterro.
As velhas tribos da Mesopotâmia costumavam falar dos demônios
em voz alta para afastar o terror. A palavra era o mais eficaz dos
exorcismos, e de modo inverso, renunciar à palavra, calar
o nome de Deus, era a melhor forma de mostrar temor e amor a Deus.
Assim, esta história sobre o medo tem, sobretudo, o fim de
aniquilar o medo, de explicar que nem a resignação
ante à desgraça, nem a perda de fé, nem a mansa
submissão (até o dia 27 de junho) eram justos ou saudáveis.
Não foi proibindo o nome de Perón que os epígonos
da Revolução Libertadora suprimiram Perón:
pelo contrário, essa proibição foi uma das
forças que contribuiu para o seu regresso.
Uma tarde, faz pouco tempo, li, a seis mil quilômetros daqui,
uma dessas frases magníficas, que nos ajudam a viver. Havia
sido escrita em La Opinión e dizia, acho, que não
se negava a liberdade de expressão aos argentinos, que simplesmente
deveríamos exercê-la. No entanto, podem ser contados
nos dedos da mão os que estão dispostos a correr tal
risco.
À grande distância, os únicos pontos de referência
sobre o estado de ânimo da Argentina são as páginas
das publicações nacionais; e ainda assim, trata-se
de revelações incompletas, porque chegam órfãs
do complemento dos gestos e, às vezes, chegam tarde, quando
estão acontecendo outras histórias.
A cem metros ao norte da casa dos atores, em uma mansão silenciosa
que parece de outro século, vive o homem a quem a AAA escolheu,
no dia 21 de novembro de 1973, para se apresentar à sociedade
argentina. Várias oportunidades da boa sorte permitiram que
o senador Hipólito Solari Yrigoyen continue ocupando obstinadamente
sua bancada no Congresso, embora o incomodem as cicatrizes da perna
esquerda e a memória de uma explosão que deve ter
se parecido com o apocalipse, na garagem da Rua Charcas, 1376.
Há quatro meses, outro estampido fez voar sua casa de Puerto
Madryn: o senador se preparava para dormir e percebeu ruídos
na escada que atribuiu a desordens no encanamento. Apenas apagou
a luz, sobreveio o estrondo. Ouviu os passos apressados dos agressores
aproximando-se do dormitório. Quis fechar a porta e a descobriu
arrombada. Deslizou até o armário para apanhar o revólver
e as portas corrediças não funcionaram. Esperou, então,
a morte em silêncio, envolto pela fumaça da pólvora,
sem que até agora consiga saber ao certo por que não
quiseram (ou não puderam) matá-lo.
Menos conhecida é a história sobre o que chegou à
sua casa da Avenida Santa Fé, no dia anterior ao atentado.
Era um retângulo branco, vulgar e rústico, com o endereço
da Casa Radical no verso (Tucumán 1660) e por dentro um papel
no qual havia três letras que nada significavam então:
AAA. Nos vinte meses que se seguiram, o senador descobriria várias
vezes a mesma sigla pintada no muro da casa onde agora, neste agosto
solitário, bebe lentamente sua xícara de café.
Nesses meses receberia também chamados telefônicos
que previam, meia hora antes de partir para Ezeiza, que jamais chegaria
ao aeroporto. E não obstante, sustentam que o medo não
chegou a retardar nenhum dos seus regressos, nem o fez faltar com
a menor das obrigações legislativas: “É
que cheguei à vida política com a convicção
sincera de que é um apostolado onde os dissabores são
sempre mais numerosos do que as carícias”.
Para o senador, Buenos Aires vem sucumbindo à crosta suja
do medo há três meses ou um ano; não desde o
dia chuvoso em que foi enterrado Juan Perón, senão
desde a jornada de vasta crueldade que culminou com cem mortes,
a 20 de junho de 1973, nos arredores do aeroporto de Ezeiza. “Não
se pode eximir Perón de culpa – explica o senador –
porque ele ainda governava quando foi tolerado o golpe do tenente-coronel
Navarro contra Córdoba, e à sua inspiração
se devem as reformas do Código Penal que acentuaram o caráter
repressor do seu regime”.
Quase da mesma maneira que Ernesto Sábato, Solari Yrigoyen
mantém intata a fé no povo peronista, no povo, e sabe
que a capacidade de luta dos humilhados e dos ofendidos cresce com
cada golpe de desilusão. Costumam dizer-lhe – conta
– que suas desventuras de senador são voluntárias,
que ele mesmo procurou seus ferimentos. Ele responde que sua vocação
é a de um homem de Estado, não a de um suicida que
sai cada manhã “para dar esbarrões na polícia”.
Mesmo que não fosse – como é – sobrinho
neto do legendário Don Hipólito e sobrinho-bisneto
de Leandro N. Alem, ele tem a linguagem, o jeito de um radical de
nascimento: o que lembra um desses pastores nepaleses que dispõem
de só dez palavras para nomear o mundo, porque atrás
da palavra Casa estão, em fila, Porta, Cama, Fogo, Homem,
Prato, Comida e assim até o infinito, como quando se abre
o coração das bonecas russas.
O leitor descobrirá, pois, todas as vozes que existem atrás
do que Hipólito Solari Yrigoyen está dizendo agora,
nestas seis ou sete frases habitadas pela confiança: “A
Argentina abandonará imediatamente sua estrutura senil para
aceder a um rejuvenescimento da democracia, com o apoio e a participação
do povo. Não é necessário que mais uma geração
se sacrifique, depositando suas liberdades e direitos fundamentais
no altar de supostos benefícios. O Governo empurrou para
o terrorismo e a ilegalidade setores peronistas que se tornaram
privados de espaço político. Da mesma maneira, arrastou
certas agremiações à rebelião e à
clandestinidade. Um exemplo típico é o do Agustín
Tosco, que havia sido eleito como secretário-geral de “Luz
y Fuerza”, em Córdoba, por uma maioria evidente e a
quem despojaram da sua missão, sem lhe dar tempo para se
defender.
O medo, assim, não seria o fruto involuntário de um
país desaparecido no caos, senão um animal selvagem
cuja jaula foi aberta para que engendrasse o caos. Para Hipólito
Solari Yrigoyen, a morte do medo só chegará quando
já ninguém se oponha ao legítimo direito dos
outros, quando todos os nomes (ainda que dos mais abomináveis)
possam ser pronunciados em voz alta. Para Luís Brandoni,
o fim do medo é outra variante do regresso. Eu supus, talvez
confundido, que a voz do medo se parecia com a das sirenes prepotentes
e das explosões que interrompiam todas as noites de Buenos
Aires, até o dia 19 de julho, casualmente.
Porém, como sucede com todas as pestes, o medo não
se foi de um dia para outro. Ainda sobrevive nas conversas dos pequenos
burgueses sobre o falso paraíso do exílio, nas infinitas
perguntas que ouvi sobre a prosperidade da Venezuela ou da Espanha,
nas vigílias de um operário têxtil que acaba
de receber seu aviso de dispensa “por motivos de força
maior”, e não sabe em que porta bater amanhã
para ganhar o alimento dos seus filhos.
O medo ainda está presente na bala que abriu o ventre do
sapateiro Roberto Aldo Pérez, no entardecer de 25 de julho,
por tentar defender seu pequeno negócio da depredação
iniciada em Buenos Aires pelos “Montoneros” na véspera
do aniversário de Eva Perón.
Agosto é – já se sabe – o mês mais
longo e também o mais cruel. Quando se acabar, dentro de
três domingos, nenhum de nós será o mesmo: andaremos,
porém, tateando em busca da fé que nos tiraram, da
alegria que nos roubaram, da vida que jamais recuperaremos. Talvez
o medo prevaleça então no rosto de alguns irmãos.
Porém nos restará, como consolo, o país enorme
ao qual nenhuma das infinitas corrupções (que no entanto
continuam de pé) pode derrubar por completo. Sobre a terra
saqueada e desonrada continuará florescendo o trigo e os
rebanhos, e haverá argentinos de boa vontade que erguerão
outra vez as fábricas dentre as ruínas. Nunca se sabe
quando termina uma história. Porém, agora que deixamos
para trás tanto desamparo, sabemos ao menos que qualquer
tempo futuro será melhor.
Hospícios, sexualidade, prisões
Durante três horas, Michel Foucault,
um dos mais cruciais
pensadores europeus, conversou com Versus,
e falou sobre repressão, loucura, psicanálise, livros
e política.
Por Raquel Moreno, Marcos Faerman,
Regina Schneiderman, Marilsa Taffarel e Mauro Almeida.
Tradução e edição de Cláudio
Bojunga.
Versus 1• outubro de 1975
Versus – Quando e como começou
a se interessar pelo problema da repressão: hospícios,
sexualidade, prisões?
Foucault – Deve ter sido quando comecei a trabalhar
em um hospital psiquiátrico, em 1953/55, onde realizava estudos
psicológicos. Foi uma dupla chance: a de não conhecer
o hospital psiquiátrico como doente, nem como médico.
Não sendo médico não detinha privilégios
nem exercia poderes. Era um indivíduo “misto”,
duvidoso, sem estatuto definido, o que me permitia trafegar à
vontade, e ver as coisas com mais “ingenuidade”. Foi
o ponto de partida biográfico. A anedota. O que tentei explicar
em minha aula na USP foi que, desde o fim do nazismo e do stalinismo,
o problema do funcionamento do poder no interior das sociedades
capitalista e socialista está colocado. E quando menciono
funcionamento do poder não me refiro apenas ao problema do
aparelho do Estado, da classe dirigente, das castas hegemônicas...
mas a toda essa série de poderes cada vez mais tênues,
microscópicos, que são exercidos sobre os indivíduos
em seus comportamentos cotidianos e até em seus próprios
corpos. Vivemos imersos numa teia política de poder –
e é esse poder que está em questão. Acho que
desde o fim do nazismo e do stalinismo, todo mundo se coloca esse
problema. É o grande problema contemporâneo.
Gostaria de acrescentar que em relação a esse problema
existem duas formas de pensar e de pesquisar – duas formas
interessantes, mas das quais me separo inteiramente. A primeira
é uma certa concepção marxista, ortodoxa ou
tradicional, que se dispõe a considerar esses problemas para
em seguida reintegrá-los na velha questão do aparelho
do Estado. É a tentativa de Althusser, quando usa a noção
de “aparelho ideológico do Estado”. A segunda
é a corrente estruturalista, lingüística, semiológica,
que consiste em reduzir esse problema à “sistematicidade”
no nível do significante (signifiant). São duas formas,
uma marxista e a outra universitária, de reduzir esse conjunto
de problemas concretos que surgiram após a Segunda Guerra.
Versus – Em seus trabalhos, a repressão,
em seus vários níveis de manifestação,
sempre se exerce de forma mistificatória. Ela precisa da
mistificação. O trabalho do intelectual seria descobrir
o que a mistificação do poder encobre... é
isso?
Foucault – Sim... foi o que aconteceu durante alguns
anos. O papel do intelectual consiste já há algum
tempo em tornar visível os mecanismos do poder repressivo
que são exercidos de maneira dissimulada. Mostrar que a escola
não é apenas uma maneira de ensinar a ler e a escrever
e de comunicar o saber, mas também uma forma de impor. O
mesmo em relação à psiquiatria, que foi o primeiro
dos setores nos quais tentamos diagnosticar essa imposição.
O aparelho psiquiátrico não foi feito para curar,
mas para exercer um determinado poder sobre uma certa categoria
de indivíduos. Mas a análise não deve parar
aí. Ela deve mostrar que o poder é ainda mais pérfido
do que isso. Que ele não consiste apenas em reprimir –
algo que impede, opõe obstáculos, pune – mas
que ele penetra ainda mais profundamente do que isso, criando o
desejo, provocando o prazer, produzindo o saber. De maneira que
é muito difícil se livrar do poder, pois se o poder
apenas tivesse como função excluir, impedir ou punir,
como um superego freudiano, uma tomada de consciência seria
o bastante para suprimir seus efeitos, ou ainda para subvertê-los.
Acho que o poder não se contenta em funcionar como um superego
freudiano. Ele não se limita a reprimir, a barrar o acesso
à realidade, a impedir a formulação de um discurso:
o poder trabalha o corpo, penetra o comportamento, se intromete
com o desejo e o prazer – e é nesse trabalho que é
preciso surpreendê-lo, e essa análise, que é
difícil, é a que precisa ser feita.
Versus – Então o poder é mais poderoso
do que se imaginava?
Foucault – É o que eu acho, e as pessoas
que trabalham no mesmo sentido que eu, também: tentamos fazer
uma análise do poder mais sutil do que a que foi realizada
até hoje. De maneira geral, eu diria que a antipsiquiatria
de Laing e Cooper entre 1955 e 1960 marca o início dessa
análise crítica e política dos fenômenos
do poder. Acho que até 1970/75, análises do poder,
análises críticas, ao mesmo tempo teóricas
e práticas, giraram essencialmente em torno da noção
de repressão. Denunciar o poder repressivo, torná-lo
visível, lutar contra ele. Mas, em seguida às mudanças
operadas em 1968, é preciso abordá-lo num outro registro
– não avançaríamos se continuássemos
a colocar o problema nesses termos: precisamos continuar essa análise
teórica e política do poder, mas de uma outra maneira.
Versus – Em que medida Cooper e Laing deram uma
contribuição original à psiquiatria?
Foucault – Laing e Cooper introduziram uma nova maneira
de se relacionar com a loucura que não é mais a maneira
psiquiátrica e médica. A idéia de que a loucura
é uma doença, é uma idéia historicamente
recente. O louco não tinha o estatuto de doente até
aproximadamente o século XVIII. E quando ele virou doente
por essa época, houve uma tomada de poder médica sobre
a loucura e uma série de fenômenos que foram a ela
relacionados: basicamente todas as anomalias do comportamento, as
anomalias sexuais, etc... O que Laing, Cooper, Bettelheim fizeram,
o que Szasz fez, à sua maneira, foi cessar de abordar de
maneira médica esses fenômenos de irregularidade no
comportamento. Ser louco para Laing e Cooper não é
uma forma de ser doente. Em relação à psiquiatria
isso significou uma ruptura muito importante.
Versus – Essa idéia não está
contida no seu Histoire de la Folie dans l´Age Classique?
Foucault – Não, não. Quando
escrevi a Histoire de la Folie (História da Loucura) não
conhecia a obra de Laing e de Cooper. E eles não conheciam
meu trabalho. Meu livro foi publicado na França em 1960.
Os primeiros livros de Laing e de Cooper devem ter aparecido em
1958/59 – e foi Cooper quem traduziu meu livro para o inglês.
São trabalhos contemporâneos, mas nós nos ignorávamos
mutuamente. É interessante: Szasz e Bettelheim trabalhavam
nos Estados Unidos; Laing e Cooper na Inglaterra; Bazaglia, na Itália;
todos eles desenvolveram seus trabalhos em função
de suas respectivas práticas médicas. Na França
não foi um médico quem realizou esse trabalho, mas
um historiador como eu. Seria interessante saber por que a antipsiquiatria
apenas foi retomada pelos médicos franceses posteriormente.
Mas, desde 1960 houve esse fenômeno de pessoas que não
se conheciam umas às outras trabalhando no mesmo sentido.
Versus – Por que houve essa confluência
internacional no sentido de reconsiderar o fenômeno da loucura?
Foucault – Em relação
a vários fenômenos, poderíamos fazer a mesma
pergunta. Por exemplo, o movimento estudantil no mundo. Entre os
estudantes de Nanterre e os de Berkeley em 1968 não houve
nenhuma ligação. Eu estava nesse ano na Tunísia,
e acontece que no mês de março houve um movimento de
contestação e de luta estudantil que foi brutalmente
reprimido. Com uma violência superior à empregada em
outros lugares – algumas pessoas chegaram a pegar 15 anos
de prisão por terem feito uma greve de um dia. O mesmo em
outros países, na Alemanha, etc... movimentos sem nenhuma
ligação, nenhuma comunicação explícita,
que se pudesse dizer que fulano se deslocou de tal para tal lugar.
Foi algo semelhante ao que aconteceu nas prisões. Na Europa
e nos Estados Unidos, no espaço de seis meses, as rebeliões
se alastraram como fogos de artifício: Attica, Nancy, Toul,
Milan – ora, entre duas prisões as comunicações
são modestas. Certamente o problema dos poderes, e do funcionamento
dos poderes no interior da sociedade, é o problema da nossa
geração.
Versus – Como foi sua última viagem à
Espanha? ¹
Foucault – Não é preciso ser
um especialista no problema das prisões para – não
digo analisar o que acontece na Espanha – mas pelo menos para
reagir contra o que lá ocorre. Os acontecimentos são
conhecidos: foi verdadeiramente um seqüestro e uma execução
de reféns. Os processos instaurados no curso das últimas
semanas e que se encerraram com onze condenações de
morte, cinco das quais já executadas, foram processos organizados
em condições totalmente inadmissíveis. Sem
nenhuma prova de culpabilidade, essas pessoas foram condenadas.
Sem advogados, porque os advogados foram expulsos, sendo substituídos
por oficiais do Exército – nomeados advogados da defesa.
Não havia provas – havia mesmo provas negativas, que
um dos acusados não se encontrava no lugar do “atentado”
pelo qual ele foi condenado. Todas essas pessoas foram condenadas
a morte, e cinco dentre eles foram executados unicamente para fazer
pressão sobre os grupos políticos a que eles pertenciam.
Foi uma maneira de dizer: claro que eles não são culpados,
mas vamos matar cinco dos onze. E se continuarem os atentados, se
continuar a luta política, nós mataremos todos os
quatro que guardamos na prisão. Na verdade foi um seqüestro
seguido de morte, como nem os grupos mais extremistas e violentos
o praticam.
Versus – E as conseqüências na Espanha?
Foucault – Não tivemos muito tempo para perceber.
Mas o que nos espantou foi sentir a presença física
do fascismo. Nós tínhamos lembranças de infância
da França sob a ocupação alemã, mas
depois tínhamos perdido o contato com essa presença.
Mas lá nós a sentimos. Fomos presos pela polícia
espanhola num saguão de hotel, no momento em que dávamos
uma entrevista coletiva à imprensa estrangeira. Havia muitos
espanhóis que estavam lá por outras razões
– conversando com amigos, namorando, etc... E o que nos chamou
a atenção foi que, no momento em que a polícia
chegou, os espanhóis deixaram de nos ver. Nada estava acontecendo
para eles ao lado deles. E havia uns cinqüenta policiais em
uniforme – uma cena nada habitual num saguão de hotel.
Os jornalistas saíram algemados, e nós fomos levados
em furgões blindados até o aeroporto. Na Praça
da Espanha, vimos uma multidão que acompanhava a cena. E
lá reencontramos esse espetáculo que já havíamos
conhecido durante a ocupação alemã. O silêncio
da multidão que vê e não diz nada. Sentimos
a simpatia que sentiam por nós, do outro lado da barreira
dos guardas e dos tiras. Pessoas que reconhecem uma cena familiar
e que se dizem: mais gente sendo presa. Pessoas que constatam mais
uma vez os mesmos rituais, depois de tanto tempo. É patético:
a presença do fascismo inscrita no corpo e no comportamento
das pessoas que o sofrem.
Versus – Como vê a relação
de seu trabalho intelectual – sobre a psiquiatria, prisões,
escolas etc... e a prática da sociedade?
Foucault – Nosso trabalho está no
início. Há 10 anos fizemos uma denúncia violenta,
brutal, até grosseira, do que se passava nessas instituições.
Acredito que isso tenha sido necessário. Não podíamos
continuar nos contentando com projetos de reforma, tentativas de
atenuação, programas de aperfeiçoamento. Isso
não levava a nada. Foi preciso colocar o debate no nível
político, destituindo os psiquiatras e os médicos
do direito de apenas propor reformas que convêm a eles, ligando
isso a outro tipo de crítica e de denúncia sobre o
que acontecia nas escolas, em outros hospitais, nas prisões.
Mostrar como se formavam esses centros de poder e atacá-los,
não através de uma crítica especulativa, mas
por uma organização política real, criar grupos
que no interior dos asilos questionem certas formas de disciplina
e de exercício do poder. Bom, mas isso não resolve
uma série de problemas que continuam a se colocar: muita
gente não consegue trabalhar, muita gente não consegue
manter uma vida sexual. A crítica operada pela antipsiquiatria
não vai resolver esse problema. Mas o essencial é
que esses problemas não são mais reinvestidos pelo
poder médico que lhes atribuindo um estatuto os neutraliza.
Existem atualmente na França grupos de doentes – como
eram chamados – o termo é equívoco: digamos
gente que encontra dificuldade, que tem problemas, que formam pequenas
comunidades, que tentam resolver seus problemas, apoiando–se
uns nos outros, apelando para pessoas do exterior, que são
“reguladores”. Eles são autogestionários
de seus próprios problemas.
Versus – O que pensa da psicoterapia de uma maneira
geral?
Foucault – Difícil de responder por duas razões.
A psicoterapia abarca um tal número de práticas diferentes,
umas que não passam de puro charlatanismo, outras da aplicação
do poder psiquiátrico mais tradicional no âmbito da
clientela privada. A gama é enorme. Existem mesmo coisas
muito interessantes. Não quero tomar partido nessa questão.
Além disso, acho que os intelectuais não devem recomeçar
a desempenhar um papel que eles se atribuíram durante muito
tempo, que é o de legislador moral, o de ser a boa e a má
consciência em todos os domínios. O papel do intelectual
é o de se ligar às pessoas que são atingidas
pelo assunto que lhe interessa. Portanto recuso–me a tomar
posição ou emitir idéias gerais sobre domínios
aos quais não estou ligado. Passei dias e dias, durante anos,
em hospitais psiquiátricos. Estive na prisão durante
alguns meses e durante anos, participei de grupos de ex-prisioneiros
ou de famílias de prisioneiros. Com a psicoterapia não
tenho contatos precisos.
Versus – Já foi psicanalisado?
Foucault – Tentei duas vezes,
e acabei abandonando três ou quatro meses depois, totalmente
entediado...
Versus – Que tipo de análise?
Foucault – A análise freudiana
mais tradicional que há...
Versus – Há muito tempo?
Foucault – Quando era estudante, e a
segunda vez, uns dez anos mais tarde.
Versus – A psicanálise, na França,
é muito difundida, não?
Foucault – Não poderia responder
em termos quantitativos. Mas posso dizer que até o livro
de Deleuze, (L´Anti-Oedipe) não havia intelectual
francês de alguma envergadura que não fosse psicanalisado.
Havia duas atividades absolutamente fundamentais: quem não
estava escrevendo um livro e quem não estava tagarelando
no seu psicanalista não tinha vez no mundo parisiense. Houve
uma brusca e saudável reação a isso.
Versus – Como?
Foucault – O livro de Deleuze é
a mais radical crítica da psicanálise que já
foi feita. Uma crítica que não é feita do ponto
de vista da direita, de uma psiquiatria tradicional, em nome do
bom senso, em nome – como foi o caso da crítica de
Sartre – da consciência, da consciência cartesiana.
Em nome de uma concepção extremamente tradicional
do sujeito. Deleuze fê-la em nome de algo novo. E com bastante
vigor, o que provocou um nojo físico e político da
psicanálise.
Versus – O Movimento da Liberação
da Mulher Francesa tem questionado a psicanálise...
Foucault – Sim, por causa do caráter masculino,
falocentrista, da prática psicanalítica.
Versus – E a sua crítica quanto à
sexualidade?
Foucault – Durante 10 ou 15 anos, utilizou-se
de uma forma um tanto grosseira da noção de repressão,
do poder como repressor. Uma análise mais requintada demonstra
que o que reprime é outra coisa, que a repressão tem
efeitos, ao mesmo tempo muito positivos e muito difíceis
de serem esclarecidos. Tomemos o exemplo da sexualidade infantil,
mais precisamente em relação à proibição
da masturbação, um fenômeno extraordinário,
pois ele apareceu bruscamente e recentemente: 1710 na Inglaterra,
1743 na Alemanha, 1760 na França. Uma interdição
baseada num imperativo generalizado – um alerta da primeira
metade do século XVIII. Basta olhar as coisas de perto para
repararmos que na sociedade não houve a interdição
do incesto, mas a da masturbação. Não a relação
com o outro, mas a relação com o próprio corpo.
O poder político não se interpôs entre a criança
e seus pais, entre a criança e sua mãe, dizendo–lhe:
não a tocarás. Não, o poder político
agiu de maneira mais próxima, dentro do próprio indivíduo
– dizendo-lhe que ele não deverá se tocar. É
curioso ver nos textos dessa época, os últimos textos
cristãos situados no nível da “direção
de consciência” do século XVIII, o problema da
relação com o próprio corpo, um problema fundamental.
Fato aparentemente negativo e repressor, na verdade, ele constitui
aos poucos a modalidade específica da sexualidade infantil.
E se a sexualidade infantil assumiu o aspecto que ela oferece atualmente,
isso se deve ao poder que a controlou através da masturbação,
um poder que não parece apenas feito de interditos. O trabalho
do poder político sobre o corpo da criança, e no interior
de sua própria família, em suas relações
com os pais, foi o que me propus analisar. A noção
de interdito e lei repressora parece-me excessivamente esquemática
para explicar o que aconteceu.
Versus – Existe alguma diferença entre
o homem e a mulher nessa questão de repressão à
masturbação? Clitoridectomia não foi uma prática
mais radical?
Foucault – Há um ano esse problema
me preocupa. E no ano passado, quando uma moça me colocou
seu problema, respondi-lhe que não via nenhuma diferença.
E a que existe não me parece fundamental. Como forma repressora,
a clitoridectomia (extirpação cirúrgica do
clitóris) foi amplamente utilizada na Europa contra a masturbação
feminina. Mas, por essa mesma época, um pouco antes mesmo,
uma série de medidas cirúrgicas e médicas foram
aplicadas nos meninos. Não se podia chegar à castração
(a espécie precisava ser preservada), mas as torturas eram
espantosas: cauterização do canal da uretra etc.
Versus – Quando isso?
Foucault – Praticamente durante todo o século
XIX. O médico de Napoleão injetava no pênis
dos meninos que se masturbavam (provavelmente nos órgãos
sexuais femininos também) uma solução de bicarbonato
de sódio. E como ele reparou que isso queimava o tecido interno
da bexiga, ele fazia um torniquete no pênis. Esses diversos
tipos de repressão variaram em relação às
décadas, mas não posso dizer que encontrei diferenças
básicas em relação à mulher ou ao homem.
Mas eu sou homem.
Versus – Quais as razões da repressão
sexual?
Foucault – Acho que a resposta de Reich,
embora possa ser correta globalmente, não explica tudo: repressão
sexual para constituir o corpo humano como força de trabalho.
Isto não corresponde à verdade: a campanha contra
a masturbação à qual nos referimos começou
em relação às crianças – gente
que ainda não constitui uma força de trabalho. E ela
foi uma campanha que se exerceu no interior da burguesia –
uma campanha que a burguesia exerceu contra ela mesma. O corpo do
operário não estava posto em questão. No caso
do operário, prestou-se muita atenção ao incesto.
Ainda não consegui formular uma resposta a esse problema,
mas é certo que durante muito tempo acreditou-se que uma
certa regularidade sexual era absolutamente indispensável
ao bom funcionamento da sociedade. Ora, atualmente, a irregularidade
sexual é perfeitamente tolerável. O capitalismo norte-americano
não sofre em nada pelo fato de que 20% da população
de São Francisco é composta de homossexuais. O problema
da contracepção é parecido. Não é
certo que a campanha natalista que se desenvolveu na Europa a partir
de 1870 tenha tido algum efeito.
Versus – Voltando um pouco atrás, qual
a essência da crítica de Deleuze e de Guattari à
Psicanálise?
Foucault – Essa pergunta devia ser colocada
a eles. De qualquer forma, eu diria que até o livro de ambos,
a Psicanálise era vista como um instrumento, talvez imperfeito,
talvez incompleto, mas como um instrumento de liberação.
Liberação do inconsciente, da sexualidade etc. Ora,
Deleuze e Guattari, retomando o pensamento freudiano e o funcionamento
da psicanálise mostraram como a psicanálise, tal como
ela é praticada atualmente, constitui uma submissão
da libido, do desejo, ao poder familiar. Que a psicanálise
edipianiza, familiariza o desejo. Ora, em vez de liberá-lo,
a prática psicanalítica o submete. Mais uma demonstração
de um mecanismo do poder. Deleuze desenvolveu conceitos novos que
permitiram continuar uma luta que já dura mais de 10 anos.
Versus – Que luta?
Foucault – Livrar-se de Marx e Freud como
pontos de referência obrigatórios para a resolução
dos problemas tais como eles se apresentam hoje. Ora, nem Marx nem
Freud são adequados à resolução desses
problemas, pelo menos tal como eles se apresentam na Europa. Uma
das tarefas dessa luta, que dura aproximadamente 15 anos, foi a
de dessacralizar esses dois personagens. Em seguida, inventar categorias
novas, novos instrumentos. Ora, Lacan situa-se, apesar do fato de
ter inventado muita coisa, no interior do campo freudiano –
o que o impede de criar novas categorias.
Versus – Como podem se conciliar os dois tipos
de luta – as particulares (prisões, mulheres etc.)
e uma mais geral?
Foucault – É um problema. Se
as lutas particulares forem escamoteadas, o que veremos é
a transposição dos sistemas de poder próprios
das sociedades socialistas, burocracia, hierarquia, autoritarismo,
estrutura familiar tradicional, etc... E é isso o stalinismo.
Versus – Em Vigiar e Punir existe uma concepção
não reformista da prisão. Deduz-se do livro que o
que importa não é reformá-la, mas combatê-la.
Verdade?
Foucault – Não tratei do problema
da reforma e da não reforma da prisão. Tentei mostrar
que no interior do sistema penal subsiste um sistema de punição,
sistema que é co-extensivo à nossa sociedade –
que atravessa a caserna, o hospital, a escola etc...
Agora, quanto à questão se devemos ou não manter
as prisões, não posso responder. Minha pergunta é
essa: se efetivamente consideramos que o sistema penal em seu funcionamento
atual é inadmissível, será preciso admitir
que ele faz parte de um sistema de poder que compreende a escola,
os hospitais, etc... E todos esses poderes estão colocados
em questão.
Versus – Qual o seu método de trabalho,
de estudo etc...?
Foucault – Tenho um tipo de doença
que consiste em ser incapaz de conceder entrevistas autobiográficas.
O que importa é o que acontece, não o que alguém
fez. A não ser quando essa pessoa tenha uma dimensão
fora do comum: acho que a autobiografia de Sartre deve ter um sentido.
Minha história pessoal não tem grande interesse. A
não ser pelos meus encontros, ou situações
em que vivi.
Versus – O psiquiatra Alonso Fernandes tentou
desqualificar suas críticas ao hospital psiquiátrico
pelo fato de que você não é médico...
Foucault – É divertido e curioso.
Os psiquiatras sempre acharam que eu tinha falado de doença
mental, que eu tinha falado da psiquiatria contemporânea,
que eu tinha falado do funcionamento das instituições
psiquiátricas. Basta ler o meu livro para perceber logo que
eu falo das instituições relacionadas à loucura
do século XVI a 1840 (Esquirol). A irritação,
a recusa do “direito de abordar esse tema pelo fato de não
ser psiquiatra” é significativa. Certo dia, na rádio
francesa, um psiquiatra levantou-se todo vermelho, bateu com o punho
na mesa e disse que “eu não podia estar falando dessas
coisas porque não era médico”. Eu apenas falei
de coisas que qualquer historiador pode conhecer. E que os psiquiatras
não conhecem. Não é preciso ser psiquiatra
para saber como era o regime de internamento no século XVIII.
Essa irritação é a melhor verificação
do que eu disse. Eles se reconheceram numa verdade histórica.
E dizem: “Ele está falando da psiquiatria contemporânea”.
Isto é: os métodos aplicados em 1840 são ainda
atuais! É a mesma coisa se o chefe de um governo atual, depois
de ter lido um livro sobre Napoleão, resolva prender seu
autor porque esse o criticou!
Versus – Mas, mesmo que a crítica fosse
atual, o que está em questão não é um
problema da epistemologia? O fato de que a filosofia da ciência
teria que ser feita por “especialistas”?
Foucault – Claro. Existem livros maravilhosos
sobre os asilos feitos por sociólogos. É interessante
não ser psiquiatra a fim de perceber certas coisas. É
um desafio que eu aceito: confrontar as histórias da psiquiatria,
feitas por alguns psiquiatras, com a minha.
Versus – Você teria criticado, na USP, “o
conceito da gênese, do desenvolvimento psicossexual em Freud
– que contém preconceitos de normalidade e de patológico.
E também o modelo de crescimento da sexualidade: fase oral,
fase anal etc... até a fase genital, verdadeiro amadurecimento”?
Foucault – Não falei em nada
disso. Analisei um pouco a noção de repressão
em Freud e os postulados que a ela estão ligados. Critiquei
a utilização do modelo do superego à análise
política – o poder político funcionando como
um grande superego. Disse que seria preciso inventar outros instrumentos
para analisar os efeitos do poder político – que conceitos
como censura e repressão são insuficientes. Mencionei
a maneira pela qual o poder político investe o corpo, a sexualidade
etc.
Versus – Está fundamentalmente de acordo
em termos filosóficos com Deleuze?
Foucault – Discordamos em alguns pontos,
mas fundamentalmente estou de acordo com eles. Não tomo posição
na polêmica entre ele e Lacan. Interesso-me pelo que faz Deleuze.
Acho que o que se faz de importante na França, atualmente,
está ligado a alguma forma de luta política.
Versus – Você é professor onde?
Foucault – Num troço chamado
Collège de France. ²
Versus – Controla doutorados, pós-graduações?
Foucault – Não, apenas pesquisas,
que são explanadas em doze sessões anuais.
Versus – O que acha da Universidade e do papel
do intelectual?
Foucault – Depois de 1968, todos foram
unânimes em dizer que a universidade estava morta. Morta,
sim, mas como o câncer – se propagando. Entre escritores,
jornalistas e universitários mantém-se intercâmbio
constante. O grande corte que fazia com que Baudelaire não
tivesse nenhuma relação com os professores da Sorbonne
não existe mais. Os “Baudelaires” de hoje são
professores na Sorbonne.
Versus – E continuam Baudelaire?
Foucault – Quando digo professores quero
dizer que eles são lidos, comentados, comprados pelos professores
e estudantes. Pegando o exemplo francês: não se pode
conceber Robe-Grillet, Butor, Sollers sem o auditório universitário
que os excitou, acolheu e analisou. O seu público foi o universitário.
Baudelaire entrou na Universidade 50 anos depois de sua morte. Ao
mesmo tempo desaparece o papel “profeta universal” do
intelectual. O trabalho intelectual passou a ser um trabalho de
especialista.
Versus – Não será necessária
uma síntese?
Foucault – O que faz a síntese
é o processo histórico, a síntese é
feita pela coletividade. Se o intelectual quiser fazer a síntese
dessas várias atividades ele retomará o seu velho
papel solene e inútil. A síntese se coloca no nível
de cristalizações históricas.
Versus – Esse papel restrito do intelectual não
estará ligado justamente à crise de uma perspectiva
filosófica global? Uma situação na verdade
contingente?
Foucault – Não falei da falta
da síntese como algo que faz falta, mas de uma conquista:
enfim nos livramos da síntese, da totalidade.
_____________________________________________________________
1) Michel Foucault foi à Espanha com um grupo de intelectuais
e artistas franceses, protestar contra os fuzilamentos franquistas.
2) Talvez o mais célebre da França.
*Os entrevistadores: Raquel Moreno era líder feminista
e, pouco depois, foi editora do jornal Nós, Mulheres; Regina
Schneiderman , psicanalista; Marilsa Taffarel, psicanalista; Mauro
Almeida, jornalista; Marcos Faerman, editor de Versus. Cláudio
Bojunga, jornalista, na época, era repórter especial
do Jornal da Tarde.
_____________________________________________________________
O guia da invasão
Um atento repórter brasileiro
acompanha a
Operação Dominicana. Conheça o guia prático
da invasão
de um pequeno país nos tempos da guerra fria.
Por Carlos Rangel • Versus
2• dezembro de 1975
Os fuzileiros navais permaneciam na ilha, mas já
não se combatia. Juan Bosch deveria retornar ao país
para iniciar, mais uma vez, sua campanha pela presidência,
como chefe do Partido Revolucionário. O total de mortos era
desconhecido. Mas seguramente 2.500 pessoas haviam morrido entre
os dias 25 e 29 de abril, no início de tudo. Os mortos eram
queimados ou jogados ao mar, se descobriam corpos de enterrados
vivos. Era setembro de 1965, a guerra terminava em São Domingos.
No fim, eu estava apenas empenhado em dar o fora do El Embajador
Hotel, onde uma boa refeição custava 15 dólares.
Mas não sofria qualquer conflito íntimo quanto àquela
grosseira invasão. Dez anos depois, no entanto, cabem análises
e perguntas sobre o 28 de abril em que os marines começaram
a desembarcar. O tema nos interessa particularmente, já que
estivemos envolvidos com essa história nas Antilhas.
As tropas norte-americanas só descobriram as falhas nos mapas
ao desembarcarem. Fico sabendo disso agora, lendo a série
de relatórios especiais do Centro de Estudos Estratégicos
da Universidade de Georgetown sobre a Operação Dominicana.
O Centro é um órgão respeitável que
examina questões políticas relacionadas com a estratégia
norte-americana. E que auxilia permanentemente, com seus estudos,
os interesses dos Estados Unidos.
O mapa reproduzido nos relatórios de Georgetown não
coincide com o que tenho comigo, um pouco amarrotado nas dobras,
onde ainda posso ver as marcas a lápis indicando alguns pontos
específicos. O deles é impresso pela Esso e mostra
apenas a área principal do conflito. É uma reprodução
do mapa usado pelas autoridades da Embaixada Americana e pelos oficiais
comandantes das Forças dos Estados Unidos que atuaram na
Operação Dominicana. Esse mapa foi adotado depois
que se descobriram as falhas das cartas elaboradas pela Dirección
General de Turismo, usadas no início da Operação.
A intervenção foi feita tão às pressas
que os oficiais adotaram o mapa da Esso apenas quando já
se aproximavam perigosamente dos setores ocupados pelos rebeldes.
Os relatórios de Georgetown revelam que, desde essa época,
os motivos e métodos intervencionistas norte-americanos são
submetidos a críticas.
O mapa da Esso ainda não era o exato. Quem não quisesse
se perder ou praticar tolices nas terras onde Cristóvão
Colombo já dera com os costados em 1492, deveria usar o mapa
da Texaco, feito um ano antes pela Rand MacNally & Co. Os postos
de gasolina ainda não o tinham, e um exemplar me caiu nas
mãos por acaso. Me serviu, quase como uma senha, para que
conseguisse um avião da USAF que me deixou em Porto Rico,
no fim da guerra. Daí parti para Nova Iorque, onde ninguém
chegava a um acordo sobre o número de mortos em combate.
Os números exatos sempre foram uma preocupação
dos norte-americanos. Os relatórios de Georgetown não
fogem a essa regra e contam 77 comunistas implicados na rebelião.
Esses números não coincidem com a lista fornecida
extra oficialmente pela embaixada americana aos repórteres
que começavam a chegar, no dia 29. Os 58 nomes relacionados
nessa lista deram origem a muitas controvérsias, pois na
verdade a relação estava decomposta em duas listas,
com cinco nomes repetidos.
O embaixador W. Tapley Bennet Jr. olhava sob um ponto de vista bem
determinado e tinha sua explicação para as contradições.
Para ele, a relação estava inteiramente correta. As
duas listas em que aparentemente se dividiam referiam-se aos rebeldes
“que tiveram treinamento cubano”, de um lado, e aos
que eram conhecidos como “elementos esquerdistas ativos”,
de outro.
Seja lá como for, Bennet – cuja cabeça já
não poderia mais ir a prêmio – foi o responsável
pelas recomendações básicas que levaram os
Estados Unidos à ação. Mais ainda, se hoje
existem dúvidas sobre as listas elaboradas pelas fontes de
informação do Serviço Secreto norte-americano,
as incorreções pouco representaram, na época.
Foi com base nessas listas que o presidente Johnson transformou
a operação inicial de salvamento de cidadãos
norte-americanos numa ação militar destinada a impedir
que um governo controlado (ou “seriamente infiltrado”)
por comunistas se apoderasse do poder na República Dominicana.
O tempo não apaga certas bobagens que se fazem no decorrer
da vida. Mas a Operação Dominicana poderia ter servido
como lição para a escalada que se seguiu no Vietnã.
O efeito, no entanto, parece ter sido contrário. Os soldados
que se encontravam no Sudeste Asiático chegaram às
Antilhas até mais animados. E foram mobilizados mais de 14
mil homens. No fim da guerra, quando afinal Juan Bosch decidiu retornar
a São Domingos, os soldados ainda estavam na ilha e permaneceram
mesmo depois do dia 3 de setembro, quando Héctor García
Godoy, diplomata e homem de negócios em Santiago de los Caballeros,
foi empossado às pressas como Presidente provisório.
Mais importante do que lembrar os antecedentes da revolta –
dizer, por exemplo, que grande parte das dificuldades do país
eram um legado da corrupta tirania de Rafael Leónidas Trujillo
– é perguntar se hoje relatórios como esses
de Georgetown servem para alguma coisa.
Os relatórios incluem supostos estudos aprofundados de áreas
em crise, exames de suposições, problemas de pesquisas
relacionadas com a política dos Estados Unidos ou ainda estudos
de opções para os executantes da política.
O Grupo de Estudos acaba por reconhecer que a Operação
Dominicana teve graves conseqüências para os Estados
Unidos e toda a América Latina. Mas termina também
por justificar a intervenção, que teria sido “mal
explicada ao público”.
A ambigüidade dos documentos começa no prefácio
do trabalho. “As explicações oficiais a respeito
dos desembarques têm sido rejeitadas pelos que sustentam que
a ameaça comunista foi superestimada. Para esses, a necessidade
de Forças Armadas não estava bem caracterizada e o
perigo que corriam os norte–americanos na ilha era apenas
um pretexto para uma intervenção política.
Alguns afirmam que a revolução foi feita pelo povo,
buscando conseguir várias reformas que se impunham. Outros
negam a seriedade da crise e sustentam que tudo poderia ter sido
resolvido de forma menos drástica. Fala-se que a Organização
dos Estados Americanos poderia ter resolvido o problema sozinha,
ou que a ação dos Estados Unidos era necessária,
mas foi aplicada sem método e longe da oportunidade apropriada.
Poucos ficaram satisfeitos com os acontecimentos. E pouquíssimos
conhecem todos os fatos ou compreendem realmente o que aconteceu”.
A abertura do trabalho termina com o glossário das personagens
envolvidas, com sua lista de comunistas e o mapa da Esso, onde imagino
as praias da Avenida George Washington, com seus turistas banhando-se
o ano todo. Com o auxílio do mapa posso estabelecer o cordon
sanitaire, uma linha imaginária para isolar o centro
da cidade do palco das negociações, e até indicar
o aeroporto de San Isidro. Foi aí, na madrugada de 30 de
abril, numa sexta-feira, que aviões de transporte C-130 começaram
a descarregar 2.000 pára-quedistas vindos de Fort Bragg.
No mesmo dia, saltaram mais dois batalhões, dois outros a
3 de maio e três no dia seguinte. A rapaziada que vinha por
ar pertencia à 82ª Divisão Aerotransportadora,
da Carolina do Norte, enquanto os 1.580 soldados que tomavam as
primeiras cabeças-de-praia eram componentes do Esquadrão
Anfíbio.
Os relatórios de Georgetown chegam à absurda conclusão
de que não existiu rebelião popular em larga escala
na República Dominicana. E afirmam que as desordens ficaram
praticamente restritas à cidade de São Domingos. Claro,
numa situação onde era difícil até mesmo
contar os mortos, as comunicações com o resto do país
não eram boas o suficiente para que se soubesse o que ocorria
fora de São Domingos. Na própria cidade as comunicações
eram difíceis, e o general Jesús de los Santos Céspedes
insistia junto à Embaixada dos Estados Unidos para que fornecesse
logo os 50 transmissores-receptores que muito mais tarde garantiram
uma rede básica de contatos.
Céspedes era o chefe da Força Aérea Dominicana,
e comandou o primeiro ataque aos rebeldes. Era também um
dos poucos a permanecerem calmos naquela quarta-feira, 28, na base
de San Isidro, quando ninguém poderia deixar de sentir uma
atmosfera de colapso. Os oficiais se mostravam cansados, perturbados.
Alguns até choravam. O general Belisario Peguero, ex-chefe
de polícia, tinha ataque de histeria. Elias Wessin y Wessin,
outro general e chefe do Centro de Treinamento do San Isidro, estava
à beira da exaustão. Ele tentara arrasar a área
rebelde perto de Ciudad Nueva, um bairro de São Domingos,
mas perdera a coragem. Por esse motivo, Wessin y Wessin veio a ser
o objetivo de um dos primeiros atos do Presidente provisório
Garcia Godoy, no fim da guerra: foi reformado e exilado. Fora de
San Isidro, os Cascos Brancos – a famosa polícia de
choque dominicana – continuavam a servir de alvo para os guerrilheiros
e eram mortos ou dispersados onde quer que aparecessem.
Havia fatos, naquele momento, que não podiam ser esquecidos.
Os três envios de forças navais às costas dominicanas,
ordenados pelo presidente Kennedy a fim de “proteger vidas
e propriedades norte-americanas”, algum tempo depois da morte
de Trujillo. Ou a disputa tola que envolveu os dois países
da Isla Hispaniola – República Dominicana e Haiti –,
quando mais uma vez os barcos americanos se aproximaram. Esse último
episódio serviu para ajudar na derrubada de Juan Bosch, o
presidente cujo retorno os rebeldes exigiram depois. O antagonismo
entre os militares e Bosch, intelectualizados demais para entender
tantas facções, acabaria por resultar em outro golpe,
um dos tantos que se sucederam depois da morte de Trujillo. Em setembro
de 1963, os militares apoiados por civis de direita e de centro
conseguiram derrubar e exilar o Presidente eleito. Os Estados Unidos
apenas deploraram.
Em fins de agosto, quando se perguntava se todo aquele aparato bélico
valera a pena, era mais fácil obter um legítimo conhaque
francês, ou uma garrafa de bom uísque, do que um copo
de rum. A culpa era da Zona Franca. O verdadeiro rum – que
é melhor nas Antilhas que em qualquer outra parte –
era destilado do melaço puro da cana-de-açúcar,
e descia bem apenas com uma rodela de limão ou transformado
em daiquiri. Mas nem com uma boa dose para se aquecer o coração
se poderia engolir, naquele momento de 1965, o general Antonio Imbert
Barreras.
Esse era o líder da situação. Um general comissionado
depois de ter tomado parte do assassínio de Trujillo, um
insurreto à sua maneira, apoiado pelos norte-americanos.
Um fiasco como chefe da Junta de Governo de Reconstrução
Nacional.
Do outro lado estava o coronel Francisco Caamaño Denó,
um ex-oficial do exército dominicano que se juntou aos rebeldes
depois de breve asilo na Embaixada de El Salvador. E que reapareceu
como Presidente do Governo Constitucionalista em Ciudad Nueva, posição
que ocupou até a formação do Governo Provisório.
Depois disso, Caamaño surgiu como adido militar em Londres
e desapareceu em circunstâncias até hoje um tanto obscuras.
O antigo chefe dos Cascos Blancos era até pouco antes conhecido
apenas por algumas histórias policiais. Mas, de repente,
se torna o homem do momento. E é considerado um herói
popular, o líder que insistia na volta de Juan Bosch e também
na retirada da Força Interamericana de Paz, a FIAP. Um tipo
que os diplomatas não suportavam, mas que, sem dúvida,
sabia o que queria e acabou por se impor.
Caamaño foi descoberto, de certa forma, pelos repórteres
e cinegrafistas americanos, que tinham carro alugado à porta
do hotel, bastante dinheiro no bolso e nativos contratados para
carregar seu pesado material. Havia uma emissora de TV nova iorquina
que interrompia as entrevistas coletivas por alguns instantes, quase
à força, e exigia que o representante dos Estados
Unidos na OEA, Ellsworth Bunker, parasse de falar. O mesmo acontecia
com Caamaño. A câmara fazia então um close sobre
a última pasta dental com fator RH. Delicious, frisava
o rapaz, que tinha essa única função durante
toda a guerra civil. O grotesco dessas cenas revoltou participantes
das duas facções e foi tema de uma entrevista do general
Hugo Panasco Alvim, o oficial brasileiro que comandou a FIAP. Depois,
naturalmente, a entrevista foi transmitida numa programação
coast to coast.
A impressão que se tem, dez anos depois, é que tudo
se acaba na manhã de 15 de junho, quando se reiniciaram os
combates depois de uma longa e enfadonha trégua para enterrar
os mortos, como diziam os jornalistas encurralados no El Embajador
Hotel. A luta duraria pouco, e nós estávamos impossibilitados
de passar, à noite, para o outro lado da linha, ultrapassando
a Zona Internacional tida como faixa neutra.
Na verdade, depois que anoitecia tudo que se podia fazer era ouvir
o matraquear das metralhadoras e a débil resposta de uma
ou outra espingarda de matar passarinho. De repente, o estrondo
de um balaço 105, que impunha um longo silêncio. Era
tudo que percebíamos, instalados na sacada do luxuoso hotel,
dentro da zona neutra, guardada por soldados americanos.
Mas, de manhã, todos os repórteres se punham em ação,
na disputa inútil de chegar primeiro ao lado rebelde, constatar
os estragos e ouvir mais uma vez as palavras de Caamaño,
de cabelo escovinha, uma herança dos seus tempos de chefe
de polícia. Depois a curiosidade se voltava para os 500 e
poucos soldados brasileiros integrantes da FIAP. Se dizia que a
morte de um deles poderia acender um estopim na América Latina
ou impopularizar o movimento rebelde dominicano, muito mais do que
a morte de 5.000 marines.
Agora havia pouco para comentar, no entanto. O incêndio que
queimou seis quilômetros de instalações portuárias
servira para esfriar os ânimos. Ali estava armazenada quase
toda a comida que permitiria aos rebeldes continuar lutando por
mais algum tempo. O fogaréu durou dois dias e, pouco depois,
Caamaño acabaria por fazer concessões ao general Imbert,
que era por um armistício pela deposição de
armas.
A partir daí os fatos perdem o interesse, até mesmo
para a Universidade de Georgetown. Os relatórios passam por
cima dos últimos e patéticos acontecimentos, como
a descoberta dos enterrados vivos. A princípio, nove cadáveres.
Depois, outros vinte. A exumação, que prosseguiu durante
dias, revelou o que acontecera. Os corpos eram encontrados de joelhos,
como se as pessoas pedissem clemência antes de morrer. E suas
mãos descarnadas revelavam um terrível esforço
em escavar a terra para conseguir a liberdade.
Mas nada disso foi levado em conta. A guerra civil terminava, já
não se viam nas ruas os mortos que queimavam ao sol do meio-dia
nas Antilhas. E que eram sempre mais freqüentes nos poucos
quarteirões ocupados pelos rebeldes.
Foi numa alfaiataria que vendia pequenas garrafas de rum, em junho,
que soubemos de mortos ainda por sepultar. As garrafinhas ficavam
nos bolsos traseiros das calças, para dar coragem, eram conduzidas
como fazem os americanos com seu Bourbon vagabundo. Os dominicanos
gostavam apenas dos jornalistas franceses e era difícil passarmos
por argelinos ou portorriquenhos. Nossa sorte foi encontrarmos um
jornalista panamenho que nos abriu caminho entre as ruas sinuosas
em que se postavam os canhões 105.
Uma mulher costurava à máquina, alheia à guerra,
e ouvia uma novela radiofônica. Entre as ruas que separavam
os americanos dos rebeldes, uns oito ou dez quarteirões,
estavam os mortos. As metralhadoras não permitiam a aproximação
de ninguém. Mas, para os rebeldes, era uma questão
de honra buscar os seus mortos. Ficavam em buracos, cavados pela
madrugada, ou no meio da rua, protegidos por paralelepípedos.
A cada rajada de metralhadora se levantavam dos abrigos e davam
um tiro como resposta, à maneira de um menino travesso que
usa seu estilingue para contrariar os adultos. O casario pobre,
já semidestruído, fazia lembrar os baixos do bairro
do Jaçanã, em São Paulo. Um ótimo lugar
para brincar de esconde-esconde, mas nunca para uma guerrilha.
– “Ahora, Santo Domingo se acaba”. O alfaiate
que nos fornecia rum queria referir-se à parte velha da cidade.
Os sobradões desabavam como paredes de presépio. O
barulho era ensurdecedor, mas a mulher continuava costurando. Numa
outra esquina, caminhões americanos distribuíam leite
em pó. Não há miséria que não
se suporte, diria talvez Juan Onis, do The New York Times.
Daquele ponto ninguém passava. Mesmo durante a trégua
que, na verdade, não existia, em meio à madrugada.
As últimas dezesseis ruas em poder dos rebeldes eram riscadas
pelos traços luminosos dos tiros de metralhadora. A última
vez que vi Caamaño foi quando dois ou três ianques
se renderam. Não passavam de dois soldados visivelmente bêbados,
que diziam não ter mais vontade de continuar lutando. Vinham
do Vietnã, e só queriam dormir. O povo queria linchá-los,
mas Caamaño ergueu o braço, tomou as armas dos soldados
e os mandou de volta. Depois convocou os jornalistas para uma entrevista
coletiva.
Marianne não era nenhuma mocinha e passou uma noite observando
a tropa brasileira. Tinha rugas e trabalhava para algumas revistas
norte-americanas. Via tudo, com seu uniforme da “Air Force”
que, dizia, lhe dera sorte no Vietnã. O chapéu de
abas viradas não tinha flores, e lhe acrescentava um toque
jovial e bem feminino, apesar da idade.
Seu único assunto, no entanto, era guerra e mais guerra.
Desde o desembarque na Normandia até a invasão da
Hungria, sem contar três vezes no Vietnã. Estava em
São Domingos para saber se o assunto valia a pena.
Não sei o que pensava daquilo tudo, se diria que era uma
intervenção ou uma cooperação, a dúvida
de muitos naquela época, que os relatórios de Georgetown
queriam desfazer. Lembro apenas de uma frase dela, que vivia com
calças boca de sino e filmes em todos os bolsos: “Minha
casa é apenas uma pequena mala contendo chapas e poucas roupas,
além do travesseiro que é minha bolsa”.
A velhota Marianne, como a chamavam outras profissionais invejosas
de sua fama, morreu poucos meses depois, durante um ataque aéreo
no Vietnã, para onde voltara. A notícia de sua morte
ganhou pouco mais de 15 linhas no New York Times. Com ela
aprendi o recurso de comer com dois dólares dominicanos (moeda
ainda corrente no país) e escapar aos preços do El
Embajador Hotel. Era num quiosque depois descoberto por muitos.
Até mesmo pelos soldados americanos, que entraram em acordo
com o dono e provocaram a ampliação das instalações.
Da cidade em volta, o que restava era um terço das construções
bombardeadas e o porto arruinado pelo incêndio. Os americanos
diziam – até mesmo o Times – que tinham
apenas 5.000 homens em São Domingos. Mas lá estavam
pelo menos 20.000. Sem contar o pessoal dos nove navios de guerra
que podiam ser apontados com o dedo, da Avenida George Washington.
Dia e noite, quando brilhavam com suas luzes na linha do horizonte.
Junto ao El Embajador ficavam 200 helicópteros, em campo
retirado, que de cinco em cinco minutos partiam em missão
de inspeção para os lados da Zona Rebelde. Mas eu
já estava com o mapa que me permitiria sair dali. Encontrei-o
por acaso na praia junto à Avenida George Washington. Era
outubro, o sol já não queimava tanto em São
Domingos e as pessoas retornavam aos banhos de mar como se o verão
nunca se acabasse e a memória da gente fosse uma folha de
papel em branco.
Jack London
O extraordinário escritor norte-americano,
em
sua desesperada profusão de idéias, fundiu para
sempre o documentário e a ficção, e revelou
a
todos a relação convulsa entre a arte e a vida.
Por Paulo Ramos • Versus
3 • março de 1976
Sacanagem: cem anos depois de seu nascimento, John Griffith (Jack)
London, está quase esquecido. Seus livros, outrora entre
os mais lidos do mundo, rolam rasgados pelas prateleiras encardidas
de um ou outro sebo desatualizado.
Não podia ser diferente: a cultura axilar exalada pelos críticos
literários de consumo não merece mesmo registrar o
centenário daquele que sempre colocou a aventura da vida
muito acima do “escrever livros”. Jack London foi o
pai da grande corrente da literatura social norte-americana: aquela
raça de grandes escritores que trouxe para o papel a experiência
da própria vida. Homens que não caíram no grande
equívoco da arte contemporânea: homens que nunca se
preocuparam em recuperar o mundo da subjetividade perdida, dos gastos
aveludados e dos castelos embolorados. Homens do domínio
dos largos horizontes, das serras, das selvas, das estradas sem
fim, dos navios fantasmas e seus passageiros: do “Lobo do
Mar” e dos “Caninos Brancos”.
A genialidade de Jack London: reelaborar, em outro nível,
o que sempre existiu – e ainda existe – em estado bruto
na consciência dos gêneros populares, no arquétipo
das sociedades, na memória maltratada do povo: dialética
entre o viver e o escrever. Em sua desesperada profusão de
idéias fundiu-se para sempre o documentário e a ficção:
o azul do céu contrastando com o vermelho do sangue e o verde
do mar. A exaltação da violência e o sentido
trágico da existência; a relação convulsa
entre a arte e a vida; o ser preconceitual abolido em favor do estar
fenomenológico.
Vida, obra e morte
Adotado por um operário ferroviário, a infância
de Jack London foi marcada pela miséria e pela violência.
Mal termina o curso primário e é preso por vadiagem.
Quando sai do reformatório é obrigado a trabalhar
durante o dia como jornaleiro e sorveteiro. À noite, envolve-se
em brigas e bebedeiras nos botequins sórdidos da beira do
cais de São Francisco. Entre porres homéricos e ressacas
violentas agarra-se desesperadamente aos livros. Lê tudo o
que lhe cai nas mãos, especialmente histórias de aventuras.
Dois livros marcam sua vida: A Viagem à África, de
Paul de Chaillu e Moby Dick, de Melville.
Aos 17 anos realiza seu primeiro grande sonho: embarca no Sutherland
e parte para as costas da Sibéria pescar focas. Quando volta
está novamente desempregado e começa a vagar clandestinamente
pelas estradas de ferro dos Estados Unidos, roubando aqui e ali;
imperador do norte; on the road; precursor da lost
generation, de Hemingway, dos beats, de Kerouac, dos
hipsters de Gregory Corso; easy rider.
Obcecado pelos livros, consegue ingressar na Universidade da Califórnia
onde descobre Darwin, Spencer, Marx, Malthus e Nietszche. Seis meses
depois abandona tudo e se incorpora à corrida do ouro em
direção às planícies geladas do Klondyke.
Cai gravemente doente e só então começa a escrever
sistematicamente. Seus primeiros contos obtêm sucesso fulminante:
são histórias rápidas cheias de ação
e violência. Não demora muito tempo para que o magnata
da imprensa, Hearst – com seu faro de caçador de talentos
– perceba a potencialidade do repórter Jack London.
Paga-lhe um salário astronômico para que ele cubra
a guerra russo-japonesa. As reportagens enviadas do front
são memoráveis. Jack London torna-se um nome internacional.
Os jornais de Hearst faturam ainda mais alto.
O antigo órfão de São Francisco começa
a nadar em dinheiro. Escreve alucinadamente. Sua capacidade de trabalho
é extraordinária: dezoito ou vinte horas por dia.
Os manuscritos jorram. “O Chamado da Selva” desperta
num público já então enojado com a vida das
grandes cidades, o sonho impossível de um retorno à
natureza selvagem: é a história de um fascinante cachorro
que foge do cativeiro e volta para a floresta, onde termina como
chefe de uma alcatéia de lobos. “Smock Bellew”
descreve a aventura louca de um jornalista perdido no Yukon. “O
Lobo do Mar” conduz os leitores ao último lugar livre
do planeta: a vastidão dos oceanos. “Burning Daylight”
é a história de um homem simples e abrutalhado que
arranca uma fortuna das minas geladas do Alaska e depois abandona
tudo. “The Game”, a tragédia de um pugilista,
é outra canção de derrota. “O Tacão
de Ferro” é a impressionante profecia da ascensão
do fascismo num mundo dominado pela voragem do consumo e pela alienação
política. “Vale da Lua” tenta ingenuamente um
retorno à vida agrícola. Seu maior livro é
nitidamente autobiográfico: “Martin Éden”,
a tragédia de um escritor que depois de atingir o auge da
fama abandona tudo e parte em busca do nada.
Tudo é nada: o fim de Jack London se aproxima rapidamente,
como nas grandes catástrofes. Podre de bêbado ele ainda
consegue escrever um último livro: “John Barleycon”,
onde por trás de uma visão moralizante pode-se perceber
o alcoolismo como um nítido sentimento de culpa, o uso do
maior dos tóxicos não passando de uma tentativa sempre
renovada de auto superação, de “encantamento”,
de mudança da personalidade – por ódio, medo
ou desprezo ao próprio ser. No fundo percebe-se que os homens
bebem ou se intoxicam quando a vida corre com demasiado vigor ou
muita rapidez – e quando a tentativa de recuperação
do passado é uma aventura inútil. Também Hemingway,
mais tarde, descobrirá esta verdade: o alcoolismo é
incurável porque não é uma doença do
corpo nem da alma; é um “encantamento” do espírito.
Também Hemingway arrebentará os miolos.
Jack London procurou a morte. Várias vezes lançou-se
ao mar completamente embriagado na esperança que as ondas
o arrastassem para sempre.
Forte e fraco, sério e engraçado, noturno e diurno,
real e irreal, efêmero e eterno, Jack London resolve fechar
bruscamente seu maior romance na madrugada de 22 de novembro de
1916. Corta o fio da própria vida aos quarenta anos de idade.
Depois de ter percorrido o mundo e atingindo a fama, nada mais lhe
restava a não ser um sentimento de solidão essencial.
Quer ficar só.
Pede que coloquem sobre o seu túmulo uma enorme pedra monolítica,
como se tivesse medo de sair novamente à luz do sol para
percorrer as estradas empoeiradas do oeste, ou sentir no rosto bronzeado
o vento revigorante do mar.
Discurso aos
tupiniquins ou nambás...
Mário Pedrosa estava exilado
e sentia
saudades do Brasil. Então, enviou a Versus
um texto escrito em Paris.
Por Mário Pedrosa •
Versus 4 • junho de 1976
Em países como os nossos, que não chegam esgotados,
ainda que oprimidos e subdesenvolvidos, ao nível da história
contemporânea, mas que flutuam por sua situação
necessária sobre a linha do meridiano maior, ou francamente
mais abaixo dela, quando se diz que sua arte é primitiva
ou popular, vale tanto quanto dizer que é futurista. Nos
velhos países de franca civilização burguesa
não é assim e o caminho da arte bifurca-se ou trifurca-se,
em veredas que sobem na escala social para perderem-se nos vértices
das diversas elites que se fixam no delta extremo das especializações,
ou que fluem para baixo como um filete d´água que desaparece
no subsolo ou estanca em charcos.
Nunca tantos “ismos” cobriram áreas tão
pequenas, singulares e extravagantes para consumidores tão
refinados ou mais sutis. Nos outros países, aquelas filigranas
ou ramificações chegam como subprodutos elitistas
das orlas das capitais, dos aeroportos cosmopolitas, dos shoppings
ou supermercados e hotéis transnacionais. Fora dessas áreas
há as oficinas de artesanato, o trabalho não propriamente
assalariado, mas onde se trava o esforço anônimo da
criatividade, da inventividade autêntica, quer dizer, o esforço
para a coletividade. A arte nesses rincões tem suas raízes
na natureza ou tudo o que a esta pertence – terra, pedras,
árvores, bichos, idéias ou quase idéias que
escudam dificilmente as coisas e as gentes que com estas convivem,
com estas se misturam ou talvez se completam. Aqui, o que é
natureza já é cultura e o que é cultura ainda
é natureza, mas não se confundem e menos ainda se
fundem, pois não se trata do processo triédrico da
dialética, que terminaria, ainda que provisoriamente, em
uma síntese.
O que aqui acontece é outra coisa, é o nascimento
de um quarto reino mais para lá dos três tradicionais
da natureza, o animal, o vegetal, o mineral, quer dizer, o reino
da arte. Esta não é uma afirmação tão
audaciosa quanto parece. Para demonstrá-la basta levantar
a seguinte questão. Quem criou a arte? O homem. Como? Quando?
Toda a história da arte está hoje em irremediável
decadência ao tentar responder à pergunta. O estado
da questão está agora tanto mais inextrincavelmente
confuso quanto se levanta hoje nas grandes metrópoles uma
plêiade brilhantíssima, cultíssima, de espíritos
para proclamar que a arte morreu. Outros, talvez não menos
brilhantes, dizem que não, e defendem com unhas e dentes
as instituições dedicadas à promoção
da arte. É claro que a arte não pode morrer porque
ninguém a pode matar, uma vez que está condicionada
não só à história do homem como também
à história mesma da natureza.
O que acontece é que existem sociedades propícias
ao desenvolvimento do fenômeno artístico e outras que
já não o são. As grandes sociedades industriais
ou superindustriais do Ocidente, à medida que se desenvolvem,
cada vez mais movidas por um mecanismo interno inexorável
em sua contínua expansão, que subordina todas as classes
a seu frenético ritmo tecnológico e mercantil, castram
as colméias de toda criatividade e tiram qualquer oportunidade
aos homens de vocação ainda desinteressada e especulativa
para resistir à corrente de força que conduz tudo
e todos vertiginosamente à voragem do mercado capitalista.
Chama-se arte, sob este condicionamento, algo como uma relativamente
nova profissão ou ofício que produz objetos sui
generis que agradam à vista ou ocupam recintos fechados
de um modo caprichoso ou mesmo sedutor, quer dizer, não em
função utilitária direta, como mesa, armário,
urinol. Há bastante clientes para consumo dessas coisas.
Enquanto haja clientes para comprá-la, esta “arte”
existe. É claro que se fazem muitas promoções
para que o distinto comércio prossiga; para isto superabundam
galerias, museus, bienais, trienais etc. É sintomático
que essa atividade esteja hoje submetida à vastíssima
indústria da publicidade, que a protege e assegura seu progresso
e sua persistência. Aqui, e definitivamente, a velha arte
perdeu sua autonomia existencial e naturalmente espiritual. E não
há que chorar por isto; tentar restaurá-la é
uma tarefa anacrônica, condenada de antemão como uma
das muitas restaurações das quais a história
da arte ainda recente conhece tantos episódios fracassados.
Os artistas, os críticos, estetas e até sociólogos,
condutores do mundo das artes e de outras coisas das grandes metrópoles,
sabem melhor que ninguém que o “revivalismo”
é uma falsa solução e, conscientes desta falsa
via, eles se lançam na direção contrária
ao vanguardismo.
Nestas metrópoles pós-industriais, de avanços
tecnológicos vertiginosos, as vanguardas artísticas
sucedem-se dia a dia, levadas por uma necessidade premente de mudar
o produto para contentar uma clientela que não gosta em geral
de investir no já visto, como os artistas, principalmente
jovens, tampouco gostam de repetir o que se está fazendo.
Não é mudança de estilo, como nas grandes épocas,
o que se verifica no domínio das artes plásticas é
antes a estilização ou o processo de modernizações
que se comemora todos os anos nas feiras e salões de automóveis
nas grandes capitais da Europa e América.
Nos países da periferia, na faixa do subdesenvolvimento,
as vanguardas também aparecem, mas aqui seu propósito
seria antes o de afirmar-se como up to date. Elas têm,
entretanto, os olhos postos nas irresistíveis mudanças
ditadas pela lei da civilização do consumo pelo consumo,
quer dizer, a dos grandes mercados. Por isto nossos artistas “de
vanguarda” estão sempre correndo atrás para
alcançar a ultimíssima novidade. Esta corrida –
as estatísticas o demonstram cada vez mais – é
uma vã e triste ilusão. Os países pobres e
subdesenvolvidos já não podem alcançar o avanço
dos ricos.
Essa disparidade verifica-se também no campo da arte. Aqui,
igualmente, a quantidade se transforma em qualidade. Na fase histórica
em que estamos vivendo, o Terceiro Mundo, para não marginalizar-se
de todo, para não derrapar da estrada do contemporâneo,
tem que construir seu próprio caminho de desenvolvimento,
e forçosamente diferente do que tomou e toma o mundo dos
ricos do hemisfério norte. A história cultural do
Terceiro Mundo já não será uma repetição
em raccourci da história recente dos Estados Unidos,
Alemanha Ocidental, França, etc. Ele tem que expulsar de
seu seio a mentalidade “desenvolvimentismo”, que é
a barra em que se apóia o espírito colonialista. Este
implica a estilização do automóvel e seus complementos
que vão até o vestir, a casa, o viver, a decoração,
a recreação. Para o seu desenvolvimento, Tanzânia
preferiu o ensinamento da China; Saigon, o de Washington. O símbolo
do progresso daquela foi a estrada de ferro, o deste foi o bordel.
São estas as opções fundamentais. Pela lentidão
mesma do seu desenvolvimento, a arte dos nossos países já
não poderá repetir a evolução dos países
industrializados. A civilização burguesa imperialista
está num beco sem saída. Deste beco não temos
que participar – os bugres das baixas latitudes e adjacências.
As populações destituídas da América
Latina carregam consigo um passado que nunca lhes foi possível
sobrepujar ou sequer exprimir, quer dizer, fazê-lo teoricamente;
porque tal expressão nos chega em livros na maior parte deformados
ou disfarçados nas más historiografias de origem metropolitana.
As vivências e experiências destes povos não
são as mesmas dos povos do norte. São muito diferentes,
ainda que suas aspirações sejam contemporâneas.
Na verdade, a qualidade da vida, como se diz hoje no jargão
político da Europa (França), difere da de nossos povos,
como o pisco do vinho. Os pobres da América Latina vivem
e convivem com os escombros e os cheiros inconfortáveis do
passado. O ultramodernismo e alguns de seus progressos, de molde
comumente americano, estão umbilicalmente vinculados a nossas
favelas e barriadas. O paradoxo é que estas são
as que não mudam, como não mudam a miséria,
a fome, a pobreza, choças e ruínas. Mas é por
aí que passa o futuro. Aqui está a opção
do Terceiro Mundo: um futuro aberto ou a miséria eterna.
Necessariamente, instintivamente, esse futuro recusa os produtos
ultramodernos das áreas adiantadas da civilização
“transnacional”, que de futuro só apresenta a
aparência. Efetivamente, o que ela nos propõe como
futuro são na realidade variantes do status quo
que o imperialismo trata de defender por todos os meios, inclusive
a guerra. A única arte susceptível de renascimento,
quer dizer, de encontrar continuidades culturais imprevisíveis
ou não suspeitadas não pode resultar de idéias
abstratas, deduzidas do progresso permanente do cosmopolitismo multinacional.
No entanto é desta derivação abstrata que se
nutre o processo da sucessão obrigatória das vanguardas
já aqui analisadas (O mapa das escolas, ismos e estilos que
se sucederam a partir, digamos, da pop art anglo-americana,
indica a origem derivada dessas sucessões).
A tarefa criativa da humanidade começa a mudar de latitude.
Avança agora para as áreas mais amplas e mais dispersas
do Terceiro Mundo. A miséria, a fome, a pobreza podem conduzir
ao desespero suas populações (assim o crê e
disto adverte à sua gente o presidente do Banco Mundial,
o Senhor McNamara), mas elas não estão contagiadas
o bastante pelos poderosos complexos sadomasoquistas que reinam
na sociedade da riqueza, da prosperidade, da saturação
cultural, para serem levadas ao suicídio coletivo. É
mais lógico que se espere delas algo mais positivo para arremeter-se
contra o status quo. Existe mesmo em processo, em andamento,
um pouco por toda parte, um projeto a realizar, condição
sine qua non para conceber o futuro, ou seja, manter aberta,
para todos, uma perspectiva desimpedida de desenvolvimento histórico.
O que é isto senão uma revolução? Sim,
uma revolução. A única realmente susceptível
de mobilizar os povos da maioria da humanidade. A única positivamente
concebível como a tarefa histórica do vigésimo
primeiro século.
Somente dentro deste contexto universal será possível
pensar no engendramento de uma nova arte. Será esta uma das
faces mais vitais deste prisma revolucionário em gestação
nas entranhas convulsas dos povos que Fanon chamou os “danados
da terra”. Puro visionarismo? Dá no mesmo. É
talvez um ponto de partida metodologicamente necessário para
abarcar em sua totalidade a vasta problemática apocalíptica
da divisão dos povos do planeta entre o imperialismo, seus
satélites e acaudilhados, tacitamente mancomunados para defender,
em última instância, por todos os meios, o status
quo, e a imensa maioria dos outros, de preferência de
raças não brancas, condenados como por uma maldição
bíblica à fome e ao atraso. Quem esquece esse dilema
preliminar não pode falar. Já está mobilizado
pelo outro lado, pelo lado de cima. Já se colocou, mesmo
que não o saiba, na outra perspectiva de que nos fala Samir
Amin.
Daqui se pode entender a profunda diferença entre o que ainda
se conhece por arte no hemisfério dos ricos e imperiais e
o que pode ou deve surgir em nossos mundos deserdados.
A arte, na medida em que existia entre os burgueses imperialistas,
é cada vez mais um claro capricho, de luxo, estetizante,
que se consome a si mesmo, indiferente a tudo o mais. Estudando
o panorama da arte de seu tempo, em pleno triunfo do fascismo, Walter
Benjamin via no manifesto futurista de Marinetti sobre a guerra
da Etiópia “a perfeita revelação da arte
pela arte”, o coroamento de sua suprema palavra de ordem:
flat art, pereart mundus. Comentando este alto pensamento
da estética fascista, Benjamim alcança tal acuidade
que suas palavras de então, 1936, são de uma atualidade
espantosa: “Ao tempo de Homero, a humanidade se oferecia em
espetáculo aos deuses do Olimpo; ela se fez agora seu próprio
espetáculo. Tornou-se ela bastante estranha a si mesma para
conseguir viver sua própria destruição como
um gozo estético de primeira ordem”.
Uma geração depois do filósofo, quando uma
segunda guerra imperialista passou, mais devastadora ainda que a
primeira, a arte continuou sua carreira inexorável para o
acaso, ainda que esta carreira não se fizesse linearmente
e sim aos tropeções, com fulgurantes espasmos revolucionários,
que Dada e o Surrealismo anunciaram e Marcel Duchamp, à sua
maneira incorruptível e laica, acentua nos momentos do anti-vaticínio
e da contestação permanente. Consciência não
profética, mas no fundo sistemática da negatividade,
ele preside a evolução estética-não-estética
do século. Atrás dele vêm os artistas de hoje,
com suas proclamas revolucionárias. Um deles começa
por refazer sua descoberta do ready made, mas substitui
o primeiro exemplo histórico, “o urinol”, pelo
corpo vivo e belo de seu próprio modelo: é Pierre
Manzoni, que morreu aos trinta anos, em 1965, não se sabe
de quê. De si mesmo? Depois, da mesma família, chegam
os protagonistas da “arte corporal”.
Como que se amparando ainda no mestre incomparável e distante,
atacam-se ao próprio corpo, invocando a tonsura que Duchamp
se havia feito na cabeça, sob a forma de uma estrela. É
impossível não evocar as velhas palavras de Benjamin,
em face das experiências revulsivas destes ultralógicos
nihilistas da “arte corporal”: “Tornou-se (a humanidade)...
bastante estranha a si mesma para... viver sua própria destruição
como um gozo estético de primeira ordem”. E logo a
figura de Rudolf Schwarkogler nos vem à mente: um ano mais
moço que seu êmulo italiano quando morreu (1969), este
jovem artista austríaco, arrebatado por seus impulsos autodestrutivos
e narcísicos, inconformado com os determinismos atávicos
da vontade de ser, iniciou uma série de atos de agressão
ao próprio corpo e acabou por cortar o pênis, imolado
a obscuras idéias (ou purgas?) pelas quais se matou. Esses
atos de agressão ao corpo, objeto de adoração,
de repulsa e ódio, abrem a série de ações
que querem ser edificantes para a família da “arte
corpórea”.
Seria simples demais, além de injusto, identificar formalmente
a “estética destes artistas, cujo pensamento explícito
é negar toda estética”, com a atitude tão
claramente sádica de Marinetti e seus seguidores. Há
uma diferença substancial entre os Marinetti de então
e os artistas da “arte corporal” de hoje. Naqueles,
os determinismos sádicos predominavam e Marinetti cantava
de gozo ao espetáculo da destruição dos negros
da Abissínia sob os bombardeios aéreos dos fascistas
italianos, pálidos precursores dos bombardeios supermodernos
dos americanos contra os vietnamitas de nossos dias.
Nos artistas de agora, os atavismos que pesam sobre eles, sejam
alemães austríacos, italianos, americanos, franceses,
são tão complicados que escapam à análise.
Não se oferecem aos outros como espetáculo, como faziam
Marinetti e seus fascistas; se dão a si mesmos, pois seu
corpo é seu objeto, o objeto de sua busca. A destruição
volta-se contra eles mesmos, contra o que não são
em seu ser mesmo, pura autodestruição, é esta
que se dá em espetáculo – e espetáculo
que pretende ser edificante. Querem edificar pela autodestruição.
O ato estético, que sempre negaram, transforma-se em ato
moral. Como qualificar tais ações? Como testemunho
de um condicionamento cultural final, sem abertura, nem existencial
nem transcendental. O ciclo da pretensa revolução
fecha-se sobre si mesmo. E o que resulta é uma regressão
patética sem retorno: decadência. Aceitam a morte como
inevitável, em nome da saturação cultural e
da irracionalidade invencível da vida. Chegam ao cul
de sac perfeito. Entretanto, abaixo da linha do hemisfério
saturado de riqueza, de progresso e de cultura, germina a vida.
Uma arte nova ameaça brotar.
JOÃO
Um diálogo com João Saldanha,
o lendário jornalista que virou técnico
da seleção brasileira de futebol.
Por Vitor Vieira •
Versus 5 • agosto de 1976
A partida do Stanislaw Ponte Preta machucou? A partida do Neném
Prancha incomodou? O time do Posto 4 de Copacabana não existe
mais? Você não joga mais bola na praia? Mas e daí?
Dizem que você não passava de um razoável peladeiro
(você não aceita esta). “Lá, eu fui um
bom, um craque”. É, alguns amigos dizem que você
tinha classe. Que matava a bola no peito. Que deixava ela escorregar.
Que entregava a bola de primeira. “Ele não ficava muito
tempo com a bola.”
E, agora, eu o encontro nesse apartamento do Leblon, quase à
beira da Lagoa Rodrigo de Freitas. Não é uma boa hora,
concordo. São 9:30 da manhã. Você me oferece
um Toddy. Eu nem sabia que isso ainda existia. “Lá
ra ra ra lá, nós somos os patrulheiros Toddy”.
Nesse apartamento você está sozinho. Você e sua
bronquite.
Desculpe-me. Eu quero ouvir histórias, você não
quer contar. Dá uma entrevista de duas horas e depois diz:
“Bom, eu não sei o que você vai fazer com tudo
isso. Dá para escrever um livro”. Saio com a impressão
de que fui tratado como repórter de jornal laboratório
de escola de jornalismo. Depois começo a alinhavar tudo.
E chego a me perguntar: terei que chegar aos 52 anos para ter essa
paciência, essa bondade, essa quase resignação,
essa paixão?
Escuto um quase discurso monologado nesse seu modo pausado de falar,
com tom grave, e me esforço para ficar atento. Mas eu não
vou mentir, João, minha imaginação está
no Estádio Universitário, na Cidade do México,
com as aventuras de Garrincha que li no seu Subterrâneos
do Futebol, e que vou lembrando, agora, quando escrevo
esta história, e que vocês vão ler em negrito,
e que será publicado em contraponto ao que eu ouvi, naquele
momento, do João, que me falava de um diálogo filosófico
de 2500 anos atrás.
Garrincha está com a bola. O jogo é duro,
com o River Plate, da Argentina. Só esse time tem 10 titulares
da seleção. Os grupos de mariaches se rivalizam.
De um trecho dos Textos Esportivos da Antigüidade, em uma edição
francesa muito velha, “uma relíquia”.
– Eu tenho que tomar muito cuidado com meus livros. Especialmente
com o Paulo Mendes Campos. Ele é um grande ladrão
de livros. Um dia parei ele na porta e disse: olha, me devolve esse
livro aí.
Cem mil espectadores olham Vairo, o lateral esquerdo e
olham Garrincha, que vem com a bola. O “torto” passa,
Vairo fica com as pernas para o ar.
– Esse negócio é muito sério. Veja o
que dizia Sócrates: “Você não acha, Glaucon,
que só a ginástica atrofia o homem?”.
Só a torcida mexicana, com seu traquejo de touradas,
poderia, de forma tão sincronizada e perfeita, dar um “olé”
daquele tamanho. Toda vez que Mané parava na frente de Vairo,
os espectadores mantinham-se no mais profundo silêncio.
E Glaucon, um filósofo grego da segunda divisão, como
time do interior, retrucou: “Mas você não acha,
Sócrates, que só a cultura musical também atrofia
o homem?”.
Ôôôôôôô-lê.
O som do “olé” mexicano é diferente do
nosso. O deles é o típico das touradas. Começa
com um “ô” bem prolongado, em tom bem grave, parecendo
um vento forte, em crescendo, e termina com a sílaba “lê”
dita de forma rápida. Verdadeira festa. Num dos momentos
em que Vairo estava parado em frente a Garrincha, um dos clarins
dos mariaches atacou aquele trecho da Carmem que é tocado
na abertura das touradas. Quase veio abaixo o Estádio Universitário.
– É preciso que se diga que os gregos tinham um senso
bem mais completo de cultura musical, que eles entendiam por tudo
que se referia ao desenvolvimento do intelecto.
O jogo terminou empatado. Vairo não foi até
o fim. Vairo saiu rindo e exclamando: “No hay nada que hacer.
Imposible” – e dirigindo-se ao suplente que entrava,
gozou: “Buena suerte, muchacho. Pero antes, te aconsejo que
escribas algo a tu mamá”.
O telefone toca. Está meio enguiçado. Chamam da redação
de um jornal. Querem sua opinião a respeito de Geraldo José
de Almeida, o Bola-Bola, que está mal, no hospital.
– É um negócio chato isso, nem gosto de falar.
É um tipo maravilhoso. Com um enorme amor pela vida. Nem
parece um sujeito que já tem sessenta e tantos anos, pela
vitalidade, pela disposição. É um tipo incrível.
Ajudava todo mundo, e vivia num miserê danado. Mas sempre
com aquela mesma feição.
O pequeno intervalo é para mexer com uma idéia marota.
– Ele levou 14 ternos para a Copa do Mundo. E 20 e tantas
camisas. Dormia no meu quarto. Ele levava uma malinha com a roupa,
não chegava a ser uma roupa rota, mas de trabalho. Mandava
passar tudo aquilo e parecia que estava saindo para um banquete.
Parecia um Lord. Bom sujeito.
Uma chave gira na porta da cozinha deste pequeno apartamento. Entra
a pretinha, a empregada.
– Quer alguma coisa, seu João?
– Não. Olha, você conseguiu dormir à noite?
Eu ainda dormi, fechei a porta. Esses salafrários aí
do lado não encheram muito com aquela barulheira de música?
Lembro então de como o vi pela primeira vez. Eu o procurava
nos corredores do Maracanã e você caminhava à
minha frente, lento, em direção às cabines
de rádio. Dia de jogo de Fluminense e Vasco. Você pára
e olha o público, o olhar perdido. Mas está com a
atenção fixa. Quer saber por que aqueles soldados
estão na marquise do estádio, armados com metralhadoras.
Isso foi um dia antes. Agora estou à sua frente.
– Então você vê companheiros e coleguinhas,
no nosso ramo de atividade, acho que nós fazemos parte, querendo
ou não, da intelectualidade brasileira, eu acho que, no Brasil,
a partir do curso secundário, o indivíduo é
um intelectual, mas você vê caras inteiramente dedicados
à cultura, e que não se dedicam, já não
é nem um problema pessoal, está bem que eles se atrofiem,
ao esporte. E a verdade é que eles têm má saúde.
Saúde, o intelecto deles, embora seja da melhor qualidade,
não vai funcionar bem durante muito tempo.
Olho para o canto da sala, perto da janela, para a mesinha onde
devia estar sua máquina de escrever. Mas ela foi roubada,
por ladrões que não respeitaram sua tarde de domingo,
quando você estava no estádio para comentar um jogo
do Flamengo. Na certa estavam observando seus hábitos. Você
mesmo acha que foi assim.
– A sociedade, quer dizer, o homem, descobriu a importância
do exercício físico para ele poder se desenvolver.
O que é mal, e a Olimpíada é um exemplo fiel
disso, um dos grandes males é que o povo brasileiro não
participa dos esportes.
Nesta manhã de segunda feira, recordo do programa de televisão
da noite passada. Em uma mesa em forma de “U”, sentavam-se
repórteres de campo, comentaristas, locutores, jogadores
e alguns dirigentes. Por duas horas trocaram idéias, comportadinhos,
e eu tinha a impressão de uma falta ali.
– Mas é também importante se notar que, se você
vê algum desenvolvimento esportivo do centro do Brasil para
baixo, para o sul, não vê nenhum para o norte. Porque
você conta com uma saúde muito precária e incapaz
para os esportes. Entretanto, o futebol no Brasil se transformou
em um esporte de primeira qualidade. Isso se deve a uma série
de coincidências, étnicas e etnológicas, a culpa
não é minha, e nem da história, é da
formação.
É João, acho que a culpa também não
é sua de que você tenha entrado desde já para
a história. Lembra, João, do que disse para os jornalistas
que foram à sua casa quando você foi escolhido para
técnico da Seleção Brasileira? “É
pessoal, vão ter que me desculpar, mas aqui em casa, por
enquanto, só tenho cerveja gelada para oferecer. A grana
tá curta. Pedi demissão dos meus quatro empregos,
ainda não recebi e o dinheiro da seleção vai
demorar para entrar”.
É engraçada a sua relação com comida,
bebida, refrescos. Eu me lembro agora dos lances que envolveram
sua dispensa da seleção. Foi no dia 17 de março
de 1970. Você chegou à sede da CBD para a reunião.
Os cartolas todos lá, sem jeito. Você foi franco.
– Eu estou demitido também?
A Comissão Técnica é que foi dissolvida.
Você deveria ter desconfiado João, ou você já
sabia. O outro João era muito conhecido. Aliás, o
nome dele não era como o teu, um João sonoro e brasileiro.
O dele era Jean. Mas você não baixou a cabeça.
E da sua boca irreverente e valente saiu quase um palavrão.
– Dissolvido, não, que eu não sou sorvete.
Quac! Essa é uma frase de parar legião romana em formação
de cunha. Como é que o Jean reagiu? Assim:
– Então, está demitido.
E o que você fez? Nada. Parece que você não é
cara de esperar. Consta que foi embora sem ouvir os motivos de Jean.
E que encontrou à porta um repórter que não
lhe agradava, que escrevia declarações suas entre
aspas. E o que disse para ele?
– Não sou mais técnico da Seleção,
e como você está na minha lista negra, podemos tirar
a diferença no mano a mano a qualquer hora.
“Mano a mano”? Mas que língua é essa?
Você andou escutando tango? Dizem que você gosta mesmo
dessas fanfarronadas. Eu não vi, mas ouvi muito contar esta
história, de como você fez o Manga correr a tiro. Engraçado,
mas não é você que conta essa história.
Alguns o recriminam pelo que fez, logo você, que diz gostar
tanto dos jogadores. Seu velho amigo Jacinto de Thormes
é que não se faz de rogado:
– O João tinha insinuado que o Manga estava na gaveta
em um jogo do Botafogo. E o Manga disse que ia pegá-lo e
lhe dar uma surra. A coisa estava mal parada. Mas o João
não se incomodou. Tinha que ir a um banquete no Botafogo
e sabia que o Manga estaria lá, que iria logo em sua direção
para brigar. Então ele planejou uma coisa e ainda avisou
para os amigos. Pensou ir ao banquete, armado, e, quando o Manga
se aproximasse para a briga, daria um tiro em direção
aos seus pés. Disse e fez.
Mas que coisa. Como imaginar o resultado disso? Como ter certeza
de que o Manga sairia correndo? Parece filme de mocinho. Mesmo assim
ainda contam a história errada, dizem que foi no campo, depois
de um treino. No entanto, você ficou o resto do banquete comendo.
Você continua brigando?
E aquela história da briga com o motorista? Sua amiga Szu
Szu Vieira conta direitinho. Você saiu do cinema com sua mulher.
Chovia, o motorista do táxi não queria parar. Você
xingou. Ele parou. Um sujeito magro e fino daquele jeito não
podia ser parada para aquele motorista. Só podia estar armado,
o motorista concluiu rápido. Desceu com uma barra de ferro
na mão. Você o chamou para a briga no braço.
Que motorista burro! Largar a barra de ferro, só para você
pegá-la e desancá-lo a pau.
Você ainda briga? Eu o olho e tenho a impressão de
que não. Fico pensando na sua recente internação.
Você me diz que parou de fumar. Meu cinzeiro já está
cheio e você ainda não fumou um cigarro sequer. O ex-fumante
inveterado. Fico envergonhado, tento um pedido de desculpas. Seu
gesto é quase o de um “não tem importância”.
Mas ainda briga sim, porque discutiu feio no jornal, outro dia,
quando lhe disseram que um comentário seu tinha avançado
o sinal.
Talvez por isso é que você é você mesmo.
– Quando a gente afirma que o Brasil tem o melhor futebol
do mundo, e corre o risco de deixar de tê-lo, é que
o futebol aqui é paixão popular. Eu qualifico o futebol
dentro da arte, da arte popular. Ele é, sem dúvida.
Há gente que pratica o futebol, em forma de pelada, que seja,
não importa. Esse é o aspecto esportivo, aspecto do
desenvolvimento físico, da educação do corpo.
Agora, mas há gente que vai assistir ao futebol. Estádio
só lota com o artista. Aquele que atrai grande multidão,
que enche o circo, o campo de futebol, é um artista. Evidentemente
é desse futebol que nós estamos falando, do futebol
dos artistas. Podemos ter, e quase já atingimos, uma espécie
de apogeu. Nós podemos disputar em pé de igualdade,
neste único ramo de atividade, com qualquer país,
em qualquer época, em qualquer lugar, lá ou cá.
Aqui, então, é barbada pra nós. Maringá
até nem digo, Maringá é invicto. Lá
nenhuma seleção européia ganha. Maringá
é fogo!
Por que você não escreveu outro livro além de
“Subterrâneos do Futebol” para falar disso tudo,
de como está encarando o futebol agora? Um cronista razoável,
já disseram. Mas você foi elogiado por Jorge Amado.
E quem vai dizer que Jorge Amado não escreve bem? Sei que
você não quer escrever mais, que se encheu com a história
do primeiro e único livro, que não lhe rendeu quase
nada. De como os vendedores saíram do Rio em sua companhia,
com um monte de livros, lhe acompanhando numa dessas tantas excursões
do futebol; de como foram aconselhados a vender por um preço
maior, coisa que eles fizeram, mas sempre se esquecendo de apresentar
o relatório na editora com o verdadeiro preço de venda.
Sem outro livro a gente tem que ficar lembrando coisas para que
elas não se percam, como estas “Por que o Brasil tomou
esse gosto? Porque, no começo, o futebol era um esporte muito
caro, uma coisa só de grã-fino, quase como o golfe,
ele vivia exclusivamente do material importado. A bola, quando furava,
tinha que se esperar que viesse outra da Europa, que um navio chegasse
e trouxesse outra. A chuteira, aqui jogavam de sapato, mas jogavam
no São Paulo Athletic, no The Paissandu, na Light, no The
Great Western, no The Bangu, no The Corinthians, no Rio Grande do
Sul, na cidade de Rio Grande, que era o time da Swift, tudo de ingleses,
de frigoríficos, fábricas de tecidos e outros. Já
brasileiros, que se ligavam a eles, gente vinculada ao comércio
externo, também jogavam. Não podia ser um esporte
de massa... qualquer encouraçado inglês, passou um
encouraçado inglês aí, o “Exeter”,
e deu em todo mundo. Quando uma Seleção Brasileira
ganhou de um encouraçado, foi um banzé, todas as fábricas
apitavam. Parece que foi em 1910, por aí. Bom, um encouraçado
inglês que aparecer por aqui, hoje, apanha de cem. Aliás,
apanhou. O 1º Distrito Naval, jogo entre eles, puro amadorismo,
enfiou oito ou nove num encouraçado que passou por aí
outro dia. Entretanto, o nosso nível era de um encouraçadinho,
um desses pequenininhos que tem por aí, um cruzador, sei
lá, não sei o nome dessas coisas”.
Depois você fala da evolução da indústria,
que socorreu nosso futebol. De como as bolas passaram a ser fabricadas
aqui, de vários números, a 2, a 3, a 4, e a famosa
número 5, a bola oficial, o sonho de todo garoto, um pedido
sempre renovado na época do Natal, ou perto da época
do exame de admissão ao ginásio. E como, por aí,
o futebol pegou conteúdo e nível de massa, e como
o clima favoreceu muito. E você pensa no garoto brasileiro,
que anda descalço.
E aquela história, a da fábrica alemã? Você
põe sua mão em cima do microfone, para não
registrar o nome, mas eu posso dizer: a Adidas. Ela fez uma pesquisa
de mercado no Brasil, não foi? O que aconteceu?
– Eles viram que não adiantava botar uma fábrica
de tênis para várias modalidades esportivas aqui, porque
não tinha comprador. Nós fabricamos uma pequena quantidade
de calçados, calçados comuns, e nossa indústria
é obrigada a exportar. Ela não faz nem 20 por cento
da necessidade que deveria ter o Brasil. Isso significa o quê?
Que o brasileiro anda descalço. E o clima do Brasil é
o único que permite jogar futebol descalço, o ano
inteiro, com exceção de um inverno mais rigoroso,
do Paraná para baixo. Mas no resto do Brasil se joga o ano
inteiro descalço.
Tem também o problema do preconceito, e dessa perseguição
sem sentido à criança. Talvez eles sejam até
seus amigos, ou conhecidos, mas você fala um pouco com raiva
deles. De caras como Lúcio Costa.
– Essa teoria de que quem joga futebol é moleque ainda
se encontra até hoje, em alguns urbanistas, inclusive os
urbanistas que fizeram Brasília, os que fizeram Jacarepaguá,
ou outras urbanizações de sentido prévio, o
BNH, lá em Natal, onde eles fizeram habitações
para 20 mil pessoas e não fizeram uma quadra de vôlei.
Ué, onde é que as crianças vão brincar?
Se em Brasília não tem no plano piloto, o Lúcio
Costa esqueceu de botar área para esportes, em Jacarepaguá
ele botou no plano que é proibido ter campo de futebol. Aqui,
no centro-sul do país, tínhamos cerca de 30 mil campos
de futebol e agora não temos nem mil. Porque desapareceram
os que estavam perto de Porto Alegre, de Curitiba, os que estavam
perto de São Paulo.
Quanta amargura, João! E essa paixão que se vai embora,
lentamente, fugindo sem jeito de se impedir. E não foge mais
rápido porque a gente se agarra desesperado às lembranças.
Você lembra, João, da Gazeta Esportiva, que
tirava dois ou três cadernos de desafios de clubes no sábado,
e que tirava outros tantos cadernos na segunda, para dar os resultados
daqueles clubinhos? Você diz que isso era a base do sustentáculo
da Gazeta. E ela está correndo perigo, e o futebol está
correndo um perigo muito sério. Porque os campos de pelada
estão desaparecendo no mundo inteiro.
– No mundo inteiro não, no Brasil. Na Holanda estão
se desenvolvendo prá burro, na Alemanha, nos países
pequenos, na Bélgica, na Itália. É só
aqui. O governo brasileiro se caracteriza pela falta de patrimônio.
Nem governos municipais, estaduais e federal têm grande patrimônio.
Isso vem das capitanias. As capitanias transformaram o território
brasileiro em propriedade particular. E nas cidades elas também
existiam. Tinha a légua de sesmaria no campo e tinha o lote
na cidade. Loteamento, do particular. O governo fez Brasília,
loteou e vendeu, caramba!
Onde estão os campos ali da Moóca, Alto da Moóca,
Vila Prudente, e pra lá, onde está a Ford, e seguindo
adiante, Vila Zelinda, ou então seguindo para Cubatão,
Ribeirão Pires? Ali era uma várzea só, dos
dois lados. Onde estão os campos de pelada? E pro outro lado,
Vila Matilde, passando Tatuapé, Quinta Parada, ali também,
Arthur Alvim, ali também era um campo só. Acabou.
E Vila Formosa, Vila Ema, ali perto do Belenzinho, acabaram, não
tem mais. Ali, a Vila Guilherme, no Canindé, na Avenida dos
Estados, quem sobe para a Glória, ali era um campo só,
perto da Rua Independência. Lá, no Carandiru, perto
do Campo de Marte, minha Nossa Senhora, que barbaridade, lá
na margem do Tietê, onde tem a ligação da Dutra
com a Anhangüera. Lá, onde é verdade, as enchentes
acabavam de vez em quando com as peladas. Tem só um ou outro.
É, é uma ironia dizer que nosso futebol cresceu e
se tornou no que é por causa da amplidão do espaço.
João, e os políticos, o que eles estão fazendo?
Ora, dá para se acreditar nessa gente? E nós não
temos aí o campeonato nacional para dar um exemplo?
– O campeonato nacional está se tornando até
meio ridículo. De 54 clubes, você pode tranqüilamente
formar três, quatro divisões, dado o desnível.
Procura se nivelar por leis e decretos. No esporte isso é
absolutamente impossível. Está sendo contrariada uma
espécie de lei natural. E esse rolo todo. Em Belém
do Pará, o presidente da Liga quer forçar o Remo a
fazer uma coisa. Ele é de um partido, e o presidente do clube
de outro. No Espírito Santo a mesma coisa. O Vitória
devia entrar no campeonato. Mas aí apareceu um político
de maior prestígio que inventou uma jogada, e o Rio Branco
entrou no lugar. Sacaram o Vitória. Não adiantou provar
que o Vitória não tinha nem um jogo sub judice, porque
aí a Loteria Esportiva já tinha feito os talões
da boloteca, ou moloteca, sei lá, mais um tipo de jogo que
vão fazer aí. Então, é o que se viu,
um prejuízo imenso, mas como a Loteria tem patrocínio
nacional, a Loteria disse que não, é o fim da picada,
a Loteria está organizando até a tabela.
Isso é futebol? Homem, que graça você vê
nisso? Aliás, vê alguma graça? Eu pergunto pelo
seu primeiro contato com o futebol. E você diz: o mesmo de
todo mundo. Não é verdade. Você pensa um pouco
e concorda. Conta uma das poucas histórias que eu vou ouvir.
De como você foi ao Campeonato Mundial Universitário
de 1938, na França, em Nice.
Tempos difíceis, a Segunda Grande Guerra Mundial está
pronta para começar. E vocês jogando. Gente interessante.
Os austríacos estão participando desse campeonato.
Faz um frio muito forte. Os campos estão largamente enlameados.
Vários dos austríacos não podem voltar para
casa. São judeus. E vocês, quanta grandeza no coração,
oferecem a taça a esses pobres austríacos e encerram
o campeonato no meio. Que bela homenagem! Você tem a alma
de um estudante, João. Aliás, como é que você,
até hoje, tem só um pulmão? Contam muitas histórias,
eu não sei. Você não diz. O que me disseram
é que perdeu um deles em Porto Alegre, no seu tempo de estudante,
protestando, e recebendo o castigo.
E a sua filha, que está na Europa? João, quantos casamentos
você teve? João, deixa de amar tanto a tudo. João,
para quê? Você está se irritando com o que estão
fazendo com o jogador, com o torcedor. Ontem, quando eu o procurava,
depois do encontro marcado, quase desisti de pensar nisto. Um garoto,
camisa do Vasco em cima do corpo, chorava como poucas vezes vi alguém
chorar, pela derrota de seu time. Eu não queria pensar. Não,
João, não desista. Dê-lhes o exemplo de Silva
Rocha, você o entregou a mim. Um homem de perseverança,
capaz de apontar no Portugal de Salazar para problemas graves.
– “Nossa população universitária
aumentou, de 58 a 68, em 110 por cento. E esse pessoal, não
vai fazer ginástica?”
Está certo, ele foi corrido do país, mas voltou. Você
mesmo não diz que acha que ele voltou agora?
Quanta coisa você já viu. Quanta aparente criancice,
e só você percebendo a grandeza onde outros se recusavam
a vê-la. E aquela vez que queriam afastar os crioulos da festa
do clube? E aquela vez que o time do Botafogo se recusou a tomar
um avião, na Colômbia, e obrigou o piloto a decolar
e fazer umas demonstrações para que todos tivessem
certeza da eficácia do aparelho? E quando você viu
uma revolução, derrubando o ditador Pérez Giménez,
na Venezuela, tudo transmitido pela televisão no Curaçau,
ali, em frente à costa da Venezuela? E a zona das mulheres
em Curaçau, vivendo em um campo de concentração?
E a história do Sete Bóias e sua Cremilda, uma dentadura
roubada pelos companheiros de time? E o prêmio que o Botafogo
pagou, talvez o mais insólito na história do futebol,
para a bailarina que acompanhava Garrincha em um torneio de bolero,
em El Salvador, porque ele abandonou o concurso quando você
entrou no dancing?
Saio de sua casa com tudo zunindo na minha cabeça. Preciso
pegar um avião, rapidamente. Mas uma frase baila na minha
mente. Você falava ainda a respeito da necessidade de aliar
o cuidado com o corpo com o cuidado pela mente. E você solta
sua última piada, nessa manhã ensolarada do Rio de
Janeiro, referindo-se aos intelectuais “Esses caras
todos brancos, que não agüentam o tranco. Ai, ai, ai,
não me bate que eu sou escritor”.
João, voa daí, vem prá perto da gente.
A ética da conquista
A história do Frei Bartolomeu
de Las Casas, que há
séculos tentou proteger a vida dos índios da América
e
defendeu uma colonização pacífica, contada
pelo líder político
José Martí, mártir da independência cubana.
Por José Martí
• Versus 5 • agosto de 1976
Quatro séculos é muito, são quatrocentos anos.
Há quatrocentos anos viveu o Padre Las Casas, e parece que
está vivo ainda, porque foi bom. Não se pode ver um
lírio sem pensar no Padre Las Casas, porque com a bondade
foi ficando da cor do lírio, e dizem que era lindo vê-lo
escrever, com sua túnica branca, sentado em sua poltrona
pregada com tachinhas, lutando com a pena da caneta, porque esta
não escrevia depressa. E outras vezes se levantava da poltrona,
como se o queimasse; apertava a testa com as duas mãos, andava
de um lado para o outro no seu claustro a passos largos e parecia
sentir uma grande dor. Estava escrevendo seu livro mais famoso A
destruição das Índias Ocidentais, os horrores
que viu nas Américas, quando chegou da Espanha o conquistador.
Seus olhos brilhavam, e ele se sentava outra vez, com os cotovelos
na mesa, com a cara cheia de lágrimas. Assim passou a vida,
defendendo os índios.
Licenciou-se na Espanha, o que era alguma coisa naqueles tempos,
veio com Colombo à Ilha Hispaniola, num daqueles navios de
velas infladas pelo ar e como uma casca de noz. Falava muito a bordo,
e com grande eloqüência. Os marinheiros diziam que era
grande seu conhecimento para um jovem de vinte e quatro anos. Ia
alegre no barco, como quem vai ver maravilhas. Mas desde que chegou
começou a falar pouco. A terra sim, era muito bonita, vivia-se
como uma flor, porém aqueles conquistadores assassinos deviam
vir do inferno, não da Espanha! Espanhol ele também
era, e seu pai e sua mãe, mas por que em dez anos já
não existia um índio vivo dos três milhões
que havia na Hispaniola? Ele não os caçava como cachorros,
para matá-los nas minas; ele não lhes queimava as
mãos e os pés, quando se sentavam, porque já
não agüentavam andar ou caía-lhes a picareta
porque não tinham mais forças para trabalhar; ele
também não os chicoteava até que desmaiassem
porque não sabiam dizer a seu amo onde existia mais ouro;
ele não gozava ao ver os índios caírem por
não poder com o peso do carregamento de ouro; ele não
vestia a capa que chamavam ferreruelo, para ir muito pomposo
à praça, ao meio-dia, ver a queima de índios
pela justiça do governador. Ele os viu serem queimados, viu-os
olhar com desprezo da fogueira para seus verdugos e nunca mais pôs
seu gibão preto, nem carregou o bastão de ouro, como
os outros licenciados ricos e gorduchos, mas foi consolar os índios
nos montes, ajudado apenas pelo seu bastão de galhos de árvores.
No monte, os índios tinham ido para se defender dos espanhóis.
Como amigos tinham recebido aquele homem branco de barbas, eles
o tinham recompensado com seu mel e seu milho, e o próprio
rei Behechio lhe deu como mulher sua filha Higuemota, que era como
a pomba e a palmeira real, eles lhes haviam mostrado suas minas
de ouro, e seus rios de água de ouro, e seus adornos, todos
de ouro fino, e lhe tinham posto sobre sua couraça e luvas
de ferro da sua armadura, pulseiras e colares de ouro; e aqueles
homens cruéis que os atavam em cadeias? Roubavam suas índias,
e seus filhos aprisionavam nas minas bem lá no fundo para
sustentarem a carga de pedra com a testa, dividiam-nos como escravos
e os marcavam a ferro. Naquele país de pássaros e
frutas os homens eram belos e amáveis, mas não eram
fortes. Tinham o pensamento azul como o céu e claro como
os arroios, não sabiam matar escondidos debaixo das armaduras
de ferro, e com o arcabuz carregado de pólvora. Com ossos
e gomos de plantas não se pode atravessar uma couraça.
Caíam como as plumas e as folhas. Morriam de penas, de fúria,
de cansaço, de fome e de mordidas de cachorros. O melhor
era refugiarem-se nos montes junto ao valente Guaroa e com o menino
Guarocuya, para se defender com pedras, com a água, para
salvar o reizinho bravo, Guarocuya. Ele, que pulava o arroio, de
margem em margem; ele cravava sua lança longe, como um guerreiro;
na hora de andar ele ia na frente, sua risada era ouvida através
da noite, como um canto; o que ele não queria era ser levado
nos ombros por alguém. Assim iam pelos montes. Assim iam
pelo monte, quando apareceu entre os espanhóis o Padre Las
Casas, com seus olhos tristes no seu gibão e sua capa curta.
Ele não disparava a sua arma contra eles; ele abria-lhes
os braços. E deu um beijo em Guaroa.
Já na ilha todos o conheciam, e na Espanha falavam dele.
Era magro e tinha o nariz muito comprido e a roupa caía do
seu corpo e não tinha outro poder senão seu coração,
mas de casa em casa andava jogando na cara dos donatários
a morte dos índios em seus domínios; ia ao palácio
pedir ao governador que mandasse cumprir as ordens reais; ia aos
portões dos tribunais para dizer aos auditores com muito
espanto que tinha visto morrerem seis mil índios pequenos
de uma vez. E os auditores lhe diziam: “Acalme-se, licenciado,
que já haverá justiça”; e punham as luvas
nos ombros e iam tranqüilos merendar com os donatários,
que eram os ricos da América e possuíam tudo do bom
e do melhor. Nem merenda nem sonhos existiam para Las Casas; sentia
na sua própria carne os dentes dos cachorros molosos,
que os donatários soltavam sobre os índios; parecia
que era sua mão que jorrava sangue, quando sabia que tinham
cortado a mão de um índio porque não conseguiu
agüentar a pá; achava que era o culpado de toda a crueldade
porque não podia terminar com ela. Sentiu como os índios
americanos eram pouco a pouco seus filhos. Como advogado não
tinha forças e estava isolado, como sacerdote teria a força
da Igreja e voltaria à Espanha e daria o recado dos céus,
e se a Corte não acabasse com os crimes e com a escravidão,
faria a Corte tremer. E no dia que entrou para o convento todos
na ilha foram vê-lo, com assombro pela súbita mudança
de um licenciado de fortuna que, pelos seus beijos, as índias
deixavam que ele passeasse com seus filhos menores.
Então começou seu meio século de lutas, para
que os índios não fossem escravos; de luta na América,
de luta em Madri; de luta contra o próprio rei; contra toda
a Espanha, ele sozinho. Colombo foi o primeiro a enviar índios
à Europa para pagar as roupas e comidas que os navios espanhóis
traziam ao novo continente. E na América já tinha
havido a divisão de índios para a servidão.
A rainha lá da Espanha, dizem que era boa, mandou um governador
tirar os índios da escravidão, mas os donatários
deram ao governador o bom vinho e o encheram de presentes, e sua
parte nos lucros foi mais que nunca os mortos, as mãos cortadas,
os escravos e os soterramentos nas minas. “Eu vi trazerem
manietadas estas amáveis criaturas e todas juntas serem mortas
como ovelhas”. Foi esta a Cuba de Diego Velásquez,
hedionda. Numa ilha de quinhentos mil índios, ficaram onze.
Eram aqueles conquistadores soldados bárbaros, que não
conheciam os mandamentos da lei, e ensinavam aos índios a
doutrina cristã, golpes de chicotes e as mordidas de cachorros!
De noite, sem dormir, pela angústia, fala com seu amigo Renteria,
outro espanhol de ouro. Temos que ir pedir justiça ao Fernando
de Aragon! Embarcou numa galera simples e foi ao encontro do rei.
Seis vezes esteve na Espanha, com a força da virtude, aquele
padre que não comia carne. Nem do rei tinha medo, também
não temia a tempestade. Ficava na coberta mesmo em dias de
mau tempo; e na bonança passava o dia na ponte apontando
suas idéias no caderno de fio de pano, e dando o tinteiro
para que o enchessem “porque a maldade não se cura
sem dizê-la e existe muita maldade para ser contada e eu a
estou colocando onde ninguém a possa negar nem em latim,
nem em castelhano! Se em Madri o rei pudesse ser encontrado no palácio,
antes dele, Las Casas, ir até uma hospedaria descansar, ia
vê-lo. Se estava em Viena, quando o rei Carlos da Espanha,
também imperador da Alemanha, vestia outra vez o hábito
e lá ia ele para Viena. Se era o seu inimigo Fonseca quem
convocava e mandava na junta de advogados e clérigos que
o rei utilizava para assuntos da América, a ele ir ver para
processá-lo no Conselho das Índias. Se o cronista
Oviedo, por ordem e serviço dos donatários, escrevia
mentiras sobre os americanos ele o taxava de mentiroso, ainda que
o rei fosse um dos interessados nas mentiras. Se Sepúlveda
nas suas histórias justificava o direito dos reis de repartirem
a servidão no Novo Continente, atacava a Sepúlveda
dizendo que culpa não tinham os que nunca souberam da existência
de Cristo, nem soubessem da linguagem que Cristo falou, e que tinham
de Cristo como única notícia as marcas de seus arcabuzes.
E se o rei em pessoa franzia a testa, como para interrompê-lo,
sua voz ficava mais forte e grave, com o punho levantado, dizendo
ao rei, cara a cara, que quem governa a homens tem o dever de cuidá-los,
e se ele não os sabe cuidar, não os pode governar,
e que tinham que ouvi-lo em paz, porque ele não tinha outra
arma senão as manchas de ouro na sua túnica branca,
nem outra defesa senão a cruz.
Ou falava ou escrevia sem descanso. Os frades dominicanos o ajudavam,
e no convento dos frades ficou oito anos escrevendo. Sabia religião
e leis, autores latinos, que era o que se aprendia na época,
mas tudo era usado com habilidade para defender os direitos do homem
à liberdade, e o dever dos governantes de respeitá-los.
Isso era muito, por causa disso os homens eram queimados e o rei,
vestido de gala, ia assistir ao ato, com a rainha e os nobres, para
ver a Inquisição executar sua tarefa. Fonseca e Sepúlveda
queriam que o padre Las Casas cometesse nas suas lutas algum pecado
contra a autoridade da Igreja, para que os inquisidores o queimassem
por heresia. Mas o padre dizia a Fonseca: “o que eu digo foi
o que disse a Santa Rainha Isabel no seu testamento” e você
não o aceita porque eu com isso tiro o pão de sangue
que te alimenta, e acuso a capitania que você tem na América”.
E a Sepúlveda, que já era o confessor do rei, dizia:
“Você é um combatente famoso e te chamam o Lívio
de Espanha, pelas tuas histórias, mas eu não temo
ao eloqüente que fala contra seu coração e que
defende a maldade e te desafio para que me proves em discurso que
os índios são malfeitores e demônios, quando
na verdade são claros e bons como mariposas”. E a discussão
com Sepúlveda durou cinco dias. Este começou com desdém
e acabou confuso. O padre olhava-o com a cabeça baixa, os
lábios tremendo e a fronte inchada. Enquanto Sepúlveda
sentava-se satisfeito, como aquele que fincou um alfinete onde quis,
o padre ficava de pé, magnífico: “Não
é verdade que os índios do México fizeram cinqüenta
mil sacrifícios por ano, mas vinte apenas, que é muito
menos do que a Espanha sacrifica por ano na forca. Não é
verdade que sejam gente bárbara e de pecados horríveis
porque não existe pecado deles que não o tenhamos
em maior tamanho os europeus; não somos nós, com todos
os nossos cantões e nossa avareza, que poderemos nos comparar
a eles na ternura e no amável; nem é para tratá-los
como feras, porque eles possuem virtudes, poetas, ofícios,
e governos e artes!
Não é verdade senão iniqüidade que o modo
melhor que tenha o rei para fazê-los seus súditos seja
exterminá-los, nem a melhor maneira de ensinar-lhes religião
seja jogar-lhes na cara em nome da religião os trabalhos
forçados; e tirar-lhes os filhos e a comida; e colocá-los
na carga como parelhas de bois”. E citava versículos
da Bíblia, artigos de lei, exemplos históricos, parágrafos
de autores latinos tudo cheio de grande vigor e beleza, como as
águas da correnteza, arrastando na espuma as pedras e os
detritos dos montes.
Só esteve na luta; só esteve quando Fernando, que
ninguém se atrevia contrariá-lo e que também
não quis contrariar os conquistadores que lhe enviavam o
ouro em grandes cargas; só com Carlos V que de pequeno o
escutava com veneração, e depois o traiu para levar
a cabo planos ambiciosos, e não estava com disposição
para defender o clérigo contra todos os interesses da América,
que lhe enviava tributos; só quando Felipe II, que passou
um reinado tentando conquistar outro, que ao morrer deixou tudo
morto, envenenado e frio, como um buraco onde uma víbora
passou a noite. Se ia ver o rei não podia encontrá-lo
porque a ante-sala estava cheia de donatários, vestidos em
seda e chapéus de pena, com colares de ouro extraídos
pelos índios. O mesmo acontecia quando queria falar com um
ministro, porque este também era donatário e tinha
minas, ou então gozava dos frutos que possuía em nome
de outros. Com medo de perder os favores na Corte, mesmo os que
não tinham interesses na América, não o ajudavam.
Os que mais o respeitavam por bravo, por justo, por eloqüente,
não queriam dizer, ou diziam que não o ouviam, porque
os homens costumam admirar os virtuosos enquanto não estão
sendo tocados seus lucros e seus interesses, mas quando eles se
põem no seu caminho, baixam a cabeça ao vê-los
passar, ou dizem maldades deles, ou os cumprimentam pela frente
e os apunhalam por trás. O homem virtuoso deve ser forte
de ânimo e não ter medo da solidão, nem esperar
que os demais o ajudem, porque vai estar sempre só: mas com
a alegria de trabalhar bem, com o céu do futuro limpo.
E como era tão sagaz que dizia coisas que não ofendiam
nem ao rei, nem à Inquisição, senão
que pedia bondade com os índios para o bem do rei, e para
que existissem mais cristãos, não tinham os da Corte
nenhum modo de não agradá-lo na frente, chegando inclusive
a outorgar-lhe o título de “Protetor Universal dos
Índios”, com a assinatura do próprio Fernando,
mas que não acatavam sua autoridade protetora; e outra, ao
cabo de quarenta anos de meditar, disseram-lhe que pusesse seus
pensamentos no papel porque achava que os índios não
deveriam ser escravos; e outra, deram-lhe permissão para
levar trabalhadoras da Espanha à colônia de Cumaná
onde veriam os índios com amor, e na Espanha foram encontrados
somente cinqüenta elementos que quiseram realmente trabalhar
no lugar. Os quais foram vestidos com túnicas com uma cruz
no peito, mas não puderam estabelecer a colônia porque
o adelantado tinha chegado antes deles com tropas e armas,
e os índios enfurecidos disparavam suas flechas contra todos
os que portavam uma cruz no peito. Por fim encarregaram-no, como
que para distraí-lo, de pedir as leis que pareciam-lhe justas
para os índios: “quantas leis quisessem; porque por
lei, mais ou menos, não devemos brigar”, e ele as escrevia
e o rei mandava cumpri-las, mas no navio ia a lei e o modo de desobedecê-la.
O rei concedia-lhe uma audiência e fingia que seguia seus
conselhos, mas logo a seguir entrava Sepúlveda, com seus
pés brandos e seus olhos de raposa, trazendo recados dos
que mandavam ouro nos galeões e o que se punha na prática
era o que dizia o conselheiro. Las Casas sabia bem, mas não
por isto baixou o tom de suas acusações, nem deixou
de contar em suas Descrições as crueldades
cometidas contra os índios. O nome dos maus não os
escrevia porque era nobre e tinha-lhes compaixão. Escrevia
como falava, com a letra forte e desigual, cheia de manchas de tintas,
como um cavalo que leva o cavaleiro que quer chegar logo e vai levantando
o pó e tirando faíscas das pedras.
Foi o bispo, mas não de Cuzco que era um bispado rico, mas
de Chiapas, onde pelo longe que estavam do vice-rei, os índios
viviam na pior escravidão. Foi a Chiapas, para chorar com
os índios, mas não só, porque com lágrimas
e queixas não se vence os bandidos, senão acusando-os
sem medo, falando em conselhos de justiça, com discursos
que eram ternos e terríveis ao mesmo tempo, e deixavam os
donatários como árvores depois do vendaval. Mas os
donatários podiam mais que ele, porque tinham nas suas mãos
os governos e compunham cantares acusando-o de mau espanhol e traidor,
tentando atemorizá-lo com tiros de arcabuzes na porta da
sua casa. E rodeavam seu convento armados, todos armados contra
um velho magro e só. E até foram ao encontro dele
no caminho da Ciudad Real para que não voltasse à
cidade. Ele vinha acompanhado de dois amigos espanhóis e
um negro que o estimava como a um pai; porque é verdade que
Las Casas aconselhou que substituíssem os índios por
negros que resistem melhor ao calor, mas logo que viu esses homens
sofrerem se arrependeu dizendo: “com meu sangue eu gostaria
de pagar o pecado que cometi quando aconselhei a vinda dos negros
pelo meu amor aos índios”. Com seu negro carinhoso
e os espanhóis ele vinha caminhando. Vinha para tentar salvar
a pobre índia que o abraçou nos joelhos à porta
de um templo mexicano, louca de dor porque os espanhóis tinham
matado seu marido que tinha ido rezar num templo. E percebeu que
eram as índias as sentinelas que os espanhóis puseram
para impedir seu caminho. Ele dava-lhes sua vida e os índios
vinham atacá-lo a mando dos seus senhores! Não se
queixou, senão disse: “Por estes meus filhos terei
que lutar mais, porque de tão martirizados que estão
já não sabem defender sua própria vontade”.
Os índios se atiraram a seus pés pedindo perdão.
Entrou na Ciudad Real onde os donatários o esperavam armados
de arcabuz e canhão, como se estivessem preparados para a
guerra. Quase às escondidas o vice-rei o enviou de volta
à Espanha para que não o matassem. Ele foi embora
de volta para o seu convento espanhol, a lutar, defender, chorar,
e escrever. Morrendo sem cansar-se aos noventa e dois anos.
Glauber Rocha: eu e o cinema
fotogramas de uma vida
O mais importante cineasta brasileiro
não queria ser
entrevistado. Temia a mistificação de seu nome. Era
um dia
chuvoso no Rio de Janeiro. Mas depois que ele começou,
falou durante quase quatro horas para os dois repórteres.
Por Mário Augusto Jacobskind
e Toninho Mendes
Versus 6 • outubro de 1976
Cena um: na casa de Glauber. Ele começa a falar
da infância.
Rápida aceleração para o futuro e o presente.
Eu, Glauber Rocha, uma máquina na mão, uma idéia
na cabeça, cineasta do Terceiro Mundo, odiado por mentes
colonizadas, confesso que nasci em Vitória da Conquista,
sertão sul da Bahia, fronteira com Minas Gerais, aos quatorze
dias de março de 1939.
– Esclareço que não sou rico, apesar do que
falam as colunas sociais. Um dia destes eu li debaixo do título
“glauberianas”, no “Globo”, que o Glauber
estava montando a ópera “O Guarani”, com Caetano
Veloso, que o Glauber vai fazer treze filmes para a TV Globo, que
o Glauber vai fazer filmes pra TV sobre Antônio das Mortes.
Tudo isso é mentira.
– Objetivamente, eu tenho dois livros para lançar.
Agora, vou publicar um livro sobre cinema, que vai sair provavelmente
em dois volumes, Cinema Um e Cinema Dois. São
vinte anos de trabalho crítico cinematográfico e teórico.
E tem outros textos que eu escrevi que não são de
cinema, alguma coisa de ficção, poesia, crítica
ou outro tipo de atividade literária, que eu acho que é
o momento de publicar.
– Informo: estou atrás de um editor. Mas não
tenho muito tempo para seguir o livro. É como produzir um
filme complicado. É um processo cansativo, filho da p...
– Projeto de filme também existe; “A Idade da
Terra”. Este eu sei que a Embrafilme não financia.
Vai achar perigoso. Este, capitalista não financia, porque
não é comercial. Mas vou fazer este filme, na velha
forma do Cinema Novo. Vou produzir o filme, vou emprestar dinheiro,
vou assumir as responsabilidades capitalistas para fazer o filme
que vai sair a partir de novembro, dezembro.
– Sempre estou em crise financeira. Porque a única
forma de você ter
liberdade mental transando com o capitalismo é não
reconhecer o capital. Então eu sou constantemente roubado,
dragado e explorado, e não paro de filmar para pedir contas,
se fizer isso não filmo mais.
– Quando o sujeito quer aliar o capital à criatividade,
se aliena. O capital sobe, a criatividade desce.
Cena dois: flash back.
Nos colégios da meninice de Glauber, no
sertão sul da Bahia.
Casa, escola, casa.
Mãe: família protestante. Criadores de gado,
mas não grandes proprietários. Pai: de família
de pequenos agricultores de cacau. Zona de Ilhéus.
– De forma que fui criado dentro da religião protestante,
da seita Batista de Sion. Mas estudei o primário em Conquista,
num colégio católico oficioso, porque meu pai era
ateu, e não tinha colégio protestante na cidade. Mas
logo, pra fazer o ginásio, a minha família se transferiu
pra Salvador. Isso também aconteceu em função
dos negócios do meu pai, que era comerciante, e depois foi
construtor de estradas de ferro e de rodagem. Em Salvador, tinha
um colégio norte-americano, olha só como o imperialismo
também penetra pela região. Um colégio norte-americano,
da Organização Mackenzie, que também tem em
São Paulo, e foi um dos primeiros colégios protestantes
da seita presbiteriana instalados no Brasil. Um colégio pras
elites, pras minorias protestantes, porque as elites brasileiras
são católicas. Mas o colégio Mackenzie abrigava
minorias protestantes, judaicas, árabes, filhos de diplomatas,
e alguns católicos mais rebeldes, então eu estudava
no Colégio Dois de Julho, onde os professores norte-americanos
educavam os alunos no amor e na dedicação aos Estados
Unidos, falando em inglês.
– O protestantismo proíbe fumo, jogo, dança.
Mas o sujeito se batiza aos dezoito anos. Quer dizer: até
os dezoito anos é livre para escolher.
– O protestante não adora imagem, não adora
santo, não impõe ritual. O Colégio Dois de
Julho era misto. Os dormitórios eram separados, mas durante
o dia os rapazes conviviam com as moças. Tinha muita festa,
encontro, e a gente podia namorar – isso, no começo
dos anos 50! Então, até 53, estudei em colégio
norte-americano, curso de ginásio, onde, por protesto, não
aprendi inglês, entrei em choque, fui expulso do externato.
Mais tarde, aprendi a falar inglês, mas, nessa época,
inconscientemente, eu era antiimperialista, transando com esses
pastores que eram terríveis nas punições. Fui
expulso do internato, por brigas, rebeldias. Aí eu fiz o
clássico no Colégio Estadual da Bahia, que é
o colégio público, já fora do internato, nem
católico, nem protestante – e foi assim pelos anos
54, 55, 56. E vestibular para Faculdade de Direito.
Cena três: o rapaz que não tem cabeça
pra matemática, ora, vai pra editoria de polícia!
Então, o nosso personagem morava nas províncias da
Bahia. Se o coitado está querendo fazer cinema, nesta época,
não faz mesmo, porque não tem laboratório,
nem capital, nem nada. Então, Glauber Rocha volta a falar:
– A província confina. Então, é tradicional
na Bahia, que é uma cidade universitária das elites,
o sujeito começa no Direito, vai pro jornalismo, e termina
deputado – eu escapei. Nunca quis ser médico, engenheiro,
era fraco nas matemáticas, não tinha jeito pra ciência
experimental, não era ligado ao racionalismo imediato. Então,
se escolhe entre a Filosofia e o Direito, mas eu nunca tive vocação
para estudar Filosofia, e esta Faculdade exigia muito esforço
no vestibular, e você tinha que se dedicar àquele negócio,
e como eu nunca quis ser professor universitário, tinha mais
tendência pra política, e era mais ligado ao cinema
e ao jornalismo, preferi fazer jornalismo cotidiano, e crítica
de cinema em jornais semanais. Em 58, criou-se o Jornal da Bahia,
com um grupo de novos jornalistas de lá, o Inácio
de Alencar, Florisvaldo Mattos, Paulo Gil Soares, Fernando da Rocha
Félix, o gravador Calasans Neto, quer dizer, um grupo muito
forte. Entrei como repórter de polícia, chefe da edição
de polícia e crítico de cinema, e ainda acumulei o
cargo de diretor do suplemento literário. Quer dizer: só
podia entrar na Faculdade de Direito. O vestibular era facílimo,
e eu podia fazer política no Diretório. Entrei para
a imprensa universitária, dirigi a revista Mapas, participei
de jornais. Tinha clube de cinema na Bahia, que era um negócio
muito importante, e eu entrei em contato com o Valter da Silveira,
que era crítico de cinema. Primeiramente¸ nós
organizamos o teatro, isso exatamente em 1955, que se chamava
Jogralesco Teatralização Poética, que encenava
poesias brasileiras, de preferência, e que tinha um sentido
nacionalista, contra um tipo de estética importada que se
fazia no Brasil, principalmente no sul. Naquela época, estava
surgindo, na mesma linha, o Teatro de Arena em São Paulo,
reação ao TBC – e a toda uma cultura alienada.
Estava no começo, também, o concretismo que era uma
cultura colonizada e formalista. Mas nosso espetáculo foi
proibido pela censura, que não aceitou nossa coreografia,
que era realmente blasfema, buñuelesca, desafiando o santo
catolicismo baiano. Muita gente protestou pelo país, foi
um caos. Mas, nesta época, eu entrava para o Jornal da Bahia,
como ia dizendo, e acumulava algumas funções porque
precisava de dinheiro, queria casar! Ficava na redação
copidescando textos, reportagens, mas cheguei a fazer entrevistas
e reportagens na penitenciária, já acusando as aberrações
judiciárias. Saí do setor policial, depois de três
anos, e fiquei fazendo só crítica de cinema. Depois
fui para o Diário de Notícias, dos Associados, onde
fiz várias coisas: copidescagem, diagramação,
um suplemento literário, que dirigi por três ou quatro
anos, no governo liberal de Juracy Magalhães. Aí comecei
a escrever para o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, que
era dirigido pelo Reinaldo Jardim.
Cena quatro: ora bolas, Hitchcock! Ora, bolas, Joyce!
Ora, bolas, Pound! (O crítico irado).
Dois anos de Glauber Rocha no Suplemento Dominical do Jornal
do Brasil. Era o jornal mais bonito do Brasil. Os rapazes na província
suspiravam olhando as páginas do Suplemento Dominical do
Jornal do Brasil. Era o mais bem mais diagramado, era o mais louco,
o mais estranho, onde se lia as melhores coisas.
Anos 61, 62. Glauber Rocha declara que:
•Escrevia artigos sobre o cinema brasileiro.
•Era um crítico (duro) do cinema estrangeiro.
•Era um crítico (duríssimo) do cinema convencional.
•Analisava a questão do colonialismo cultural.
•Brigava com a crítica tradicional que não entendia
que o problema do cinema brasileiro era um problema da estrutura
econômica-política-cultural do país.
Glauber Rocha filmou “O Pátio”, na Bahia, e veio
para o Rio montar, aí conheceu quem? Carlos Diegues, Joaquim
Pedro, Leon Hirshman e outros cineclubistas que escreviam para o
jornal “O Metropolitano” (O Metropolitano da União
Metropolitana de Estudantes. O melhor jornal estudantil da história
do Brasil. Era dirigido por Cacá Diegues, que era da União
Nacional dos Estudantes).
Começa uma transação entre cariocas, paulistas
e baianos: as raízes do Cinema Novo. Estão jogando
semente: Glauber, Amorim Lucena, Luis Paulino dos Santos, Roberto
Pires, Paulo Emílio Salles Gomes, Almeida Salles, Gustavo
Dahl, Jean Claude Bernardet – alguns eram críticos,
professores, gente nova de cinema, o pessoal da Cinemateca, no Rio.
O Cinema Novo (aqui, Glauber retoma a palavra) já
tinha o embasamento teórico nos artigos de Paulo Emílio,
Gustavo Dahl, Jean-Claude, publicados no Suplemento Literário
do Estado de S. Paulo, onde faziam uma revisão global
do cinema e deixavam teses definitivas. Inclusive, hoje, já
não se escreve isto no Brasil. E nada disto é conhecido,
o que é absurdo, deviam até republicar urgentemente
estes textos. Por exemplo, Paulo Emílio escreveu uma tese
chamada Uma Situação, ou seja: explicava
que a miséria estética vinha de uma situação
econômica colonial. Quer dizer: reinvertia as interpretações
idealísticas dos críticos que ficavam discutindo se
o cinema brasileiro era bom ou não, se os diretores brasileiros
eram bons ou não, sem querer aprofundar o complexo econômico,
histórico e social que gera qualquer produto cultural, sobretudo
o cinema que é um troço industrial, que custa cara
a produção. E que a distribuição depende
da competição com os Estados Unidos, em suma, com
o imperialismo. Também o Jean-Claude Bernardet colocou problemas
importantes a respeito da ideologia e da mise-en-scène,
criticando a forma convencional dos filmes imperialistas, demonstrando
como essa linguagem era sustentáculo de uma ideologia profundamente
reacionária, que os críticos engoliam e que o público
aceitava irresponsavelmente, de filmes fascistas e de direita como
os filmes da CIA e de Hitchcock. O Gustavo Dahl escreveu um texto
muito importante, chamado Coisas Nossas, que era uma ruptura
com o cinema estrangeiro e uma colocação do cinema
brasileiro enquanto produto brasileiro típico mesmo. Essa
coisa nova seria para o cinema quase um manifesto de Oswaldo de
Andrade para a literatura. Dizia: vamos às nossas coisas!
– O Pátio nasceu da minha experiência
concretista. Quer dizer, eu, escrevendo no Suplemento Dominical
do JB, estava rompido culturalmente com o concretismo, porque o
concretismo pregava uma sintetização emergente, como
é o Brasil – um país que está aprendendo
a falar. Então, você não pode criar um parâmetro
estético da produção poética. Ao mesmo
tempo, o concretismo colocava discussões no nível
da estrutura bastante interessantes, era desmobilizador de certas
conversações e introduzia noções importantes
do espaço e do tempo. Os concretistas diziam que eram oswaldianos,
mas não eram. Eram anti-oswaldianos. Porque eles importavam
a literatura de Joyce, de Pound, em suma, a literatura imperialista,
idealista e formalista. Logo mais, houve uma ruptura no grupo concretista.
Ferreira Gullar e Reinaldo Jardim romperam com os irmãos
Campos (Augusto e Haroldo, n. da r.) e fundaram o neoconcretismo,
que já tentava dar uma perspectiva nacional, política
e social. Isso foi desembocar no Cinema Novo, Teatro de Arena, Bossa
Nova. Depois cada grupo tomou o seu próprio caminho e assumiu
as contradições de sua própria prática.
E tudo isso vai até o Poema Sujo de Ferreira Gullar.
Era a época do surgimento da Bossa Nova. A transação
entre Vinícius de Morais e Tom Jobim na peça Orfeu
Negro deu origem à Bossa Nova, que era um troço
novo. O nome Cinema Novo é inspirado na Bossa Nova. A Bossa
Nova era uma preposição de música brasileira
importante. Ela resgatava, de um lado, o samba da condição
de subdesenvolvimento. Transava descolonizadamente com o jazz, quer
dizer, reaplicando o jazz dentro do samba, criando um estilo novo
de harmonia e do cantar, recuperando a tradição sinfônica
de Villa-Lobos e da música romântica. O Tom Jobim incorporou
tudo isso à Bossa Nova. Muitas letras do samba popular são
boas, mas algumas delas são servilistas, como todo o folclore
brasileiro, que, inconscientemente, tem muito do servir também.
Então, eu não estou de acordo com críticas
que se fazem à BN, como uma coisa americanizada, instrumentalizada
pelo imperialismo. A música brasileira não se liberta
da BN porque Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque –
todos são legítimos herdeiros e filhos da BN, e Tom
Jobim é o melhor músico que o Brasil tem, o herdeiro
de Villa-Lobos.
Na época em que fiz O Pátio, eu estava preocupado
com a questão da linguagem. Eu dizia: quero partir de um
filme sem história. Não quero narrar nada. Quero criar
um clima. Parti de uma montagem dialética – a montagem
por contradição, não montagem por narração.
O Pátio é uma montagem extremamente formalista,
sobre o preto e o branco. Quando eu fiz este filme, vim pro Rio.
Fiquei montando na Líder. Preparava a produção
do filme Barravento, na Iglu Filmes, com Roberto Pires.
Fui deixando a Imprensa. Fui largando os velhos amigos. Passei a
andar com a turma do cinema. Na Iglu, se produziu Barravento,
que dirigi, A Grande Feira, dirigida por Roberto Pires,
Tocaia no Asfalto, também do Roberto Pires. Foi
o ciclo do Cinema Baiano. Nessa época, Nelson Pereira dos
Santos foi para lá fazer Mandacaru Vermelho. O Anselmo
Duarte foi fazer O Pagador de Promessas, Miguel Torres
e Aurélio Teixeira fizeram Os Três Cabras de Lampião.
Rui Guerra foi fazer Os Fuzis. Nelson voltou pra fazer
Vidas Secas. E eu filmei Deus e o Diabo na terra
do Sol O Ciclo Baiano: de 1959 a 1964.
Gianfrancesco Guarnieri
Eu e o teatro: uma vida em seis atos
Guarnieri afirma: “Para chegar
ao povo,
não é necessária uma nova arte no teatro brasileiro,
mas sim uma nova cultura.”
Por Rui Veiga, Ana Maria de Cerqueira
Leite,
Hélio Goldsztejn e Vitor Vieira
Versus 6 • outubro de 1976
Primeiro ato - De calças curtas
“Cheguei da Itália com dois anos e fomos para o
Rio de Janeiro. Meus pais eram músicos. Meu pai, maestro;
minha mãe, harpista. Estive pouco com eles. Convivi muito,
desde a infância, com empregada. Uma delas chegou à
minha casa quando eu tinha sete para oito anos. Ficou muito tempo
com a gente, uns 12 anos.
Boa moça a Margarida, ensinou coisas importantes para o menino
Gianfrancesco. Os pais trabalhavam o dia inteiro, ensaiando ou dando
concertos.
Ela me mostrou um lado da vida que, em outras circunstâncias,
eu não teria visto. Falo com certa familiaridade de pessoas,
convivências com outras classes e os jovens de hoje ficam
espantados. Morei em subúrbio e conheço favela. Era
um meio de trabalhadores. Mas andei roçando pelo marginalismo
mesmo”.
A vida do menino Gianfrancesco: brincar na rua, tinha suas turmas,
patotas. Jogava futebol, com bola de meia, ou de papel, amarrada
com arame. Quando uma bola destas rebentou, ele levou uma aramada
no rosto. Até hoje tem uma marca. Era isso. Brincadeiras
de escola. A parte mais chata mesmo era o estudo.
“Até hoje tenho inveja dos meus filhos, porque
esse tal de sistema pedagógico mudou muito. Durante minha
infância o bom era não ir à aula. Juntava-se
uma turma de gazeteiros e se jogava bola”.
Ele aprendia mais na rua. Até com as figuras típicas
do bairro, as diversas Chicas Malucas que existem em todo canto.
Aquele tipo miserável que perdeu tudo, que ficou sozinha,
com quem todo mundo goza, brinca e também tem medo. O menino
vai guardar lembranças importantes. Esses personagens vão
aparecer mais tarde, em suas peças. Até os nomes são
verdadeiros. A Romana, em Eles não usam black-tie. Ela existiu.
Era a mãe da Margarida
“Romana, uma mulher de muita sabedoria. Ignorante, não
sabia ler nem escrever. Não ouvia rádio porque não
gostava. E ficava em um canto, pitando e sabendo de tudo. Mulher
que a gente não sabia a idade. Nem Margarida sabia. Essa
mulher teve os filhos à beira do rio. Falava-se que a avó
tinha sido escrava. Povão brasileiro, típico. Saiu
do campo e ficou na cidade. Criou os filhos, uns oito ou nove. Morava
todo mundo entulhado num quarto. Eu gostava muito de papear com
ela, ouvir coisas do campo e da vida”.
A favela. Também existiu. O Morro do Chico,
uma favela muito pequena. Ali mandava Gimba, que não era
realmente um malandro. Era mais guarda-costas de bicheiro. Muito
forte, forte e brigador. Desses de brigar com duas equipes de policiais
e bater nos oito. Parece que despinguelou depois, bateu lá
por cima e sumiu. Ficou sete dias sem aparecer.
“Ele era muito respeitado. E eu podia, com dez anos, andar
numa barra pesada, porque era amigo do Gimba. Depois soube que esse
Gimba, respeitado e tal, abandonou o negócio de bicho e deve
estar ainda como salva-vidas, vivendo de turista americano”.
1944 – fim da guerra, bem antes da queda de Getúlio.
Época diferente, bem diferente desse clima de banditismo
de agora.
Feijoada no morro, comida na mão, que é muito gostoso,
até com aquele bolinho na mão. Gianfrancesco teve
mulher em puxado de barraco. E a sábia da dona Romana fechando
a janelinha que ele tinha deixado aberta, para deixar o casal à
vontade.
“Mulher genial. Eu tinha 14 anos e acreditava que tinha
arranjado minha primeira mulher na vida. Não era assim. A
Margarida tinha arrumado tudo. Fiquei muito chateado, pensei que
era precoce e não. Era a Margarida que tinha acertado tudo,
planificado. Sei disso, porque ao voltar para casa ela estava me
esperando com uma gemada e brincando muito comigo”.
No teatro. Desde os cinco anos acompanhando as temporadas líricas,
de pé, do poço da orquestra, ouviu Wagner inteiro.
Gostava daquele negócio de palco. Uma mágica extraordinária,
refletores, cenários, maquinaria. Conhecia o regisseur. Ópera
ainda era muito conservadora. E o regisseur falava da cenografia,
da direção. Também não lhe passava pela
cabeça ser dessa profissão. Fazer faculdade, ter diploma
de médico ou dentista, uma profissão liberal. Qualquer
coisa assim lhe passava vagamente pela cabeça. E os pais
não forçavam a herança artística. Achavam
muito duro. Exigiam talento, talento.
“Eles tiveram muito sucesso, mas foi uma briga. Nunca
estavam satisfeitos com as condições de trabalho.
Perfeccionistas. Quase todo músico sério é.
Meu pai reclamava de tudo – ‘Não tá legal’.
Meu pai era um cara que, depois do concerto, se cuspia no espelho.
Ele achava que um artista, se fosse realmente um artista, passaria
por um enorme sofrimento”.
No colégio de padres a primeira experiência de teatro,
amador. Colégio de padres porque a patota da rua estava lá.
Na parede do colégio o nome de Mário Brasini, o homem
que começou a fazer teatro na escola, no ginásio Santo
Antônio Maria Zacharias. E, no recreio, Gianfrancesco descobre
que o rapaz que faz o “ponto” está faltando para
o ensaio. E também está faltando alguém para
representar o personagem de um velhinho, na peça Honrarás
Pai e Mãe, uma dessas peças educativas dos salesianos,
de fundo moral edificante.
“O castelo pega fogo e o velhinho escapa do calabouço.
Entra no salão do castelo e ele, o velhinho, que perdeu o
filho, lê em voz alta o que está escrito em um quadro:
‘Honrarás Pai e Mãe’. Eu empolguei meus
companheiros”.
Gianfrancesco se torna comediante. Passa a fazer chanchadas. E escreve
sua primeira peça, satírica, alegórica, metafórica,
uma parábola. Sombras do Passado. Esse negócio de
alegoria não é de hoje. Gianfrancesco não suportava
o vice–reitor do colégio, um sujeito que obrigava todos
os alunos a andar em forma junto à parede, e o primeiro da
fila tinha uma régua de vinte centímetros. Ninguém
podia andar nem mais nem menos distante da parede do que isso. Gianfrancesco
representava na fila: simulava desmaios, mentia que estava se sentindo
mal. E o vice-reitor era gago: “segunda Aa”, “segunda
Bb”.
Em Sombras do Passado, várias pessoas vão
comprar uma casa. Mas eram dominados por uma pessoa prepotente.
A peça só passou porque o padre que tomava conta do
teatro era muito bom, até largou a batina mais tarde. E os
estudantes logo viram que o personagem prepotente era muito parecido
com o vice-reitor. Começaram a gritar seu nome durante a
representação. Gianfrancesco representou muito bem,
foi aplaudido e recebeu congratulações, junto com
uma cartinha pedindo que se retirasse do colégio. Ficou então
conhecendo a censura.
“Voltei para outro colégio, o Franco Brasileiro,
onde comecei a ter um súbito interesse pelo movimento estudantil,
quando tinha 15 anos, e levei o negócio muito a sério
mesmo. Vi que, se eu não gostava da escola, é porque
algo estava errado nela. Percebi a importância da educação
para o país e a pouca importância que ele dava a ela.
Começou a me vir na cabeça o problema da dependência
cultural, da colônia sempre colônia”.
Nesse processo Gianfrancesco Guarnieri chega a ser presidente da
Associação Metropolitana de Estudantes Secundários,
em 1953, e secretário-geral da União Nacional dos
Estudantes Secundários. Por causa do movimento estudantil
fica marcando passo no curso colegial.
“Secundarista não era igual a universitário.
A gente sentia que precisava pegar essa moçada e dar um pau
na máquina”.
Apesar dos dogmatismos próprios do meio, Gianfrancesco vai
abrindo sua cabeça, enfiando algumas idéias nela e
mudando por outras antes que fiquem muito endurecidas. Porque, todo
mundo sabe, quando uma idéia toma conta da cabeça,
depois é muito difícil abandoná-la.
E mais uma mudança. A família decide se mudar para
São Paulo. Os pais são contratados pela Sinfônica
de São Paulo. Ficar no Rio de Janeiro já não
era possível. E Gianfrancesco estava ganhando muito pouco
nessa época, trabalhando para uma construtora, fazendo o
pagamento dos operários, ouvindo todas aquelas reclamações
na hora de entregar o envelope. Ao menos, em São Paulo, teria
casa de graça. Mas aquelas coisas que tomam uma vida não
vão desaparecer de repente. Continua a ligação,
em São Paulo, com o movimento estudantil, um movimento que
tinha expressão, com participação intensa nas
organizações estudantis.
“Foi aí que nós sentimos a falta de um trabalho
de ordem cultural. Ninguém pensava nisso. Resolvemos, muito
acanhadamente, montar alguns showzinhos na UPES, bem mambembes,
e com aquela necessidade típica de interessar, de abrir,
de fazer as pessoas acordarem”.
Assim, o menino Gianfrancesco Guarnieri, filho de artistas italianos,
homem do povo, amigo no morro, fraterno com sua empregada Margarida,
completa sua educação básica e parte para a
conquista da parte do mundo que deve lhe pertencer. Começa
o segundo ato desta existência.
Segundo ato - O estopim
Em 1948 começa uma revolução no teatro
brasileiro. Ela não é acompanhada pelo nosso personagem.
Mas ele vai descobrir isso mais tarde. Em 1948 começa realmente
uma renovação, mas é mais uma importação
do teatro que é feito nos grandes centros, no Exterior. Os
paradigmas: a Comédie Française, Old Vic.
Então se forma o TBC – Teatro Brasileiro de Comédias.
A elite paulista está fazendo seu teatro e chamando diretores
estrangeiros importantes. Eles darão uma contribuição
inestimável e irão se esgotar. Mas, se não
houvesse este movimento do TBC, iria demorar bem mais o encontro
do caminho pelas pessoas do teatro brasileiro. Esses homens, esses
estrangeiros, vinham com um desconhecimento completo do país,
trazendo o que tinham aprendido, por exemplo, na Academia de Roma.
Este era Ruggero Jacobbi. E até que ele era um pouco diferente.
Conseguiu descobrir Gonçalves Dias. E escrevia para teatro.
E tinha uma peça muito boa, chamada Leonor de Mendonça.
Bom Ruggero, de uma cultura extraordinária, uma memória
incrível, lia a noite inteira, tinha insônia. Sempre,
sempre. O TBC é um estopim. Surgem outras companhias. A de
Maria Della Costa, por exemplo.
E, em 1952, a primeira turma de formandos da EAD – Escola
de Artes Dramáticas – forma o Teatro de Arena. Não
havia sede: só o entusiasmo de Zé Renato, Geraldo
Matheus, Xandó Batista. E a turma se reunia em um barzinho
da rua Teodoro Baima. Principal problema dos rapazes: enfrentar
os problemas de produção. Ninguém tinha dinheiro.
Portanto, todos tinham que descobrir uma forma de teatro viável,
que pudesse se deslocar com facilidade, atingir o público
sem depender das tradicionais casas de espetáculo.
Se não fossem estudantes, qualquer um poderia dizer: gente
pretensiosa essa. Mas eram estudantes, e resolveriam seus problemas:
fazer teatro realmente para estudante. O que tinha na época?
O teatro de Paschoal Carlos Magno, o Teatro Douze, de doze. Todos
tinham dado muita gente boa. Mas não era isso que os estudantes
queriam.
E surge o cérebro, na forma de um estudante de arquitetura:
o Vianinha. Gianfrancesco ainda é um estudante secundarista.
Nesse processo, nesses encontros, resolve-se formar um teatro dos
estudantes, com universitários e secundaristas. O pessoal
se interessa muito e lá, no meio, estão Vianinha e
Flávio Império. As citações desses nomes
não são gratuitas. São os dois que conseguiram
levar a situação até isto.
O primeiro espetáculo do teatro dos estudantes se transforma
em uma festinha, um negócio para a “sociedade”,
um “tebecezinho” de jovens, com a montagem de uma peça
de Lennox Holmes.
Ambiente da época: fofoquinhas, dissenções
internas, o teatro dos estudantes começava viciado, com todos
os defeitos que se conhece.
Ah, as vanguardas! Em teatro se é de vanguarda só
porque se alugou uma garagem e se resolveu montar ali um teatro?
Não. Vianinha, Ruggero e os estudantes terão uma conversa
a sério. Não, absolutamente, não é isso
que eles querem fazer. Montam uma plataforma. Primeiro ponto: ir
para as escolas, com um repertório diferente.
Também é necessário promover a iniciativa.
E tudo fica um pouco confuso ainda. Outra peça de autor conhecido
é montada, uma de Labiche. Parece que os rapazes não
sabem como fugir do repertório tradicional, do interessante,
do muito engraçado, do puro divertimento.
O TBC fazia isso muito melhor, mas os estudantes vão participar
do festival com a peça Está lá fora o inspetor,
de Priesley. Há uma badalação na época.
O público gosta. Gianfrancesco ganha o primeiro prêmio
de interpretação.
Na televisão a “grande dama” Cacilda Becker tem
um programa, na TV Record, A Chance na TV. E o prêmio
se acumulando, está em 15 mil cruzeiros, e o TPE não
tem dinheiro, não tem dinheiro para comprar refletores. Todos
se inscrevem: Gianfrancesco, Vianinha, Mariúsa Viana, Raul
Cortez e até Pedro Paulo Uzeda Moreira, mais tarde um dos
introdutores do psicodrama em São Paulo. Gianfrancesco tira
o primeiro prêmio e não fica sequer com dez por cento
dele. E está duro. Com esse dinheirinho já podia pensar
em fazer algo na vida.
Surge mais uma vez Zé Renato, do Teatro de Arena, fazendo
uma proposta para o TPE, para o pessoal do TPE funcionar como support
cast nos espetáculos. E o Arena cederia material e assistência
técnica. Já é 1955 e o Arena acaba de inaugurar
o teatro da Teodoro Baima, que ainda cheira a tinta.
Aparecem os descontentamentos, principalmente entre o pessoal do
Arena. Zé Renato era o que mais defendia essa turma jovem,
identificada com os interesses do Arena e ainda representando um
bom negócio, um grupo de talento à disposição
e que não pesava na folha de pagamentos. Montagens seguidas.
Em primeiro A Escola de Maridos, de Molière; logo
depois uma peça classe B, Dias Felizes, Vianinha
e Gianfrancesco decidem: teatro é mesmo o que querem fazer
e o que não sabem fazer. Precisam estudar, fazer um curso
intensivo, ler o que nunca tinham lido, dedicação
full time. E passam o TPE para Beatriz Segall.
Velha mania de estudante. Eles chamam todo o pessoal da Escola de
Artes Dramáticas, os críticos, eles levantam a questão
e lá está montado, no Arena, um curso intensivo, e
duzentas pessoas ficam acompanhando aquilo. Aulas sobre história
do teatro, estética, interpretação, direção.
Pela primeira vez alguns ouvem falar de Brecht, com Júlio
Gouveia. Todo mundo discute muito, há uma intensiva troca
de bibliografia.
Zé Renato era o diretor e colocava as coisas na prática.
Mas não podia assumir sozinho a continuidade do trabalho.
Sábato Magaldi sugere o nome de Augusto Boal. Para o pessoal
o nome era afrancesado mesmo: August Boá. Ninguém
o conhecia. Um sujeito que vinha dos Estados Unidos. E como todo
mundo gostava dos Estados Unidos naquela época! Mas Sábato
foi o passaporte para Boal, porque se interessava pelo teatro nacional,
pela dramaturgia nacional. Augusto Boal, nada disso. Apenas um descendente
de portugueses, nascido no Rio de Janeiro. É que ele tinha
ficado algum tempo na Colômbia, estudando dramaturgia, e chegou
querendo utilizar a turma nova, riscando a antiga, e ainda acrescendo
gente, como Milton Gonçalves, Flávio Migliaccio e
José Serber.
Actor´s Studio: uma preocupação nova
para o pessoal, através do cinema. Boal surge com essa idéia
de pesquisar interpretação. Porque todos sabiam o
que não queriam, mas não sabiam ainda o que queriam.
Certamente não era o estilo do TBC, esse estilo do Sérgio
Cardoso em Hamlet, da Maria Della Costa. Não, vamos
estudar um comportamento nosso, que tenha mais a ver com a nossa
cultura. E ainda assim persistia o problema da dramaturgia. Todos
os rapazes estão cheios de coisas a dizer neste momento,
só ainda não sabem o quê. Então, a elaboração
de Ratos e Homens se torna muito importante. Muitas discussões,
24 horas passadas dentro do teatro. Logo a seguir, Juno e o
Pavão. Esta fase se chama de pré-fase do Teatro
de Arena, e vai de 1952 a 1955.
Ratos e Homens. Um marco. Sucesso de público e bilheteria.
Ninguém estava acostumado com aquela forma de atuar, largada,
os atores relaxados, não na cara, no nariz. Um espetáculo
elaborado de dentro para fora. Não era para se aboletar em
uma forma e fazer daquela forma. A forma realmente existia porque
havia algo concreto a ser formalizado. Os passos seguintes do Teatro
de Arena são alguns retrocessos. Zé Renato resolve
voltar ao repertório estrangeiro classe B. A única
peça nacional desta época, no repertório, é
uma que Boal não gosta sequer de ouvir o nome: Marido
magro e mulher chata. Um pecadilho de Boal. Mas deu lucro.
Depois vem Esta noite é nossa. A burguesia paulista adora
e a peça faz enorme sucesso.
E o pessoal ali, sem uma democracia interna, sem muita discussão.
A ação correndo lá no palco e todo mundo lá
no alto, na cabine de luz, lendo Lima Barreto, Machado de Assis.
Esse todo mundo é mais Gianfrancesco e Vianinha.
Aqui ocorre algo de especial com Gianfrancesco Guarnieri. Por puro
divertimento, ou seja por que for, ele resolve escrever uma peça
nessa época: Eles não usam black-tie. O texto
é lido para o pessoal do TPE, na casa de Beatriz Segall.
O crítico Sábato Magaldi está lá. E
o Arena estava a ponto de abrir falência. Vianinha tinha se
mandado para o Rio de Janeiro. Boal, sem ter o que fazer, foi dirigir
outra companhia. Aliás, foi dirigir Dercy Gonçalves.
Grandes discussões. Ninguém aceitava isto. Só
restaram o Zé Renato e o Flávio Império para
ser diretor de teatro. E já que estava nesta situação,
toca a montar Eles não usam black-tie.
Olha, mas que coisa bem sacada. Um grande sucesso, algo que deu
realmente certo. Eles não usam black-tie: Lélia
Abramo no papel principal; Eugênio Kusnet fazia o pai; Gianfrancesco,
o Tião; Miriam Mehler, a namorada do Tião; Celeste
Lima, Tezinha, Riva Nimitz, Chico de Assis, Milton Gonçalves,
Flávio Migliaccio é Chiquinho, sob protesto, porque
tinha que representar um garoto de dez anos. Esta peça tem
um mérito: ser a primeira encenação da dramaturgia
nacional atual com temática urbana.
E se completa assim o ciclo que chega ao começo da idade
do compromisso de Gianfrancesco Guarnieri, garoto imigrado, brasileiro
por paixão, irremediavelmente comprometido.
Terceiro ato - De black-tie
Mil a mil e duzentas pessoas acompanham cada representação
de Eles não usam black-tie. A conclusão é
simples: é a isso que o pessoal deve se dedicar. Quem tinha
se afastado, volta. Nessa época também começam
a acontecer as manifestações novas na música,
o cinema começa a dar seus primeiros e bem decididos passos.
Jorge de Andrade volta a escrever. Época do presidente Juscelino.
Há um ambiente nacional em que todo mundo parece respirar.
Debate aberto em todo lugar, nas TVs, rádios, jornais. Ninguém
conseguia ficar parado, não tinha silêncio, não
tinha fossa.
Quarto ato - O Arena
Chapetuba F. C., de Vianinha, já é
um passo seguinte, acompanhado por outras representações
de autores novos. E eles estão se apresentando até
através do Seminário de Dramaturgia. Gimba
viaja em 1959. Gianfrancesco Guarnieri volta da Europa, em 1960.
Em 1961, mais um passo. O TBC está em crise, por fechar.
A classe teatral se mobiliza, vai para a porta do teatro para impedir
que isto aconteça. E começa a nova fase do TBC. Só
são montados textos de autores nacionais: A Semente, de Guarnieri;
O pagador de Promessas, de Dias Gomes, A Estrada, Vereda
da Salvação, A Escada e Os Ossos do Barão,
todas de Jorge de Andrade. O TBC é assumido pelo governo.
E tudo isto muda no ano seguinte. O novo governo já não
apóia o TBC, que poderia ter sido nosso Teatro Nacional.
Zé Renato resolve vender o Arena. Boal, Gianfrancesco, Milton,
Paulo José, Flávio Império e Juca de Oliveira
resolvem comprar o teatro. E tem início nova fase: autores
clássicos e nacionais. As remontagens de Eles não
usam black-tie, A Mandrágora, O melhor juiz e, o
rei (que excursiona pelo nordeste). Em 1963, Gianfrancesco
Guarnieri escreve O Filho do cão. A peça
fica em cartaz até fins de março de 1964. Mudanças
políticas, clima instável, teatro parado. Há
um recesso. O Arena retorna à atividade com O Tartufo,
de Molière.
Frente à nova realidade política do País, a
reação surge em Arena conta Zumbi. E, pela primeira
vez no Brasil, é utilizado o sistema do “coringa”,
com todos os atores se revezando em todos os papéis. Na mesma
linha, a montagem de Arena conta Tiradentes. A última manifestação
é a Feira Paulista de Opinião. Em 1968, surge o AI-5.
Quinto ato - A diferença
“Existe um teatro tradicional, que é político;
existe um teatro chamado de vanguarda, que pode ser descaracterizado
politicamente. Acho que não há uma ligação
entre tradicionalismo e outras formas, entre o fato de ser político
ou não. Se o autor procura tratar do seu mundo, da sua realidade,
se ele quiser realmente se aprofundar, dificilmente vai deixar de
ser político. Todas as peças têm o seu posicionamento.
O que não gosto mesmo é das peças de tese,
peça de propaganda. Em geral, elas acabam tendo o efeito
contrário. Não se pode esquecer que teatro é
arte. É indiscutível que, em determinadas situações
do processo histórico de um país, o teatro, a forma
teatral, pode ser usada em campanhas, discussões. O teatro
pode ser usado para a alfabetização, por exemplo.
Mas aí já é uma utilização da
forma dramática para se ganhar em expressão na busca
de um objetivo prático. E isso não quer dizer que
estará havendo uma elaboração artística.
Essa é a distinção que precisamos fazer, do
teatro como uma obra de arte e a forma dramática usada em
outro sentido.
Há uma diferença entre fazer política com o
teatro e fazer teatro como a forma de expressão de um artista
filtrando a realidade. Por teatro político entendo quando
um autor não desvincula os seus personagens de uma sociedade
igual à dele e procura refletir esse processo em todos os
campos, inclusive no campo político.
Essa foi uma grande discussão, em torno do trabalho do CPC
no Rio de Janeiro que tinha diferenças bem acentuadas de
outras iniciativas, como o Movimento de Cultura Popular, no Recife.
O que seria um teatro popular? Seria aquele que procurasse aprofundar
sua realidade, procurasse o máximo de eficiência estética
para maior comunicação com um público sem qualquer
tradição de teatro. O público, por mais ignorante,
sabe perceber ao primeiro contato se o autor está querendo
lhe impingir algo ou se está lhe apresentando alguma coisa
que ele sinta como resultado de uma experiência aprofundada,
autêntica, verdadeira e sincera. O teatro popular, que sai
do povo e vai encontrar esse mesmo povo, é essencialmente
um teatro político.
Essa problemática toda tem que desabrochar em coisas práticas.
Todos os problemas têm que ser solucionados na base da terra.
Existe um tipo de teatro que escamoteia isso, levando a solução
dos problemas para a alienação, querendo demonstrar
que na terra é impossível a solução
de uma tragédia. Uma visão mais objetiva prova o contrário.
É aqui, unicamente, que se pode dar soluções
aos problemas e o homem deve agir politicamente, deve chegar a essa
consciência.
Desde 1950 temos um teatro de inspiração popular.
Digo de inspiração para evitar essa confusão
de que teatro popular só pode ser feito para as grandes massas.
É importante distinguir se o teatro se coloca na perspectiva
do povo ou se se coloca na perspectiva de determinadas camadas dominantes.
Na década de 50 tivemos a procura de um Teatro Nacional Popular,
com raízes na nossa cultura, na nossa maneira de ser e nas
perspectivas de quem sofre mais agudamente. Foi quando os personagens
do nosso teatro deixaram de ser burguesia e os grandes personagens
foram figuras do povo. Foi a primeira vez que se apresentou o operariado
em cena, não mais servindo como contraponto ao desenvolvimento
de uma temática do senhor da terra, mas como temática
do próprio homem do campo ou da cidade. Esse teatro que fizemos
através de alguns piques isolados de grupos, chegou a atingir
uma parcela do que a gente pode chamar de povo.
Em três peças, especificamente, tivemos uma experiência
mais profunda de ligação com o povo: Eles não
usam black-tie, Revolução na América Latina
e O melhor juiz e, o rei. Na medida em que se fale claramente, que
não se intelectualize, que não se faça abstrações
a ponto de se cair em um papo só para eleitos, então
mesmo uma peça feita em redondilhas é entendida e
perfeitamente aceita pelo povo. No Norte, o povo dava nota para
o que se estava representando. Durante a apresentação
de O melhor juiz e, o rei, de Lope da Vega, em uma adaptação
minha e de Boal, o público, às vezes, dava nota cem
para o lavrador que se opunha às vontades do senhor feudal.
Experiências foram feitas, porém sempre isoladas e
sem continuidade. Este não é um trabalho só
do teatro. É uma questão de orientação
da cultura. Mas acho que é muito importante o trabalho dos
grupos periféricos que lidam com teatro popular. É
preciso que essas pessoas não se conformem. Sei que há
muita dificuldade com o problema do repertório, porque não
há qualquer apoio. Esse pessoal realmente trabalha por teimosia.
Não são necessários cinqüenta mil refletores
para se fazer teatro. Pode-se fazer ainda com um mínimo de
recursos precários.
Nosso teatro de espetáculo, em geral, é muito elitista,
inclusive na linguagem, o que faz com que o povo sinta que não
é coisa dele. Nosso teatro está num compasso de espera.
O que precisa reencontrar é a linguagem descoberta já
na década de 50. Precisamos estudar os problemas do país
e nos aprofundarmos neles. Não se queira esperar também
que, com todas as dificuldades atuais, surja um artista importante.
Só vai aparecer esse artista quando surgir uma nova realidade.
Não estamos exigindo uma nova arte no teatro brasileiro,
mas sim uma nova cultura”.
Sexto ato - O circo
O último ato: a criação, a reflexão,
cinema, teatro, TV; circo. O que podem as frases diante da vida?
Mas as frases existem e são parte da vida.
“Quando Roberto Santos me chamou para fazer cinema no Grande
Momento, minha vida mudou. Meu papel era de um cara do povão,
eletricista, corredor de bicicleta, que vai casar. O filme é
de 1957 e continua sendo exibido até hoje. O cinema tem um
caráter de documentação: pode arquivar no tempo
manifestações que iriam desaparecer. Outra questão
importante no cinema é a relação de trabalho:
você está diretamente em contato com o trabalhador.
Isto também existe na TV: o contato com a turma da pesada,
como eu digo. O teatro tem o perigo de isolar o ator em igrejinhas.
No cinema, este contato ajuda a desalienar.
Há muito tempo não nego a TV. Estou dentro da TV.
Mas ando meio afastado. Não é um repúdio. Prefiro
me dedicar mais ao cinema e ao teatro, porque estão contribuindo
mais para o desenvolvimento da dramaturgia do que ela. A TV obriga
o indivíduo a exorcizar suas necessidades primeiras e ficar
completamente robotizado e colonizado culturalmente. Em alguns casos,
existe uma quebra circunstancial desse esquema. Por exemplo: o esforço
que o Bráulio Pedroso está fazendo no Casarão,
que é uma tentativa de mostrar ao espectador seu país
e sua história... Mas entre cada capítulo tem aquele
montão de anúncios... e para que o espectador perceba
isso, tem que ter visão crítica.
Para elaborar uma peça, sempre faço de conta que não
estou trabalhando nela. É deixar correr e esquecer o trabalho.
Fico procurando juntar as coisas que mais me tocam e me afetam.
Procurando ampliar, entender e generalizar as coisas que acontecem.
É um processo interior, com muito de cabeça e de coração.
Não anoto qualquer coisa. É nessa hora que começo
a discutir com as pessoas sobre o que estou fazendo. É nessa
hora em que leio sobre o tema e investigo tudo, ou quase tudo, sobre
minha futura peça. E... de repente, vem a vontade e a necessidade
de sentar e escrever. Escrever é só o trabalho de
bater à máquina, pouco tempo. O que mais me atrapalha
é quando eu me detenho e começo a pensar que estou
elaborando alguma coisa. O negócio todo precisa vir quase
como um vôo. Se eu vejo a coisa como trabalho, então
complica tudo”.
Última peça: Ponto de partida
O fundamental em Ponto de Partida é a eterna
luta do velho contra o novo. A ação se passa numa
aldeia imaginária afastada no tempo. Essa aldeia entra em
crise por causa de uma morte. Esse acontecimento será o centro
da luta que vai se processar e demonstrar o choque do poderoso e
do fraco. Ele será o gerador do elemento novo que se produz
nessa crise.
As palavras aprisionadas
Um manifesto de libertação:
a busca das palavras implica
linguagem capaz de captá-la. Essa linguagem não é
uma fuga,
mas o único caminho para nos levar à débil
captação
de uma sociedade e de suas contradições. E da única
coisa que
nos interessa: o ser humano sufocado em sua vontade de ser.
Por Marcos Faerman •
Versus 7 • dezembro de 1976
1 – O repórter e sua perplexidade.
O repórter tem diante de si a realidade. A realidade é
a indagação a ser feita. A realidade é a natureza
e os outros homens. Como entender tudo o que nos rodeia? Como entender
os conflitos, as mentiras aparentes, as verdades ocultas? Que instrumento
usar no momento da descoberta? Que instrumentos usar na hora da
revelação?
2 – Saindo da abstração. A
realidade pode ser um homem encolhido à beira de um rio.
O repórter é um ser em disponibilidade. Esta é
quase que sua essência. Ele está à disposição
dos “chefes”, do jornal em que trabalha. Cumpre horários,
ordens. Num dia qualquer, uma hora qualquer, é mandado para
um lugar qualquer. É sempre assim. Ele poderá ter
diante de si este homem ajoelhado no barro, olhando para um rio.
O repórter olha para este homem. Procura saber sua história.
A reportagem pedida: a vida de uma aldeia, à beira de um
rio, corroído pelo mercúrio que mata os peixes que
alimentam os homens.
3 – O repórter e sua perplexidade.
O repórter recebe ordens. O repórter diante da “pauta”.
Os problemas de um Estado diante da poluição. O que
dizem as autoridades. O que diz o povo. O que dizem os industriais.
As técnicas do repórter: o papel, a caneta Bic,
o gravador. Os olhares das pessoas para ele – como o olhar
daquele homem ajoelhado à beira do rio, não dá
para esquecer. Um homem de roupas rasgadas, um pescador, que me
fala com uma linguagem confusa como o vento que bate na água.
Uma canoa parada no rio e uma rede. O olhar um pouco louco do homem.
O olhar do repórter que cai em suas mãos. Mãos
cortadas pelo barro.
4 – Os direitos do repórter e do jornal.
A lembrança, diante daquele homem, das perguntas de um outro
repórter, das inquietações de outro repórter
diante de outra realidade. “Parece-me curioso, para não
dizer obsceno e totalmente aterrorizante, que pudesse ocorrer a
um grupo de seres humanos reunidos através da necessidade
e do acaso, e por lucro, numa empresa, num órgão jornalístico,
intrometer-se intimamente nas vidas de um indefeso e arruinado grupo
de seres humanos, uma ignorante e abandonada família rural,
com o propósito de exibir a nudez, a humilhação
e a inferioridade destas vidas, em nome da ciência, do jornalismo
honesto, da humanidade e do destemor (...)”.
5 – Saindo da abstração. O
repórter em busca da realidade. Com a sua sensibilidade.
Com a sua insensibilidade. Em nome de uma Empresa Jornalística.
Ouvindo histórias das vidas dos outros. Sugando dos outros
a única coisa que eles têm, além do corpo nu:
uma história, a sua vida, a sua perplexidade, as suas dúvidas,
as suas mínimas certezas. O repórter e sua própria
pobreza. E as suas próprias dúvidas e pequenas verdades
(e separa grande medo). E o que ele ouviu que era “jornalismo”.
E uma linguagem que lhe disseram que era jornalística. Como
esta linguagem que lhe disseram ser “jornalística”
se adequa aos olhos e às mãos daquele homem à
beira do rio?
6 – As lembranças do repórter.
“Tudo isto me parece curioso, obsceno, aterrorizante”;
disse certa vez um repórter, James Agee, de quem fiz a citação
anterior. James Agee. Um repórter. Morreu há dez,
quinze anos. Era um garoto quando a Life lhe pediu a história
de algumas famílias rurais na época da Depressão,
nos Estados Unidos, de onde nasceu uma espantosa reportagem. E
Louvemos Agora os Grandes Homens. A Life rejeitou
a reportagem de Agee por considerá-la antijornalística.
Agee descrevia com minúcias até a respiração
do pesado sono de trabalhador. Construiu um documento eterno. Seu
relato é obra à altura de Steinbeck. John dos Passos,
Faulkner. Quem quiser saber alguma coisa sobre a vida camponesa
nos anos trinta terá que ler este relato que a Life
rejeitou por considerá-lo “antijornalismo”. O
relato seria publicado na forma de livro. Trinta anos depois seria
editado numa coleção de antropologia dirigida por
Lévi Strauss. Da rejeição em nome do jornalismo
para a glória. (As famílias camponesas assassinadas
em nome do jornalismo renasceram!).
7 – O repórter e sua formação.
Todas estas idéias nascendo na cabeça do repórter
a partir da questão da linguagem da imprensa. A certeza que
o repórter tem de que muitos colegas ainda têm na cabeça
o mito do texto jornalístico e do texto antijornalístico.
A certeza de que em nome do jornalismo muitos colegas rejeitariam
o texto de Agee e muitos outros textos. A questão do “texto
objetivo”. A pergunta: que texto é este? Onde nasce
e com quem a técnica jornalística ensinada pelo que
é publicado nos jornais e revistas e pelas “Escolas
de Comunicação”? Onde nasceram e como as idéias
de objetividade e neutralidade? Uma resposta possível: este
texto jornalístico, esta linguagem fluente nos jornais surge
com a estruturação da imprensa em forma de empresa/imprensa;
empresas ligadas diretamente a determinada forma de organização
da sociedade, o capitalismo. A linguagem da imprensa norte-americana
se disseminando pelo mundo. A expansão de um império
e das idéias que o justificam.
8 – Ainda a formação do repórter.
A linguagem oficial da imprensa é defendida por muitos jornalistas.
Ou não discutida. Ela é implantada nos jornais por
jornalistas. Os “Vigilantes do Texto”. Às vezes,
os “Policiais do Texto”. Uma arma na mão, a caneta.
O direito que ganham de modificar o texto. O texto nasce do olhar
do repórter sobre a realidade. Mas um olhar que não
baixou para a realidade pode modificar as palavras. A defesa de
uma linguagem. O esquecimento de que a “linguagem vem sempre
de algum lugar”. De que a linguagem está sempre referida
a uma classe social, a um grupo humano. E de que há uma linguagem
do poder, como há uma linguagem de crítica ao poder.
O quanto pode a linguagem do poder se disseminar pela realidade
toda, preenchendo até a linguagem dos sonhos, até
se tornar uma linguagem aparentemente neutra e objetiva? A linguagem
do poder alcançando até os espaços últimos
do senso comum. Pensar em tudo isto. E ainda analisar a forma como
esta linguagem se confunde com a expressão jornalística.
9 – Saindo da abstração. Volto
ao homem curvado sobre o rio. A responsabilidade que temos diante
dele e daquele momento. A necessidade de saber ouvir e de saber
descrever. A necessidade de uma linguagem que capte aquela realidade.
O jargão jornalístico, economicista, sociologuês
pode captar esta realidade? Mas é aquele homem que eu devo
descrever, e não uma abstração. Será
que é ser “literato” abrir meu mundo até
aquele homem, absorver a sua realidade, a sua linguagem –
achar as palavras certas para revelá-lo? E uma outra idéia:
a relação entre as palavras que vão aparecendo
na minha máquina e aquele homem.
10 – Ficção e realidade. Colocando
algumas idéias, a partir de James Agee. Numa novela, uma
casa ou uma pessoa tem seu significado, sua existência, inteiramente
a partir do escritor. No jornalismo, uma casa ou pessoa tem apenas
o mais limitado dos seus significados através do repórter.
Seu verdadeiro significado é muito maior. O personagem existe
num ser concreto, como você e eu. “Seu grande mistério,
peso e dignidade estão neste fato”. Outra questão:
o jornalismo é um método de trabalho e não
uma linguagem. Carlos Fuentes, Rodolfo Walsh, James Agee, García
Márquez, Eduardo Galeano, Heródoto, René Chateaubriand,
Norman Mailer, Euclides da Cunha – eis os nomes de alguns
repórteres. O jornalismo de Agee é menos literário
do que sua ficção? O jornalismo de Norman Mailer é
menos literário do que a sua ficção? O jornalismo
é um método: trabalha como instrumento de descoberta
de uma realidade, com formas próprias, anotações,
pesquisa. Uma outra idéia: o pensamento escolástico
contemporâneo, os intelectuais de gabinete, o pensamento universitário
preservando a Arte e a Literatura com Maiúsculas. Esquecendo
– em nome de uma visão elitista – o sentido mais
contemporâneo do conceito de Escrita. Uma última idéia:
muito da melhor literatura brasileira desta década vai ser
descoberto (quando???) em alguns jornais e algumas revistas (por
quem???).
11 – Manifesto de Libertação da Palavra.
A busca de uma realidade implica uma linguagem capaz de captá-la.
Conselheiro Acácio em ação??? Essa linguagem
não é uma fuga. É o único caminho para
nos levar à débil captação de uma sociedade
e de suas contradições. E da única coisa que
nos interessa: o ser humano sufocado em sua vontade de ser.
A perseguição
Do sertão de Serra Talhada,
onde não se brinca de valente,
narrativas de morte e vingança
Por Caco Barcelos •
Versus 7 • dezembro de 1976
Os inimigos ali na frente, vendo a sua agonia. Nenhuma
facada a mais. Nenhuma agressão. Nunca um Gaia agonizou aos
olhos do inimigo. Batista Gaia, o mais corajoso dos Gaias, do alto
sertão de Pernambuco, está morrendo num quarto de
bordel de Serra Talhada.
Os inimigos continuam ao pé da cama. O velho mal consegue
erguer os pés. O corpo esticado sobre a cama já não
lhe obedece à vontade. Batista põe a folha do poema
para tapar o buraco do pescoço ferido pelo punhal e jamais
deixa de encarar os homens que estão de pé com a faca.
Se ao menos a menina de 20 anos que está com ele acordasse...
Consegue arrastar o braço pelo lençol ensangüentado.
Apóia a mão esquerda na cabeça da mulher. Sacode.
Mas ela dorme. A única arma de Batista é a que resta
em sua mão: a poesia – que escrevia para ela naquela
hora – folha molhada de sangue que joga na cara de um inimigo.
A perseguição
Por que não matam de uma vez esse velho!?
O grito é de uma mulher, veio da boca de mais um inimigo
que está no quarto e o velho ainda não sabia.
Matem logo! O pedido é da menina loira que fingia
dormir. Uma traição a Batista em troca de 500 cruzeiros
e de proteção que os três inimigos prometem.
A traição parece tê-la enlouquecido. A mulher
vê Batista esfaqueado, vivo, olhando e continua gritando matem,
matem!
Ela está desesperada quando os três homens terminam
de matar Batista com coronhaços de rifles na cabeça,
facadas e tiros no sexo. Quase meia-noite, a mulher chora sobre
a cama ensangüentada, os 500 cruzeiros estão espalhados
no chão e o corpo do velho é arrastado do cabaré
até a sarjeta de uma rua escura que sobe no Alto do Urubu,
em Serra Talhada.
Serra Talhada fica numa planície, são cinco ou seis
ruas paralelas que rodeiam uma praça, as casas são
baixas e antigas. Todo caminho termina numa subida. A cidade é
cercada por montanhas que têm profundas rachaduras cobertas
de vegetação rasteira. Daí o nome Serra Talhada.
E em um desses morros que cercam a cidade, no Alto do Urubu, que
Vilmar Gaia, um rapaz parecido com Batista, moreno, alto, olhos
amendoados, pele de índio, encontra o cadáver do pai.
A cabeça esmagada, a camisa em pedaços, sem calças,
o sapato trocado de pé e no lado do corpo, o rifle 44 em
cima de uma folha escrita pelos inimigos, com data.
Dia 6 de junho de 1971: “Última poesia do velho
mulherengo”.
Minha morte é uma justiça. No sertão não
se brinca de valente. Os Gaias mataram os soldados. Eu morro com
os inimigos na frente.
Sertão de Pernambuco, seca de 1970. A história
da morte de Batista começa em 30 de dezembro de 70, durante
a grande seca, numa frente de trabalho da SUDENE. Os trabalhadores
reclamam pela falta de dinheiro ao engenheiro encarregado do pagamento.
Batista está entre os homens que reclamam. Também
estava na multidão quando dois soldados da Polícia
Militar de Pernambuco, Adalberto Clementino de Moura e Alberto Alves
de Moura, começam a agredi-los a pontapés e cacetadas.
Os trabalhadores, humilhados, voltam à fila. Mas não
todos. Aqueles cinco irmãos com cara de índio se revoltaram.
Armados de foices e lambedeiras, cinco irmãos Gaia, Cícero,
Eduardo, Tozinho, Antônio e Enoque, matam a dupla de soldados.
E o velho Batista Gaia escreve uma poesia em homenagem à
vitória da família. Ainda durante a seca, começa
a perseguição ao velho, que é assassinado seis
meses depois, naquele cabaré, no Alto do Urubu.
Alto do Urubu, voltamos a junho de 71. Morre Batista
Gaia e, no enterro, seu filho Vilmar agarrado ao rifle 44, jura
vingança.
Ele desconfia dos parentes, dos amigos, até do padre que
benze o caixão de Batista. Todas as pessoas que vê
para ele são o inimigo. A namorada, o juiz da cidade, as
crianças. Vilmar interroga todos que estão no cemitério
de Serra Talhada. Faz tantas perguntas que a loira amante de Batista
lhe confessa quem são os criminosos:
Três soldados (da 17ª Companhia Militar
de Pernambuco) mataram Batista!
Ainda na noite do dia do enterro, Vilmar, 22 anos, de bermudas,
chinelo e sem camisa, vai à caatinga e torna-se pistoleiro.
Coloca na mata um lampião a 50 metros de distância,
apóia o rifle na clavícula, mira, aperta o gatilho
e os tiros apagam o fogo mais de 20 vezes nessa madrugada. Amanhecia
quando Vilmar é visto atravessando a Praça Nossa Senhora
da Penha. Às 8 horas continuava investigando. Vestia apenas
a bermuda, com dois revólveres na cintura, quando entra no
prédio da delegacia para falar com o delegado Sebastião
Nogueira. Seu plano começava a dar certo porque o delegado
aceita o seu pedido.
Agora Vilmar, além de pistoleiro, é policial da 17ª
Companhia.
Nos primeiros cinco dias na polícia, Vilmar continua nas
investigações e ganha dezenas de cartucheiras dos
soldados. Conversa sobre o crime pelos corredores e à noite
tiroteia em garrafas de cerveja, latas de sardinhas, em alvos cada
vez menores. Em uma semana descobre o inquérito sobre a morte
do pai nos arquivos da delegacia, e sabe, assim, os nomes dos soldados
criminosos.
No dia seguinte à descoberta, o delegado Sebastião
Nogueira reprova Vilmar no teste de capacidade intelectual. Ele
é expulso da 17ª Companhia e duas semanas depois mata
com 16 tiros um dos três inimigos, Arnaldo Cipriano, num bar
de Salgueiro, a 300 quilômetros de Serra Talhada.
Fazenda Lavra de Mangueira, outubro de 73. O suplente
de comissário, Pedro Inácio, dá uma festa na
fazenda. Como fazia o velho Batista, Vilmar entra na festa acompanhado
de uma prostituta. Pedro Inácio manda ele embora. Os dois
discutem, brigam e depois tiroteiam. Vilmar é ferido no ombro
e cai. Do chão ele atira e mata o comissário. O baile
continua.
A polícia é avisada do crime e Vilmar dança
no salão. Calça e camisa pretas, duas cartucheiras
na cintura, ele dança uma rancheira. A prostituta veste uma
saia curta a um palmo do joelho e aperta o corpo de Vilmar. Ela
rebola, desabotoa a camisa do pistoleiro e beija-lhe o peito na
hora em que alguém dá um tiro.
Apagam-se as luzes, é a polícia chegando.
Vilmar está na escuridão dentro da casa cercada pela
patrulha. Da janela ele vê que outro matador de seu pai, o
soldado Natalício, está na chefia da patrulha. As
mulheres gritam e correm do salão, puxadas pelos homens.
O último a sair na porta do salão é Vilmar
Gaia, com rifle na mira de Natalício, que morre com um único
tiro no peito. Nenhum outro soldado reage. E Vilmar foge a cavalo
com a prostituta.
No Velório de Natalício: à meia-noite
Vilmar vai ao velório do inimigo. A mesma roupa preta, um
chapéu de abas largas, óculos de lente escura, ele
distribui cópias da última poesia do velho mulherengo
e vai embora.
Três dias depois da morte de Natalício:
É morto o cunhado de Vilmar Gaia, Luiz Zuza. O corpo é
enterrado na caatinga.
Tribunal de Justiça, outubro de 74: O juiz Ítalo
José Nandi decreta prisão preventiva de Vilmar. E
também é acusado de matar o primo Antônio Augusto
que teria se vendido para a família de José Cipriano.
A família que pagou para matar seu pai. Morre o soldado Luiz
Gonzaga que Vilmar perseguia para completar sua vingança.
O povo atribui a Vilmar mais de 30 mortes. E o juiz sofre um atentado,
um dos tiros quebra a antena do seu carro.
Novembro. Circulam folhetos de cordel em homenagem
ao pistoleiro que fez sua própria justiça no Alto
do Sertão de Pernambuco:
“Filho de Serra Talhada/ No sertão de terra quente/
onde nasceu Lampião/ Natureza de serpente/ Agora tem Vilmar
Gaia, feio, disposto e valente/ Dizem que ele se encanta/ Num pé
de mandacaru/ Vive também envultado/ Numa onça canguçu/
Extasiando maior assombro no Vale do Pageú/ Só tem
26 anos/Esta é a sua idade/Mas dizem que ele briga/De 110
qualidade/ Briga dentro da caatinga e luta em qualquer cidade/Já
fez 32 mortes/Abraçou a miséria e deu coice na sorte/
É o maior cangaceiro que temos aqui no Norte”.
Fevereiro de 75. Chegada de David Jurubeba e seus
pistoleiros em Serra Talhada. Jurubeba veio para acabar com os Gaias.
Ele é um rastejador profissional desde a década de
40, quando perseguia Virgulino Lampião. Sua inimizade aos
Gaias vem dessa época, pois o velho Batista protegia o cangaceiro
das volantes. Com a morte dos soldados Natalício e Luiz Gonzaga,
seus parentes, aumenta o ódio de Jurubeba:
– Vim para matar. Venho das terras de Nazaré e só
voltarei quando for eliminada a raça dos Gaias. Eu sou do
clã dos Ferraz Jurubeba. Minha vida é no mundo perseguindo
bandido. Se esse tal de Vilmar é valente como falam eu o
perseguirei até a morte. Quero cortar a cabeça desse
cabra como fizemos com Lampião. Batista era coiteiro e família
que protege o cangaço não merece o perdão.
Estou pronto para a luta.
Primeiros dias de março – Jurubeba e dois pistoleiros
carregam munição para uma camioneta, defronte ao prédio
da delegacia. No mesmo dia um cunhado de Vilmar, Arnaldo Gaia, é
fuzilado no balcão da caixa da sua mercearia, no centro de
Serra Talhada. No dia seguinte é a vez de Batistinha Gaia,
irmão de Arnaldo. Os pistoleiros fuzilam à queima-roupa.
No dia 5, as cinco famílias dos irmãos do velho Batista
estão em pânico com a entrada de Jurubeba e sua volante
em suas terras.
Os fuzis apontam para os cinco irmãos.
Os dois canos grossos da arma estão bem junto aos olhos de
Laudelino. O fuzilamento será à queima-roupa. Ao lado
de Laudelino está Tozinho, pele de índio, cabelo preto,
liso, com a baioneta do fuzil quase lhe raspando o nariz. Depois
de Tozinho vem Eduardo, depois Cícero e por último
Enoque. Todos os irmãos Gaia morrerão se não
responder à pergunta:
– Onde está Vilmar Gaia?
– Respondam bandidos!
No milharal da fazenda, as mulheres vêem aquela cena e pedem
de joelhos proteção a São Tomás de Aquino,
a Frei Damião e a Padre Cícero. As crianças
cantavam orações. De longe dali se ouvia a cantoria
que só não era mais forte que o som dos gritos do
fuzilamento.
Fogo nos bandidos!
Como nenhum dos irmãos fala sobre Vilmar, os policiais apertam
o gatilho. Os tiros fizeram mulheres e crianças correrem
e os animais da fazenda corriam juntos para todos os lados. Mas
os Gaias continuam de pé. O fuzilamento fora uma ameaça.
Os tiros passaram rentes à cabeça de Enoque e ele
permaneceu como estava, o olhar fixo nos olhos do carrasco.
Indiferente, mudo, parece tranqüilo. Enoque está tão
calmo que Jurubeba, o carrasco, assustado, muda de tática.
Amarra os pulsos de Enoque e a mesma corda é amarrada nas
ensilhas do cavalo. Assim ele começa a ser arrastado pelas
terras do distrito de São João, a norte de Serra Talhada.
O cavalo de Jurubeba é um animal selvagem que corre a trotes
largos em direção às montanhas. A estrada é
de pedregulhos e o corpo de Enoque se mantém um pouco atrás
das patas do cavalo, os braços esticados, a cabeça
erguida, o peito arrastando, já sem botas e sangrando. Nas
poucas vezes que abre os olhos, o que vê é poeira e
patas. O cavalo abre caminho. Enoque ainda ouve o relincho quando
cruza os milharais.
Enoque ainda vive.
– O cavalo de Jurubeba é arisco, selvagem. Mas não
consigo imaginar a que velocidade anda. Sei que andava rápido
quando começou a malvadeza. Naquela hora você não
sente dores. Eu estava sendo arrastado de bruços e sentia
as pedras que batiam no meu corpo, sentia as pedras entrando na
minha carne. Os galhos secos eram espinhos grandes e a terra queria
devorar a minha barriga. Meu corpo estava mole, saltava como borracha.
Mas um homem nesta hora ainda sente muita força.
– Nunca me passou a idéia de trair o meu sobrinho.
Eu sabia que estava sofrendo a malvadeza por causa dele. Mas eu
sou dos homens que não sabem trair o irmão de sangue.
Dizer onde está Vilmar Gaia é desprezar a nossa grande
vingança. Seria uma atitude de homem que não preza
amor da família. Que as patas me furem os olhos mas eu não
falo. Podem me chutar a boca, que me quebrem os dentes porque eu
não digo. Vou proteger a pele do menino Vilmar até
a morte se for preciso. É certo que Vilmar é pistoleiro
e bandido. Mas também é certo que um homem só
é afoito e valente se antes ele foi revoltado e corajoso.
O caso de Vilmar é de revolta pela morte do pai. Ele fez
sua própria justiça aqui no sertão. A justiça
que os homens tiveram medo de fazer. Jamais vou trair um menino
assim. Eu esperava pela morte porque a morte me salvaria daquele
momento. Eu queria que a morte viesse depressa para não dizer
o esconderijo de Vilmar, queria a morte como salvadora, como uma
aliada contra o inimigo.
O sol é forte no sertão quando Jurubeba desata a corda
do pulso de Enoque desfalecido. A roupa está úmida
do sangue que escorre do rosto, a sobrancelha puída pela
terra, a cabeça de Enoque é uma grande ferida. O couro
cabeludo foi pelado, os fios de cabelo ficaram pelo caminho da tortura.
E aquelas perguntas continuam...
Os habituais interrogatórios aos Gaias tornam-se trágicos.
Maria Aparecida, uma tia de Vilmar, morre de colapso cardíaco
quando vê o corpo de Enoque torturado. Ninguém denuncia,
mas David Jurubeba continua a perseguição. Oferece
um Volks para o Gaia que delatar Vilmar.
Serra Talhada, 22 de março. O governo do
Estado de Pernambuco contrata o campeão brasileiro de tiro-livre,
capitão João Ferreira dos Anjos, para perseguir Vilmar
Gaia. E a Secretaria de Segurança pernambucana substitui
todos os policiais de Serra Talhada, inclusive o delegado Sebastião
Nogueira. Quarenta policiais militares selecionados, com modernas
metralhadoras, granadas e bombas de gás lacrimogênio
auxiliam o capitão João Ferreira nas diligências.
Maio de 75. A Rede Globo de Televisão oferece
25 mil ao capitão João Ferreira para que ele garanta
uma entrevista exclusiva de Vilmar no dia em que ele for preso.
A família Gaia é interrogada todos os dias.
Caatinga, junho, julho, agosto. Tem dias que o
capitão João Ferreira caminha 40 quilômetros
a pé na caatinga. Os Gaias estão aflitos. Toda a família.
Quando ouvem um ruído de carro, eles pensam que é
volante que vem chegando. Mec Gaia, uma criança, quase um
bebê, nunca mais voltou de uma fuga. A polícia acha
que ele está no esconderijo de Vilmar.
A única pista da polícia é o cocô de
Mec. Um cocô enroscado, fino, menor que o de um gato. É
o que resta na caatinga de uma criança de dois anos, de um
foragido da volante. Os cães, um rastejador profissional
e 30 homens armados perseguem Mec.
Sem camisa, o calção puído na bundinha, o fugitivo
chupa bico e carrega no pescoço, preso a um cordão,
um presente do tio Vilmar: o cartucho 44 do tiro de vingança.
Talvez ele esteja morrendo. A merdinha do Mec diminui a cada dia.
Mas a família Gaia crê na sobrevivência do menino,
crê na proteção da caatinga aos perseguidos,
crê no sol como um alimento a Mec. Eles crêem que um
dia Mec voltará transformado em mais um Gaia vingador.
De 17 a 20 de agosto de 76. O capitão João
Ferreira não dorme há três dias e avança
o sertão do Ceará em direção à
fronteira da Paraíba. Às 4 horas da madrugada do dia
22 chega ao vilarejo de Ipaumerim e dá ordens para 30 soldados
fazerem o cerco na casa da Fazenda Quitéria.
Duas portas e oito janelas na mira de três metralhadoras,
dez mosquetões, bombas de gás lacrimogênio,
uma pistola e um rifle. Na casa tudo quieto – apenas Vilmar
Gaia, que dormia nu em uma rede, se movimenta para pegar o revólver
Taurus 38. A polícia nunca esteve tão perto depois
que ele fugiu de Serra Talhada.
Os soldados estão prontos para matar, o capitão João
Ferreira está deitado no chão com a arma carregada
de balas alemãs. A porta se abre, peito nu, cabeça
baixa para a braguilha que tenta abotoar. Depois Vilmar levanta
a cabeça, ergue os braços e caminha em direção
ao capitão João Ferreira dos Anjos.
Vilmar Gaia chega preso ao xadrez de Serra Talhada.
Os homens esqueceram a justiça. A justiça
de Deus é com ele. Minha justiça eu já fiz.
Agora o capitão João Ferreira que faça a dele.
Dia 20 de agosto. David Jurubeba, maior inimigo
dos Gaias, abandona Serra Talhada. Carrega uma maleta de mão,
cartucheira, um rifle nas costas, volta às terras de Nazaré
e fala decepcionado: “Eu não sei viver sem um grande
duelo. Desde Lampião espero por um bandido perigoso que me
desafie. Vilmar era a minha grande esperança, eu queria matar
esse menino, queria matar todos os Gaias em um grande incêndio.
A prisão de Vilmar não teve graça. Por isso
continuarei na perseguição aos pistoleiros. Ainda
espero pelo grande duelo, tenho paciência. Enquanto esse dia
não chegar perseguirei até mulher barriguda do sertão.
Alguma coisa me diz que a cada segundo pode nascer um homem perigoso,
um novo Lampião. A polícia de Pernambuco que se cuide”.
No dia da prisão de Vilmar Gaia, as rádios de Serra
Talhada transmitem a notícia de dez em dez minutos. E tocam
a música Cabra macho do Rocha, inspirada no pistoleiro.
O comércio fecha, estão suspensos os expedientes dos
bancos e repartições públicas. Uma multidão
empurra os soldados na porta de entrada da delegacia para ver Vilmar.
Às 9 horas do dia, o capitão João Ferreira
comunica a prisão de Vilmar ao secretário de segurança,
Rui Aires Lobo, que dá ordens para uma escolta levá-lo
ao Dops de Recife. Nessa hora as crianças brincam de Vilmar
Gaia pelas ruas de Serra Talhada.
Um menino que nem forças tem para manter a arma erguida também
brinca na janela do colégio. A arma está engatilhada.
Ele faz a pontaria enquanto a professora escreve no quadro negro.
Quando a professora vira de frente o menino recua e se agacha. Espera
alguns minutos e quando aperta o gatilho o tiro é certeiro
e acerta de verdade no alvo: a nuca de um coleguinha. Ninguém
soube dizer os motivos do crime. O menino fugiu. O povo conta que
o menino era Mec Gaia porque a arma do crime foi descoberta.
Era um rifle calibre 44.
Segredos atômicos do Brasil
Esta é uma história das
intrigas que envolveram a
utilização da energia atômica no Brasil. Relata
como, no
passado, o Brasil escolheu a Alemanha como parceira nuclear.
Por Marcos Faerman • Versus
8 • março 1977
Parte Um: Viagem à Alemanha
Ou: O Almirante que queria o átomo brasileiro
Ou: Algumas vidas estão em perigo
I
Onde é que começa esta história? Talvez
nenhum dos seus protagonistas saiba. Mas ela é a história
de uma paixão. A paixão de alguns homens. Que se projeta
no cenário das intrigas internacionais dos anos 40 e 50,
nas retortas dos laboratórios em que se cria a Arma das Armas,
os conflitos da Segunda Grande Guerra, os lances de espionagem,
os cientistas que são erguidos à condição
de heróis ou jogados nos campos de concentração,
e mais a situação dos países coloniais ou semicoloniais,
os produtores de matérias primas – os que figuram em
cena da história como sombras e não como entre reais.
II
Esta história poderia começar em qualquer
ponto. Mas nós vamos centrar o drama, inicialmente, na figura
de um homem, o almirante brasileiro Álvaro Alberto. No começo
dos anos cinqüenta, ele está convencido de uma coisa:
os Estados Unidos não permitirão que o Brasil conheça
alguns dos seus segredos nucleares. O Almirante é um gênio
científico. Tornou-se famoso entre militares e cientistas
alemães por suas pesquisas em torno de explosivos. Trabalhando
sozinho, chegou aos sofisticados explosivos que a Alemanha empregou
na Primeira Guerra. Em 1945, desmentiu um artigo da revista Time
a respeito da primeira explosão nuclear, explicando em poucas
linhas o que, realmente, era a bomba atômica, e como ela havia
sido produzida! Era um homem de ciência. Mas no começo
dos anos 50, achava que devia ser mais do que isto para fazer sua
nação chegar aos segredos atômicos.
III
Aquele alegre professor de química da Marinha não
era de se acomodar, mesmo nas piores situações. Como
primeiro presidente do Conselho Nacional de Pesquisas, que ajudou
a criar, ele fez um pedido ao presidente Getúlio Vargas:
queria ir à Europa, para tentar obter tecnologia nuclear,
que os norte–americanos recusavam ao Brasil.
E lá foi ele.
Primeiro ponto do seu roteiro político-científico:
França. Onde assina um acordo a respeito de extração
e tecnologia do urânio. Na Alemanha, ele vai chegar imediatamente,
através do ex-reitor da Universidade de Hamburgo, professor
Paul Hartek, aos professores William Groth, do Instituto Físico-Químico,
da Universidade de Bonn, Baverle, da Associação Max
Plank para o Desenvolvimento da Ciência, e ao descobridor
da fissão nuclear, Otto Hahn. Álvaro Alberto joga
alto.
Propõe aos cientistas alemães que trabalhem com o
Brasil. Naquele distante país eles encontrariam os recursos
para a sua ação. Eles nada podiam fazer em seu próprio
país, afinal, que estava ocupado pelos aliados, não?
Os cientistas disseram que sim.
IV
O General Caiado de Castro, irritadamente, comentou com
o presidente Getúlio Vargas os carimbos de SECRETO, postos
por Álvaro Alberto, DUAS VEZES, em cada página de
seu relatório de viagem à Alemanha. O almirante estava
convencido de que a vida dos cientistas estaria em perigo, se a
sua futura colaboração com o Brasil chegasse a certos
ouvidos.
Parte dois: uma volta no tempo.
A reunião de 1947 que indignou nosso Almirante.
Por que ele se indignou?
I
Então a história estava naquele ponto: cientistas
alemães iam colaborar com o Brasil num programa nuclear.
Isto acontece no começo dos anos 50. Mas o que isto significa
na ordem das coisas? Que peso tem este fato na política científica
internacional? Ou melhor, na política internacional? Uma
bomba atômica, explodida há cinco anos tinha acabado
com uma guerra que parecia eterna. O átomo era o coração
da Grande Política. Ali parecia que se jogava o futuro do
mundo.
II
Propõe-se então um novo começo para
a história. Estamos no ano de 1946. O Brasil participa de
uma Comissão de Energia Atômica da ONU. Cérebros
brilhantes iluminam a reunião. Não está ali
um Bernard Barouch, dos Estados Unidos? Não está ali
o famoso Vichinsky, da União Soviética?
A tecnologia nuclear, àquelas alturas, estava nas mãos
dos americanos, soviéticos, franceses e ingleses.
A produção ou a posse de matéria prima radioativa
não estava com indianos, canadenses, belgas e, sim, brasileiros.
E lá estava o Brasil na Grande Área dos interesses
internacionais. Sustente-se a metáfora: nosso treinador era
o almirante Álvaro Alberto. Ele não era bobo. Nada
gostou do Plano Baruch dos Estados Unidos. Já é 1947.
Nada gostou daquela melodramática proposta de “vamos
reparar os erros da natureza”.
III
Ou seja: não é de hoje que as injustiças
da natureza são apontadas por quem não tem muito do
que se queixar. Ou não? O almirante Álvaro Alberto
torceu o nariz a quê, exatamente? O Plano Baruch queria reparar
as “injustiças da natureza” que negou minérios
radioativos a quem os necessitava tanto, claro, ou seja, pecado,
aos Estados Unidos! Dar os minerais a uns e não a outros,
ora! Que a Lei compensasse os malefícios do mundo natural.
Em nome do Justo. Em nome do Certo. Em nome de tantas coisas, que
se desapropriassem as reservas minerais radioativas. A sua utilização
seria regulada por uma Comissão Internacional, naturalmente
neutra.
IV
Embarcou nesta canoa nosso Almirante?
Foi o único.
Levantou o dedo. Chiou. Disse que a tese da “reparação
da injustiça” era absolutamente injusta. Ele não
aprovaria tal coisa.
E se tal Plano Baruch foi aprovado, com duas abstenções,
ao menos a sua tese central não passou.
V
O Almirante não ficou bem-visto em certos círculos
depois deste episódio. Mas sua atuação foi
tão brilhante que a revista Time lhe dedicou uma capa, veja-se
só. Ele foi em frente. Escreveu um memorando, com a data
de 25 de novembro de 1947, dirigido ao governo brasileiro.
“É minha convicção que nos encontramos
em face de um dilema decisivo e incorrigível: ou nos preparamos
para tomar posse de nossas riquezas naturais – no caso específico,
atômicas – ou nos veremos constrangidos ao espetáculo
degradante de assistirmos, impotentes, à evasão delas,
por bem ou por mal... É essa a impressão objetiva
que guardamos dos debates em que, com a maior sem-cerimônia
se tratou das matérias primas como res communs, de “reajustamento
das injustiças da natureza”.
VI
Vamos voltar um pouco mais no tempo. E vamos chegar ao
gabinete de um homem muito importante: o presidente dos Estados
Unidos, em pessoa.
Parte três: o presidente Truman coça
a cabeça
e pergunta aos seus homens: o que nós vamos fazer?
I
Talvez o almirante Álvaro Alberto fosse um homem
preocupado com uma certa dimensão de justiça. Talvez
ele fosse um humorista. Talvez ele tivesse esse sentido do ético
aliado a uma boa pitada de humor. O fato é que ele se dispôs
a reparar, num certo momento, as injustiças da natureza que
preocupavam os norte-americanos, desde que eles corrigissem outras
injustiças. O átomo seria de todos, se o petróleo
fosse de todos! Foi isso que ele falou.
II
Mas não íamos começar a falar de um
outro tempo? Começamos então. A 6 de agosto, uma bomba
de mais de vinte mil toneladas de TNT explode em Hiroshima. É
preciso ser mais preciso: era uma bomba mais poderosa do que vinte
mil toneladas de TNT, era a bomba atômica. Ela destruiu a
vida dos homens e dos insetos, terminou com uma guerra, iniciou
outro ciclo da história. O presidente Truman comunicava ao
mundo que a energia desta bomba era fabulosa: “forças
de onde o sol extrai sua potência foram liberadas”.
A referência ao sol não era uma figura de linguagem.
A bomba cósmica abalava os homens. Mas o presidente dos Estados
Unidos tinha uma pergunta a fazer.
III
Pergunta do presidente Truman aos Super-Cientistas criadores
da bomba A, ao seu Secretário de Estado, aos seus Conselheiros
Científicos:
A respeito da bomba... Para onde vamos, daqui?
IV
Os Super-Cientistas disseram que a energia atômica
podia fazer tanta coisa pelos homens, tanta! Mas que era de se temer
que bombas florescessem aqui, ali, com tão grandes perigos
para todos. Era por isto que eles recomendavam a criação
de um organismo internacional que controlasse todas as atividades
deste setor... e que se criasse um organismo internacional, da mais
absoluta confiança dos Estados Unidos, para, rigorosamente,
controlar todas as atividades no setor... Enquanto não surgisse
esse organismo, era essencial o monopólio tecnológico
e de informação. A qualquer preço, este monopólio
deveria ser mantido. Os bons cientistas e os bons profissionais
do setor militar norte-americano recomendavam, ainda, que se fizesse
um estoque dos minerais radioativos, um grande estoque, já
que o país era pobre em urânio e que as nações,
em geral, não estavam atentas à questão.
V
Um aparte breve. Voltamos aos trópicos. Desde 1944,
dentro do esforço de guerra aliado, o Brasil fornece areia
monazítica aos Estados Unidos. Areia radioativa com preço
abaixo do preço da banana.
VI
Quem vai vencer no Congresso americano? May-Johnson ou
Mac Mahon? A dupla May-Johnson (o Johnson que seria presidente dos
Estados Unidos!) perde para Mac Mahon. Ou seja: a tese de que a
energia nuclear deveria ser controlada inteiramente pelos militares.
Monopólio total do setor é concedido à Comissão
de Energia Atômica dos Estados Unidos. A nova lei do Congresso
prevê até a pena de morte para quem violar segredos
nucleares. Por esta lei, um casal vai ser torrado na cadeira elétrica,
os Rosemberg. É esta lei que proíbe, ainda, a venda,
o fornecimento de qualquer informação que possibilite
a qualquer país o desenvolvimento da tecnologia nuclear.
Parte Quatro:
Nós vendemos nossos minérios
Quem nos vende reatores?
I
Assim pensavam os norte-americanos. O que ia gerar uma
área de tensão entre Brasil e Estados Unidos, tendo
como pólo de fricção a questão atômica.
O Brasil saía da Segunda Guerra extremamente identificado
com os Estados Unidos. Apesar desta identificação,
setores políticos e militares não aceitavam a política
nuclear norte-americana, nem as pressões que eram feitas
para que o Brasil vendesse – sem uma compensação
significativa – seus minérios atômicos.
II
É quase impossível andar dois passos, nesta
história, sem dar com a figura de Álvaro Alberto.
A política brasileira de energia atômica praticamente
seria formulada por ele, ainda na discussão do Plano Baruch.
Ele defendia, ainda antes dos anos 50, a nacionalização
de todas as minas de tório e urânio; a revisão
das concessões dessas minerações – antes
da nacionalização se consumar: obrigatoriedade do
tratamento do urânio e do tório, no Brasil: estímulo
a firmas idôneas para que se montassem as primeiras usinas
de tratamento químico dos minérios; formação
urgente de técnicos, nos grandes centros estrangeiros; fundação
do Conselho Nacional de Pesquisas, instituição de
uma Comissão Nacional de Pesquisas; proibição
imediata da transmissão da propriedade das concessões
e das minas, enquanto não se efetivasse a nacionalização;
monopolização de todas as atividades ligadas à
energia atômica; pesquisa livre, mas satisfazendo os imperativos
do interessa nacional.
III
O que significava? Desde 1944, a areia monazítica
brasileira era carregada para os Estados Unidos a um preço,
assim, de quarenta dólares a tonelada. Isto continuou, depois.
Tocar nesta questão, naquela hora, era levantar uma questão
delicadíssima. E o Almirante vinha e dizia tudo isto. E dizia,
por exemplo, num discurso de 1948:
– Impõe-se a nós, inadiavelmente, o dever de
cuidarmos por nós mesmos de promover o aproveitamento de
nossas riquezas, particularmente a atômica, com o concurso,
se necessário, daqueles que estiverem em condições
de colaborar conosco.
IV
Um pouco antes, ele tinha dito:
– Não é possível que se queira expropriar
minerais radioativos do meu país e não nos dêem
uma única compensação, qual seja, a preferência
da utilização dos combustíveis que possa resultar
no uso desses minerais ou na propriedade para obtenção
de reatores primários e secundários.
Seguindo as recomendações de Álvaro Alberto,
o general Dutra mandou uma mensagem ao Congresso propondo a criação
do Conselho Nacional de Pesquisas, que foi aprovado pela Lei 1310,
de 15 de janeiro de 1951.
O artigo 4, da Lei 1310, dizia o seguinte:
– É proibida a exportação de qualquer
forma de tório e urânio, seus compostos e minérios,
salvo de governo para governo, ouvidos os órgãos específicos.
Estes órgãos eram o Conselho Nacional de Pesquisas,
o Conselho de Segurança Nacional ou outro órgão
que fosse designado pelo Presidente da República. (O ex-deputado
Renato Archer, que várias vezes levantou estas questões
na Câmara Federal, diria que esta expressão “outros
órgãos, apontados pelo Presidente”, seria o
furo por onde sairiam milhares de toneladas de minério radioativos
brasileiros).
V
Pouco a pouco explicitavam-se as linhas do drama. De um
lado, um país pobre em fontes naturais de radioatividade,
procurando, de qualquer maneira, abastecer seus estoques. De outro
lado, um país, rico em minérios radioativos, estabelecendo
condições muito especiais para esta exportação.
Assim surgiria a chamada política de compensações
específicas – que seria violada por pressões
externas e indivíduos e grupos internos – mas que,
oficialmente, era um grande problema para os Estados Unidos.
Para falar mais claramente: o Brasil se dispunha a só vender
minérios atômicos a quem, além do preço
justo, se dispusesse a vender equipamentos para que este setor se
desenvolvesse.
VI
As negociações oficiais chegavam sempre até
este ponto: o Brasil reivindicando reatores de potência, os
Estados Unidos, os negando.
Parte Cinco: De como um acordo
semi-secreto, ou secreto, pode modificar
uma política e surpreender homens.
A história da exportação semiclandestina de
minerais atômicos, também.
Mas sabe-se de muitos navios que carregavam areias preciosas como
lastro.
Sabe-se do conflito entre o Itamaraty, no começo dos anos
50, que se colocava contra a cláusula das compensações
específicas, para facilitar sua política com os Estados
Unidos, e o Conselho de Segurança Nacional e o Conselho Nacional
de Pesquisas que defendiam a cláusula, para que o país
adquirisse tecnologia nuclear.
Em 1952 Álvaro Alberto era um incômodo, por sua “intransigência”.
Diz o então deputado Renato Archer, num discurso na Câmara
dos Deputados, que o Almirante fora enviado ao exterior numa “missão
especial”. Assim foi afastado, por algum tempo, do Conselho
Nacional de Pesquisas. Através de pressões do Ministro
de Relações Exteriores, João Neves da Fontoura,
foi assinado um acordo de características secretas, pelo
prazo de três anos, pelo qual o Brasil se comprometia a vender
dez mil toneladas anuais de areia monazítica.
Duas mil e quinhentas delas deveriam ser processadas pela Orquima,
empresa dirigida pelo hoje falecido poeta Augusto Frederico Shmidt.
Em 1954, o poeta foi uma das últimas pessoas que esteve com
o presidente Getúlio Vargas.
Uma das cláusulas do contrato afirmava que os Estados Unidos
poderiam receber, em um ano, o minério correspondente a três
– a seu critério. Outra cláusula: o acordo seria
renovável a cada ano.
À margem do Conselho de Segurança Nacional, da Comissão
Nacional de Pesquisas, do Estado Maior das Forças Armadas
– afirmou-se na Câmara Federal – foi violado um
pacto nacional. O Parágrafo 11 do Relatório Secreto
sobre a política no setor da energia atômica, de 25
de novembro de 1953, assinado pelo Secretário Geral do Conselho
de Segurança Nacional, general Caiado de Castro, é
uma demonstração deste fato. Diz Caiado de Castro
que só tomou conhecimento do acordo negociado com os Estados
Unidos... sete meses depois, isto é, a 22 de setembro de
1952. O acordo foi assinado a 21 de fevereiro de 1952.
“Esta constituiu pela primeira vez no Governo de V. Excelência
a quebra da política defendida pelo Conselho Nacional de
Pesquisas e pelo Conselho de Segurança Nacional, no tocante
à exportação de minerais atômicos”.
O drible no CNPq e no CSN foi dado através da criação
de Comissão de Exportação de Minerais Estratégicos
– que ficou subordinada... ao Ministério de Relações
Exteriores.
“Era a etapa necessária para a neutralização
da política brasileira de minérios atômicos”,
diz um testemunho da época.
E o almirante Álvaro Alberto, como recebeu a notícia
do acordo?
Parte seis: brevíssimo
relato e uma advertência.
O Relato: Diz-que-diz-que. O ministro João Neves
da Fontoura teria dito que era mais conveniente ao Brasil vender
areias monazíticas e tório do que mandar soldados
para a Coréia.
A advertência: documentos secretos dos Estados Unidos desta
época serão liberados, agora. Muitos fatos secretos
deixarão de ser secretos.
Então...
Parte sete:
em que se volta à Parte Um, depois de um
intervalo histórico, e vamos
encontrar Álvaro Alberto na Alemanha e...
I
Então, Álvaro Alberto desiste da tecnologia
norte-americana, e vai à Europa. E chega à Alemanha.
Os cientistas alemães tinham ido longe na pesquisa do átomo.
Einstein, em 35, escreveu uma angustiada carta ao presidente dos
Estados Unidos, e nela dizia que a Alemanha nazista poderia chegar
à bomba atômica. “Mas Hitler achou que dois anos
era muito tempo” – diz Renato Archer, e desestimulou
as pesquisas. Além disso, alguns cientistas eram judeus,
e fogem da Alemanha. (Lisa Meiner foge, vestida de freira).
II
1952. Alemanha ainda ocupada. Em várias cidades,
grupos de cientistas constróem peças da centrifugadora.
Há um cheiro de conspiração em tudo isto.
III
O Instituto Físico-Químico de Bonn recebe
oitenta mil dólares. A transferência é feita
pelo Banco Germânico para a América do Sul. É
o preço de três ultracentrífugas. Com estes
aparelhos, os alemães esperavam poder fabricar urânio
enriquecido necessário para o reator de urânio levemente
enriquecido.
IV
Frase de Renato Archer, na Câmara Federal, em 56:
– Mais tarde saberíamos que por este caminho se poderia
chegar até a fabricação da própria bomba
atômica.
Parte Oito: se esta história lhe parece
misteriosa,
prepare-se: o mistério está apenas começando.
I
“Esse complô” – diz Renato Archer
– “prossegue até o dia em que, prontas as partes
do equipamento fabricado em várias partes da Alemanha, precisou-se
pedir a algumas autoridades brasileiras providências para
a exportação do equipamento”.
II
Álvaro Alberto havia pedido a Getúlio Vargas,
o Presidente, que o “material” fosse embarcado, com
a dispensa de certos vistos necessários. Getúlio Vargas
concorda. São transmitidas, através do Itamarati,
ordens ao embaixador Edmundo Barbosa da Silva, na Alemanha. O embaixador
transmite ordens aos cônsules das cidades alemãs. O
“material” deve vir para o Brasil sem as tramitações
burocráticas de praxe.
III
Menos de doze horas depois, o “material” é
apreendido pelo Military Board of Security. A Alemanha, ocupada,
era governada alternativamente por americanos, russos, franceses,
ingleses. Os governantes de plantão eram ingleses. A Alemanha
era governada, naquela hora, pelo brigadeiro, inglês, Harvey
Smith. O que tinha a Inglaterra contra o embarque das peças
de laboratório?
IV
Getúlio Vargas manda Álvaro Alberto à
Alemanha. Missão: discutir com as autoridades de Ocupação
a liberação do material.
V
Álvaro Alberto diz ao Brigadeiro inglês que
é muito estranho que a Alemanha, país ocupado, possa
produzir o equipamento. E que o Brasil, país aliado, não
possa importá-lo. O Brigadeiro inglês lhe responde:
– O meu governo não tem nenhuma objeção
a apresentar à retirada desse equipamento, mas eu sou aqui
o fiel cumpridor da vontade de quatro nações. Quem
me pediu a apreensão do material foi o Alto Comissário
Americano, professor James Conant. A liberação depende
exclusivamente de sua autorização.
VI
Não foi nada simpático o Alto Comissário
norte-americano com Álvaro Alberto. E os dois se conheciam,
eram igualmente professores de química, já haviam
participado de congressos internacionais... O professor James Conant
recebeu o almirante num sábado, e nem ao menos mandou que
ele se sentasse... Conversaram em pé.
VII
Na conversa rápida, ouviu o almirante que ele, James
Conant, nada tinha a opor à saída dos aparelhos. Estava
convencido de que a capacidade dos aparelhos de enriquecer o urânio
não iria ao ponto de possibilitar a fabricação
da bomba atômica. Mas o presidente da Comissão de Energia
Atômica dos Estados Unidos, Lewis Straus, tinha dado ordens
precisas: os aparelhos não deviam sair da Alemanha.
VIII
Álvaro Alberto entra em contato com Getúlio.
E vai aos Estados Unidos conversar com o novo presidente da Comissão
de Energia Atômica dos Estados Unidos. Diz Lewis Straus que
não poderia liberar o equipamento retido na Alemanha. Mas
que os Estados Unidos estavam dispostos a ajudar o Brasil no setor
da energia atômica.
IX
Ah, sim. Pois o Brasil faz um pedido de equipamento para
refinação de urânio, usina para fabricação
de hexafluoreto, reatores primários e secundários.
X
O requerimento de Almirante Alberto é preciso. O
Almirante Lewis Straus lhe diz, simplesmente, que o “material
pedido não existia. Era invenção da imaginação
fantasiosa dos cientistas”.
Parte Nove: onde se narram
alguns fatos absolutamente isolados, ou não.
E se encerra esta história sem final.
I
“No dia 23 de agosto de 1954, véspera da morte
de Getúlio Vargas, ele autorizou, do seu próprio punho,
mais uma exportação de areia monazítica, depois
de, em dois despachos consecutivos, haver concordado com a recusa
do Conselho Nacional de Pesquisas e do Conselho de Segurança
Nacional. Poder-se-ia supor que ele, ao se submeter à exigência,
pretendesse fazer cessar a pressão que era exercida sobre
o governo brasileiro. Essa exportação vai ser realizada
durante o governo Café Filho, com os protestos do Conselho
Nacional de Pesquisas, mas com a concordância do Itamaraty.”
(Renato Archer, discurso na Câmara Federal, a 9 de novembro
de 1967).
II
Pouco antes de sua morte, Getúlio Vargas esteve
com um dos homens ligados à exportação de minérios
atômicos, Augusto Frederico Schmidt.
III
“Durante cerca de três anos, os Estados Unidos
vêm tentando estabelecer um acordo sobre energia atômica
com o Brasil, sem maior sucesso.
A principal figura, nessas negociações, do lado brasileiro,
tem sido o Almirante. Os Estados Unidos chegaram à conclusão
de que, provavelmente, é impossível chegar a qualquer
entendimento satisfatório, mediante novas negociações
com o Almirante, ou com o Conselho, tal como se acha atualmente
constituído.” (Documento secreto, de 1954).
IV
“O Almirante parece confiar, grandemente, em certas
negociações que fez na França e na Alemanha.
Não compreendemos como essas negociações poderiam
dar lugar a resultados práticos para o Brasil, em futuro
próximo.” (Do mesmo documento).
V
“O Almirante, pressionado a assinar o acordo de pesquisa,
recusou–se a fazê–lo, demitindo-se em carta de
13 de janeiro de 1955 ao Presidente Café Filho.” (Renato
Archer, Câmara Federal, 6 de junho de 1956, 9 de novembro
de 1967).
VI
“As ultracentrifugadoras brasileiras (produzidas
na Alemanha) vieram para nosso país em 1956, e foram colocadas
no Instituto de Pesquisas Tecnológicas, em São Paulo,
e lá abandonadas.” (ainda Renato Archer).
_____________________________________________________________
Álvaro Alberto da Motta e Silva morreu a 1º de fevereiro
de 1976, aos 87 anos. Morreu sem satisfazer um dos seus grandes
desejos: participar da festa de inauguração do reator
nuclear de Angra dos Reis, que tem este nome: Almirante Álvaro
Alberto. Cursou a Escola Naval, matriculou-se em 1910 na Escola
Politécnica do Rio. Dedicou-se à carreira militar,
foi professor e pesquisador. Logo depois da II Guerra, em 1946,
foi o presidente da Comissão de Energia Atômica, da
ONU, onde representava o Brasil. Foi o inspirador e primeiro presidente
do Conselho Nacional de Pesquisas, e esteve na Comissão Nacional
de Energia Atômica. Lecionou Química na Escola Naval,
de 1919 a 1946. A discordância com a política nuclear
do governo Café Filho fez com que ele se afastasse do CNPq
e da CNEA. Sua morte foi lamentada por pessoas das mais diversas
correntes políticas.
“Ele defendeu os interesses brasileiros, sempre”, escreveu
neste dia Barbosa Lima Sobrinho, numa crônica no Jornal do
Brasil.
Memorial do gaudério
Gaudério é um homem que
não aceita castigo.
Gaudério é um homem que foge, que anda pelas campanhas,
que vai levar consigo sua vida e misturá-la com a do índio.
E que vai conhecer o uso das plantas, os remédios,
as simpatias. Do gaudério nasce o pajador.
Por Paulo Barros •
Versus 8 • março de 1977
I. Das raízes
As raízes de tua história, América, se espalham
por todas as Pátrias que te dividem. Da exploração
de tuas bandeiras, que descobriram as nascentes e navegaram por
teus rios, surgiu o povo gaudério, encravado em Três
Nações, que insiste em resistir, contrabandeando a
história na alma dos pajadores.
Depois de derramar em cachoeiras o sangue dos incas, os invasores
descobriram a prata de Potosí. Os galeões dos conquistadores
arrancaram o minério de tuas entranhas, e seguiram de volta
para a Espanha, pelo Estreito do Panamá. No mar das Caraíbas,
ingleses, franceses e holandeses assaltavam os galeões espanhóis,
na guerra pelos tesouros.
E o Rio Paraná era percorrido e devassado por espanhóis
e portugueses. Fugindo dos assaltos inimigos, os espanhóis
fundavam pequenas colonizações – as que vão
dar origem a Assunção, Buenos Aires, Corrientes, Santa
Fé. Ali, os espanhóis buscavam proteção.
Um gado gordo no más povoava essas planuras.
Então nasceu o gaudério.
II. Das histórias
O dia estava coberto pelas nuvens de agosto. Neste mês, ele
contava as histórias mais tristes. Sentado a cavalo na cadeira,
contava as lendas das ruínas de São Miguel e das pedras
preciosas que os ourives diziam nada valer. O mês de agosto
é assim por causa das tristezas que existiam nas ruínas
de São Miguel. Em agosto, por lá, não se casa,
não se faz nada. Mês azarado.
Mas na frente do ranchinho de capim Santa Fé, sentado lá
fora, tomando chimarrão ou café de inhame, as batatas
no borralho, o velho gaudério Zeferino Cavalheiro do Amaral
– magro, alto, mestiço e jesuíta – ensinava
ao neto as rezas, os remédios, as lendas que aprendeu nas
viagens.
Viajava muito o velho. E cada vez que voltava ao ranchinho do filho,
no Passo da Ronda, mais cansado estava. E mais doente. Bateando
a areia. Arrancando a pedra dura como a própria vida. Acampado
o ano inteiro. Solitário e andarengo. Mas no mês de
agosto ele ficava em casa. Contava histórias para o neto.
Preparado para enfrentar incursão até do diabo.
Gaúcho a pé. No forno de barro do rancho, atirava
as pedras verdes, azuis e vermelhas, que ele mesmo preparava, como
índio, para ver se botava nos olhos do ourives o mesmo brilho
que sentia quando olhava cada uma.
Atirado pra trás. Atiradão no más.
No mês triste, com a alma e a esperança no peito, contava
as lendas das ruínas de São Miguel.
E quando a República Guaranítica era uma próspera
nação, certa vez os jesuítas encontraram, desgarrada
no pampa, a serpente gigantesca. Olhos de fogo, asas quebradas,
a coitada estava ferida. Era uma serpente filhote. Bondosos que
eram, os padres levaram a serpente filhote para a igreja, e a criaram
num porão. Com o tempo, a serpente foi crescendo, e cada
vez que um índio ia levar comida no porão, a serpente
comia o índio. Os jesuítas, então, resolveram
colocar a serpente numa torre, bem presa por grades. (Por ali, passava
a comida para a retovada). Até que um dia vieram os estrangeiros
e expulsaram os jesuítas, e mataram os índios, fazendo
tantos milhares de escravos, deixando tantas mães sem filho
e tantos filhos sem mãe. E a serpente ficou sozinha, a pobre.
Quase nunca comia. Mas vez que outra um paisano subia na torre,
atrás do ouro dos padres, e enchia a barriga do bicho. Por
isso, pelas pessoas que comeu, como castigo, Deus mandou um raio,
que entrou pela torre, e acertou a serpente na cabeça. Até
hoje, quem for às ruínas de São Miguel, pode
encontrar as marcas de graxa do monstro, que escorreram pelas paredes
da torre da catedral dos jesuítas.
Ninguém me fale de penas
Porque eu penando vivo
E ninguém se mostre altivo
mesmo estando por montar
pois a pé pode ficar
até o gaúcho mais vivo.
Junta experiência na vida
até pra dar e emprestar
quem a teve que passar
entre sofrimento e pranto
pois que nada ensina tanto
como sofrer e chorar.
III. Da raça
Desde os primeiros momentos da ocupação espanhola
na América, os invasores se estabeleceram como raça
superior. Sangue de gente era sangue espanhol. Mas os colonialistas
não traziam mulheres. E a terra americana espalha o seu sangue
pelo sangue europeu. E começa a se criar uma geração
mestiça.
Aos olhos do conquistador, sangue índio não prestava.
O mestiço segregado. Isolados nos castelos de pureza, os
espanhóis eram minorias. Povo não tinha direito a
heranças. Povo era no máximo administrador de fazenda,
fosse comportado ainda o indivíduo. Impossibilitado de progresso
numa sociedade fechada, o mestiço torna-se um rebelde. Parte
sem rumo pelo pampa. Passa os dias pajando e peleando, desabafando
a opressão.
Mas as suas atitudes contestadoras também servem ao opressor.
E o seu temperamento retovado é canalizado para a guerra,
onde o gaúcho aprende a esgrima do facão.
Limpei o facão nos pastos
desatei meu redomão;
montei sem pressa e saí,
ao tranco, pra o canhadão.
Soube, depois, que ao finado
nem mesmo sequer velaram
e, retovado num couro,
sem encomenda o enterraram.
IV. Das gerações
Filho de velho gaudério, que andou o pampa todo atrás
de pedras preciosas, João Batista Cavalheiro do Amaral, chamado
Cavalheiro, filho do Zeferino Cavalheiro Amaral, é um gaúcho
pobre, mas de muita honra e coragem, que já peleou a facão
com o próprio diabo. E venceu.
Quem conhece Cavalheiro sabe que ele é um homem muito bom,
trabalhador, mas sabe também que por algum motivo pega da
adaga, até do tempo sai faísca, e até a noite
se ilumina.
Com o pai aprendeu a esgrima do facão.
Para o filho ensinou o que sabia.
Plantou em Ijuí, nas terras dos índios pobres, que
pediam esmola, comida... e bebida. Na frente da casa de costaneira,
tocavam gaita de boca e violão. Bêbados, os desgraçados.
Não tinha cavalo em casa, nem carroça. Acreditava
na fortuna. Sonhava com as panelas de dinheiro.
A panela de dinheiro é uma panela de barro que se faz cobrindo
uma panela de ferro. A panela vai para o forno e depois de seca
é recheada de ouro e enterrada no chão a bem de motivo
qualquer.
Cavalheiro acreditava na fortuna. Numa manhã do mês
de agosto, ele tropeçou num buraco onde uma panela de dinheiro
tinha sido enterrada. Mês azarento. Ela foi levada por algum
taura sortudo. Mierda.
Quando brigou com o diabo estava são numa encruzilhada lá
do Rincão do Tigre indo para o Passo da Ronda. O galo preto
apareceu batendo as asas. Do chão se levantou um bicho velho,
a coisa mais feia deste mundo, com uns olhos iluminados como tochas
e umas guampas que reluziam ao luar.
Arrancou do facão e se atracou. O bicho amoleceu e sumiu.
Foi assim que João Batista Cavalheiro do Amaral, chamado
por Cavalheiro, venceu o diabo, galo preto.
V. Dos desafios
O gaudério é um homem que toca sua viola,
fazendo sua música de improviso. Cantando coplas, que é
o desafio brasileiro. É o homem que fez a guerra (quantas
vezes a mando de outros?). É um homem que se desenvolve em
terras de horizontes distantes. Nunca teve direitos. Mas repudiou
os deveres, e sua vida era a luta contra o estabelecido (pelas mãos
dos outros)...
Não aceita a ordenação do trabalho das fazendas.
Nos postos militares, onde nos primeiros momentos de ocupação
se organizavam pequenas sociedades civis, a disciplina imposta era
a dos militares. Rigoroso o castigo das faltas disciplinares.
Gaudério é o homem que não aceita o castigo.
Gaudério é o homem que foge, que anda pelas campanhas,
que vai levar consigo sua vida e misturá–la com a do
índio. Que vai conhecer o uso das plantas, os remédios,
as simpatias.
Do gaudério nasce o pajador.
VI. Da fuga
Em setembro, ele foi até as ruínas de São
Miguel ver com seus próprios olhos a graxa de uma serpente
que morreu há muito tempo numa torre porque Deus lhe acertou
um raio na cabeça. O dia clareava. Índio Potiguar
ficou muitas horas quieto. Pegou a viola, tentou cantar o que sentia.
Emocionou–se: ali estava a marca da graxa da serpente, como
seu avô, Zeferino Cavalheiro do Amaral lhe contara. A marca
da graxa da serpente. Pensou nos jesuítas e nos índios.
Andarengo. Índio Potiguar fugiu de casa com 14 anos. Com
12 ganhou do pai, João Batista Cavalheiro do Amaral, um violão.
O velho ensinou a primeira posição de uma milonga
antiga. Ré maior.
Cantou nos bolichos de Nonoai, a cidade que o chamou de caboclo
para não o chamar de negro. Depois, foi embora. De churrascaria
em churrascaria, engraxando a guitarra, de bolicho em bolicho, de
galpão em galpão.
Cantor povoeiro é poeta...
Canta o gaúcho... ai, Jesus...
o miram como avestruz,
sua ignorância os assombra,
mas sempre serviu a sombra
para ressaltar a luz.
Quem me queira corrigir
muito terá que saber,
terá muito que aprender
quem me souber escutar
terá muito a meditar
quem me souber entender.
Prestem–me, pois, atenção
se assim me querem honrar,
senão terei que calar,
pois o pássaro cantor
jamais se põe a cantar
em rama que não dá flor.
A borracha, a selva,
os heróis sem nome
Soldados de uma guerra perdida, os sobreviventes
do
Exército da Borracha tinham que vencer as longas viagens
nos rios, os chefes prepotentes, os salários minguados,
a condição de seringueiros. Estamos no ano de 1942,
e....
Por Luiz Egypto •
Versus 8 • março de 1977
Esta é a história de homens sem nome – soldados
sem fortuna que lutarão nas selvas (sem armas). Serão
levados por forças que não conhecem para a guerra.
Ganharão o nome de soldados da borracha. Estamos em 1942.
A borracha da Amazônia havia sido abandonada há um
bom tempo. O colonialismo inglês plantava seringueiras na
Malásia, Ceilão, Java e Bornéus. O ciclo da
borracha se encerrava no Brasil. Mas, agora, era o tempo da II Guerra.
Submarinos alemães vigiavam aqueles mares. A batalha da produção
exigia borracha para os aliados. O presidente Getúlio Vargas
decide criar o Exército da Borracha. Zé Tupi veio
de São José de Lage, Alagoas. Foi alistado em sua
cidadezinha. Foi um soldado da borracha.
– Eram eu e mais mil e quatrocentos e tal no navio do Lóide.
E fora o embarque saído na frente. E fora o embarque que
veio depois. O pouso era uma casona grande e tudo, as redes atadas.
Hora de comer era o canecozinho pra farinha e o prato pra comida.
Era eu e um irmão meu que agora está em Manaus. Olha,
eu queria que o senhor visse o que nos falavam na hora do registro,
Deus o livre, mas o cara dizia: “olha, é juntar dinheiro
com a mão mesmo, debaixo da seringueira”. Foi diferente.
Mas aquele homem tinha que mostrar um seringueiro bonito, de reclame,
no mato limpo, e ele nos dizia: “lá é assim”.
Que nada, seu, era diferente. E tinha onça no mato, que comia
gente. Agora, é a onça que foge. A gente quando vê
uma onça já fica mais animado para ver se ela vem
mesmo pra perto da gente, eh, eh, eh!
O nome deste outro homem é José Benedito Ferraz. Veio
do interior da Paraíba. Também vai falar daquele tempo.
Fala numa estrada que vai de Leopoldina a Petrolina. Mas o exército
toma conta da estrada. Ele e outros trabalhadores decidem ir para
o Exército da Borracha.
– Não. Não era tão fácil como
eles diziam que ia ser. A gente ia chegando e vendo que não
era fácil. Tinha um capitão lá no pouso, que
quando saiu um pessoal embarcado para o rio, parece que para o rio
Javari, aí, no dia em que saíram, ele deu um discurso,
e nesse discurso, ele terminou chorando. “Olha – ele
falou – vocês vão, se vocês não
se derem bem, podem voltar que aqui o pouso está aberto pra
vocês, à hora que chegarem”. Aí nós
ficamos desconfiados. Não podia ser um bom rio, não?
Porque prum camarada dar um discurso e findar chorando... Ele estava
pensando em algum sofrimento lá do pessoal que saía,
não? Aí nós chegamos, fomos pro rio Juruá,
e lá tinha um capanga, e se a pessoa tirava um saldo, por
exemplo, o patrão ia pagar... O camarada era levado pro mato,
e o capanga matava dentro dos caminhos. O saldo era assim: por exemplo,
eu estou trabalhando com o senhor, eu compro do senhor, aí
embarco minha borracha, o produto que eu fizer dá mais do
valor que eu lhe compro, isto é, o saldo que eles chamam
aqui. Aí eu tirava um conto ou dois de saldo. O patrão
chamava um camarada e falava: vai tirar um assaí com o moço.
E ganhava as matas. E chegava lá dentro e matava o empregado
pra não pagar. Naquele tempo, a justiça era a bala,
o capanga. Depois é que foi se criando a lei.
Por cada homem alistado, um agente ganhava cem mil réis.
Depois de alistados, eram levados para Fortaleza. Lá, eram
empilhados na coberta e nos porões dos navios do Lóide.
Seguiam para Belém. O porto de pouso era Ponta Pelada, em
Manaus. Do pouso, saíam com destino certo. Os donos dos seringais
freqüentavam os grandes galpões, repletos de redes atadas,
em busca de homens para trabalhar em suas terras. Os galpões
eram cercados por uma cerca de arame farpado. O patrão escolhia
seus empregados pelo mocotó, pela canela. Quem tinha canela
fina, era bom para andar no mato. Quem tinha canela grossa, não.
Não iria agüentar os chupões do chavascal e do
carapanã.
– Rapaz, – vai falando o mesmo José Benedito
Ferraz – quando eu cheguei na mata, achei muito difícil.
A primeira vez que eu cortei seringa foi em Quari, aí no
Barro Alto. Foi um rapaz nos ensinar a cortar, porque ninguém
sabia. Levou nós pra lá e passou uma semana ensinando
como é que era. A gente levantava cedo, três ou quatro
horas da madrugada, fazia o café e tomava com uma carne assada,
aí ganhava o mato e ia chegar de volta era uma ou duas horas
da tarde. Aí, quando chegava com o leite, ia fazer fogo pra
fazer um café e alguma coisa pra comer, então é
que ia defumar aquele leite pra fazer a borracha. Trabalhei uns
vinte anos no Japurá cortando seringa. Lá tinha índios,
mas em pouco tempo eles amansaram. E a região que eu fiquei
não era muito doentia mas agora esse rio Tefé... escapou
bem pouco seringueiro lá... Um deles baixou aqui e não
tinha um fio de cabelo. Era a beribéri, a tal da febre que
derrubava os cabelos... Daí ele fez uma jura que nunca mais
ia cortar seringa. Ele nunca mais cortou mesmo.
Cadê a bota até o joelho?
Cadê a espingarda?
Cadê o terreno limpo?
Era trabalhar no igarapé perdido. Era cortar seringa o dia
todo. Era entrar a noite defumando. Era morrer de febre, ser picado
por tachi. Enfrentar onça, enfrentar cobra. Vender toda a
produção para o patrão. Comprar mantimentos
só do patrão. Com os preços que o patrão
queria. Eles iam fazer o quê?
Histórias da seringa. Os donos fechavam os rios e exerciam
sua autoridade sobre aquelas terras. Zé Tupi e suas lembranças:
“Só porque é dono dos terrenos, lote e mais
lote, eles querem mandar demais. Isso é até privação,
né? A mata tem a sova, tem a seringa, tem a castanha. Quer
dizer: só bastava o patrão dizer: entre a boca desse
rio e as cabeceiras, o terreno é meu. Não tem que
colocar a mão. O povo ficava com medo”.
O primeiro trabalho nas matas era abrir estrada. Eram caminhos abertos
na selva. Levavam até as seringueiras. Trilhas marcadas por
rastros, balizadas por árvores previamente escolhidas no
meio dos igapós, atoleiros, troncos abatidos, grandes formigueiros,
gigantescas castanheiras ou sapopembas que o seringueiro era obrigado
a contornar. No fim, ficava um zigue–zague enorme que era
percorrido pelo soldado da borracha. Todos os dias andando até
vinte quilômetros por vez. Cada um na sua própria estrada.
“A gente chegava (lembranças de Zé Tupi) e via
tudo estranho ali. Não se conhecia nem o tachi, um bichinho
desse tamanhinho, que ferra e fica um calombo que arde que só
o diabo. A gente não esperava e o tachi descia na roupa da
gente e a gente ficava, ô formiga danada! E os mateiros ficavam
ali só gozando a cara da gente, os camaradas que eram arigó
mesmo... Quando eu vim para cá era tipo boiada, por isso
que chama arigó: bando de pássaros ah, ah, ah, quem
tivesse mocotó grosso eles diziam que não queriam
não, porque era vagabundo, não dava pra andar ligeiro
com perna grossa, ah, ah, ah”.
Calcula-se que uns cem mil nordestinos participaram desta migração
forçada. Uma porção deles está soterrada
no meio da mata. Um outro tanto ainda vive por aquelas bandas. Muitos
não voltaram às regiões de origem por absoluta
falta de dinheiro para pagar a viagem. Outra vez se fala em reativar
os seringais. Zé Tupi acha que não dá.
“Veja o senhor, a 50 contos o quilo do café, onde o
pobre pai de família que tiver seis filhos pra criar vai
arrumar jeito de viver? Pelo menos se não existisse essa
raça de comerciantes! Eles massacram a população!
Mas o negociante também está encalacrado em tirar
o dinheiro do bando para pagar! Eu não volto pra seringa
porque estou de barba branca, pra dar topada não dá
mais não. Estou na Amazônia desde 43 e de tudo já
fiz: cortei seringa, tirei madeira, tirei sova, marisquei pirarucu,
marisquei jacaré, de tudo já fiz”.
(O ciclo da borracha: metade do século dezenove, a descoberta
das propriedades do leite viscoso que corria dos cortes dados da
seringa, interessando ao mundo industrial. Prosperidade sem precedentes
na Amazônia. Os testemunhos dessa época ainda estão
por lá, em Belém e Manaus, nas moradas da burguesia
que enriqueceu com a borracha). 1873: o colonialismo inglês
bota os olhos nos seringais. A famosa passagem do botânico
James Collins, a serviço de Sua Majestade. Recolhe centenas
de sementes da hevea brasiliensis. Publica estudo sobre processos
de corte, colheita, preparação do látex. Outro
botânico, Henry Wickhan, ainda a serviço de Sua Majestade,
publica estudo sobre processos de corte, mil sementes em uma estufa
especial montada em seu navio. Em Belém convidou os agentes
alfandegários e autoridades portuárias para um grande
jantar a bordo e polidamente se desculpou por não poder mostrar-lhes
o conteúdo da estufa: ela continha mudas de orquídeas
encomendadas diretamente por Sua Majestade britânica para
enfeitar seus jardins e qualquer violação das especiais
condições da estufa poria toda carga a perder. O ardil
deu certo. Plantou as sementes em Paradeniya, Ceilão, onde
vingaram 2.800 árvores. Começava ali a decadência
da borracha no Amazonas.
Em 1881 as primeiras plantas já frutificavam em Singapura
e de lá outras sementes foram levadas para a Malásia,
Java, Sumatra e Bornéus, e antes do fim do século
XIX as primeiras partidas de borracha asiática eram vendidas
na Europa. Na Amazônia, as seringueiras estavam espalhadas
pela selva enquanto nas colônias inglesas foram plantadas
em áreas especiais, tornando sua exploração
mais fácil e barata.
Em 1912 a produção brasileira atingiu 42.000 toneladas,
correspondentes a uma receita de 16.800.000 libras esterlinas. Foi
o ponto culminante desde que tinha começado a sofrer mais
sensivelmente os efeitos da concorrência asiática,
e, em 1930, o Brasil detinha apenas 1% da exportação
mundial, estimada em 800.000 toneladas. O desastre acarretou a desarticulação
total da economia amazônica: falências aos milhares,
paralisação da exploração dos seringais
e da frota fluvial que garantia o transporte do produto, além
do desemprego.
– A borracha dá na fumaça. E na fumaça
ela mesma se acaba. Um dito certo é esse.
Assim falou Zé Tupi, pensador do sertão.
Paulo Freire:
o andarilho do óbvio
O educador Paulo Freire conversa com
os repórteres
de Versus na Guiné–Bissau, dá seu testemunho
sobre
a educação no Brasil e no mundo, e diz que foi ingênuo
na procura, na crítica e na análise do que viu.
Por Licínio de Azevedo e Maria
da Paz Rodrigues
Versus 8 • março de 1977
Professor, pedagogo, aluno. Passageiro certo para as companhias
aéreas internacionais. Vinte dias em Angola, alguns na Suíça,
Cabo Verde, Guiné–Bissau. Escala em Paris, África.
Seminário na Inglaterra, Alemanha, debate em São Tomé.
Paulo Freire, pernambucano, 52 anos. Um andarilho do óbvio.
Endereço para correspondência: Genebra, Suíça.
Mas o óbvio nem sempre é óbvio. E nessa andarilhagem
pelo mundo, ele descobriu que é preciso falar do caráter
político, natural, intrínseco da educação.
É preciso arrebentar a casca, olhar por dentro. Pôr
o miolo na mesa para discutir.
“A minha prática é social e não individual.
Isso não significa que nela não exista uma dimensão
individual. Quando procuro lembrar o início das minhas preocupações
com o processo educativo, a minha curiosidade, sinto que isso me
sacode para uma porção de anos atrás. E recordo
que desde o princípio, desde o primeiro momento em que fui
curiosamente atraído pela ação educativa, por
n razões, já orientei a minha mirada à análise
do que fazer no Brasil de forma crítica ao sistema educacional
tradicional que se impunha como objeto da minha reflexão.
E fui ingênuo nesses primeiros momentos. Na minha prática,
na perspectiva de procurar, criticar e analisar tudo o que via quanto
à educação. E uma coisa engraçada. A
prática que tive, sobretudo na educação de
adultos, era uma prática que acho correta. Era dinâmica
e funcionava, tanto quanto possível, dialeticamente.
Foi na sua análise, na tentativa de teorizá–la,
que fui ingênuo. Quem lê o meu primeiro livro, “Educação
com prática de liberdade”, percebe que não faço
alusão, nem ao menos uma vez, ao caráter eminentemente
político da educação. E isso foi uma ingenuidade.
Não quero a minha defesa. Pelo contrário, quero fazer
a minha crítica. Embora naquela época, ao lado dessa
ingenuidade, para mim fundamental, eu já tivesse anúncios
críticos. Um dos erros de quem me analisa hoje e faz artigos
sobre mim, que me critica, com acerto, em relação
a este primeiro livro, é justamente parar na leitura dele.
É importante ler o que escrevi depois para saber se continuei
insistindo naquela ingenuidade. Que então não seria
mais apenas isso, mas um jogo astuto, ideológico, no qual,
através de uma posição de classe, eu procurasse
emascarar o processo educativo a serviço das classes dominantes.
A minha prática continua. Ainda estou vivo. E é exatamente
essa prática que não parou quando deixei o Brasil.
Que continuei em outros países da América Latina,
nos países chamados do primeiro mundo. Ela me ensinou a ver
o que não tinha visto antes. Esse é um esforço
que faço constantemente: pensar sempre a prática como
único meio de pensar certo.
Eu havia feito a denúncia do sistema até mesmo na
época da ingenuidade. Mas faltou precisão em certos
conceitos. Era necessário esclarecer melhor esses conceitos
como fiz em trabalhos posteriores. Se não fizesse poderia
dar margem a uma certa recuperação, ao uso do que
eu dissera por parte de certos grupos. Uma das minhas grandes preocupações
atualmente é ser claro. O mais claro possível na análise
do fenômeno educativo como um fato político.
A minha primeira experiência com adultos não foi inicialmente
no campo da alfabetização. Mais exatamente no terreno
que podemos chamar de pós-alfabetização, independentemente
das pessoas serem alfabetizadas ou não. Eu tentava realizar
com eles uma discussão da realidade. Desafiá-los a
fazer uma releitura de sua realidade. E é curioso que tenha
feito isso, que é um fato político e, ao teorizar,
não fizesse referência ao caráter político
da educação. Há certas coisas inexplicáveis.
Não. No fundo podem ser analisadas: eu também tinha
os meus condicionamentos. A minha própria posição
de classe, na qual, evidentemente, estava ideologizado.
Tinha 23 anos quando comecei esse trabalho com adultos. Estudava
durante um período do dia e no outro trabalhava com pais
de crianças ligadas às escolas primárias de
áreas populares de Recife. Procurava interpretar com os pais
os problemas dos filhos na escola. Isso me abriu uma oportunidade
enorme de aprender. Com o analfabeto, com o semi-analfabeto. Estou
escrevendo um livro, uma espécie de relatório sobre
tudo isso, sobre as experiências em que estive envolvido até
hoje.
A minha infância foi um pouco dura, não tão
dramática quanto outras infâncias. Mas nela tive possibilidade
de ter companheiros da mesma posição que eu, classe
média, também filhos de operários, camponeses.
Isso me proporcionou um aprendizado fantástico. Ao lado dessa
experiência da fome, aprendi muito bem a compreender como
é difícil para uma criança que não come
assimilar as lições da escola primária, secundária.
Eu mesmo experimentei essa dificuldade. De ler e não entender.
De abrir o caderno de lições de geografia e ter que
fechar os olhos, com aquela alimentação terrível:
França, capital Paris, Inglaterra, capital Londres. E também
se dizia – repete, menino repete que tu aprendes. Eu tinha
que repetir e fechava os olhos. Não podia aprender aquilo
porque a única geografia que conhecia bem era a da minha
fome. A geografia dos quintais onde eu ia roubar bananas e jaca.
Essa era a geografia que conhecia. Sabia o melhor local para esconder
a banana, abafada nas folhas da própria bananeira.
Na juventude, reatei contato com os operários. Aí,
já como educador que começava a aprender a ser educador,
com eles. Esse reencontro foi incrível. Lembro que custei
a suportar certo tipo de erros, mesmo apesar da minha experiência
anterior que me ajudava a ter comunicação fácil
com esses adultos. Custei a vencer alguns aspectos da pedagogia
tradicional. Por exemplo, a mania de fazer discursos.
Também comecei fazendo os meus discursos. Discursos em que
criticava a pedagogia tradicional. Só depois de algum tempo
pude fazer a coerência entre o discurso crítico que
pronunciava e a prática que propunha. Então fui superando
os discursos e entrando na experiência dialógica. Propunha
uma certa temática e discutia com os grupos. Pedia sugestões
sobre que assuntos poderiam ser discutidos na próxima reunião.
E elaborávamos os temas sugeridos. Passei a fazer discussões
em torno do assunto proposto em vez de conferências. É
um aprendizado que vai se tendo.
Nessa época já me preocupava em ter uma compreensão
histórico-cultural do Brasil. Em adquirir uma visão
da história da educação, interessava-me conhecer,
no tempo e no espaço, as teses dos chamados filósofos
da educação. Sem desprezar um estudo sistematizado
ou o pensamento e as experiências de outros educadores, preocupava-me,
principalmente, em pensar a nossa realidade. Em como realizar um
trabalho no campo da educação em função
dessa realidade.
Eu procurava superar os modelos estranhos. Não que estivesse
negando as experiências de outros contextos. Já percebia,
como hoje, que as experiências se reinventam, mas não
se transplantam. Então, não estava interessado, de
maneira nenhuma, em utilizar projetos de outras realidades para
segui-los ou transferi-los para o Brasil. Compreendi também
que dentro do próprio contexto brasileiro existe uma série
de variações. Mais tarde, na campanha de alfabetização,
percebi que o programa de trabalho deveria variar até dentro
de uma mesma área de uma capital como Recife. As palavras
geradoras aplicadas num bairro não seriam, necessariamente,
aplicadas em outro.
Tive essa preocupação desde jovem. Na escola, sentia-me
como se estivesse sendo enchido de conteúdos. A qualquer
nível, coisa que analisei depois na “pedagogia do oprimido”.
Por isso, quando faço uma crítica, ela resulta da
prática. Porque eu participei. Não só enquanto
crítico dessa prática, também como objeto dela.
A crítica foi se clarificando na medida em que fui tendo
uma prática distinta ou mesmo propondo. A prática
é, realmente, a matriz do conhecimento. A prática
social.
O problema não está na escola. Eu digo que não
há escola nem boa nem má em si mesma. Ela não
é uma categoria metafísica, é uma instituição
social. Então, o problema é político e ideológico.
A educação não é de maneira nenhuma
neutra, é sempre um ato político, não importa
o nível em que ela se dê. Na escola primária,
secundária, universitária, numa atividade extra.
A questão que se coloca é saber em função
de quem, para quem, contra quem se faz esta política. Evidentemente,
numa sociedade de classes, o sistema educacional tem que ser um
multiplicador da ideologia do grupo mais poderoso.
Eu sempre digo que nenhum sistema educacional, em qualquer sociedade
do mundo, é forjador da sociedade. Isso é óbvio.
Como se houvesse na história um caso, pelo menos, de uma
coletividade que antes de constituir-se em sociedade, convocasse
as grandes massas populares para um simpósio em que se discutisse
um perfil a ser adotado. Perfil de homem e mulher para ser concretizado
depois, através da educação. E terminado o
simpósio se dissesse: muito bem, encontramos este modelo
ideal e agora vamos montar a nossa educação para criar
essa sociedade. Isso seria impossível. Quando se estabelece
a infra-estrutura, a produção e o modo de produção
de uma sociedade, então, o sistema educacional emerge dessa
realidade.
Isso não é um processo mecânico. É dialético.
Há uma relação dialética entre a estrutura
da sociedade em que a educação, enquanto subsistema
se constitui, e a própria educação que se volta
sobre as condições materiais que a constituíram.
Para condicioná-la, para preservá-la e para multiplicar
a ideologia dominante em que ela se funda. Agora, o que não
é possível é esperar que a transformação
social se faça através da educação,
sobretudo sistemática.
A escola será sempre uma reprodutora da vida social. Não
pode ser diferente. Jamais foi ou será uma agência
neutra, como diz o pedagogo clássico. Isso não existe.
Digo isto sem defender a escola. Apenas constato.
Não tenho dúvida nenhuma de que se eu dissesse que
não há solução para a escola, estaria
pensando metafisicamente. Eu admitiria que a escola é uma
categoria em si, com uma essência imutável. E nisso
não creio. Creio na dinâmica da escola, nas contradições.
É evidente que para que essa escola se faça, se mude,
os seres humanos devem agir. Enquanto agentes dessa transformação,
em função da realidade material existente. A partir
da base material estabelecida é necessário ajudar,
empurrar também o que a base material possibilite.
Eu diria: a educação pode ser dogmática, o
que me parece errado.
É preciso não cair na manipulação para
não ser dogmático, nem se cair no espontaneísmo
para fugir à manipulação. Se você cair
no espontaneísmo em nome de uma liberdade, essa liberdade
inexiste. Se cair na manipulação, você castra
a capacidade criadora do educando.
O que eu defendo é exatamente o conceito de escola como centro
democrático. A presença do professor e do estudante
engajados na realização de determinados objetivos
sociais e não individuais, para a reconstrução
da sua sociedade. No fundo, é uma busca comum em que os dois
se comprometem nesse descobrimento. No trabalho conjunto, surge
também uma prática e uma nação no campo
da produção.
Samora Machel, por exemplo, propõe um tipo de escola que
não tem nada a ver com a instituição encarregada
de domesticar consciências. O que se coloca é saber
até que ponto essa escola já está existindo
em Moçambique. Evidentemente, ainda não pode estar
existindo em termos preponderantes. Não visitei o país,
mas tenho a certeza que muitas coisas devem estar sendo feitas no
sentido da análise que Samora Machel faz do problema da escola.
E só poderão ser realizadas na medida em que se aprofundam
as transformações da sociedade, em que se cria o homem
novo e mulher nova dentro desse processo. E isso não é
fácil. É um trabalho em que é necessário,
ao mesmo tempo, capacitar o novo educador e recapacitar o antigo.
Nesse esforço é preciso enfatizar muito a análise
da carga ideológica que o antigo professor guarda dentro
dele, por sua própria prática numa sociedade diferente
daquela em que ele está agora, em processo de recriação
e mudança.
A minha prática nos últimos anos tem sido, sobretudo,
a prática de pensá-la. Não de pensar apenas
a minha prática. Também a dos outros. De tomá-la
como objeto de uma reflexão crítica para compreender
os acertos e os desacertos da prática que se dá a
mim como objeto de conhecimento. Nesse sentido, estou absolutamente
convencido de que a escola, em qualquer nível, se vincula
à produção. É uma ilusão pensar
o contrário.
Numa outra perspectiva, a prática unida à teoria implica
uma relação distinta. Isso pode ser analisado através
de vários casos. No aprendizado de como fazer um rádio.
Antes de discutir com o educando como fazer um rádio, é
preciso discutir a necessidade desse rádio. Qual o objetivo
do aparelho enquanto instrumento receptivo, transmissor. A quem
serve e a quem desserve.
No meu entender, para formar um técnico numa sociedade em
transformação, importa, prioritariamente, desenvolver
sua consciência. Para que ele saiba, afinal de contas, em
favor de quem ele se capacita. Basta isso para dizer que esta já
é uma escola diferente. Não é mais aquela escola
que distribui diplomas com os quais o indivíduo procura um
lugar ao sol. É uma instituição em que se busca
conhecer, aprender para melhor servir à coletividade.
Aí é importante começar a pensar quais as novas
relações que deverão surgir entre educador
e educando. Elas não vão mudar a partir de decretos.
Mudam na medida em que a prática social global também
começa a mudar. E isso depende de como essa sociedade se
recria. Em função de que objetivos, em função
de quem. Todos esses fatores estão relacionados com a produção.
Quer dizer, o que produzir, como produzir, para que e para quem
produzir. A escola nova, sem nada a ver com a anterior, só
aparece no momento em que a sociedade marcha para uma transformação
radical das relações de produção.
Digo quatro características, que lembro agora, que se encontram
numa sociedade burguesa. Não necessariamente apenas nela.
Quatro dicotomias, quatro separações. A dicotomia
entre trabalho manual e intelectual. Entre prática e teoria.
Entre ensinar e aprender. Entre assimilar o conhecimento que existe
hoje e criar o novo conhecimento. Quando se dicotomizam esses atos
já se pensa formalmente. Sem superar essas quatro contradições
que estão visceralmente ligadas à prática social,
só é possível fazer a denúncia e o anúncio
de futuras relações entre educador e educando. Mas
não se pode estabelecer novas relações a não
ser em ilhas. No que costumo chamar de espaços livres.
Esse processo não se dá automaticamente com uma mudança
na política do sistema. A modificação educador-educando
só pode aparecer com a superação dessas contradições
básicas. Nesse momento, o educador deixa de ser educador
exclusivo do educando, para ser também educando. E o educando
deixa de ser educando exclusivo do educador, para ser o educador
do educador. Então, já não há mais um
educador e um educando enquanto contraditórios. Há,
agora, uma síntese entre o educador-educando e o educando-educador.
Enquanto não se chegar à plenitude dessa relação
é preciso que os dois busquem conhecer juntos, mediados pelo
objetivo em si, para que não haja apenas transferência
de conhecimento. Antes desse momento, que demora devido à
carga social que ainda não se transformou completamente,
é tempo de começar a enunciar. De fazer as primeiras
práticas novas. Mas essa plenitude nunca é total.
Gera novas contradições. Se a gente admitisse essa
plenitude absoluta na relação entre educador e educando,
estaria admitindo a parada da história. Isso não ocorre.
A relação entre educador e educando é uma questão
eminentemente política e não exclusivamente pedagógica.
Eu digo que não há problemas pedagógicos. Eles
são políticos e ideológicos. E, como reflexo,
são pedagógicos. Daí a necessidade da clareza
política do educador. O resto vem depois.
A transformação das relações entre educador
e educando fazem parte de um processo. Enquanto processo inacabado
ou inacabável, enquanto processo que se faz e se refaz. Costumo
dizer que a revolução que foi já não
é. Porque para ser, tem que não ter sido. Tem que
estar sendo. Isso implica que a sociedade sofra uma transformação
na sua infra-estrutura e se opere o esforço crítico-consciente
sobre a superestrutura, a ideologia. É esse processo que
chamo de transformação intra–estrutural. No
qual, de um lado é preciso fazer a modificação
das relações sociais de produção que
vão constituir uma nova prática, que, por sua vez,
vai reconstituir a consciência. De outro, fazer um ataque
à velha ideologia que era coerente com a antiga estrutura
que foi transformada.
Isso é exatamente o que a Guiné–Bissau busca.
É uma sociedade que está superando a etapa colonial
em busca da criação de um sistema novo.
O problema está numa transformação radical
da herança do colonizador. Mas essa transformação
radical não pode ser feita da noite para o dia. Muitas dificuldades
impedem o avanço. Falta a capacitação de novos
quadros e também a prática social que vai se transformando.
Daí, que Mário Cabral, o Ministro da Educação,
tenha falado numa etapa de transição, necessária.
De pouco a pouco, introduzir uma série de modificações
no velho sistema, buscando o novo. E quando digo pouco a pouco,
não digo em cinco anos você faz uma coisinha, em outros
cinco, outra. Não. Eles estão fazendo uma série
de coisas.
Um dos grandes problemas do ensino renovado é que, sem a
transformação da prática social, teremos apenas
reformas no sistema tradicional. Nunca uma modificação
radical do sistema. Mas não é legítimo dizer
que não devemos fazer reformas enquanto a transformação
de uma sociedade não chega. A partir da própria sociedade
dominante é preciso fazer transformações.
Às vezes a gente faz esforços no sentido de capacitar
professores, educadores. Grande parte deles terminam recuperados
pelo. Mas se você me pergunta: Paulo, então qualquer
tentativa como essa é perda de tempo? Digo: não. Muita
coisa feita hoje e considerada por certas pessoas como uma prática
sem sentido, ganha significado talvez oito anos depois. Quando você
menos espera. Como resultado daquilo que foi feito e que, aparentemente,
não tinha sentido.
O importante é estabelecer as prioridades e não usar
demasiado tempo em coisas que são menos eficientes. Concordo
que a experiência do ensino renovado tem dado poucos resultados.
Tenho tido essa experiência ao longo da minha vida. Mas também
tenho tido outra. Posso dar um exemplo, que prefiro não localizar.
Em 1969 recebi cartas de ex-analfabetos de um certo país,
que não era o Brasil. Cartas muito afetivas, para me agradecer.
Dois anos depois encontrei-me com um jovem desse país e ele
fez referência à experiência da qual resultavam
as tais cartas. Disse que as pessoas que as tinham dirigido haviam
distorcido o meu pensamento. Eu respondi: não é muito
fácil fazer uma coisa muito radical dentro das condições
políticas do teu país. Anos depois houve uma transformação
nesse país. Estive lá e visitei a zona rural onde,
cinco ou seis anos antes, um certo grupo havia sido alfabetizado
e me escrito as cartas. Observei que essa comunidade camponesa era
uma das que dava maior apoio ao novo poder que se estabelecia.
Vejam o seguinte: oito anos antes, essa experiência foi considerada
sem sentido. Passado esse tempo, você percebe que houve algo,
apesar de tudo. Isso não significa que a gente se satisfaça
apenas com certas coisas menores, se você quer a tarefa maior.
Em síntese, o que eu queria dizer é que em história
se faz o que se pode. Não o que se gostaria de fazer. E a
única possibilidade que tenho de fazer amanhã o impossível
de hoje, á fazer hoje, o possível de hoje. É
fazendo o possível de hoje que faço o impossível
de hoje e amanhã. O que ocorre é que, às vezes,
o possível de hoje é chato. Chato. Me desculpem a
palavra.
As reformas de caráter avançado, onde quer que se
dêem, de um modo geral tendem a ser recuperadas pelo poder.
O que é natural. Mas ocorre também que o próprio
governo é obrigado a fazer reformas. E ao fazer, elas saem
das mãos de quem as fez. Assim podem trabalhar contra os
que as fizeram. Isso acontece muito. Eu sou contra o reformismo,
mas não sou contra as reformas. Estrategicamente não
quero reformas. Mas, taticamente, eu as aceito.
Nos últimos tempos tenho tentado pôr em prática
as coisas que penso. Estou trabalhando há um ano na Guiné-Bissau
e em Cabo Verde, juntamente com o IDAC – Instituto de Ação
Cultural. Lado a lado, braço com braço, com as equipes
nacionais. Porque há uma coisa em que insisto, não
somente eu, mas todo o pessoal do IDAC: a nossa tarefa nestes países
jamais poderia ser neutra. Uma tarefa de peritos internacionais
neutros. De técnicos que desembarcassem no aeroporto com
as suas valises, carregadas de planos, propostas, soluções
e relatórios para doar aos nacionais. Pelo contrário,
desde o primeiro momento em que o Governo nos convidou, através
do ministro da Educação, estávamos convencidos
de que o nosso trabalho seria diferente. Aprendendo com os nacionais
também poderíamos ensinar algo a eles. Jamais pretendemos
ser professores dos nacionais ou os formadores.
Por uma série de razões, por falta de tempo e de quadros,
o IDAC não pode participar no trabalho que estamos realizando
em Angola e São Tomé. Nesses países tenho colaborado
apenas com Elza, minha mulher, junto dos educadores nacionais. Na
mesma perspectiva, na mesma linha de pensamento. Sem pensar em ir
para lá como um invasor. E isso nos deu uma oportunidade
de aprender, de discutir. O que me dá uma alegria enorme.
O IDAC é um instituto que está fazendo um trabalho
interessante. Uma organização privada, com um grupo
de trabalho que vive de contribuições ou de suportes
a projetos que apresenta. Começou a funcionar em 1971. Na
época, convidei uns amigos para discutir na nossa casa a
possibilidade de criação de um instituto desse tipo.
Depois, o Claudius também se associou. Trabalhamos, eles
mais do que eu, cerca de um ano para a sua estruturação,
para ajustar tudo de acordo com a lei suíça.
Acho que sou o presidente do conselho, não sei. Neste momento,
a minha participação se dá exclusivamente no
nível da experiência da Guiné. Não participo
dos outros seminários que eles organizam nos outros países.
Não tenho tempo. Hoje, o IDAC é constituído
por alguns brasileiros, alguns norte-americanos, duas européias,
e tem sede em Genebra. Desenvolve um trabalho de seminários
no primeiro mundo também. Discute toda a problemática
de como aproveitar um espaço livre e realizar algo, como
o que discutimos aqui. Não uma pedagogia dirigista, mas dialógica.
Isso é mais ou menos o que procuro na minha andarilhagem
do óbvio. Se você me pergunta: Paulo, tu te alegras
com a tua tarefa? Digo, em primeiro lugar: essa é a tarefa
humilde que posso ter no momento. E não mais que esta. Também
tenho as minhas limitações. E esse é o trabalho
humilde que tenho. Então, não fico triste dentro da
minha limitação. Pelo contrário, procuro fazer
ao máximo, o mínimo que posso fazer. Daí que
eu tenha uma constante alegria do viver. Não há um
momento em que me sinta desesperançado da vida. Toda a segunda,
terça, quarta-feira, estou sempre assim. Contente com a tarefinha
mínima que as circunstâncias me deram. “Porque
nem sequer a escolhi”.
Os mortos de setembro
O repórter percorre os cemitérios
do Chile em busca das histórias dos mortos de setembro.
Das lápides de suas tumbas, eles ainda resistem.
Por Wagner Carelli • Versus
9 • abril de 1977
“Quando julgar necessário o mal,
o Príncipe deve aplicá–lo todo, de uma única
vez. Assim, cumprem-se seus desígnios e, um dia, todo o mal
será esquecido”. Maquiavel
1
Nas datas, compassos de um tempo. Um único tempo: um mês.
Monótonos compassos repetidos em centenas de lápides.
Atrás delas, todas as vidas e toda a morte. Nos visitantes,
todo o silêncio é tácito e respeitoso diante
de cada tumba. Não há orações, e as
flores são poucas na estreiteza de cada faixa do ossuário.
Os cravos se dividem: um à memória do irmão,
outro à frente do nome de Pablo Neruda. Do mesmo ramo saem
as rosas para o filho e para Victor Jara. Não são
muitos os que se demoram na ala mais suja e abandonada do Cemitério
Geral de Santiago do Chile. Parece penosa a permanência ali,
onde se alonga um eterno setembro de toda a violência. E,
de uma vez, todo o mal. Mas ninguém esquece o tempo e os
mortos.
2
– Por favor, a tumba de Violeta Parra?
– Siga em frente e, na última rua, dobre à esquerda.
Violeta está próxima ao pedágio.
– E a de Pablo Neruda?
– Dom Pablo estava numa cripta emprestada, mas foi retirado
de lá. Agora, se não me engano, está na rua
México. Exatamente, rua México. Módulo U-3.
Quando sair da tumba de Violeta, pegue a avenida central Bernardo
O´Higgins e siga em frente.
A mulher fala com naturalidade das ruas, avenidas e pedágios,
estranhas características do cemitério chileno. E
continua o crochê, que tece com paciência sentada no
mármore de uma lápide. Todas as zeladoras das sepulturas
se parecem, na indiferença. Mas elas conhecem detalhadamente
cada mistério da pequena cidade dos mortos, sabem suas histórias.
E falam como se ali todos continuassem a viver.
O túmulo de Violeta Parra fica na parte antiga do cemitério,
um pouco afastado dos grandes sepulcros das famílias poderosas
e ricas. É uma tumba modesta, mas digna, em frente a um insólito
ponto de ônibus e a alguns metros de uma barraca de sorvetes.
Está coberta de flores: é 5 de fevereiro de 1977,
e faz exatamente dez anos que a encontraram com a cabeça
ensangüentada sobre o revólver que acabara de usar,
em sua tenda no bairro de La Reina. Pergunto ao sorveteiro se houve
alguma cerimônia. Ele diz que não, e passa a observar
com atenção minhas manobras para fotografar a tumba
e as flores. Alguém me avisa para tomar cuidado.
3
A avenida Bernardo O´Higgins parte do grande portão
principal do cemitério, que cruza de sul a norte. É
o caminho mais rápido para chegar-se à rua México
e ao túmulo de Pablo Neruda. Por aí entrou o imenso
cortejo que acompanhou o ataúde metálico do poeta,
desde sua casa saqueada e semi-destruída no monte San Cristóbal
até a sua antiga sepultura. A princípio, a avenida
está ladeada por álamos e ciprestes, em meio a tumbas
monumentais, com destaque para os heróis do passado: Manuel
Montt, Arturo Pratt. E para os modernos: desponta, grande e azul
entre os demais, o mausoléu da Força Aérea
do Chile. Devidamente guardado por dois soldados da mesma Arma.
De repente, a paisagem muda. Não há mais árvores,
nem a sombra dos gigantescos monumentos funerários. E nas
centenas de covas justapostas – que marcam o fim da antiga
ala do cemitério – nem ao menos cabem lápides
de mármore. Há rústicas cruzes de ferro, com
nomes inscritos em pequenas letras e quase sempre com erros ortográficos.
Os homens simples que aos sábados e domingos se dedicam sozinhos
a cimentar as covas de parentes são, em geral, semi-alfabetos.
Ali é o lugar dos pobres, mortos e vivos. Onde ainda não
se enterrou ninguém, as zeladoras e coveiros plantam hortaliças.
Restos e detritos se acumulam entre os túmulos. Já
nada se vê além das seqüências de covas
e, ao fundo, junto à parede sul do cemitério, os ossuários
dispostos como armários de cimento. Em nenhuma outra parte,
contudo, se percebe tanto movimento. Entre as covas, os homens trabalham
e os funcionários têm suas casas e filhos. Parece constrangedor
o nome de Bernardo O´Higgins na placa indicando a avenida:
atrás dela estão os banheiros mais imundos de Santiago,
os meninos jogam bola sobre a urina que avança na rua onde
termina a avenida. É a seca, poeirenta e suja rua México.
Aí está o ossuário.
4
Compañeros, enterrame em Islã Negra,
frente al mar que conozco, a cada área rugosa de piedras
y de olas que mis ojos perdidos no volverán a ver.
Era difícil acreditar que o túmulo de Pablo Neruda
estivesse próximo. E tão longe de Isla Negra que,
em seu Canto General, o poeta pedia como sepultura. Seria
na casa deixada em testamento, inscrito no mesmo poema, aos sindicatos
do cobre, do carvão e do salitre. Mas ele estava ali, no
módulo U-3, o canto mais miserável do maior cemitério
do Chile. Em frente à lápide com seu nome, uma lata
de alimento em conserva vazia, servindo de vaso. Sem flores. Um
homem se aproxima, sério, e deixa ali um cravo. Depois, junta-se
à família que o espera diante de outra tumba e se
vai. No nicho em que deixou os cravos restantes está o nome
de um menino de 15 anos e uma pequena placa de bronze: Homenagem
de seus companheiros da 3ª série ginasial, que jamais
esquecerão o seu valor. E, sobre o mármore, a data
da morte: 11 de setembro de 1973.
5
Então percebi que as datas não variavam,
ou variavam pouco. E que Pablo Neruda não estava ali por
uma simples coincidência. São dezenas de lápides
com os mortos do dia 11. Depois, outras dezenas entre 12 e 15, entre
16 e 25, 26 e 30. Naqueles grandes e precários módulos
de concreto, improvisados em meio ao lixo dos fundos do Cemitério
Geral de Santiago, estavam os mortos de setembro. Centenas de pessoas
– jovens, em sua maioria – dispostas geometricamente,
juntas, a exemplo de toda a cólera e furor desencadeados
num único golpe. Em cada epitáfio, um desconsolo e
um desafio: a revolta que os sobreviventes são obrigados
a calar. Nos cemitérios chilenos, os mortos resistem.
6
De longe, algumas pessoas olhavam. Os dois soldados do
mausoléu da Força Aérea, uma velha zeladora
e o sorveteiro, que parecia ter adivinhado que me encontraria ali.
Quando me aproximo, aponta uma tumba:
– Por que não fotografa esse aí?
Na lápide estava o nome de Victor Jara. Ele me conta: a maioria
dos chilenos não sabe que o corpo do cantor está em
Santiago. Depois, indica a sepultura de Miguel Hernández,
o guerrilheiro morto em 1975 – mas colocado junto aos cadáveres
de dois anos antes.
A velha me pergunta se procuro algum nome, em especial. Digo que
não, que já vou. Ela insiste: quer que fotografe a
lápide de um sindicalista. Me conta sua história,
diz de sua morte na sede da corporação à qual
pertencia. Fala da menina de 17 anos, morta na porta de sua casa.
Mostra no mármore o nome de dois cunhados, quer contar mais
esse caso, pergunta se sou argentino, por que fotografo, o que quero
fazer. Longe, os soldados continuam olhando. Guardo a máquina
e vou. A velha me grita pelas costas: No hay que tener miedo.
Hay que sacar a los valores.
7
À noite é difícil dormir. O festival da canção
de Viña Del Mar absorve a atenção dos chilenos.
Pela televisão, todos esperam a presença de Julio
Iglesias, uma espécie de Roberto Carlos espanhol que o jornal
El Mercúrio chama de huracán. No
auditório lotado, todas as moças se agitam ruidosamente.
Os homens admiram. Lembro que na estranha lápide de pedra
cinza cobrindo a tumba de Victor Jara, a data de sua morte está
quase apagada: 14 de setembro de 1973. No Estádio Nacional,
pouco depois de escrever seus últimos versos: Ay, canto,
que mal me sales! Cuánto tengo que cantar, espanto! / Espanto
como el que vivo, / Como que muero, espanto. / De verme entre tanto
y tantos / momentos del infinito / en que el silêncio y el
grito / son las metas de este canto.
A canção ficou incompleta. Poucos no Chile puderam
conhecê-la. Mas Julio Iglesias seguia cantando em todos os
vídeos, até que o toque de recolher calasse o país.
Rupa
S Hiroito Joanides cumpria longa pena
em uma prisão
de São Paulo, quando fez chegar à redação
de Versus,
por meio de um irmão, uma reportagem
carregada de desespero, violência e autenticidade.
Por Hiroito Joanides • Versus
9 • abril de 1977
As adagas rústicas, de feitura manual, possuíam corte
nos dois lados e eram exageradamente pontiagudas. A verdade é
que não passavam de compridas barras de ferro, pacienciosamente
desgastadas contra a pedra até adquirirem aquele formato.
Depois, foi aprimorado o gume. O cabo ficou sendo a extremidade
da barra, ali deixada intacta uns dez centímetros. Tiras
de pano, enroladas, davam segurança à empunhadura.
Teriam meio metro desde o cabo, de onde grossos cordões pendiam
lembrando longas caudas. Nenhuma obra-prima de cutelaria. Apenas
boas armas. Três.
Usando os dentes e a mão esquerda, cada um tratou de amarrar
os cordões em torno da destra que empunhava a adaga. Assim
enleadas uma na outra, mão e arma se fundiam em mútuo
prolongamento. Rapidamente, o mais alto e de nariz adunco ajuda
a amarrar uma terceira adaga na mão do companheiro de olhos
cinza. No céu de abril nenhuma nuvem. Taça emborcada,
a luminosidade do sol os envolvia em sua beleza insuportável.
No recreio do pátio, o procedimento da dupla não passara
desapercebido aos mais próximos, que trataram de recuar,
ressabiados. E a dupla se dividiu, e como se cercassem frangos,
foram indo devagar para o centro do pátio ensolarado. Caminhando
com os braços punhais junto ao corpo, Olhos-Cinza lembra
um soldado em posição de sentido.
Os outros correram. Um rapaz girou a cabeça e defrontou-se
com Olhos-Cinza que avançava. Tentou escapar, olhando arregaladamente
para trás, as pernas sem impulso. Caiu diante de Nariz-Adunco,
cujo braço-punhal veio cortar-lhe a corrida – penetrando-lhe
fundo a barriga. No choque de corpo e adaga, a lâmina penetrou
até o punho. Permaneceram ligados no encontrão, que
se desfez quando os corpos se repeliram, arremessados de volta pela
violência do choque.
Nariz-Adunco caiu sentado, enquanto o outro estremecia – a
baba sangrenta escorreu.
Olhos-Cinza o atingiu por sua vez, furando-lhe as costas com o braço-adaga
da destra, seguido pelo braço-adaga esquerdo que lhe retalhou
a cintura dobrada. O sangue borrou o rosto e o peito nu de Olhos-Cinza.
Nariz-Adunco buscou o portão do pátio, apinhado com
a manada em pânico que se pisoteava para escapar. Ereto junto
ao cadáver, Olhos-Cinza com um gesto distraído de
punho afasta os fios de cabelo que lhe caíram sobre a vista,
tingindo de sangue sua testa. Seu olhar passeia pela clareira aberta
no pátio e se detém na figura delicada de um outro,
acocorado e contorcido de horror. Os caçadores convergem
tranqüilamente para ele. Figura-Delicada era o próximo
eleito. Gritou nãos, curtos, sobrepostos, crescentes, os
braços entreabertos de ave na iminência de alçar
vôo.
Como que catapultado, ele vara a distância entre os caçadores,
caindo entre os dois, até que o golpe de Olhos-Cinza o detém,
ao furar a flacidez do braço. Os braços pontiagudos,
turbinas, de metal, penetram o corpo de Figura-Delicada, até
que cessam o esperneio e os urros.
Os caçadores, agora, caminham sem pressa, escolhendo. A eleição
cabia desta vez a Nariz-Adunco: o homem-caça foi destacado
do bloco humano e encurralado a um canto com leves pontaços
repetidos em todo o corpo. Reagiu, afinal, com um pontapé
que atingiu o quadril de Nariz-Adunco, no instante em que seu pescoço
era atravessado, em riste, por Olhos-Cinza, que ali fora cravar-se
até a empunhadura de trapos, emendado pelas velozes cutiladas
desferidas por Nariz-Adunco na carne exposta, pendurada, que arriava
lentamente, a face contorcida, de viés, pescoço trespassado
pela adaga que o sustinha na ossatura da nuca e do maxilar, até
que chegou ao chão de joelhos, decepando os próprios
dedos agarrados à lâmina, olhos abertos para o céu.
O pátio estava deserto. Afora os matadores, na planura monótona
do solo de cimento restavam os despojos da caçada.
O ano foi o de 1973 e o local da chacina situa-se a menos de quatro
quilômetros do Marco Zero da CIDADE QUE MAIS CRESCE NO MUNDO.
Mais precisamente: aconteceu no Pátio do Segundo Pavilhão
da Penitenciária do Estado de São Paulo, entre sentenciados
reeducandos, conforme a gíria dos assistentes sociais.
Reeducandos, pois, na plenitude de sua recuperação
pela Sociedade: Olhos-Cinza, o de duas adagas, foi registrado em
Cartório quando nenê com as letras C–A–R–L–O–S
A–L–B–E–R–T–O D–A C–O–S–TA
e enquanto crescia foi sendo chamado de Carlão. Nariz-Adunco
tinha uma Certidão de Nascimento onde estava escrito J–A–M–I–L
H–A–D–D–A–D. Arquivos e Computadores
os conheciam como os Sentenciados 25.516 e 25.520.
Eram objetos de necessidades e interesses d´A Sociedade: usuários,
para o transporte e a comunicação; para os correios,
destinatários e remetentes; fregueses do comércio;
consumidores da Propaganda; mão-de-obra para a indústria;
colegas, vizinhos, eleitores, distinto público para todo
mundo; fiéis para a religião; suspeitos, réus,
sentenciados para a lei e para a justiça; alunos da educação,
alunos da vida perenemente reeducandos, e, um para o outro, companheiros...
O primeiro a tombar fora chamado CONSTANTINO AUGUSTO DE DEUS, jocosamente
apelidado Zé do Quepe. Feições-Delicadas, que
inexplicavelmente viria a sobreviver, possuía o número
24.953 e um apelido impublicável. ARMANDO FERNANDES, o Boca,
fora o terceiro a tombar varado de morte. Era o número 24.754.
No silêncio do vazio do pátio, sentindo o vento da
tarde em seus peitos e pêlos ensangüentados, os dois
participantes da chacina, em sua parte ativa, sabiam que lhes bastava
por enquanto e os compensava de tudo.
Eles seguiriam matando.
Seus corações pulsavam tranqüilamente quando,
acenando um ao outro, dirigem-se ao ângulo da muralha entre
o segundo e o terceiro pavilhão. Jamil passa por cima do
cadáver do Zé do Quepe, Carlão pisa entre as
pernas abertas do morto e vai deixando pelo chão pegadas
rubras. No canto do pátio, subindo às costas de Carlão
agachado, Jamil-Acrobata se ergue até o parapeito de uma
janela gradeada e se alça à muralha. Para Carlão
é difícil, as adagas o atrapalham, e o companheiro
tem que puxá-lo pelos pulsos ferindo nas lâminas os
próprios braços.
Ei-los no alto da muralha. Não para fugir mas para matar.
No pátio vizinho, outros cento e cinqüenta sentenciados
tomam sol (seu sol deve estar sendo tomado de alguém, talvez
do Dono da Natureza), apreensivos com os berros e o tropel escutados
há pouco: ao divisarem sobre a muralha os dois homens-adaga
cobertos de sangue, afastam-se todos ao mesmo tempo para a estreita
saída ao canto do pátio onde vão confluir amontoadamente.
Os dois se dependuram à muralha e deixam-se cair ao chão.
Carlão corre para o portão e passa a desferir adagadas
nas costas, traseiros, coxas dos que estão ali embolados.
Não indiscriminadamente, como seria de esperar, mas andando,
atento, em torno à massa humana que esmaga a si mesma contra
o portão, ferindo, aqui, este, logo adiante, outro, além,
aquele, com critério seletivo que restará para sempre
desconhecido.
Jamil havia corrido para um canto, escolhido seu predileto, que
reage. Ferido, ele se atraca e em luta rolam pelo solo. O braço-adaga
está preso por uma garra de força desesperada. Jamil
grita, alto, chamando Carlão que acode na corrida. Sua destra-adaga
penetra o espinhaço do homenzarrão trepado por cima
de Jamil, e no excesso de ímpeto a ponta varante desponta
do umbigo.
Atravessado pelo ferro, o corpulento tórax se abate de bruços
arrastando Carlão, puxado na queda. O braço-adaga
ficou entalado entre a musculatura e os ossos. Naquele curvamento
forçado de seu corpo, Carlão tenta firmar os pés
no chão e sustentar-se nas pernas para, desentalando o braço,
erguer-se. O dorso sem vida recua com ele, erguendo-se um palmo.
Carlão é prisioneiro de seu cadáver.
Jamil, de pé e de orgulho ferido, castiga o ombro, o pescoço,
a cabeça do morto.
Entreolham-se os dois ofegando.
Fitam ao seu redor outro pátio vazio, clareira ensolarada.
Conseguindo vazar pela estreita passagem, a massa humana espalhava
lá dentro seu alarido ao longo de escadas e corredores. O
portão fora fechado pelos Guardas de Segurança, que
se mantêm do lado de dentro, nada animados a intervir no pátio.
Reinicia-se o interminável diálogo humano: Jamil e
Carlão, extenuados, decidem que só entregarão
suas armas a um companheiro – Botina –, matador veterano
a quem admiram.
Há acordo. Botina é conduzido ao local, tem início
a cerimônia protocolar de rendição. Desamarradas
das mãos pegajosas, as pegajosas adagas passam às
mãos nodosas e toscas de Botina, e destas, para os guardas
de mãos manicuradas.
Nem hino, nem tambor. Apenas uma pomba arrulha na cornija da guarita
em cima da muralha.
O quarto a tombar fora GONÇALO GOMES TOBIAS, o nº 25.297.
Os nomes de uma vintena de mutilados ou feridos estão se
desvanecendo na única distração perfeita, a
do esquecimento, válvulas de nossa vigília de sobreviventes.
Qual o motivo do esquecimento?
Tensões. Por que não dizer assim?
Tensão – in-tensão: despedaçamento de
a-tenção. Dia-lética global.
Importa evitar esta interminável reiteração
da violência. Impedir a compulsão a multiplicá-la.
Unificar seus fragmentados motivos, numa palavra que signifique
O MESMO em vários dialetos eficazes: Tensão.
Pois não há de ser escrevendo carta que haveremos
de suprimir o correio: nenhuma jogada de dados abolirá o
azar.
Fragmentada, a motivação suscita intermitentes intensões
re-geradoras de tensões, perenemente turbando a paz, o caminho,
a verdade, a vida.
Ainda há tempo de compreendermos: é ao serem ditas
que as “coisas” são suscitadas. Nós as
re-suscitamos, momento a momento.
É PRECISO NOS DECIDIRMOS A DEIXAR QUE OS MORTOS ENTERREM
OS MORTOS.
Viver, aprendendo a morte.
Vivemos raramente.
Resignamos os outros e nos resignamos.
Rupa: com quatro letras convenientes salvou-se o acontecimento,
batizando-o. Entretanto, cada acontecimento é único.
Irrepetível. Apenas nossa pré-tensão o conserva,
salva, pelo batismo.
Os indonésios batizaram de amok algo parecido à
rupa. Outros, europeus, sofisticados em sua ferocidade, salvaram
a coisa com esta frase feita: angústia do espaço vital.
Maias e incas, citas e mongóis, centenas de povos, milhões
de indivíduos desvanecidos em pó no turbilhão
da História, conheceram o acontecimento sem batismo.
Trata-se de odiar.
A frio, com persistência humaníssima. Memorizar. Pacienciosamente.
Ódio entre concidadãos, com acúmulo resultante
de distribuição irregular (carregamento elétrico
de energia). Polarização. Ódio cuidadoso no
planejamento do mútuo extermínio, espetaculosamente
rápido e direto ou requintadamente adiativo e sub-reptício,
conforme aptidão e gosto. Até que algum co-eficiente,
dificilmente previsível, atue em dose suficiente para explodir
o acúmulo – acontecendo – de modo terrível
e doloroso ou inconsciente e imperceptível.
Naquela tarde, o co-eficiente bem pode ter sido a simples beleza
de um céu no verão.
Poetas entendem disso melhor que os sociologistas.
Personagens:
Que dizer dos personagens? Re-signá-los?
Re-petição, frases-feitas, lugares comuns?
Eles vinham despedaçando e sendo despedaçados desde
sempre.
Só por acontecer de modo espetacularmente raro o despedaçamento
consegue “chamar” a a-tensão anestesiada, ausente.
Os re–educandos, como se costuma batizá-los depois
de encarcerados rigorosamente, são vítimas de uma
pré-tensão: a de fazê-los purgar sozinhos as
culpas coletivas.
No rigor do novo cárcere, continuam funcionando com mecânica
de marionetes movidas por teias inefáveis, por quase inaudíveis
badaladas de sino.
O sino!
Sempre, no presídio, ao cruzar o portão em qualquer
das direções, o homem ouve seu som: uma badalada ressonante
para cada um que entra, uma badalada ressonante para cada um que
sai.
Sua humanidade está entregue ao sino regente, que o iça
da enxerga pela manhã badalando le-van-te-se, que irá
badalar quando a grade da cela abrir-se no ritual assinalado, que
o conduzirá pela fila para o pátio do recreio.
Uma badalada para que a fila do 1º Pavimento se ponha a andar.
Duas, e os homens-badalo do 2º Pavimento são movidos.
Ao soarem três, serão os do 3º.
E depois os do 4º e do 5º.
E o sino há de voltar a ressoar na reiterada operação
de retorno ao cubículo. E hão de soar uma, duas, três,
quatro, cinco, as badaladas na hora e no dia marcados para as sessões
do Cinema, da Missa, da Televisão. E tornará a soar
e ressonar o badalo sempre que o re-educando saia e entre, ande
e pare, estude e trabalhe, e volte para dormir no catre da cela
para levantar-se ao som do badalo.
Cada individualidade – o maior e o menor dos números,
o único realmente possível – cortada, dobrada
em séries de fragmentos, na terra de ninguém entre
o menos e o mais, a vontade própria confiscada pelas ex-tensões
da alheia, emparedada viva numa persona sob medida, sarcófago-móbil
treinada para re-presentar estereótipos de ex-pressões
consagradas, re-agindo ao ato feito, ao fato, automaticamente. Sonâmbulo,
agonizante, ex-alguém, que nem chegou a ser, montão
de fragmentos aglutinados numa colagem elétrica de polarizações,
para “fazer sentido” nos gráficos, nos fichários
e arquivos da Estadística.
Rês sacrificada na ara do Cálculo em rituais do culto
ao Meio - Termo (projeto de super-homem aristotélico) pelos
sacerdotes da Média.
As rupas prosseguirão.
No espaço de alguns meses, outros doze sentenciados se auto-suprimiriam
ainda espetacularmente, sobrando algumas dezenas de estropiados.
Já no domingo seguinte, AGENOR MARIANO DA SILVA, o 23.980,
armado de punhal, matava completamente AUTO PEREIRA DUARTE, sentenciado
número 23.994.
Recolhido à cela forte onde se encontravam Carlão
e Jamil, seria trucidado a facadas durante uma ducha, na sala de
banho, vigiada pelos Guardas do Batalhão de Choque. Alguém
deixara escondida uma faca debaixo do estrado, para Carlão
saciar seu apetite.
Outra execução, a de um Guarda, também sacrificado
com arma branca, separaria por um intervalo de refluxo as ondas
da maré deste mar de sangue. Dois dias depois, centenas de
soldados da Força Pública, em operação
de guerra, invadiam o lugar para busca de armas e instauração
da Ordem.
Naquela madrugada, quando o rabecão cruzou pela guarita levando
os cadáveres dos mortos, três badaladas ressoaram no
ar, enquanto no jardim do presídio sombras tomavam os caminhos,
e o primeiro clarão do dia vinha iluminar o dístico
no soturno frontispício da Prisão:
“AQUI O TRABALHO, A DISCIPLINA, A BONDADE, RESGATAM A FALTA
COMETIDA,
RECONDUZINDO O HOMEM À COMUNHÃO SOCIAL”.
A carta da morte
O testemunho do repórter e escritor argentino Rodolfo
Walsh provocou seu seqüestro e assassinato. Era a
retaliação de um governo arbitrário. Walsh
sabia que seria perseguido e que não o escutariam. Mesmo
assim escreveu
uma última carta dirigida à Junta Militar.
Por Rodolfo Walsh • Versus 11• junho
de 1977
Um dia, recebemos pelo correio um envelope sem
remetente que abalou a todos na redação de Versus,
em São Paulo. Continha uma carta aberta à Junta Militar
da Argentina, assinada pelo escritor e jornalista Rodolfo Walsh,
que denunciava os crimes políticos e econômicos do
regime. Walsh, pouco depois, acabou seqüestrado e morto. Seu
corpo apareceu no dia 25 de março de 1977, nas instalações
da Escuela de Mecánica de la Armada,
um centro de torturas, hoje transformada em Museo de
la Memoria. Na época, somente Versus publicou
esse texto no Brasil. Anteriormente, havíamos publicado um
fragmento de “Operação Massacre”, livro
em que Walsh descreve o massacre de peronistas, praticado pela “Revolução
Libertadora” de 1956, assim como a descrição
de seu “desaparecimento” após a entrega da carta
aos militares.
Agora, para maior autenticidade, mantive, essencialmente, os termos
da tradução para a língua portuguesa, preparada
pela redação naquela ocasião, quando muitos
de nossos colaboradores também militavam em organizações
clandestinas de esquerda e, portanto, eram possíveis alvos
de repressão. Por essa razão, o trabalho de tradução
nem sempre foi perfeito, porque executado em um contexto desfavorável
e inseguro. Mesmo assim, peço, agora, desculpas pelas possíveis
falhas existentes em nossa versão.
(Omar L. de Barros Filho)
Carta Aberta à Junta Militar
1 – A censura de imprensa,
a perseguição a intelectuais, a invasão de
minha casa, o assassinato de amigos queridos e a perda de uma filha
que morreu combatendo-os são alguns dos fatos que me obrigam
a esta forma de expressão depois de ter opinado livremente
como escritor e jornalista durante quase trinta anos.
O primeiro aniversário dessa Junta Militar motivou um balanço
da ação do governo em documentos e discursos oficiais,
onde o que os senhores chamam acertos são erros, o que reconhecem
como erros são crimes e o que omitem são calamidades.
A 24 de março de 1976, os senhores derrubaram um governo
do qual faziam parte, cujo desprestígio contribuíram
como executores de sua política repressiva e cujo fim estava
marcado por eleições convocadas para nove meses mais
tarde. Nessa perspectiva, o que os senhores liquidaram não
foi o mandato transitório de Isabel Martínez, mas
sim a possibilidade de um processo democrático, onde o povo
remediaria males que os senhores continuaram e agravaram.
Ilegítimo em sua origem, o governo que exercem pode legitimar-se
nos fatos, recuperando o programa com o qual coincidiram, nas eleições
de 1973, oitenta por cento dos argentinos e que continua em pé
como expressão objetiva da vontade do povo, único
significado possível desse “ser nacional” que
os senhores invocam tão freqüentemente.
Invertendo esse caminho, os senhores restauraram a corrente de idéias
e interesses de minorias derrotadas que travam o desenvolvimento
das forças produtivas, exploram o povo e desagregam a Nação.
Uma política semelhante só pode ser imposta transitoriamente
proibindo-se os partidos, intervindo-se nos sindicatos, amordaçando
a imprensa e implantando o terror mais profundo que a sociedade
Argentina já conheceu.
2 – Quinze mil desaparecidos,
dez mil presos, quatro mil mortos, dezenas de milhares de desterrados
são a cifra nua desse terror.
Lotadas as prisões comuns, os senhores criaram nas principais
guarnições do país virtuais campos de concentração,
onde não entra nenhum juiz, advogado, jornalista, observador
internacional. O segredo dos procedimentos, invocado como necessário
para as investigações, converte a maioria das detenções
em seqüestros que permitem a tortura sem limite e o fuzilamento
sem julgamento.¹
Mais de sete mil recursos de habeas corpus foram negados
neste último ano. Em outros milhares de casos de desaparecimento
o recurso nem sequer foi apresentado porque se sabe de antemão
que é inútil ou porque não se encontra advogado
que ouse apresentá-lo depois que os cinqüenta ou sessenta
que o faziam foram, por sua vez, seqüestrados.
Deste modo os senhores despojaram a tortura de seu limite no tempo.
Como o detido não existe, não há possibilidade
de apresentá-lo ao juiz no prazo de dez dias, segundo manda
a lei, que foi respeitada mesmo no auge da repressão de ditaduras
anteriores.
A falta de limite no tempo foi complementada pela falta de limite
nos métodos, retrocedendo a épocas em que se operou
diretamente sobre as articulações e as vísceras
das vítimas, agora com auxiliares cirúrgicos e farmacológicos
de que não dispunham os antigos verdugos.
Mediante sucessivas concessões à pressuposição
de que o fim de exterminar a guerrilha justifica os meios que se
usam, os senhores chegaram à tortura absoluta, intemporal,
metafísica, na medida em que o fim original de extrair informações
se extravia nas mentes perturbadas que administram, para ceder ao
impulso de triturar a substância humana até quebrá-la
e fazê-la perder a dignidade, que o verdugo perdeu, que os
senhores mesmos perderam.
3 – O fato de que essa Junta se negue a publicar
os nomes dos prisioneiros é deste modo a cobertura de uma
sistemática execução de reféns em lugares
descampados, em horas da madrugada, com o pretexto de combates forjados
e imaginárias tentativas de fuga.
Extremistas que distribuem panfletos nos campos, pintam os canais
de irrigação ou se amontoam de dez em dez em veículos
que pegam fogo são os estereótipos de um libreto que
não foi feito para ser acreditado mas sim para burlar a reação
internacional diante de execuções de praxe, enquanto
no plano interno, se destaca seu caráter de represálias
desatadas nos mesmos lugares e em data imediata às ações
guerrilheiras.
Setenta fuzilados depois da bomba na Seguridad Federal,
55 em resposta à explosão do Departamento de Polícia
de La Plata, 30 pelo atentado no Ministério da Defesa, 40
no Massacre do Ano Novo que se seguiu à morte do coronel
Castellanos, 19 depois da explosão que destruiu a delegacia
de Ciudadela, fazem parte de 1.200 execuções em 300
supostos combates, onde o oponente não teve feridos e as
forças a seu comando não tiveram mortos.
Depositários de uma culpa coletiva abolida nas normas civilizadas
de justiça, incapazes de influir na política que dita
os fatos pelos quais sofrem a represália, muitos desses reféns
são delegados sindicais, intelectuais, parentes de guerrilheiros,
opositores não armados, simples suspeitos que são
mortos para equilibrar a balança das baixas, segundo a doutrina
estrangeira de “conta-cadáveres” que as SS usaram
nos países ocupados e os invasores no Vietnã.
A eliminação de guerrilheiros feridos ou capturados
em combates reais é uma evidência, que surge por si
mesma, dos comunicados militares que, em um ano, atribuíram
à guerrilha 600 mortos e só 10 ou 15 feridos, proporção
desconhecida nos mais encarniçados conflitos. Esta impressão
é confirmada por um balanço jornalístico, de
circulação paralela que revela que entre 18 de setembro
de 1976 e 3 de fevereiro de 1977, em 40 ações reais,
as forças legais tiveram 23 mortos e 40 feridos, e a guerrilha
63 mortos. ²
Mais de cem processados foram igualmente abatidos em tentativas
de fuga, cujo relato oficial tampouco é destinado a que alguém
acredite nele mas sim para prevenir a guerrilha e os partidos, que
mesmo os presos políticos reconhecidos, são a reserva
estratégica das represálias de que os senhores dispõem,
segundo a marcha dos combates, a conveniência didática
ou o humor do momento.
Assim ganhou seus lauréis o general Benjamín Menéndez,
comandante do III Exército, antes do 24 de março,
com o assassinato de Marcos Osatinsky, detido em Córdoba,
depois, com a morte de Hugo Vaca Narvaja e outros cinqüenta
prisioneiros em diversas aplicações da lei de fuga
executadas sem piedade e narradas sem pudor. ³
O assassinato de Dardo Cabo, detido em abril de 1975, fuzilado a
6 de janeiro de 1977 com outros sete prisioneiros na jurisdição
do I Exército, comandado pelo general Suárez Mason,
revela que estes episódios não são excessos
de alguns centuriões alucinados (...)
4 – Entre mil e quinhentas
e três mil pessoas foram massacradas em segredo depois que
os senhores proibiram de se informar sobre descobertas de cadáveres
que, no entanto, transcenderam em alguns casos, por afetar outros
países, por sua magnitude genocida ou pelo espanto provocado
entre suas próprias forças. 4
Vinte e cinco corpos mutilados afloraram entre março e outubro
de 1976 nas costas uruguaias, pequena parte talvez do carregamento
de torturados até a morte, retirados do Rio da Prata por
navios, incluindo o menino de 15 anos Floreal Avellaneda, de pés
e mãos atados, “com ferimentos na região anal
e fraturas expostas”, segundo sua autópsia.
Um verdadeiro cemitério lacustre foi descoberto em agosto
de 1976 por um homem que mergulhava no Lago San Roque em Córdoba,
que foi à delegacia onde não receberam a denúncia
e que escreveu aos jornais que não a publicaram. 5
Trinta e quatro cadáveres em Buenos Aires entre 3 e 9 de
abril de 1976, oito em San Telmo a 4 de julho, dez no Rio Luján
a 9 de outubro, servem de marco para os massacres de 20 de agosto,
que deixaram 30 mortos empilhados a 15 quilômetros do Campo
de Mayo e 17 em Lomas de Zamora.
Nesses enunciados se esgota a ficção de grupos de
direita, supostos herdeiros da AAA de López Rega, capazes
de atravessar a maior guarnição do país em
caminhões, de forrar de mortos o Rio da Prata ou de jogar
prisioneiros no mar com os transportes da Primeira Brigada Aérea
6, sem que disso fiquem sabendo o general Videla, o almirante Masera,
o brigadeiro Agosti. (...)
A mesma continuidade histórica liga o assassinato do general
Carlos Prats, durante o governo anterior, com o seqüestro e
morte do general Juan José Torres, Zelmar Michelini, Héctor
Gutiérrez Ruiz e dezenas de asilados nos quais se quis assassinar
a possibilidade de processos democráticos no Chile, na Bolívia
e no Uruguai. 7
A certa participação nesses crimes do Departamento
de Assuntos Estrangeiros da Polícia Federal, conduzido por
oficiais que receberam bolsas da CIA através da AID, como
os delegados Juan Cattei e Antonio Gettor, por sua vez submetidos
à autoridade de Mr. Gardner Hathaway, Station Chief da
CIA na Argentina, é um foco de futuras revelações
como as que hoje abalam a comunidade internacional. (...)
Este quadro de extermínio não exclui nem sequer o
ajuste pessoal de contas como o assassinato do capitão Horacio
Gándara, que há uma década investigava os negócios
dos altos comandantes da Marinha, ou do jornalista da Prensa Libre
Horacio Novillo, apunhalado e calcinado depois que seu jornal denunciou
as conexões do ministro Martínez de Hoz com os monopólios
internacionais.
À luz destes episódios, ganha seu significado final
a definição de guerra pronunciada por um de seus chefes:
“A luta que travávamos não reconhece limites
morais nem naturais, se realiza mais além do bem e do mal”.
8
5 – Estes fatos, que abalam
a consciência do mundo civilizado, não são porém
os que maiores sofrimentos trouxeram ao povo argentino nem as piores
violações dos direitos humanos em que os senhores
incorrem. Na política econômica desse governo deve
ser procurada não só a explicação de
seus crimes mas também uma atrocidade maior, que castiga
milhões de seres humanos com a miséria planificada.
Num ano os senhores reduziram o salário real dos trabalhadores
em 40 por cento, diminuíram sua participação
na renda nacional a 30 por cento, elevaram de 6 a 18 horas a jornada
de trabalho que um operário precisa para atender às
necessidades básicas 9, ressuscitando assim formas de trabalho
forçado que não persistem nem nos últimos redutos
coloniais.
Congelando salários a coronhadas, enquanto os preços
sobem nas pontas das baionetas, abolindo toda forma de reivindicação
coletiva, proibindo assembléias e comissões internas,
alargando horários, elevando o desemprego ao recorde de nove
por centro 10 e prometendo aumentá-lo com 300 mil novas demissões,
retrocederam as relações de produção
aos primórdios da era industrial e quando os trabalhadores
quiseram protestar qualificaram-nos de subversivos, seqüestrando
organismos inteiros delegados, que em alguns casos apareceram mortos
e, em outros, não apareceram. 11
Os resultados dessa política foram fulminantes. Neste primeiro
ano de governo, o consumo de alimentos diminuiu em 40 por cento,
o de roupas em mais de 50 por cento, o de medicamentos praticamente
desapareceu nas camadas populares. Já existem zonas da Grande
Buenos Aires onde a mortalidade infantil supera os 30 por cento,
cifra que nos iguala à Rodésia, Daomé ou às
Guianas; onde doenças como a diarréia, a parasitose
e até a raiva atingem as marcas mundiais ou as superam. Como
se essas fossem metas desejadas e procuradas, os senhores reduziram
o orçamento da saúde pública a menos de um
terço dos gastos militares, suprimindo até os hospitais
gratuitos, enquanto centenas de médicos, profissionais e
técnicos somam–se ao êxodo provocado pelo terror,
os baixos salários ou a “racionalização”.
Basta andar umas horas pela Grande Buenos Aires para comprovar a
rapidez com que semelhante política a transforma numa favela
de dez milhões de habitantes. Cidades a meia-luz, bairros
inteiros sem água porque as indústrias monopolistas
saqueiam as fontes subterrâneas, milhares de quadras transformadas
num covil, só porque os senhores só pavimentam certos
bairros e só enfeitam a Plaza de Mayo, o maior rio
do mundo, poluído em todas as suas praias porque os sócios
do ministro Martínez de Hoz jogam nele seus detritos industriais
e a única medida do governo, que os senhores tomaram, foi
proibir que as pessoas nadem nele.
Tampouco nas notas abstratas da economia os senhores foram mais
felizes. Uma queda do produto nacional bruto que gira em torno dos
três por cento, uma dívida externa que alcança
600 dólares por habitante, uma inflação anual
de 400 por cento, um aumento do meio circulante que em só
uma semana de dezembro chegou a nove por cento, uma queda de 13
por cento nos investimentos internos constituem também marcas
mundiais, fruto raro da deliberação fria e da crua
inépcia.
Enquanto todas as funções criadoras e protetoras do
Estado se atrofiam até se dissolver na pura anomia, uma só
cresce e se torna autônoma. Um bilhão e oitocentos
milhões de dólares, que equivalem à metade
das exportações argentinas, como verba de Segurança
e Defesa em 1977, quatro mil novas vagas de agentes na Polícia
Federal, doze mil na província de Buenos Aires, onde os salários
são o dobro do de um operário industrial e o triplo
de um diretor de escola, enquanto em segredo são aumentados
em 20 por cento, a partir de fevereiro, os próprios soldos
militares, provam que não há congelamento nem desemprego
no reino da tortura e da morte, único campo da atividade
argentina, onde o produto cresce e onde a cotação
por guerrilheiro abatido sobe mais depressa que o dólar.
6 – Ditada pelo Fundo Monetário
Internacional segundo uma receita que se aplica indistintamente
ao Zaire ou ao Chile, ao Uruguai ou à Indonésia, a
política econômica dessa Junta só reconhece
como beneficiários a velha oligarquia pecuarista, a nova
oligarquia especuladora e um grupo seleto de monopólios internacionais
encabeçados pela ITT, a Esso, as indústrias automobilísticas,
a U. S. Steel, a Siemens, aos quais estão ligados pessoalmente
o ministro Martínez de Hoz e todos os membros de seu gabinete.
O aumento de 722 por cento nos preços dos produtos animais,
em 1976, define a magnitude da restauração oligárquica,
empreendida por Martínez de Hoz, em consonância com
o credo da Sociedade Rural, exposto por seu presidente Celedonio
Pereda: “Enche de espanto que certos grupos pequenos mas ativos
continuem insistindo que os alimentos devem ser baratos”.
12
O espetáculo de uma Bolsa de Valores de onde numa semana
foi possível ganhar sem trabalhar cem ou duzentos por cento,
onde há empresas que da noite para o dia duplicaram seu capital
sem produzir mais que antes, a roda louca da especulação
com dólares, letras, obrigações reajustáveis,
a usura simples que já calcula o lucro por hora, são
fatos bem curiosos sob um governo que veio para acabar com “o
festim dos corruptos”.
Desnacionalizando bancos se coloca a poupança e o crédito
nacional nas mãos dos meios financeiros internacionais, indenizando
a ITT e a Siemens, se premiam empresas que lesaram o Estado, devolvendo
os postos de gasolina aumentam-se os lucros da Shell e da Esso,
abaixando as taxas alfandegárias se criam empregos em Hong
Kong ou Cingapura e desemprego na Argentina. Frente ao conjunto
desses fatos cabe perguntar quem são os apátridas
dos comunicados oficiais, onde estão os mercenários
a serviço de interesses estrangeiros, qual é a ideologia
que ameaça o ser nacional.
Se uma propaganda esmagadora, reflexo deformado de fatos perversos,
não pretendesse que essa Junta procura a paz, que o general
Videla defende os direitos humanos ou que o almirante Massera ama
a vida, ainda caberia pedir aos senhores comandantes-chefes das
três Armas que meditassem sobre o abismo para o qual conduzem
o país, atrás da ilusão de ganhar uma guerra
que, mesmo se matassem o último guerrilheiro, não
faria mais que começar sob novas formas, porque as causas
que há mais de vinte anos movem a resistência do povo
argentino não desapareceriam, mas sim se agravariam com a
lembrança do estrago causado e a revelação
das atrocidades cometidas.
Estas são as revelações que no primeiro aniversário
de seu infausto governo quis fazer chegar aos membros dessa Junta,
sem esperança de ser ouvido, com a certeza de ser perseguido,
mas fiel ao compromisso que assumi há muito tempo de prestar
testemunho em momentos difíceis.
Notas do autor
_____________________________________________________________
1) Desde janeiro de 1977, a Junta começou a publicar
listas incompletas de novos detidos e de “liberados”,
que em sua maioria não o são, mas sim processados
que deixam de estar à sua disposição, mas continuam
presos. Os nomes de milhares de prisioneiros ainda são segredo
militar.
2) “Cadena Informativa”, boletim nº 4, fevereiro
de 1977.
3) Uma versão exata aparece nesta carta dos presos de Encausados
ao bispo de Córdoba, dom Primatesta: “A 17 de maio
são retirados com o engodo de ir à enfermaria seis
companheiros que logo são fuzilados. Trata-se de Miguel Angel
Mosse, José Svagusa, Diana Fidelman, Luis Verón, Ricardo
Yung, Eduardo Hernández, cuja morte, numa tentativa de fuga,
o III Exército comunicou. A 29 de maio são retirados
José Pucheta e Carlos Sgadurra. O último havia sido
castigado a ponto de que não podia manter-se em pé,
sofrendo várias fraturas de membros. Logo também aparecem
fuzilados numa tentativa de fuga”.
4) Nos primeiros 15 dias de governo militar apareceram 63 cadáveres,
segundo os jornais. Uma projeção anual dá a
cifra de 1.500. A suposição de que pode ascender ao
dobro baseia-se no fato de que, desde janeiro de 1976, a informação
jornalística era incompleta, e no aumento global da repressão
depois do golpe. Uma estimativa global verossímil das mortes
produzidas pela Junta é a seguinte. Mortos em combate: 600.
Fuzilados: 1.300. Executados em segredo: 2.000. Vários: 100.
Total: 4.000.
5) Cartas de Isaías Zonatti divulgada pela Agência
Clandestina de Notícias, ANCLA.
6) “Programa” dirigido entre julho e dezembro de 1976
pelo brigadeiro Mariani, chefe da Primeira Brigada Aérea
de Palomar. Usaram-se transportes Fokker F-27.
7) O general Prats, último ministro do Exército do
presidente Allende, morto por uma bomba em setembro de 1974. Os
Parlamentares uruguaios Michelini e Gutiérrez Ruiz apareceram
cravados de balas em 2–5–76. O cadáver do general
Torres, ex-presidente da Bolívia, apareceu em 2–6–76,
depois que o ministro do Interior e ex-chefe de Polícia de
Isabel Martínez, general Harguindeguy, o acusou de “simular”
seu seqüestro.
8) Tenente-Coronel Hugo Hildebrando Pascarelli, segundo
La Razón de 12–6–76. Chefe do Grupo
I de Artilharia de Ciudadela, Pascarelli é o suposto responsável
por 33 fuzilamentos entre 5 de janeiro e 3 de fevereiro de 1977.
9) Unión de Bancos Suizos,
dado correspondente a junho de 1976. Depois a situação
piorou ainda mais.
10) Jornal Clarín.
11) Entre os dirigentes nacionais seqüestrados incluem-se
Mário Aguirre da ATE, Jorge di Pasquele do Sindicato dos
Trabalhadores nas Indústrias Farmacêuticas, Oscar Smith
do Luz y Fuerza. Os seqüestros e
assassinatos de delegados foram particularmente graves entre os
trabalhadores nas indústrias metalúrgica e naval.
12) Prensa Libre, 16–12–76.
Darcy Ribeiro
O perfil do ex-ministro da Educação,
o indianista,
o antropólogo, o exilado, o romancista,
o futurista Darcy Ribeiro, um brasileiro imortal.
Por Maria da Paz Rodrigues • Versus 11•
junho de 1977
O antropólogo está com pele de jaguar,
vestido de romancista. Escreveu Maíra no exílio, nos
dias cinzentos de Lima, longe do calçadão de Copacabana.
Sem poder olhar a Avenida Atlântica, mulher bonita, cachorro,
bicha. Voltou agora, há pouco mais de um ano. E ficou um
tempo com uma alegria enorme, só de andar pelas ruas, de
zanzar por aí.
Darcy Ribeiro não pretende ser coerente, gosta de suas contradições.
Acha que não está construído, sente que não
tem idade. Ainda pode mudar de idéias ou vestir uma nova
pele. Já teve muitas. Uma como jovem revolucionário
estudantil, lá pelos anos 40. Outra de cientista, de etnólogo
pelas selvas brasileiras. Foi Ministro da Educação,
Chefe da Casa Civil do governo Jango. Depois cobriu-se com o couro
de exilado político, de sapateiro remendão de universidades
no exterior. Assustou-se em 1974: câncer. Tirou um pulmão.
Mas o tiro saiu sem pontaria. As pernas seguiam caminhando.
– Alô, sou eu. (...) – Vou bem, e você?
(...) – Lauro? Pompeu querido, como vai? (...) – Você
está bom? Onde está? (...) – Aqui no Rio? (...)
– Precisamos nos ver. (...) – Vai ficar vários
dias aqui? (...) – Ah, dá uma chegadinha se puder.
Não vou sair, estou meio gripadão. (...) – Se
estiver com medo de gripe não vem não. (...) –
É entre a Figueiredo Magalhães e a Santa Clara.
– Como é mesmo? Eu estava dizendo besteira, que era
brilhante mas não inteligente. Sou inteligentíssimo,
pensando bem.
– Você tem certeza?
– Sei que não sou inteligente. Tenho a certeza dolorosa.
Sinto freqüentemente um limite, uma parede. Chego aqui e não
vou adiante. E para furar esse muro é sempre um trabalho
brutal. Mas quando me comparo aos outros me acho fantástico.
Comparativamente. Absolutamente, sou burro. Burro. Não, limitado.
Sei do que não sei em quantidade espantosa. E não
estou certo de nada do que sei. Brilhante, sou. Capaz de me enganar,
de enrolar as pessoas.
– E quando escreve?
– Tudo o que faço é o melhor possível
naquele momento. Mas depois de 15 dias já desconfio. Por
isso tomo o cuidado de não reler meus livros. Só quando
há outra edição e o editor obriga. Aí
começo a me achar burro, tudo é insuficiente e ruim.
Genial é só o que acabei de fazer.
– O que você faz melhor?
– Namorar.
– É?
– Não. Não sou muito bom namorador, você
não acha? Esse meu jeito sério. Engano, brinco comigo.
Não acredito nesse negócio de se apaixonar, de ficar
gostando dos outros sem limite. Para mim é uma enfermidade
e exige medidas preventivas. O amor dá febre, suores noturnos,
ataque cardíaco.
– Você já teve isso?
– Poucas vezes, mas quando começa eu fujo. Olha, deixa
de bobagem, você não queria conversar assuntos sérios?
Ele sempre agiu com a ousadia dos inscientes. Acreditava-se imortal.
Para atravessar a avenida, andar de avião. O câncer
o colocou em presença da morte. Pela primeira vez a sentiu
provável, andou vários meses de mãos dadas
com ela. Mas avisou: não haveria segunda operação.
Não queria ser um pedacinho de gente, pulsando desconjuntado,
graças a um milagre médico.
Com a idade passou a perceber o tempo de outra forma. Detesta fazer
a barba, enfrentar o espelho de manhã. É a hora de
se encarar. Não pode ficar indiferente, há uma mudança.
Isso também aconteceu outro dia quando olhou uma fotografia
antiga, tomando posse como Ministro da Educação. Era
um menino bonito, ficou com saudades dele. O contraste da cara de
1961 para cá estava muito evidente.
Ainda assim faz força para acreditar que o importante de
sua vida virá. Está tudo no futuro, não no
passado. Inventa um ritmo, canta, debocha dele mesmo: “Esse
grande amor, aquele livro formidável, o romance total, a
ação pública salvadora.” Fica sério.
“A velhice é terrível, a idéia de sermos
definitivos. Em certa idade é preciso tomar a iniciativa.
Decidir. Pronto, acabou.”
– Não gosto nada quando na França me chamam
de ancien Ministre. Ancien a p.q.p. Sempre evito o ex. Mas agora
começo a desconfiar. Cinqüenta e quatro anos, pode ser
que não. Pô... sou só a testemunha do que fiz?
Isso é uma merda. O tremendo e o belo da vida é ela
ser um leque. Aos dez anos está abertíssimo. Você
poderia ser freira, p..., sábia para ganhar prêmio
Nobel, brilhante escritora, grande jornalista, dona de casa, imbecil,
lésbica. Aos 20 já teria que excluir algumas hipóteses,
aos 30 mais ainda, aos 50, aos 54 está muito fechado. Já
não posso ir à lua nem ser Papa. É uma perda.
O tempo passa e as possibilidades se estreitam.
Na casa da família em Montes Claros entravam apenas dois
jornais: Ave Maria e Minas Gerais, o órgão
oficial onde escreviam os velhos senhores. Descobriu a notícia
com 16 anos folheando o Ave Maria. “Havia uma guerra
espanhola com uns comunistas interessados em comer freiras.”
Poxa, que doidura é essa? Não dava para entender.
Mas o tio voltou do Rio trazendo uma revista Argentina: Pan.
Devorou o número, releu tantas vezes que ficou todo amarfanhado.
Aprendeu um montão de coisas e o motivo verdadeiro da Guerra
Civil Espanhola.
Era o menino mais chato da cidade. Falador, adultinho. Discutia
com os tios, lia muito. Aquelas coleções de romances
em treze volumes de literatura espírita, ensaios. Por safadeza
olhava livros de anatomia. Não dançava, quase não
tinha vida social.
Em 1940 leu o primeiro livro importante. Conhecia um livreiro chamado
Paulo Tanderman que, a pedido de Chico Campos, Ministro da Justiça,
importava obras marxistas da Argentina. Recebeu dois exemplares
de uma publicação da Editorial Claridad: A Origem
da Família, da Propriedade Privada e do Estado, de Engels.
Darcy ficou entusiasmado, decorou muitas passagens. Trinta anos
mais tarde, publicaria O Processo Civilizatório
numa tentativa de reescrever esse livro. Depois veio o Cavaleiro
da Esperança, de Jorge Amado e muitos outros. O ambiente
abriu-se um pouco com a entrada do Brasil na guerra, a informação
começou a circular.
Foi para a universidade procurando o mesmo prestígio do tio
médico. Entrou com 18 anos para mexer em cadáveres,
formol, doentes. Nessa época começou a escrever um
diário. Vivia angustiado com a obsessão da morte e
do suicídio. Preparou um romance de 300 páginas, A
Lapa Grande. A história de um cego que entra numa gruta,
participa de uma série de acontecimentos até recuperar
a vista. Aí vê a cara da mãe: feia, horrível.
O original chegou a ser mandado para um concurso da José
Olímpio. Não ganhou. “Felizmente. Seria um vexame.
O suficiente para começar mal a carreira.”
O barulho da campainha é suave. Pompeu entra. Abraços
de velhos amigos, de quem não se encontra há muito.
Darcy senta novamente na poltrona de couro bege, o útero,
como costuma dizer. Descalço, moreno de praia. Blue jeans
e camisa xadrez aberta no peito. Riem sem parar. E contam histórias
esquecidas da Universidade de Brasília, do trabalho que fizeram
juntos: “Formula aí, Pompeu. Estamos gravando.”
– Ih rapaz, não esqueço aquele almoço.
Nunca tinha falado contigo, você estava num canto, brilhante.
Quase no fim um amigo virou para mim e perguntou: Quem é
aquele gênio com cara de Paulo Mendes Campos? Era Darcy. E
parece que andou conseguindo certas facilidades dizendo que era
poeta.
Ele tomava bomba em Medicina todo o ano e ficava frustrado. Decidiu
que convinha mais estudar Filosofia. Fez um ano e meio encantado
com as babaquices dos gênios mineiros de 1942. Kantistas,
tomistas. Mas apareceu um professor americano de Sociologia, Donald
Pierson, com uma descoberta nova: a Sociologia Moderna.
O professor se encantou com Darcy. Levou-o para São Paulo
e propôs que começasse o curso outra vez, do primeiro
ano. Solução sensata, aceitou. E ingressou no am
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