| O Versus nosso de
cada dia nos dai hoje
Versus renasce em antologia para revelar como se fazia
jornalismo de resistência na década de 70, com um olhar
alternativo sobre a cultura,
a política e a história do país e do continente.
Por Omar L. de Barros Filho
O projeto que deu origem a esta antologia começou a nascer
no final dos anos 90, quando conheci um assinante de Versus
na fronteira do Brasil com a Bolívia, às margens do
rio Guaporé, em Rondônia, onde vivi em uma fazenda
isolada do mundo das notícias por muitos anos. Ele fazia
parte de um grupo de consultores do Banco Mundial que percorria
a área em busca de padrões de sustentabilidade para
as atividades econômicas da região.
Ao me apresentar como jornalista e comentar que tinha sido editor
de Versus nos anos 70, ele disse: “Li e colecionei
Versus por muito tempo. Foi, na época, o jornal
que mais ajudou em minha formação política
e me fez ver a América Latina de forma diferente.”
Depois que nos despedimos, pensei se seria possível sintetizar
em uma nova publicação o resultado da atividade frenética
e da inquietação cultural que sempre marcaram a redação
de Versus, em São Paulo. Versus foi uma
experiência única de jornalismo alternativo, que surgiu
da mente inventiva de Marcos Faerman, o Marcão, para quem
teve a felicidade de conhecê-lo e aprender com ele, um dos
mais brilhantes repórteres e editores brasileiros de todos
os tempos.
Faerman costumava dizer que Versus nascera sob o signo
da tristeza provocada pela morte do jornalista Vladimir Herzog nos
porões da ditadura, fato que horrorizou o país em
outubro de 1975. O drama de Herzog na prisão coincidiu com
a impressão da primeira edição do jornal, em
torno de 12 mil exemplares, formato tablóide, 52 páginas.
Distribuído precariamente de mão em mão, em
bancas de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e outras
poucas cidades, e financiado, em parte, por um salário anual
extra de Faerman, Versus calou fundo na sensibilidade dos
leitores, e iria mais longe do que o esperado.
Aos poucos, o grupo inicial de colaboradores ampliou-se, com a adesão
voluntária de jornalistas, escritores, poetas, professores,
cineastas, sociólogos, ilustradores, chargistas, além
dos próprios leitores, que enviavam suas colaborações
do Brasil e do exterior. Na redação, costumávamos
dizer que o carteiro era nosso melhor repórter, porque trazia
as matérias de que necessitávamos para fechar cada
edição, e que completavam a pauta dia-a-dia. Foi um
mutante que por um bom tempo praticou severa autocensura para sobreviver.
Sempre carente de recursos, ainda assim resistiu durante quatro
anos às pressões e limites estreitos estabelecidos
pelo regime militar.
Versus foi também porto seguro para “desgarrados”
latino-americanos e brasileiros, refugiados políticos, e
outros discriminados pela sorte. Hoje, pode-se dizer, sem medo de
exagerar, que a redação era uma espécie de
“Cruz Vermelha”. Recebia não só fugitivos
estrangeiros em busca de asilo, trabalho e documentos, como dava
guarida a qualquer brasileiro com talento atrás de um espaço
em uma folha de jornal para registrar suas idéias, crenças
ou experiências. Muitos iniciaram em Versus o ofício
de escrever, reportar ou desenhar. Era uma casa caótica e
de poucas regras, mas sempre aberta, onde se respirava o jornalismo
em sua verdadeira essência quase artesanal.
Logo, o projeto de construção de Versus não
estava imune às influências externas. À medida
que a distribuição nacional se consolidou, a vendagem
em bancas cresceu, e a tiragem se multiplicou até atingir
30 mil exemplares, a influência cultural e política
de Versus passou a ser muito maior do que imaginávamos ou
pretendíamos no início. Nosso programa, até
então, resumia-se a uma expressão-síntese sobre
a qual trabalhávamos arduamente: “a cultura como forma
de ação”.
Entretanto, turbulências no cenário internacional,
com os Estados Unidos passando a retirar seu apoio às ditaduras,
e no plano nacional, com a entrada em cena do movimento estudantil,
provocaram mudanças em nossa linha editorial. Também
as diferentes posições políticas existentes
na redação passaram a se manifestar, algo natural
em um jornal alternativo, em que muitos editores e colaboradores
militavam em organizações clandestinas, na oposição
institucional, ou mesmo simpatizavam com tendências estudantis
nas universidades. A erupção do movimento operário
no ABC paulista, as greves dos metalúrgicos e, depois, nos
sindicatos de classe média, alteraram em definitivo o rumo
de Versus.
O leitor desta obra perceberá as transformações
decorrentes da politização da redação,
que, passo a passo, abandonou o discurso original – literário,
poético e épico da história da América
Latina – em troca de uma visão mais crua, sociológica
e imediata de nossa realidade, não só a brasileira
como a do continente. A metáfora literária cedeu lugar
à política, e isso se expressava não só
nas reportagens, ensaios e entrevistas, mas também no próprio
grafismo de Versus, nas charges, nas ilustrações,
enfim, na organização editorial em seu conjunto.
Amizades foram perdidas e alianças se romperam no processo.
O tempo, como sempre, tratou dos ressentimentos. Não podia
ser diferente, mais de trinta anos depois. Independentemente das
divergências do passado, que hoje soam pueris, o fim do caminho
para Versus foi, em última análise, o mesmo
de toda a imprensa alternativa. Os “nanicos”, como éramos
chamados pejorativamente, desapareceram um a um no compasso da reconquista
democrática, da liberdade de expressão, das crises
econômicas, e do curso da monopolização da informação
pelos grandes e tradicionais meios. Éramos mais de 100 jornais,
li em alguma estatística, mas fazíamos o ruído
de mil.
Em algum ponto do caminho, no entanto, deixamos de ser necessários.
Quanto a mim, constatei que, de todos os editores e assistentes
que passaram por Versus em seus quatro anos de história,
fui o que mais tempo vivenciou a aventura de fazê-lo, de novembro
de 1975 a outubro de 1979, desde que deixei Porto Alegre e mudei
para São Paulo com o objetivo de doar meu tempo e existência
ao jornal. Em dias mais recentes, o fato de deter a memória
daquele período fez com que pesquisadores, professores e
estudantes passassem a me procurar na web para responder sobre questões
envolvendo os caminhos de Versus, o que reforçou
a idéia de que era chegada a hora de editar esta antologia.
Enquanto Versus viveu, imprimimos 33 edições
normais, três extras de quadrinhos, e outras que fugiam ao
calendário, mas eram relacionadas com mobilizações
políticas, como as edições especiais voltadas
aos aniversários do golpe do Chile e de 1º de maio,
no ABC paulista. Além delas, editamos, com êxito, outros
nove livros e cadernos. Versus – Páginas da utopia
guarda parte de nossa história, assim como a do jornalismo
que praticamos. Outras duas antologias virão a seguir. |